Manchester à beira-mar (2016)

Por André Dick

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Poucos filmes conseguem transformar uma narrativa simples em algo mais elaborado. Lançado em 2011, Margaret, de Kenneth Lonergan, tinha essa qualidade. A nova obra do diretor, Manchester à beira-mar, também a possui: Lonergan é um cineasta para o qual importam pequenos gestos, algumas reações repentinas e nem sempre explicadas e possui a grande qualidade de extrair atuações interessantes de seu elenco. Em Margaret, tínhamos grandes atuações de Anna Paquin e Mark Ruffalo, além de trazer Matt Damon e Allison Janney, numa história que mesclava a necessidade de responder por um momento importante para a vida de várias pessoas, assim como o despontar de uma jovem para a vida adulta de maneira irremediável.
Já em Manchester, a narrativa se concentra na trajetória de Lee Chandler (Casey Affleck), que trabalha, muito a contragosto, como zelador em Quincy, Massachusetts. Lidando com certa antipatia com clientes, ele, depois do trabalho, costuma ir ao bar e esquecer das questões que o envolvem. Num determinado dia, ele recebe a notícia, por meio de George (CJ Wilson), de que seu irmão Joe (Kyle Chandler), dono de um navio pesqueiro em Manchester, na costa de Massachusetts, sofreu um ataque cardíaco. O reconhecimento do corpo é o início para se reconhecer o que Lee enfrentou na vida pessoal para que chegasse até ali. Isso o faz voltar para a cidade de onde veio, a fim de encontrar o filho de Joe, Patrick (Lucas Hedges). Nesse lugar, por meio de lembranças, ficamos sabendo que Lee constituía uma família com Randi (Michelle Williams).

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Lonergan utiliza a estrutura de um filme de Atom Egoyan, com inúmeros flashbacks, para construir um panorama ao redor da existência de Lee e sua relação problemática com a família. Affleck entrega uma atuação competente, embora não à altura de todas as premiações, e Michelle é uma coadjuvante de luxo. Por sua vez, Hedges faz o adolescente com problemas de maneira interessante, embora se sinta que sua relação com duas meninas, Sandy (Anna Baryshnikov), que toca com ele numa banda indie, e Silvie McGann (Kara Hayward, de Moonrise Kingdom), soa em demasia um complemento forçado à narrativa, em que Lee é o destaque, assim como sua relação com a mãe, Elise (Gretchen Mol), que não participa de seu dia a dia e teve problemas com álcool. A ligação com o sobrinho é essencial não tanto para descobrirmos as motivações de Lee, mas para Lonergan trabalhar com o interesse pelo tema da adolescência já exibido em Margaret na relação entre os personagens de Paquin e Kieran Culkin.
Lee, especificamente, é o personagem que todo ator pede: difícil, complexo e com questões a resolver. Casey Affleck funciona mais quando ele se mostra indefinido entre ser ou não sociável, mais ao início, revelando um ar entediado, não tanto quanto está disponível para o discurso de relação familiar que Lonergan pretende expor, através, por exemplo, de um objeto como o sofá, no entanto é difícil imaginar que Matt Damon, um dos produtores e cogitado antes para o papel principal, seria adequado, mesmo talentoso (já que fez esse papel algumas vezes em sua carreira).

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Ainda assim, Affleck tem certas nuances que não funcionam num drama tão trágico (ele se mostrava melhor em O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford), nem exatamente há uma química com Hedges, seu sobrinho, a ponto de tornar mais complexa a relação.
Tudo, porém, é mostrado com beleza intensa por Lonergan, em cenários nos quais a frieza é contrária ao que cada um sente, embora não venha, muitas vezes, à superfície. Como nos filmes de Egoyan, o cenário frio é um contraste em relação ao que os personagens escondem – e uma situação interessante é quando Patrick abre a geladeira e tem uma crise emocional ao lembrar do pai. Em outro momento, eles pensam se devem deixar o corpo guardado até que possam enterrá-lo na primavera, quando o gelo já teria derretido. Falta ao contexto, a partir daí, uma emoção maior, sendo tudo calculado como se resultasse das medidas de um artesão, o que Lonergan, por sua tentativa recorrente de estabilizar os personagens por meio das lembranças. Pode-se remeter, nesse sentido, principalmente à sequência em que Lee é avisado de um desejo do irmão e cada vez que ele tenta se desvencilhar é levado para todos os registros que podem explicar seu passado, mesmo sem poder defini-lo, envolvendo Patrick (interpretado quando criança por Ben O’Brien). Esta é a sequência mais baseada na filmografia de Egoyan.

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Depois de estrear no Festival de Sundance e obter grandes críticas, e agora várias indicações ao Oscar, Manchester à beira-mar se sente muitas vezes complexo como Margaret, mas, depois da sessão, talvez ele não seja tão múltiplo, tão discreto quanto gostaria de ser. Isso se manifesta não apenas pela atuação de Affeck e sim por alguns personagens que não se desenvolvem, ficando num plano a que estamos acostumados em outras narrativas. A presença de Chandler, mesmo curta, é sensível – e ele é um ator capaz de surpreender. É seu personagem que, de certo modo, enlaça passado, presente e futuro, e Lonergan indica que algumas vezes o que se torna um exemplo de pedido de confiança não necessariamente obriga o outro a atendê-la, justamente porque a busca particular pela explicação de tudo continua, agraciada pela fotografia tocante de Jody Lee Lipes. É um filme, antes de tudo, sobre como a humanidade é ligada por gerações diferentes, por momentos abrangentes que podem definir essa ligação e como se isso toca cada um.

Manchester by the sea, EUA, 2016 Diretor: Kenneth Lonergan Elenco: Casey Affleck, Lucas Hedges, Kyle Chandler, Michelle Williams, Gretchen Mol, Tate Donovan, Matthew Broderick Roteiro: Kenneth Lonergan Fotografia: Jody Lee Lipes Trilha Sonora: Lesley Barber Produção: Chris Moore, Kevin J. Walsh, Kimberly Steward, Lauren Beck, Matt Damon Duração: 135 min. Distribuidora: Sony Estúdio: B Story / Big Indie Pictures / CMP / K Period Media / Pearl Street Films / The Affleck/Middleton Project

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Alexander Payne e seus descendentes

Por André Dick

Em As confissões de Schmidt, de Alexandre Payne (1961), um dos cineastas contemporâneos mais interessantes (o texto segue com spoilers), Jack Nicholson tem uma das melhores atuações de toda a sua carreira, o que não é pouco. Ele interpreta Warren Schmidt, que acaba de ficar viúvo de Helen (June Squibb) e de se aposentar, mas deseja retomar a vida. Para isso, ele quer fazer uma viagem pelo interior dos Estados Unidos para chegar, em Denver, ao casamento da filha, Jeannie (Hope Davies), o qual quer impedir, pois não gosta do genro, Randall Hertzel (Dermot Mulroney), que, logo à primeira vista, lhe pede dinheiro para negócios pessoais. Além disso, pretende ajudar um menino, Ndugu, da África do Sul por meio de uma agência de caridade. São objetivos de quem, como ele mesmo diz, gostaria de ser visto como alguém importante, generoso e atencioso, e aparecer nas capas de revista, porém está contido dentro de suas amarras.
O filme traz a característica básica dos filmes de Alexander Payne: o personagem central que deseja se encontrar. É aqui que Nicholson consegue ser ainda mais brilhante. Fazendo o Schmidt recém-aposentado e viúvo, que descobre uma traição da mulher com o melhor amigo (a cena em que esvazia o armário dela mostra-se antológica), ele se destaca mais do que todo o elenco, só tendo como equivalente Kathy Bates, como Roberta, a a mãe de Randall. A viagem dele pelo interior dos Estados Unidos é subliminar, mostrando por que gostaria de ser lembrado, numa tentativa de voltar à infância e à juventude, simbolizando a aventura que constitui a formação dos Estados Unidos (a ida ao museu faz parte disso). Trata-se, portanto, de um sujeito que pretende progredir, mas como progredir se a velhice chegou e se os compromissos com a família precisam ser mantidos, caso contrário se cai em solidão absoluta? Nesse sentido, ele é o oposto do produtor de música que Nicholson interpretou no ano seguinte, em Alguém tem que ceder – infelizmente outra de suas últimas atuações até agora (o que é de se lamentar, pois é de 2003; a de Como você sabe não está à sua altura).
A relação com a filha, problemática, é o núcleo de conflito no filme, que se revela cada vez mais interessante a cada passo da trama (entrecortada por pequenos incidentes, embora todos de relevo), escrita por Payne com seu habitual parceiro Jim Taylor. Quando ele precisa se deparar com toda a família do genro, e lembrar da memória da esposa, que acabou de perder, surge um dos momentos mais solitários que o cinema nos mostrou, muito por causa da atuação de Nicholson – e Payne procura no realismo das situações a sua poesia, na sua tentativa de compreender o que o cerca, em que contexto precisa se inserir para que não se sinta abandonado, ou mais próximo das estrelas. Trata-se de um humor patético, característica que ele guarda em comum com Wes Anderson (de Os excêntricos Tenembaums, por exemplo). Esta cena cria um enlace com aquela em que Schmidt está num camping e acaba beijando uma mulher casada, depois de quase torná-la sua psicóloga, mostrando a sua mescla entre infantilidade e insegurança adulta. Ali, já sabemos que as confissões mais profundas de Schmidt se atritam com a realidade. E para Payne, como é comum em sua filmografia, enfrentar o dia a dia rotineiro, como o faz Warren, tem a mesma importância dos descobridores da América – mas não há condescendência nenhuma em relação às suas atitudes.

Warren Schmidt remete ao professor de Eleição, Jim McAllister, interpretado por Matthew Broderick, conhecido pelo Ferris Bueller de Curtindo a vida adoidado, incumbido de organizar uma eleição para diretoria de alunos de seu colégio. É o motivo para ele se deparar com a sua aluna mais ambiciosa, Tracy Flick (Reese Witherspoon, em seu melhor papel até hoje), que pretende ganhar a eleição a qualquer custo. Ele quer colocar outros concorrentes para atrapalhá-la, entretanto só encontra um jogador do time de futebol e um ingênuo, Paul Metzler (Chris Klein, de American Pie, excelente).
Na verdade, Payne, como em seus outros filmes, fala de um indivíduo que gostaria de ser visto pelas conquistas pessoais – que não chamam a atenção – e sair da mesmice. O professor quer vingar através disso o amigo, também professor, que se envolveu com essa aluna e acabou denunciado. Tenta ter filhos com a mulher, Dianne (Molly Hagan), mas está interessado ainda mais em ter uma amante, Linda (Delaney Driscoll) – porém, tudo é visto, por Payne, sem o olhar moralista, em tom de humor e corrossão típicos de sua filmografia. Os personagens nunca agem como se esperava deles, e a lucidez disso é a melhor desculpa para ver um dos bons filmes de colégio já feitos, um dos poucos com real inteligência. Há uma crítica ao comportamento de cada personagem, como ao de uma menina, Lisa (Frankie Igrassia), que, para provocar Tammy Metzler (Jessica Campbell), irmã do outro candidato, o jogador, passa a andar com ele para magoá-la. A irmã resolve se candidatar por vingança ao irmão e à ex-amiga, apenas para tumultuar o ambiente – e Payne é mestre em tumultuar ambientes comuns, porém sempre por meio de uma dramaticidade travada, sem exageros e sem desviar o foco dos personagens para elementos cinematográficos que possam se destacar (seus filmes têm uma direção de arte e uma fotografia sempre naturais, apesar de cuidadosas, por exemplo). Eleição acaba sendo um retrato bastante interessante de certo comportamento político: a da menina que, para não ver a própria mediocridade, passa a ver todos contra ela e seus objetivos – Tracy Flick é o retrato mais bem acabado dessa questão. De qualquer modo, o que mais pode ser acentuado é sua questão entre o que é público e privado – e como os desejos pessoais podem contrastar com o que é considerado justo e dentro das normas.

O filme seguinte sobre os anti-heróis de Payne, Sideways começa como se fosse uma comédia fútil, com piadas e gracejos, mas logo se torna mais densa e séria, com a descoberta de que o personagem principal, um escritor, Miles Raymond (Paul Giamatti), abandonado pela mulher e que sai em viagem com o amigo Jack Lopate (Thomas Haden Church), que está para se casar e é mulherengo, é na verdade um alcoólatra. Em sua obsessão por experimentar vinhos – a viagem é feita por lugares com vinícolas do interior dos Estados Unidos, em Santa Ynez Valley –, Payne desenha o painel de um escritor que não consegue publicar o que considera sua obra-prima, nos moldes joycianos, e tenta preencher sua vida com um novo amor, todavia é sobretudo o retrato de um homem de meia-idade que tenta se encontrar na vida, como acontece em seus roteiros e filmes (como As confissões de Schmidt e Os descendentes).
Giamatti tem uma atuação bastante eficiente, mostrando toda sua desconfiança em relação a uma nova vida e seu desespero de ser aceito, apoiado por um elenco em grande estilo. E Payne novamente mostra o interior norte-americano, o que já acontecia em As confissões de Schmidt, com seus restaurantes de beira de estrada e o isolamento oferecido pela frustração, uma espécie de road movie quase estático e sem aventura. O seu amigo, especialmente, o coloca em várias situações constrangedoras, e representa uma espécie de tentativa de evidenciar a masculinização forçada.
Mas há a sensibilidade insegura de Miles, revelada pela sequência em que ele e seu amigo vão para casa de duas mulheres – Miles se interessa por uma garçonete, Maya Randall, feita por Virginia Madsen, enquanto o amigo fica com Stephanie, a talentosa Sandra Oh. Trata-se de uma pausa romântica muito bem feita, neste sentido, depois com a volta ao isolamento do hotel e, finalmente, um pouco da vivência do bucólico, pelo qual Payne está interessado sobretudo para mostrar o que pode esconder de mais real na estrutura psicológica dos seus personagens.

Estabelecendo relação direta com Sideways, em Os descendentes, Payne está preocupado em tirar de George Clooney a melhor atuação de sua carreira e por isso o filme tem um aspecto trágico familiar, mostrando emoções e constrangimentos dos personagens, característica do cineasta. Ele não gosta desse personagem como gostava do escritor problemático de Sideways – que gostaria de ver sua carreira artística reconhecida –, mesmo que sua assinatura esteja no estilo e na trama, com sua desenvoltura para um roteiro que poderia existir em outros filmes, sendo melhor trabalhado agora. Clooney faz Matt King, um pai de família que mora no Havaí, com duas filhas rebeldes, Alexandra (Shailene Woodley, excepcional) e Scottie (Amara Miller), e cuja mulher, Elizabeth (Patricia Hastie), está na UTI. Para acentuar seu drama pessoal, ela descobre que ela tem um amante – um vendedor de imóveis do lugar (Matthew Lillard), também casado, com Julie (Judy Greer, atriz inexpressiva, que aqui não atrapalha).
O filme basicamente mostra essa busca dele pelo amante da esposa, em meio à venda de um grande terreno da sua família, pretendido sobretudo por seu primo (Beau Bridges), mas é apenas um motivo para mostrar desencontros entre personagens. E o momento em que ele o encontra é o ponto alto desta tensão dispendida ao longo de todo o tempo e do que ele precisa suportar para criar as duas filhas problemáticas, acompanhadas por um rapaz, Sid (Nick Krause), meio namorado de Alexandra, em cuja solidão Matt se apoia para entender a sua própria.
O cenário das praias do Havaí não atenuam este sentimento de perda, e Payne quer que vejamos os personagens como complementares a esta paisagem – por isso, sabemos que eles não podem se desviar do seu passado, que volta a cada instante (seja por meio do coma da mulher, seja por meio do Mal de Alzheimer da sogra), como acontece com Schmidt, McAllister e Milles Raymond – dos outros filmes do cineasta –, exatamente num momento decisivo para a vida de cada um, que concentra todos os momentos, passados ou futuros.
O filme procura, em alguns momentos, representar a ética familiar, e Payne desenvolve isso com talento, dispondo os personagens da maneira mais sóbria, como se fosse um documentário familiar, adquirindo ainda mais intensidade do que aquela mostrada em As confissões de Schmidt e Sideways. As conversas do marido com a mulher em coma permitem a Clooney desempenhar cenas com as quais não estava acostumado, pois em algum momento sempre caía no exagero. Aqui é diferente. Clooney se coloca como um pai de família comum, e acreditamos nisso, com seu ar cansado e corpo arqueado. O momento em que ele reúne os familiares e amigos da esposa para contar a verdade é antológico. Payne filma tudo com mais luz natural do que cinematográfica, o que dá um aspecto de verdade ao que acontece e leva o espectador a se interessar ainda mais pela trama e por esta descendência.

Election, EUA, 1999 Diretor: Alexander Payne Elenco: Matthew Broderick, Reese Witherspoon, Loren Nelson, Chris Klein Produção: Albert Berger, David Gale, Keith Samples, Ron Yerxa Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor Fotografia: James Glennon Trilha Sonora: Rolfe Kent Duração: 103 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures / Bona Fide Productions / MTV Films

Cotação 4 estrelas e meia

About Schmidt, EUA, 2002 Diretor: Alexander Payne Elenco: Jack Nicholson, Kathy Bates, Hope Davis, Dermot Mulroney, June Squibb, Howard Hesseman, Len Cariou, Harry Groener, Connie Ray, Mark Venhuizen, Cheryl Hamada, Phil Reeves Produção: Michael Besman, Harry Gittes Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor Fotografia: James Glennon Trilha Sonora: Rolfe Kent Duração: 125 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: New Line Cinema

Cotação 5 estrelas

Sideways, EUA, 2004 Diretor: Alexander Payne Elenco: Paul Giamatti, Thomas Haden Church, Virginia Madsen, Sandra Oh, Patrick Gallagher,Missy Doty, M.C. Gainey Produção: Michael London Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor Fotografia: Phedon Papamichael Trilha Sonora: Rolfe Kent Duração: 123 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Fox Searchlight Pictures / Michael London Productions / Sideways Productions Inc.

Cotação 4 estrelas e meia

The descendents, EUA, 2011 Diretor: Alexander Payne Elenco: George Clooney, Judy Greer, Shailene Woodley, Matthew Lillard, Beau Bridges, Robert Forster, Rob Huebel, Michael Ontkean, Mary Birdsong, Sonya Balmores, Amara Miller Produção: Jim Burke, Alexander Payne, Jim Taylor Roteiro: Alexander Payne, Nat Faxon, Jim Rash Fotografia: Phedon Papamichael Duração: 117 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Ad Hominem Enterprises

Cotação 5 estrelas

 

Diretores: John Hughes e o universo jovem

Por André Dick

Gatinhas e gatões (1984) é o primeiro filme do chamado Spielberg dos jovens, John Hughes (1950-2009), que revelou Molly Ringwald e Anthony Michael Hall – que faria com ele Mulher nota 1000 (talvez seu filme de adolescentes mais fraco, uma espécie de fantasia realizada, que trouxe, de qualquer modo, uma das primeiras atuações de Robert Downey Jr.). Ringwald é Samantha, que passa por um dia terrível, quando toda sua família, interessada no casamento da irmã, esquece de seu aniversário de 16 anos (como no título original). Para piorar, o rapaz de quem gosta não lhe dá a mínima, e um garoto intrometido (Hall, bom ator) quer conquistá-la. Algumas piadas grosseiras, outras previsíveis, mas o elenco e o roteiro sustentam o filme, mostrando, desde já, os elementos que interessavam a Hughes: mostrar o distanciamento entre pais e filhos, mas com uma tentativa de aproximação e o circuito de festas escolares onde a sexualidade é despertada (elementos que encontramos em Férias frustradas, com Chevy Chase, do qual Hughes foi roteirista). A conversa de Samantha com o pai é um dos acertos do filme, mostrando como Hughes tinha talento para fazer diálogos interessantes.
Em O clube dos cinco (1985), ele volta a tratar da adolescência, sem os exageros comuns e com um olhar mais voltado para o drama. Envolve o espectador pela sinceridade na narrativa e pelos bons atores jovens. Não é necessário ser adolescente para gostar da história de cinco jovens que ficam de castigo na escola durante um o sábado por terem se envolvido com algum problema disciplinar. Todos apresentam problemas, alguns graves, outros não – e a culpa, claro, é sempre dos pais, que não dão a suficiente atenção para que cresçam. Nem assim o filme é superficial.
O clube – ao final se explica o motivo do nome – tem o revoltado (Judd, em ótimo desempenho), a garota mimada (Ringwald), o esportista (Emilio), o inteligente (Hall) e a moça cheia de problemas (Ally). Eles vão se conhecendo aos poucos e se tornam amigos. O diretor da escola pinta o retrato dos pais, xingando os alunos a toda hora e por qualquer motivo. Claro que o também roteirista John Hughes insere muito rock na trilha sonora e torna algumas situações banais. Mas também há emoção, no conflito entre adultos e jovens. Crescer se torna um sinônimo de desaparecer, durante as conversas, tal como em Peter Pan (“Virar adulto é morrer”, diz o rebelde).
É politicamente incorreto em alguns momentos e é um tanto teatral, embora nunca fique chato ou entediante, graças aos atores, que discutem sobre drogas, sexo, amizade, família, amor. No final, decepciona um pouco, depois de um debate impecável entre os cinco (o clímax do filme é excelente por circular a câmera entre os personagens), mas ainda assim é muito interessante, mostrando o melhor trabalho de direção de Hughes. Três nomes do elenco (Ally Sheedy, Judd Nelson e Emilio Estevez) também apareceriam, no mesmo ano, no sensível O primeiro ano do resto de nossas vidas, de Joel Schumacher.
Já A garota de rosa shocking é uma das comédias mais surpreendentes da década de 1980, com roteiro e supervisão de John Hughes, porém direção de Howard Deutch. Molly Ringwald repete o papel que fazia em Gatinhas e gatões e O clube dos cinco: uma moça tímida, Andy Walsh, que quer descobrir o amor de sua vida. Aqui, ele é Blane, interpretado por Andrew McCarthy (um bom ator, que também participou de O primeiro ano do resto de nossas vidas), filho de ricaços. Ringwald tem um pai, Jack, que ainda lamenta o fato de sua mãe ter ido embora (numa bela interpretação do sempre eficiente Harry Dean Stanton) e um amigo, Duckie (Jon Cryer, o melhor do elenco), que pretende conquistá-la, mas gosta do ricaço, mesmo que seja perturbado por outro amigo dele, Steff (James Spader, compondo um vilão adolescente pouco comum).

Ela trabalha numa loja de discos no bairro de Chinatown e as referências aos anos 80 são claras, nas cenas do clube noturno, em cartazes dos Smiths e canções de Echo and the Bunnymmen e de New Order, elemento comum na filmografia de Hughes, cujos filmes apresentam canções, por exemplo, do Oingo Boingo (cujo líder era Danny Elfman, que hoje faz trilhas para, entre outros, Tim Burton), David Bowie, Billy Idol, Simple Minds, o que remete a um período em que cinema e indústria da música caminhavam lado a lado, na construção de um universo jovem (poderíamos lembrar de filmes como Footloose e Flashdance). Além disso, A garota de rosa shocking trata, com um tom romântico, de classes sociais entre jovens, assim como faz referências curiosas a pintores (Ringwald tem imagens de Mondrian em seu quarto; McCarthy de Edward Hopper). Também há uma amiga de Andy, Iona (a ótima Annie Potts). Sem em nenhum momento ser previsível, é talvez ainda um pouco mais interessante do que O clube dos cinco e, sobretudo, Gatinhas e gatões (mais uma brincadeira adolescente, embora divertida), apresentando relações conturbadas entre a garota e o pai. De todos os filmes de Hughes, aqui existe uma proximidade maior e busca de entendimento, ao contrário de Gatinhas e gatões e Curtindo a vida adoidado, em que os pais eram desligados da realidade, e O clube dos cinco, em que eram simplesmente ausentes. Essa  história de amantes de diferentes classes, apesar de às vezes ser maniqueísta, não cai no lugar-comum, o mais importante para que seja uma diversão inteligente.
John Hughes estava filmando, nesse ano, Curtindo a vida adoidado (1986), filme que consagrou Matthew Broderick como o jovem Ferris Bueller, que pretende faltar a mais um dia de aula fingindo estar doente, para sair com a namorada (Mia Sara) e o melhor amigo (Alan Ruck, excelente), numa Ferrari. Mais uma vez, como nos filmes anteriores, Hughes promove a tentativa de liberdade do jovem – sempre cerceado pelos pais – e a descoberta de um certo espírito inteligente no dia a dia (a visita de Ferris e seus amigos a um museu de Nova York mostra isso, embora seja preciso também ir a um jogo de beisebol e dançar “Twist and shout”, dos Beatles, em pleno centro da cidade). O diretor da escola (Jeffrey Jones), enquanto isso, quer desmascarar a farsa de Ferris, visto como um ídolo entre os mais jovens – e é interessante ver Broderick satirizar seu personagem mais famoso no corrosivo Eleição, de Alexander Payne. Os pais de Ferris são vistos como pessoas atrapalhadas, o que tem ligação com os demais filmes de Hughes, embora de forma ainda mais ingênua. E a irmã (Jennifer Grey) pretende também desmascará-lo, mas nesse meio tempo para na delegacia e conhece um rapaz que está preso (Charlie Sheen, em início de carreira, da mesma época de Platoon).
Se a classe média é visualizada de modo divertido em Gatinhas e gatões e classes misturadas se encontram em O clube dos cinco, além do conflito entre classes ser o pano de fundo de A garota de rosa shocking, Ferris tem uma vida estável, ao contrário de Andy e Samantha – e isso torna o filme como um complemento claro aos demais – e, de certo modo, junto com seus amigos, vive, em outra tonalidade, os conflitos dos personagens de O clube dos cinco. Uma temática de classes seria repetida em Alguém muito especial, novamente dirigido por Deutch e roteirizado por Hughes, ainda que já sem o mesmo vigor, embora interessante. De modo geral, os jovens de Hughes estão sempre por estabelecer uma mudança, mesmo que ela aconteça por meio de conversas informais ou seja a síntese de um dia diferente dos demais. E elas podem acontecer com o conhecimento e apoio ou não dos pais.
Nos anos 1980, Hughes ainda faria mais um filme com Molly Ringwald (Ela vai ter um bebê) e dois com John Candy (Antes só do que mal acompanhado, também com Steve Martin, e Quem vê cara não vê coração). Nos anos 1990, Hughes se dedicaria mais a filmes de crianças, como diretor, roteirista ou produtor – as séries Esqueceram de mim e Os 101 dálmatas, além de A malandrinha, Beethoven e Dennis, o pimentinha. Os jovens perderiam muito com isso, pois Hughes tinha um potencial para mostrá-los de uma maneira que mesmo os rótulos, muitas vezes, apresentavam qualidade, comprovada por esses filmes, em larga escala.

Sixteen candles, EUA, 1984 Diretor: John Hughes Elenco: Molly Ringwald, Paul Dooley, Blanche Baker, Edward Andrews, Anthony Michael Hall, Billie Bird, John Cusack Produção: Hilton A. Green Roteiro: John Hughes Fotografia: Bobby Byrne Trilha Sonora: Tom Bailey, Alannah Currie, Danny Elfman, Annie Golden, Joe Leeway, Ira Newborn Duração: 93 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Universal Pictures

Cotação 3 estrelas

Breakfast club, EUA, 1985 Diretor: John Hughes Elenco: Emilio Estevez, Molly Ringwald, Anthony Michael Hall, Ally Sheedy, Judd Nelson, Paul Gleason Produção: John Hughes Roteiro: John Hughes Trilha Sonora: Keith Forsey Duração: 97 minutos Distribuidora: Não definida Estúdio: Universal

Cotação 4 estrelas

Pretty in pink, EUA, 1986 Diretor: Howard Deutch Elenco: Molly Ringwald, Harry Dean Stanton, Jon Cryer, Andrew McCarthy, Annie Potts, James Spader Produção: Lauren Schuler Roteiro: John Hughes Fotografia: Tak Fujimoto Trilha Sonora: Michael Gore Duração: 93 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures

Cotação 4 estrelas

Ferri’s Bueller day off, EUA, 1986 Diretor: John Hughes Elenco: Matthew Broderick, Alan Ruck, Mia Sara, Charlie Sheen, Jennifer Grey, Jeffrey Jones Produção: John Hughes, Tom Jacobson Roteiro: John Hughes Fotografia: Tak Fujimoto Trilha Sonora: Arthur Baker, Ira Newborn, John Robie, Yello Duração: 103 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures

Cotação 3 estrelas e meia