Ela (2013)

Por André Dick

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O diretor Spike Jonze surgiu como uma das maiores revelações do cinema, à frente de Quero ser John Malkovich, uma experiência com John Cusack, e alguns anos depois fez o original Adaptação, com o melhor momento de Nicolas Cage. Desde então, Jonze só havia conseguido imprimir sua marca autoral no infantojuvenil com temática adulta Onde vivem os monstros. Alguns anos depois, ele finalmente volta ao cinema, com Ela, já sem a parceria no roteiro de Charlie Kaufman, trazendo novamente Joaquin Phoenix depois de sua atuação antológica em O mestre. Phoenix interpreta Theodore Twombly, nome próprio de alguma história infantil, que escreve cartões de amor numa empresa, BeautifulWrittenLetters.com, e se mantém solitário depois do casamento com Catherine (Rooney Mara). Até o dia em que ele decide adquirir um sistema operacional com inteligência artificial – cuja voz é de Scarlett Johansson (que substituiu Samantha Morton depois das filmagens).
Alguns têm falado que o filme apresenta elementos biográficos de Jonze e de sua relação com Sofia Coppola, e não por acaso temos Johansson, que havia feito Encontros e desencontros. Mas, se Sofia Coppola visualiza a solidão como uma espécie de artefato pop, Jonze a toma como uma espécie de síntese do ser humano. Em Ela, Theodore é um ser solitário, avesso aos relacionamentos, e Jonze não foge, neste ponto, a alguns clichês do gênero. Mesmo quando ele inicia o relacionamento de amizade com seu sistema operacional, chamado de Samantha, parece que há algo solto no filme e os personagens, de algum modo, não têm uma ligação estabelecida. Samantha organiza a agenda de Theodore e lhe repassa as informações de mensagens pessoais, tentando organizar não apenas a autoestima dele, como também sua vida profissional. No entanto, este é o preparo de uma narrativa com diversas nuances, que lidam com o afeto, a solidão e a companhia de maneira não tratada antes, e sob um ponto de vista moderno.

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O filme se passa num futuro não longínquo, mas as relações vistas nele já se mostram contemporâneas: a necessidade de, por meios tecnológicos, iniciar uma relação, e até que ponto ela será virtual ou verdadeira. Jonze discute essas questões num roteiro escrito com uma qualidade notável, em que o excelente Phoenix vai mostrando um crescente capaz de tornar detalhes mesmo banais em algo com sentimento. Jonze sempre soube também construir imagens que gravam na mente do espectador, com um sentido de lembrança e de conflitos inescapáveis. Mesmo os escritórios, as sacadas, os elevadores, corredores de estação de trem da cidade de Los Angeles no futuro (mas com várias cenas rodadas em Xangai) se mostram com uma sensação de que algo se perdeu, ou quando Theodore caminha pela rua mostrando as pessoas a Samantha. De elaboração a princípio simples, a direção de arte do filme mistura as suas cores com aquelas do figurino de Theodore, e há uma névoa em algumas imagens que lembram não apenas flashbacks, mas também uma atmosfera de sonho, o que empresta ainda mais ao filme uma sensação de conectar o espectador com lembranças dispersas. Se não soubéssemos que a história se passa no futuro, poderíamos imaginá-la num passado estilizado, pois tudo evoca algum tipo de lembrança. Ao mesmo tempo em que nos sentimos num local populoso, parece que estamos vagando, com o personagem, numa metrópole semiabandonada. A caracterização dos edifícios, as suas luzes e a imponência, também contrasta com a natureza (de árvores e do mar) em alguns trechos do filme – e deitar-se na areia da praia configura uma mudança da rotina.
Chama a atenção, também, como Ela, com seu bom humor em alguns momentos – sobretudo em seu início, quando mostra a relação de Theodore com seu videogame realista ou uma conversa sexual com uma mulher cuja voz é de Kristen Wiig –, consegue mesclar sentimentos variados em relação aos conflitos entre Theodore e Samantha. Se no início eles parecem corriqueiros, e às vezes não tão interessantes, Jonze faz com que o personagem central comece a materializar Samantha em uma figura humana, mesmo que sem rosto. Ela tem o comportamento de uma pessoa, com sentimentos em relação a Theodore e ao mundo, sente-se magoada e reage ao relacionamento, ou o possível abandono. Ela quer se transformar verdadeiramente num ser humano, interessada por livros e em valorizar as cartas escritas por Theodore – ditadas para um computador que vai desenhando a caligrafia das palavras. Ou seja, é notável como Jonze torna a atuação de Johansson naquela que é, talvez ironicamente (pois é uma atriz sempre acusada de chamar a atenção mais pela aparência do que pelo vigor dramático), a melhor de sua trajetória.

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A interação entre Phoenix (visível para o espectador) e ela (ausente de nossa visão) é memorável a partir de determinado momento, quando temos os mais variados sentimentos no que se refere a esta relação. Sobretudo porque Jonze nos lança na questão recorrente de que o ser humano vem se tornando mais frio e atento a programas de computador, e menos confortável em relações verdadeiras. O que ele nos lembra, mais do que tudo, é como a imaginação costuma ressoar mais forte mesmo quando parecemos nos entregar a uma distância com o contato humano. Mesmo os relacionamentos com Amy (Amy Adams, numa participação relativamente curta, mas eficiente), casada com Charles (Matt Letscher), com Paul (Chris Patt), colega que trabalha na empresa de Theodore, e a moça de um encontro às escuras (Olivia Wilde, deslocada como convém ao personagem), são um tanto evasivos, imersos num ambiente introspectivo. Nesse sentido, o sentimento se torna mais forte sobretudo pela capacidade que temos de, por meio da imaginação, delinear nossa concepção verdadeira de humanidade, e como ela acabará nos inserindo de verdade no mundo.
E o que Jonze faz é uma realização. Não era uma expectativa chegar a este filme de Jonze como um exemplo de cinema em que o escape se torna, na verdade, uma maneira de se encontrar de maneira tão elaborada, e cuja emoção vai repercutir na trilha da banda Arcade Fire (cujo clipe da canção “The Suburbs” foi feito por Jonze). Não que seus filmes anteriores, sobretudo Adaptação, não tivessem este elemento, mas não de maneira tão dosada quanto aqui. Há elementos que o afastam da metalinguagem de Charlie Kaufman, mas se aproximam do ato final de Sinédoque, Nova York, com a passagem do tempo e a mistura entre realidade e imaginação – como naquele instante extraordinário em que Theodore se insere numa paisagem invernal, com árvores, ou quando passeia com Samantha num dia de verão. Os cortes oferecidos por Jonze dessas imagens dialogam com nossa memória e aliam comoção e envolvimento. É interessante como, de algum modo, o diretor se expõe, com seu elenco, ao risco, no sentido de efetuar uma imagem ampla do que poderia ser apenas trazer a curiosidade do amor de um homem por um programa de computador. A ideia, que parece não oferecer a segurança para um filme, torna-se, aos poucos, cada vez mais plausível e, quando percebemos, estamos inseridos na história de amor talvez mais original já feita, não exatamente pela relação virtual, mas como ela é abordada de modo verdadeiro e sem artifícios. Quando Samantha diz a Theodore que ele a ajudou a se descobrir, não estamos mais lidando com um sentimento virtual, com uma fuga da realidade, desculpando-se pela solidão, e sim com o pleno entendimento do amor. É o que torna Ela um filme tão próximo, com seu universo aparentemente tão distante: ele nos lembra de nós mesmos.

Her, EUA, 2013 Direção: Spike Jonze Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Scarlett Johansson, Rooney Mara, Olivia Wilde, Chris Pratt, Matt Letscher, Portia Doubleday Roteiro: Spike Jonze Fotografia: Hoyte Van Hoytema Trilha Sonora: Owen Pallett Produção: Megan Ellison, Spike Jonze, Vincent Landay Duração: 120 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Annapurna Pictures

Cotação 5 estrelas