Pequena grande vida (2017)

Por André Dick

O filme mais recente de Alexander Payne foi lançado no Festival de Veneza, sendo, a partir de então, considerado de longe seu pior trabalho. O cineasta nunca chegou a ter entusiastas no meio da crítica, apesar dos Oscars de roteiro adaptado por Sideways e Os descendentes, mas sempre teve inegável respeito e um público admirador. Pequena grande vida se passa num futuro não muito distante, no qual Paul Safranek (Matt Damon), um terapeuta ocupacional, é casado com Audrey (Kristen Wiig), em Omaha. Trata-se de um típico casal classe média, como Payne mora em Eleição, com intenções de uma nova vida. Paul poderia ser também o escritor ébrio de Sideways, o viúvo de As confissões de Schmidt, o herdeiro de Os descendentes. São personagens que carregam uma certa melancolia, uma vontade de verem suas vidas de forma diferente, no entanto barrados em algum momento pela impossibilidade.

Os Safranek resolvem fazer parte de um projeto de miniaturização, em que os humanos são reduzidos a poucos centímetros, depois de reencontrarem um casal de amigos que seguiu o caminho, Dave Johnson (Jason Sudeikis) e Carol (Maribeth Monroe). Com a intenção de viverem uma vida melhor, eles se inscrevem no programa, criado pelo cientista norueguês Jørgen Asbjørnsen (Rolf Lassgård). O objetivo do programa é reduzir os gastos em alimentação para a humanidade e fugir do aquecimento global. No dia da entrevista, o casal está nervoso e precisa se separar antes de verem completa a transformação. E esta se mostra no mínimo excêntrica: os seres humanos parecem bolachas em micro-ondas, que, ao invés de crescerem, diminuem.
Chegando inicialmente a uma casa que lembra a de alguma fábula, em Leisureland, Paul se torna um atendente de telemarketing e vai morar num apartamento bem menor do que antevia seu sonho inicial, enquanto precisa lidar com seu vizinho Dušan (Christoph Waltz), que tem como empregada a ativista política vietnamita Ngoc Lan Tran (Hong Chau) e como melhor amigo Joris Konrad (Udo Kier). A questão é que ele percebe que esse microcosmo tem as mesmas particularidades (econômicas, sociais) da vida normal que vivia antes: Leisureland não passa de Omaha em estado minúsculo. Dušan é a própria representação disso. E Lan Tran mostra numa espécie de periferia que recorda a população esquecida pela ventilação em O vingador do futuro, de Paul Verhoeven, num condomínio interno com luzes futuristas que evoca algo de Terry Gilliam.

Com elementos de ficção científica notáveis e um design de produção de Stefania Cella que justifica seus quase 70 milhões de dólares de orçamento, Pequena grande vida é a comédia mais original do ano, mas uma comédia nos moldes de Payne: com um fundo existencial humano muito belo, elementos de transição dramáticos e aqui imprevisíveis. Quem souber o que vai acontecer na história depois de 20 minutos certamente tem spoilers dele.
Como apreciador da filmografia de Payne, já estava preparado para a decepção depois das considerações inciais sobre o projeto. Não é nenhuma surpresa, mas Pequena grande vida se enquadra naquela seção de filmes que passam a ser vistos de forma injusta mesmo por quem os aprecia. Diante de críticas de todos os tipos, o público em geral costuma querer fazer parte da mesma recepção e, enquanto procura por qualidades em obras indicadas ao Oscar mesmo quando elas não existem como apontado pela maioria ou existem por meio de um marketing prévio, procura apenas por falhas naquelas apontadas (literalmente) como menores. Pequena grande vida foi o selecionado como uma das decepções de 2017, mesmo porque os filmes de Payne sempre são cotados (e indicados) ao Oscar.

A fotografia de Phedon Papamichael sabe capturar o mundo em miniatura de maneira plasticamente bela, assim como Damon, Waltz e sobretudo Chau (revelada em Vício inerente) entregam ótimas atuações. Damon, que esteve em outro filme bastante subestimado no ano passado, Suburbicon, está especialmente no momento de sua carreira que melhor recorda a autenticidade de interpretação revelada em Gênio indomável, há mais de duas décadas, enquanto Waltz não se apresentava tão eficiente desde Django livre. Se alguns momentos do terceiro ato não chegam a ser desenvolvidos como poderia – e o humor se mescla com o drama por vezes de maneira estranha –, o conceito desenvolvido por Payne não vai no sentido óbvio: de que o dinheiro não definiria esse personagem de Paul, nem visualiza exatamente uma Era da Aquarius para a humanidade se sentir menos culpada.
De modo geral, existe aqui e na filmografia de Payne uma necessidade de validar o sentimento humano. No seu filme anterior a este, Nebraska, víamos um senhor de terceira idade tentando reaver um pouco de autoestima, mas, principalmente, de valores familiares até então dispersos pelo tempo. Conforme Payne, o que importa em Pequena grande vida é o tamanho das ações, independente do universo em que se esteja, e pensar no extraordinário não necessariamente modifica mais do que pensar no que está ao alcance e necessidade imediatos. Muito se comenta que o roteiro foca uma classe média nos Estados Unidos eternamente descontente; isso parece uma brincadeira diante da visualização do filme. Não se trata de um Querida, encolhi as crianças com fundo mais sério, e sim uma grande obra injustamente recepcionada até agora como comum. Uma obra profundamente humana por causa do estilo de Payne, sempre em movimento e sem fixar maneirismos.

Downsizing, EUA, 2017 Diretor: Alexander Payne Elenco: Matt Damon, Christoph Waltz, Hong Chau, Kristen Wiig, Udo Kier Roteiro: Alexander Payne e Jim Taylor Fotografia: Phedon Papamichael Trilha Sonora: Rolfe Kent Produção: Mark Johnson, Alexander Payne, Jim Taylor Duração: 135 min. Estúdio: Ad Hominem Enterprises Distribuidora: Paramount Pictures

Suburbicon – Bem-vindos ao paraíso (2017)

Por André Dick

George Clooney tem se mostrado alguém capaz de mesclar as carreiras de ator e diretor com uma competência poucas vezes vista. Depois de ser elogiado principalmente por Boa noite e boa sorte, que recebeu várias indicações ao Oscar, inclusive a melhor filme, sua carreira passou a ser mais visada: nesse caminho, Tudo pelo poder foi um êxito fora de série, com uma parceria notável entre Clooney e Ryan Gosling, e Caçadores de obras-primas, recebido com uma grande indiferença.
Para este novo projeto, depois da rejeição a seu último filme, Clooney obteve um roteiro dos irmãos Joel e Ethan Coen, que ele desenvolveu ainda mais com Grant Heslov. Passado em 1959, no bairro de Suburbicon, habitado por brancos, tudo treme com a chegada dos Mayer, uma família afro-americana. O início representa bem isso: o carteiro passeia pela rua entregando correspondências até que vê a senhora Mayer (Karimah Westbrook). Ele logo pergunta à vizinha se já viu quem chegou ao bairro e o que acontece a seguir é uma reunião no estilo Ku Klux Khan como que para definir o que fazer com a nova família. Isso é mais do que uma sátira: é uma visão ainda mais contundente sobre os subúrbios que Tim Burton já havia feito nos ótimos As aventuras de Pee-wee e Edward, mãos de tesoura, além do recente Grandes olhos.

Determinada noite, a família de Gardner Lodge (Matt Damon) é atacada por ladrões (Glenn Flesher e Alex Hassell), que amarram sua mulher, Rose (Julianne Moore), loira, que vive numa cadeira de rodas, assim como Margaret, a irmã gêmea, com cabelo escuro, e o filho Nicky (Noah Jupe). Este é o único que conversa com o filho dos Mayer, Andy (Tony Espinosa).
A invasão é estranha e deixa marcas na família, mas o que mais implode é a raiva dos moradores de Suburbicon contra os novos vizinhos. Margaret passa a agir de modo ainda mais estranho, tomando o lugar da irmã, inclusive ao pintar o cabelo da mesma cor que o dela. Há uma estranha relação entre Gardner e os bandidos que invadiram sua casa, que remete a Fargo e Arizona nunca mais, outras obras dos Coen. De maneira geral, pode-se entender por que esse roteiro dos Coen foi escrito logo depois da estreia deles, em Gosto de sangue, em 1984: ele basicamente antecipa os temas da dupla de diretores no cinema. No entanto, ao contrário dos Coen, Clooney utiliza os pátios de um bairro calmo nos Estados Unidos para fazer uma espécie de homenagem às pinturas de Edward Hopper, assim como em Um homem sério, no entanto com uma falta de alívio cômico (o humor, sobretudo no personagem de Damon, é anticlimático a todo momento).

O filme soa pesado em todos os termos de tratamento que oferece a seus personagens, lembrando a estreia de Clooney na direção, Confissões de uma mente perigosa, nunca deixando o espectador confortável, e a trilha excelente de Alexandre Desplat mostra uma espécie de recuperação da imagem do subúrbio como uma ameaça presente desde Alfred Hitchcock. Os personagens também são ambíguos, no melhor sentido, nunca se sentindo fáceis ou meras caricaturas, como poderiam ser, o que acontece nos experimentos mais fracos dos Coen, a exemplo de Matadores de velhinhas e O amor custa caro. Clooney trabalhou com os diretores em outro momento menos inspirado, E aí, meu irmão, cadê você?, e aqui ele mostra um determinado senso que remete a eles no visual. No entanto, mais do que a eles, Clooney retoma um padrão clássico de imagem e sonoro, dos anos 50, para introduzir uma ambientação bem trabalhada. Mesmo quando Gardner e Margaret são flagrados no porão por Nicky há um clima de Psicose no ar (não parece aleatória a escolha de Julianne Moore para o papel, tendo ela feito a refilmagem da obra de Hitchcock nos anos 90). Também existe uma mescla entre comportamento estranho, relacionamentos não esclarecidos e um desrespeito constante à infância diante dos problemas que eclodem no bairro. O elenco, a começar por Moore e Isaac, contribui muito para esse senso deslocado.

A fotografia de Robert Elswit, com sua luminosidade, apenas esconde um lado muito nublado, turvo, da América, que não se deixa identificar. Numa visita à delegacia, também sentimos a presença da textura de imagem, além do trabalho impecável de figurino, da obra-prima O mestre, de Paul Thomas Anderson. Não parece inexplicável que este filme tenha sido tão questionado pela crítica em geral: Suburbicon realmente não define seu gênero nem explica exatamente sua proposta. A visão de Clooney para o que deveria ser um roteiro menos corrosivo dos Coen se mostra caótica, tanto quanto a recepção da vida moderna que temos aqui por meio de imagens dos anos 50. Tudo aqui antecipa a era Kennedy e os protestos em torno de Malcolm X, que trouxeram um novo panorama à sociedade norte-americana. O trabalho de Gardner Lodge, por trás de escritórios e portas simétricas, esconde apenas uma desilusão. Para Clooney, esses personagens querem mudar suas famílias, de algum modo, e visam sempre uma espécie de trama implícita em suas ações. Não há nada em Suburbicon que não esteja em pé de confronto, mas os personagens se escondem disso, agindo de maneira infantilizada e enfrentando uma rua escura com uma bicicleta.

Suburbicon, EUA, 2017 Diretor: George Clooney Elenco: Matt Damon, Julianne Moore, Oscar Isaac, Noah Jupe, Glenn Fleshler, Alex Hassell, Gary Basaraba, Jack Conley, Karimah Westbrook, Tony Espinosa, Leith Burke Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen, George Clooney, Grant Heslov Fotografia: Robert Elswit Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: George Clooney, Grant Heslov, Joel Silver, Teddy Schwarzman Duração: 105 min. Estúdio: Paramount Pictures, Black Bear Pictures, Silver Pictures, Smoke House Pictures Distribuidora: Paramount

A grande muralha (2017)

Por André Dick

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Para os fãs mais puristas do diretor chinês Zhang Yimou, A grande muralha deve soar como um diretor de arte se vendendo para o sistema de blockbusters norte-americano. Seu ritmo não tem nenhuma relação, além do visual espetacular, com Lanternas vermelhas, Herói ou O clã das adagas voadoras, mas esta é a primeira real colaboração do cinema norte-americano e do cinema chinês, numa época em que o universo da história se mescla com o da fantasia.
O filme se passa durante a dinastia Song, quando William Garin (Matt Damon), Pero Tovar (Pedro Pascal) e outros sobreviventes de um grupo de mercenários europeus estão à procura de uma determinada relíquia para defesa, um pó escuro (que muitos vão chamar de pólvora). Depois de enfrentarem um monstro, eles chegam no dia seguinte à muralha da China, onde são levados como prisioneiros por uma Ordem sem Nome, representada pelo general Shao (Zhang Hanyu), pela comandante Lin Mae (Jing Tian) e pelo estrategista Wang (Andy Lau). Eles se preparam para uma invasão que acontece a cada sessenta anos de monstros chamados Taotie, e Garin pode se mostrar muito útil, devido a ser um exímio arqueiro. A dupla central acaba por conhecer Sir Ballard (Willem Dafoe), europeu que também está atrás do pó escuro que os demais procuram.

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Resultado de um Yimou em início de carreira, Lanternas vermelhas, indicado ao Oscar de filme estrangeiro e incluído na lista de melhores da década de 1990, é um referencial com o qual A grande muralha dialoga. Grande parte da crítica surpreendeu-se com o trabalho fotográfico de Zhao Fei, que aprisiona os personagens num castelo dominado por túneis, descidas, curvas, de atmosfera fria, onde moram quatro mulheres, casadas com o dono do local. Quando solicitadas por ele, seus respectivos quartos são preenchidos por lanternas vermelhas, penduradas nas paredes. Isto cria uma rivalidade para ver quem mais satisfaz o amante. Em A grande muralha, temos a mesma sensação transmitida pela fotografia: os personagens se esgueiram em túneis, salas isoladas, ou lugares para banquetes grandiosos.
Se em Lanternas vermelhas, as lentes privilegiam a beleza plástica de Gong Li, na figura da mocinha Songlian, ex-estudante de faculdade e obrigada a abandonar a família e virar concubina, em A grande muralha isso passa a ser mérito da comandante Lin Mae. Em ambos os filmes Yimou trabalha com a representação feminina, mas em Lanternas vermelhas o papel da mulher não muda, sendo um ciclo, como as estações que demarcam as passagens de tempo do filme; neste novo filme, ela se transforma numa guerreira e numa referência para combate.

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Depois de se notabilizar por fazer grandes sequências de ação de forma artística em Herói e O clã das adagas voadoras, que influenciaram diretamente Wong Kar-Wai em O grande mestre e Hsien em A assassina, Zhimou se encaminha para o que pode ser visto como uma mistura entre O senhor dos anéis, Warcraft, Círculo de fogo e, pela quantidade de flechas e catapultas, o épico Cruzada, de Scott. Não há mais os cenários mais fechados de Herói, que evocavam uma claustrofobia e uma produção mais precária em termos de interiores, e sim um fantástico diálogo visual da grande muralha com as montanhas e vales que a cercam. A fotografia de Stuart Dryburgh é impecável no uso de cores e movimentação, como já havia acontecido em A vida secreta de Walter Mitty e Alice através do espelho. O tratamento no contraste das cores, por outro lado, é acertado e vai do vermelho (as flechas do arqueiro) e azul (os uniformes das guerreiras) até as cores mais gélidas (cinza, verde apagado), como se cada cenário representasse o desenvolvimento da ação.
Yimou, de certa maneira, aprisiona os personagens numa redoma de vidro, a muralha, e depois lhe proporciona balões fantásticos como numa obra de Terry Gilliam, na qual o filme certamente se inspira também, e salões luxuosos como em A maldição da flor dourada. O interessante, diante dos pressupostos para a aceitação ou não desta obra de Yimou, é sua qualidade ou não de roteiro, quando ele apresenta tão poucos diálogos e tramas quanto um Herói ou A assassina, mas, por ser blockbuster, passa a ser por isso menos reverenciado (e, mesmo que a obra de Hsien seja superior, não é por causa disso que essa fantasia seja menos importante).

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Enquanto em Lanternas vermelhas, a jovem caminhava num pátio de pedra iluminado por elas, relacionando os enquadramentos a pinturas chinesas antigas, aqui Yimou contempla cada sequência de maneira que lembra seus melhores momentos como diretor, mas com senso de ritmo próximos dos cineastas norte-americanos de fantasia, a exemplo de Peter Jackson. Os monstros do filmes são resultado de efeitos visuais de impacto, mas também com um design que lembra o trabalho artesanal de Emilio Ruiz del Río, que trabalhou em Conan, o destruidor, Duna e O labirinto do fauno. Perceba-se também o uso dos figurinos espetaculares de Mayes C. Rubeo (Avatar, John Carter, Apocalpypto) e a atuação discreta de Damon, que, após Jason Bourne, redescobre outra opção no campo da aventura, sem ficar com um tom excessivamente calculado como poderia. Essa é a mais custosa produção feita na China (150 milhões), que nos poucos países em que estreou até agora está fazendo valer o investimento. O que é merecido: trata-se de um filme que evoca épicos da sessão da tarde com um grande senso de magnitude.

The great wall/長城, EUA/China, 2017 Diretor: Zhang Yimou Elenco: Matt Damon, Jing Tian, Willem Dafoe, Andy Lau, Pedro Pascal, Zhang Hanyu, Lu Han, Lin de Kenny, Eddie Peng, Huang Xuan, Ryan Zheng, Karry Wang Roteiro: Carlo Bernard, Doug Miro, Tony GilroyFotografia: Stuart Dryburgh Trilha Sonora: Ramin Djawadi Produção: Jon Jashni, Peter Loehr, Thomas Tull Duração: 104 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Atlas Entertainment / Kava Productions / Le Vision Pictures / Legendary East / Legendary Pictures

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Perdido em Marte (2015)

Por André Dick

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A qualidade do trabalho de Ridley Scott parece ainda apenas associada aos seus primeiros filmes, como Alien e Blade Runner, como se depois disso não tivesse realizado outros grandes filmes. Apenas nos anos 2000, ele fez Gladiador, Falcão negro em perigo, Os vigaristas, Cruzada, Um bom ano e O gângster, obras que revelam uma variação muito grande de dicção, e há três anos apresentou Prometheus, colocado de forma surpreendente como uma de suas decepções. Quando um cineasta como Scott, certamente um dos maiores artesãos já surgidos em Hollywood e que continua, quase octogenário, produzindo filmes, faz uma superprodução como Êxodo: deuses e reis, parece apenas para passar o tempo e um mero blockbuster, mas junto consigo sempre traz uma concepção visual extraordinária. A partir daí, adaptar o livro de ficção científica The martian, para o cinema se transformou no seu grande projeto antes da continuação de Prometheus.
Escrito por Andy Weir, Perdido em Marte teve a adaptação de Drew Goddard, que fez em parceria com Joss Whedon o roteiro da sátira aos filmes de terror O segredo da cabana e do pouco recomendado Guerra Mundial Z. A narrativa começa com uma expedição precisando sair de Marte às pressas. Liderada por Melissa Lewis (Jessica Chastain), tem em seu grupo Rick Martinez (Michael Peña), Beth Johanssen (Kate Mara), Chris Beck (Sebastian Stan) e Axel Vogel (Aksel Hennie), além de Mark Watney (Matt Damon), que acaba sofrendo um contratempo e fica isolado no planeta vermelho.

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Que Marte é um planeta dos mais propícios a mistérios e pesquisas, isso está provado em vários filmes, e mesmo já foi colonizado em O vingador do futuro, antes de se descobrir recentemente a presença de água em sua superfície. Scott tem uma ideia muito clara da imensidão do universo, como já provou em Alien e Prometheus. Ele joga esses mistérios na narração de Watney, quase sempre falando para a câmera em que deseja deixar gravada a sua experiência. Como sobreviver em Marte? De que modo fazer a comida durar o tempo suficiente para que possa ser resgatado pela Nasa? Entre os integrantes da Nasa, temos o diretor Teddy Sanders (Jeff Daniels), Annie Montrose (Kristen Wiig), Mitch Henderson (Sean Bean) e o responsável pela expedição, Vincent Kapoor (Chiwetel Ejiofor), além de seu auxiliar Bruce Ng (Benedict Wong), enquanto Mindy Park (Mackenzie Davis) é quem acompanha os movimentos de Watney.
Perdido em Marte possui um cuidado muito grande em retratar o planeta vermelho, principalmente em sua superfície arenosa e entrega a Watney alguns momentos de quem precisa descobrir o fogo (neste caso, o oxigênio) para poder sobreviver mais do que os mantimentos indicam. Ele também precisa fazer o reconhecimento da área e lembrar de possíveis referências no planeta que possam fazer com que estabeleça um contato com a Terra. A diferença do personagem de Watney para outros recentes, especificamente da doutora interpretada por Sandra Bullock em Gravidade e do fazendeiro astronauta feito por Matthew McConaughey em Interestelar, é especificamente o seu descompromisso com alguma angústia que possa evocar o espaço sideral e o isolamento em Marte.

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É visível que Scott quis fazer um filme diferente dessas duas referências recentes e, mesmo que Perdido em Marte tenha um lado espetacular visual próximo desses dois (principalmente nos momentos em que se concentra no espaço), não chega próximo da densidade dos projetos de Cuarón e Nolan. Isso, por um lado, torna o filme mais bem-humorado, inclusive por sua trilha sonora, e mais centrado em discussões da Nasa, principalmente de Sanders, Montrose e Kapoor. Ejiofor, principalmente, está ótimo como o coordenador do projeto de viagens a Marte e consegue dar o toque mais humano do filme de Scott, mesmo que Watney seja o homem em missão e a ser resgatado. Embora seus diálogos com Sanders e Montrose não rendam como seria de se esperar, deixando Wiig lamentavelmente subaproveitada, Kapoor é o elo de ligação entre Watney e a Nasa. Quando em determinado momento surge o personagem de Rich Purnell, interpretado por Donald Glover, há também mais agilidade em cena.
Em alguns momentos, Perdido em Marte também se ressente claramente de um núcleo mais emocional, que Scott trabalhou tão bem em filmes como Gladiador, Um bom ano e Thelma & Louise. O personagem de Watney se apresenta sempre por meio da descrição do que está ocorrendo com ele, no entanto não se tem uma noção mais exata de seu passado e de sua relação com o restante da equipe. Como o filme inicia rapidamente, com uma tempestade que remete claramente a Prometheus, e Scott se aprimora ao lançar os personagens num cenário ameaçador, não há tempo o suficiente para que conheçamos os personagens. E, depois disso, o roteiro de Goddard e a montagem de Pietro Scalia – habitual colaborador de Scott e responsável pelo filme mais bem montado que já vi, particularmente, JFK – deixam a equipe desparecer do filme por um tempo longo demais, a fim de que haja uma conexão emocional mais sustentada com Watney, o companheiro deixado em Marte por se achar que estava morto, além de não estabelecer rapidamente uma conexão com a Nasa.

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É como se a equipe do projeto fosse alijada do roteiro – não apenas ela, como também coadjuvantes como Chastain, Peña e Mara, que poderiam contribuir muito –, e isso sinaliza, em parte, para certo afastamento das emoções guardadas por Watney: como não se tem ligação dele com pessoas que o cercavam e mesmo com pessoas da Terra, é como se ele não estivesse mais do que já costumeiramente está: só (o que tornava Náufrago, com Tom Hanks, tão surpreendente, na sua indefinição de que se iria ou não reencontrar o seu amor). Nesse sentido, parece se perder em parte a essência de um filme como este: de que ele está num ambiente desconhecido e solitário. Ao reagir com bom humor à situação, dá espaço a alguns momentos realmente engraçados, no entanto extrai do personagem a sua preocupação principal, que, de fato, é sobreviver. Matt Damon é um ótimo ator, e ainda assim não temos uma interpretação propriamente dita em sua essência: o roteiro simplesmente não o ajuda, e sua curiosidade pelas coisas se revela apenas autoafirmação. Neste sentido, Perdido em Marte elabora sua trama mais em cima do que Watney pode fazer a partir de seus conhecimentos científicos para lidar com as adversidades – e o que ele faz não é pouco, e pode também dialogar com outras peças conhecidas de homem sobrevivendo em ambiente inóspito. Quando, por um vislumbre de Scott e de atuação de Damon, a emoção surge, no seu ideal de sobrevivência, é muito claro que Perdido em Marte sobe de patamar (como, por exemplo, (spoiler), a troca de mensagens pública entre Watney e a Nasa).
Há alguns filmes de Scott em que a conexão dos personagens não é bem solucionada – o próprio Êxodo –, e com Perdido em Marte não é diferente, principalmente pela quantidade que apresenta deles (em torno de vinte), porém a grandiosidade costuma ser uma de suas saídas. Em Cruzada, havia algumas irregularidades no tratamento histórico, por exemplo, mas os cenários fantásticos e a atmosfera faziam a estrutura do filme se movimentar por todos os lados, especialmente em sua versão estendida. O mesmo vale para Prometheus, com uma meia hora final não menos do que fantástica para os admiradores de boa ficção científica, e no caso de outros filmes de Scott menos estimados, a exemplo de A lenda (dos anos 80) e 1492 (com uma fotografia esplendorosa e trilha sonora de Vangelis). Em Perdido em Marte, por sua vez, Scott pretende dar mais espaço a como o ser humano pode ver a ciência e se utilizar dela como própria fonte de vida, com seus conhecimentos de gerações longínquas. Por isso, em sua meia hora final, Scott parece conduzir seu filme ao que há de melhor nele: uma espécie de sublimação da tentativa de enfrentar as estrelas como quem está disposto a sobreviver e retomar seu contato com o que ainda está prestes a brotar do solo como se fosse a primeira vez.

The martian, EUA, 2015 Diretor: Ridley Scott Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Chiwetel Ejiofor, Jeff Daniels, Kate Mara, Sean Bean, Michael Peña, Mackenzie Davis, Kristen Wiig, Donald Glover, Sebastian Stan, Sam Spruell Roteiro: Drew Goddard Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams Produção: Mark Huffam, Michael Schaefer, Ridley Scott, Simon Kinberg Duração: 141 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Genre Films / International Traders / Mid Atlantic Films / Scott Free Productions / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 3 estrelas

Elysium (2013)

Por André Dick

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Em 2009, Neill Blomkamp surpreendeu o público com sua ficção científica Distrito 9, indicada ao Oscar de melhor filme, e passou a ser visto como uma das promessas entre os novos diretores. Desta vez, com um orçamento maior e a presença de Matt Damon à frente do elenco, Blomkamp regressa com Elysium, um filme que aposta, como sua estreia, num cenário que mescla os elementos de ficção científica com favelas e exploração de seres humanos. Eles vivem numa Terra combalida, em 2154, que tem no espaço a presença de Elysium, uma estação espacial com mansões e uma vegetação tropical, almejada sobretudo porque conta com um suporte tecnológico que não permite seus moradores terem qualquer tipo de doença. A estação tem à sua frente de defesa Jessica Delacourt (Jodie Foster), desinteressada em conversar com um grupo de rebeldes que pretende conquistar o direito de ter um domínio sobre o planeta e cujo direcionamento bélico desagrada ao seu superior, Presidente Patel (Faran Tahir).
Damon interpreta Max Da Costa, um ex-presidiário que trabalha na Armadyne Corp, responsável pela construção de Elysium, dirigida por John Carlyle (William Fichtner), e que em determinado dia recebe uma carga de radiotividade capaz de levá-lo à morte. Com a ajuda de um amigo, Julio (Diego Luna), para que consiga se curar, ele precisa ter a chance de embarcar para Elysium. Mas só pode fazer isso se prestar um serviço quase como um semirrobô a Spider (Wagner Moura), o líder de um grupo rebelde que pretende conquistar a estação. Ainda ligado a uma enfermeira, Frey (Alice Braga), mãe de Matilda (Emma Tremblay), Max precisa fazer o máximo para que possa receber a recompensa. Há elementos de alguns filmes na narrativa de Elysium, mas isso não incomoda devido à apresentação inicial do filme, como se conseguisse, a partir dela, expandir seu universo, sem confundi-lo com as lembranças de Oblivion. Há elementos de Mad Max (sobretudo o segundo filme), Robocop e Eles vivem (de John Carpenter), mas devidamente filtrados, e Blomkamp tem uma certa inclinação para a imagem menos condescente, no que se assemelha a David Cronenberg (não por acaso, Distrito 9 é uma extensão, em alguns momentos, de A mosca), sendo aqui o principal diálogo eXistenZ, o subestimado filme com Jude Law, e A cidade da esperança, de Roland Joffé (sobre um jovem médico americano que se defronta com a miséria na Índia).

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Blomkamp tem um talento sólido em filmar cenas de ação e, embora lhe falte a coerência de Verhoeven de Robocop e O vingador do futuro, com quem tenta dialogar nas cenas de ação e explosões, nunca deixa de apresentar esta ação com uma intensidade que parece crível – e os melhores momentos de Elysium se baseiam nesta apresentação, assim como o foi em Distrito 9, menos em sua discussão política e sobre os problemas de acesso à saúde, ou quem deve recebê-la, que se apresenta até mesmo escassa e um pouco apressada. No entanto, Blomkamp tem uma certa proximidade sentimental de seus personagens, o que não consegue outros diretores de sua geração, a exemplo de Joseph Kosinski. Max e Frey são figuras com quem o espectador se importa, e Spider consegue transparecer uma determinada ambiguidade importante para o prosseguimento da narrativa. O sofrimento imposto ao personagem de Max, embora de curta duração, cria um certo impacto, mostrando uma agilidade semelhante ao que víamos em Distrito 9, e suas reações não lembram a princípio a de um herói, ou seja, seu desespero diante da situação em que se encontra é evidente.
Por outro lado, Elysium é o tipo de ficção científica que quanto mais parece crescer mais vai ficando desinteressante. Sua melhor trajetória se encontra quando privilegia os personagens, as relações que podem existir potencialmente com eles. Não se trata, em nenhum momento, de ser descartável; pelo contrário: sua concepção visual é realmente atrativa e os efeitos especiais, junto com o trabalho considerável de efeitos sonoros, transporta o espectador para um outro universo, mas ele declina muito cedo de trabalhar o personagem de Max, pois Damon o joga muito bem, trabalhando nuances inicialmente, com sua habitual capacidade para personagens diferentes (capaz de passar de O desinformante para Bravura indômita), mas perdendo parte do interesse a partir da metade. A presença de Wagner Moura como Spider também fornece ao filme um vigor que escapa às vezes dentro dessa concepção visual. Moura é um ator que já se mostrou extraordinário em alguns filmes, e aqui ele tenta compor um personagem diferente do habitual, inclusive com um tom de voz peculiar. Sai-se de maneira equilibrada e destacada, chamando mais atenção do que Damon e Alice Braga. Uma surpreendente vilã feita por Foster acaba não recebendo muitas linhas de diálogo e perde-se com sua ausência, mas uma atriz como ela acaba sempre chamando a atenção quando está em cena, mesmo que se possa dizer que ela está até mesmo caricata, como se adotou como lógica para sua participação no filme.

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A sua personagem é assessorada por Kruger (Sharlto Copley), uma espécie de braço direito para os serviços mais complicados contra a aliança rebelde de Elysium. Este personagem parece saído de alguma ficção científica de estilo B, com a qual Elysium certamente se assemelha em alguns momentos, sobretudo pela despretensão, e consegue ser um bom oponente aos homens que lutam pela liberdade de poder utilizarem a estação espacial. O roteiro consegue definir um terceiro ato pouco cansativo, devido à montagem acelerada de Julian Clarke e Lee Smith, embora seu clímax tenha o mesmo problema de blockbusters recentes: parece que se quer encerrar o filme para que não pareça longo demais, o que prejudica o próprio entendimento de toda a ação que antecipou o ato derradeiro. Os temas que haviam por trás do roteiro acabam ficando em segundo plano, e espera-se apenas uma solução para as subtramas. Ainda assim, Elysium é realizado com competência, com um senso de direção de arte importante para uma ficção científica e não deixa sua narrativa às vezes não tão trabalhada se transformar num impecilho, muito em razão de Blomkamp e do elenco.

Elysium, EUA, 2013 Diretor: Neill Blomkamp Elenco: Matt Damon, Alice Braga, Jodie Foster, Sharlto Copley, Wagner Moura, William Fichtner, Faran Tahir, Diego Luna Produção: Simon Kinberg Roteiro: Neill Blomkamp Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Ryan Amon Duração: 109 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Media Rights Capital / QED International / Sony Pictures Entertainment

Cotação 3 estrelas