Valerian e a cidade dos mil planetas (2017)

Por André Dick

Há cada vez mais exemplares do gênero de ficção científica nas telas do cinema, embora talvez não com a qualidade desejada. Depois de Star Wars e Star Trek se tornarem franquias exitosas, muito desse universo é relacionado com grandes bilheterias e uma diversão muitas vezes padronizada, apesar da excelência de alguns projetos. Nesse sentido, é uma raridade surgir uma obra do gênero como Valerian e a cidade dos mil planetas. Seu diretor, Luc Besson, é bastante conhecido desde os anos 80, quando fez o cult movie Subway, com Cristopher Lambert e Isabelle Adjani, e nos anos anos 90 realizou os ótimos Nikita, sobre uma agente assassina e com passado obscuro, e O profissional, um belo thriller com Jean Reno, Gary Oldman (no papel de um vilão assustador) e a revelação Natalie Portman. Ainda nesta década, em 1997, ele realizou a ficção científica mais cara já feita na Europa, O quinto elemento, protagonizado por Bruce Willis e Milla Jovovich, trazendo uma direção de arte bastante interessante. Ainda com Jovovich, ele compôs o grandioso Joana D’Arc, mas algo em seu cinema havia se perdido, o que se constatou na primeira década deste século. Nesta segunda década do século, conseguiu efetuar um trabalho interessante sobre a máfia em A família, com De Niro e Michelle Pfeiffer, e um êxito de bilheteria, na ficção científica Lucy, que arrecadou 10 vezes seu orçamento e lhe permitiu certamente apostar os quase 180 milhões de dólares do orçamento de Valerian.

O filme se inspira na série de quadrinhos Valérian et Laureline, criada por Pierre Christin (roteiro) e Jean-Claude Mézières (desenho). Dane DeHaan, que este ano estrelou o ótimo e injustiçado A cura, é o Major Valerian, uma espécie de agente que ajuda a manter a ordem nas partes do universo consideradas de humanos. Ele trabalha ao lado de Laureline, talvez na primeira atuação suficientemente simpática de Cara Delevingne, bastante irregular em Cidades de papel e prejudicial em Esquadrão suicida. É 2740 e eles estão a bordo da nave Intruder, precisando ir primeiro até Big Market, uma espécie de mercado virtual num planeta desértico, e depois à estação Alpha, onde milhões de criaturas de vários lugares do universo convivem, a fim de proteger o Comandante Filitt (Clive Owen). Tudo converge para uma raça de alienígenas que habitava o planeta Mül. Pelo visual extraordinário (design de produção e efeitos visuais), Valerian tem uma correspondência essencial com filmes que não foram bem recebidos e tiveram baixa bilheteria, a exemplo de Speed Racer e John Carter. Como esses filmes, ele possui um elenco em parte pouco talhado para um blockbuster, embora tenha participações de Ethan Hawke e da cantora Rihanna (numa brilhante referência a Cabaret de Bob Fosse).

Como O quinto elemento, a ficção anterior de Besson, é excêntrico, mas no bom sentido, depois de um início ao som de “Space Oddity”, de David Bowie, numa visão contemporânea de 2001. Não há sinal da padronização imposta em algumas franquias de ficção: o visual se corresponde a todo instante com o roteiro. E, ao mesmo tempo que as influências no visual são notadas (sobretudo da segunda trilogia de Star Wars, de Avatar, O vingador do futuro e Mad Max, numa passagem por um planeta onde se poderá recuperar um determinado conversor), o filme nunca se sente como um empréstimo de referências já desgastadas: Besson eleva a ficção científica a um jogo criativo que vemos poucas vezes, pois cineastas quase não se arriscam nesse campo (ultimamente nem mesmo Spielberg). E, assim como John Carter, seus quadrinhos de origem inspiraram Star Wars, do qual agora se apresenta, para alguns, como um tributo. Há uma cena, por exemplo, no mar de Alpha que dialoga diretamente com A ameaça fantasma, na figura do monstro marinho atrás da nave de Obi-Wan (aqui, a nave com Laureline).

Besson possui características que apontam como um cineasta de linha de montagem, mas Nikita e O profissional eram filmes muito bem feitos e pensados, e se O quinto elemento não justificava sua ambição de ser uma ficção científica de ponta, pelo menos conduzia sua narrativa a momentos de diversão interessantes. Sua predileção por figuras femininas à frente de seu cinema sempre foi motivo para descobrirmos personalidades interessantes e complexas. Em Valerian, ele extrai uma boa atuação de Delevingne como Laureline, mais do que conseguiu com Johansson em Lucy ou Milla Jovovich no próprio O quinto elemento ou em Joana D’Arc. Cara tem momentos bem-humorados, participa de algumas lutas coreografas com elegância e funciona no conjunto tendo de interagir com criaturas computadorizadas.
Com uma trilha sonora esplendorosa de Alexandre Desplat, apanhando algumas notas de Jerry Godsmith da antiga série de cinema Star Trek, e fotografia notável de Thierry Arbogast, arquitetando um festival de cores, Valerian se move num ritmo contínuo, mas sem parecer excessivo nesse ponto. Besson tem um talento notável aqui para compor um quadro de imagens coloridas sem parecer kitsch, acertando na escolha do par central: DeHaan e Delevingne possuem uma química em todas as cenas nas quais aparecem juntos. Talvez mais do que todos os acertos técnicos ou de escolha de elenco, fica visível o respeito que Besson tem por esse universo de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières, do qual é visivelmente um admirador.

Isso é um passo importante para que se possa desenhar não apenas uma narrativa com os elementos encaixados dentro de uma sequência de cenas de ação, como também entender que o cinema europeu pode proporcionar um cineasta de desenvoltura fantástica. Se Del Toro e Cuarón são as figuras estrangeiras que melhor lidavam com o fantástico de fora dos Estados Unidos, eles recebem agora a companhia de Besson, normalmente visto com reservas em seu país de origem justamente por não trabalhar com gêneros específicos e ser muitas vezes comercial. Recebido com certa aversão do público (até agora arrecadou apenas 88 milhões de dólares), é o melhor filme do cineasta francês desde O profissional e muito possivelmente será um cult de ficção científica. Merecidamente, pois raras vezes o espectador tem acesso a um universo tão fantástico.

Valerian and the city of thousand planets, EUA/FRA, 2017 Diretor: Luc Besson Elenco: Cara Delevingne, Dane DeHaan, Elizabeth Debicki, John Goodman, Ethan Hawke, Clive Owen, Rihanna, Rutger Hauer, Mathieu Kassovitz, Herbie Hancock, Kris Wu Roteiro: Luc Besson Fotografia: Thierry Arbogast Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Luc Besson Duração: 137 min. Distribuidora: Diamond Films Estúdio: EuropaCorp / Fundamental Films

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O fabuloso destino de Amélie Poulain (2001)

Por André Dick

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Com um visual que lembra o de um filme publicitário, em razão de suas imagens, com cores distribuídas como um espelho visual para vendas, O fabuloso destino de Amélie Poulain é uma das homenagens mais interessantes ao mundo do cinema e da descoberta, injustiçada na época do Oscar (foi indicado em cinco categorias, sem receber nenhum, mesmo com a campanha da Miramax dos Weinstein, ou talvez por causa dela). A personagem central, Amélie (a ótima Audrey Tautou) é uma jovem solitária, e o filme conta, por meio da narração de André Dussollier, desde a infância o motivo de ela ser assim: primeiro, os possíveis problemas cardíacos, nunca exatamente comprovados, nem pelo pai médico, mais ligados à emoção dela (e Jeunet faz com que vejamos o seu coração latejando), numa espécie de Meu tio da América do início do século (daqui em diante, possíveis spoilers).
Numa das tentativas de apanhar um rato em sua casa, acaba descobrindo uma caixa com várias relíquias do passado, motivando-se a encontrar seu dono, o melancólico Dominique Bretodeau (Maurice Bénichou). Para isso, Amélie utiliza sua imaginação e conta com a ajuda de um vizinho pintor, Raymond Dufayel (Serge Merlin), inventando cartas para a possível volta de um determinado vizinho que não aparece há mais de quarenta anos. Ao mesmo tempo, provoca um vizinho que causa mal-estar. Enquanto isso, seu pai, Raphaël (Rufus) espera um motivo para viajar, Amélie pega o anão de seu jardim e o fotografa com a imagem de várias localidades famosas pelo mundo, enviando-as para o pai, tudo em meio à morte da Princesa Diana, em 1997 e caminhadas pelo Canal Saint-Martin, em que Amélie visualiza casais. O mundo dela é atraído para um mundo da fantasia: ela deseja não se considerar uma princesa do mundo real, mas sua meta é tentar estabelecer contato com quem está à sua volta e se tornar conhecida.

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Se trabalha num café, como garçonete do Café des 2 Moulins, em Montmartre, sempre com a presença de figuras estranhas e bizarras, típicas do universo do filme e do diretor Jeunet, inclusive o interesse que existe entre Georgette (Isabelle Nanty), sua colega, hipocondríaca, e Joseph (Dominique Pinon), com ciúmes constantes  – e o café tem as cores elaboradas como o restante do filme, lembrando a paisagem de Paris, apesar de seus personagens não corresponderem, algumas vezes, ao cuidado do ambiente –, Amélie também quer fazer com que se aproximem.
O roteiro de Jeunet com Guillaume Laurant é simples na medida exata, contribuindo para que se trabalhe mais visualmente as imagens, com seus neons sugestivos e, em meio a eles, não por acaso a personagem vem a se apaixonar por um homem, que imagina trabalhar numa loja de revelação fotográfica, Nino Quincampoix (Mathieu Kassovitz), mas na verdade tem outro trabalho possivelmente menos idealizado por Amélie. Num universo voltado exclusivamente para a imagem e para a imaginação que circula em torno dela, Amélie está plenamente caracterizada, ao montar imagens a partir de pedaços de fotos 3×4 ou se deixar fotografar com o uniforme de Zorro para oferecer pistas de quem pode ser. Querer viver o que culturalmente é entendido como amor (a exemplo dos personagens de Meu tio da América) é o motivo para a personagem mudar sua rotina e o diretor acaba por mudar também a do espectador – como o abajur em forma de suíno que conversa com Amélie e o universo que ela constrói ao redor, que parece viver num mundo de brinquedos e bonecos, aproximando o cenário de uma fábula infantojuvenil (e não há dúvida de que Wes Anderson também bebeu daqui em filmes como Moonrise Kingdom).
Cada enquadramento de Bruno Delbonnel (que recentemente fez a fotografia excepcional de Sombras da noite) é memorável pois lembra uma pintura – o roteiro tem suas referências a Renoir –, e sua influência é visível em filmes recentes, como A invenção de Hugo Cabret. Há, inclusive, uma cena de cinema que também remete à do filme de Scorsese, em que Hugo e a neta de Mèliés entram na sala sem passar pela bilheteria.

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Com esses enquadramentos notáveis, todos os elementos de um interesse amoroso entre Amélie e Nino – em certa medida previsíveis – acabam fugindo do lugar-comum, constituindo-se por meio de objetos e lugares: a cabeceira do quarto, as fotografias do céu, com as nuvens formando animais, a personagem no cinema, as cores na floricultura.
Não parece que o diretor desta obra é o mesmo Jean-Pierre Jeunet que dirigiu Alien – A ressurreição, um filme com visual extraordinário, mas precário em sua maneira de retratar a saga de Ellen Ripley. Amélie Poulain é o contrário em tudo: de sua sensibilidade até sua leveza, trata-se de um filme que possui uma espécie de ritmo de épico do cotidiano, com a montagem que remete tanto à velocidade de um certo universo de vendas (sobretudo quando se pronuncia a narração, não estranharíamos se Amélie apontasse produtos para a tela), mas também à calma dos filmes europeus mais contemplativos. Tudo acontece em torno de Amélie, sem que ela deseje ou preveja, e é justamente esta despretensão que acaba articulando a história e amarrando as pontas eventualmente soltas. Toda a discussão que existiu em torno do filme na época de seu lançamento, tornando-o numa espécie de cult instantâneo, parece tê-lo prejudicado num primeiro momento, mas, mais de uma década depois, é difícil perceber envelhecimento na sua proposta.
A realização de Jeunet é muito eficaz e oportuna. A personagem de Amélie, mesmo com toda a sua ingenuidade, conservando pontos esquecidos da infância, sonha por meio dos sonhos alheios, exatamente a quando vai ao cinema ou assiste à televisão – não por acaso, ela assiste a um filme em que um personagem diz que ela tem o direito de se fugir da realidade. Nesta inter-relação entre ela e o cinema, ela e os sonhos alheios, estrutura-se a narrativa incomum, que aplica nas cenas de velocidade – em uma moto – o que não havia aplicado na estagnação, por exemplo, dos personagens na cafeteria; afinal, é preciso, como Amélie, sair do lugar, nem que seja por meio da fotografia ou de animais nas nuvens. O que se percebe é que, para Jeunet, Amélie desencadeia uma vida de joias lapidares justamente quando acha ter perdido um ponto de referência da realidade e quando descobre algo escondido que pode levar de volta ao universo que finge desconhecer. É por meio desse deslocamento proporcionado pelo imaginário, como a descoberta de uma caixa no início do filme, que ela vive e Jeunet faz uma obra contemporânea com aspecto já clássico.

Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, FRA, 2001 Diretor: Jean-Pierre Jeunet Elenco: Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Yolande Moreau, Artus de Penguern, Urbain Cancelier, Dominique Pinon, Maurice Bénichou Produção: Jean-Marc Deschamps, Claudie Ossard Roteiro: Jean-Pierre Jeunet, Guillaume Laurant Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Yann Tiersen Duração: 120 min.  Distribuidora: Não definida

Cotação 4 estrelas e meia