Todo o dinheiro do mundo (2017)

Por André Dick

No ano em que completou 80 anos, o diretor Ridley Scott lançou a sequência de Prometheus, colaborou no roteiro de Blade Runner 2049 sem ser creditado, ajudou a produzir Assassinato no expresso do Oriente e finalmente, diante de várias denúncias de assédio contra Kevin Spacey, que participava de seu novo filme, Todo o dinheiro do mundo, resolveu refilmar todas as cenas em que ele aparecia, trocando-o por Christopher Plummer. O resultado em termos financeiros e de crítica foram irrisórios, mas a nova obra de Scott tem uma história muito interessante, baseada em fatos reais.
Tudo começa em 1973, quando JP “Paul” Getty III (Charlie Plummer) é sequestrado em Roma por um grupo. Ele é um jovem de 16 anos, neto de J. Paul Getty (Christopher Plummer), magnata do petróleo e o homem mais rico daquela época. Os sequestradores exigem 17 milhões de dólares como resgate. Sabemos por meio de flashbacks que os pais do adolescente, Gail Harris (Michelle Williams) e John Getty Jr. (Andrew Buchan), se divorciaram quase uma década antes e ela não recebe nenhuma pensão alimentícia para ter a custódia dos filhos. E que John Getty se entregou às drogas.

Ela fica desesperada e pede o dinheiro ao ex-sogro, que coloca Fletcher Chase (Mark Wahlberg), negociador do Getty Oil, a empresa de Getty, para cuidar do caso. Sem querer dar o montante em dinheiro requisitado, Getty quer que seu assessor, também ex-integrante da CIA, investigue onde pode estar o neto. Este se encontra num cativeiro no interior da Itália, vigiado por, entre outros, Cinquanta (Romain Duris).
A história parece previsível, porém a maneira como Ridley Scott a conduz tem a voltagem de um thriller americanos em terra italiana, com um bom contraste entre a cidade e a área rural e entre o desespero de uma mãe e o luxo de um milionário pouco emotivo. De forma indireta ou direta, Todo o dinheiro do mundo trata da constituição de uma família e de como um sobrenome pode pesar ou significar em momentos que se tornam nebulosos ou perturbadores diante de uma realidade mais angustiante.

Williams apresenta uma atuação discreta e ainda notável, seguida pela de Plummer, num registro muito mais expansivo do que pareciam indicar as refilmagens. O personagem dele realmente serve de guia para o filme, com uma presença estranhamente maligna, embora, mais ao início, sua participação seja um pouco entrecortada pelas idas e vindas no tempo. Sua reação ao sequestro do neto reserva um comportamento dúbio: se, por um lado, ele parece se preocupar com o que acontece a ele, por outro há uma frieza. Ele lembra do neto principalmente criança, e quando Scott mostra os dois caminhando em ruínas do Coliseu (seus semblantes lembram de Chaplin e o menino em O garoto) parece que ele quer entrelaçar passado e frente para dizer que o personagem está em outra dimensão, junto com sua concepção de dinheiro. E Romain Duris apresenta uma atuação muito convincente como um dos sequestradores que deseja pôr fim à situação o quanto antes. A atuação de Charlie Plummer (nenhum parentesco real com Christopher) é surpreendente, mesmo com pouco roteiro, e Wahlberg é competente, mesmo com uma figura escrita com menos ênfase, principalmente levando em conta a função que poderia ter.

A fotografia de Dariusz Wolski ajuda a criar uma atmosfera que mescla alguns dos melhores momentos da trajetória de Scott, fazendo a história dialogar com Gladiador, Hannibal e O conselheiro do crime, além de Um bom ano: Scott é quase um cidadão italiano por seu interesse pelo país. Desde O poderoso chefão III, no cinema norte-americano ou inglês, não se tinha uma visão geral do interior desse país tão aproximada, com suas cidades de becos apertados e fazendas como pontos de encontro entre mafiosos. Ele tem uma obsessão por esculturas e estátuas do universo romano, e aqui mostra literalmente como alguns privilegiam essas peças do que o corpo humano e seu sentimento. Há uma concepção muito interessante do filme sobre a arte ser considerada uma riqueza e um passo para um indivíduo se sentir atemporal e acima de seus semelhantes. Isso se manifestava no início de Alien: Covenant, por exemplo, quando vemos Peter Weyland e David numa sala com a pintura “Natividade”, de Piero della Francesca, ao fundo. Aqui, surge outra obra de arte como significado para as perturbações de Getty. Em outro momento, é oferecida uma quantia de dinheiro para que possa aproveitar de forma jornalística uma informação referente ao neto. Scott evita uma manipulação dramática e concede à sua narrativa uma visão moderna de que todos desejam tirar algo dessa situação.

Os sequestradores não podem ter seu rosto revelado, mas em nenhum instante vemos também Getty se revelar. Em Todo o dinheiro do mundo, o rosto habita as notas de dinheiro e as esculturas, não os humanos. Esses se escondem sempre por trás de suas decisões meramente pessoais. Não existe em Getty, por exemplo, a visão que Scott lançava em O gângster, sobre como um homem crescia por meio da máfia, porém a maneira com que ambos se distanciam da realidade é semelhante. Não imagino o impacto que terá para o espectador que sabe da história real. Evitei ter informações antes de assisti-lo e, mesmo com alguns traços recorrentes de narrativa de sequestro, teve uma certa surpresa.
O roteiro de David Scarpa, adaptado do livro Painfully rich: The outrageous fortunes and misfortunes of the heirs of J. Paul Getty, é muito conciso e funcional, não havendo nenhum excesso, com auxílio da montagem agilíssima, e Scott entrega sua melhor direção desde O conselheiro do crime, com grande domínio sobre os espaços e elenco. Que este filme não esteja entre os indicados principais ao Oscar é um mistério tão grande quanto se achar que a última grande obra de Scott é Blade Runner. Todo o dinheiro do mundo é excepcional.

All the money in the world, EUA/ING, 2017 Diretor: Ridley Scott Elenco: Michelle Williams, Christopher Plummer, Mark Wahlberg, Romain Duris, Charlie Plummer, Andrew Buchan Roteiro: David Scarpa Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Daniel Pemberton Produção: Chris Clark, Quentin Curtis, Dan Friedkin, Mark Huffam, Ridley Scott, Bradley Thomas, Kevin J. Walsh Duração: 135 min. Estúdio: Imperative Entertainment, Scott Free Productions Distribuidora: TriStar Pictures

 

Transformers – O último cavaleiro (2017)

Por André Dick

A franquia Transformers já trouxe milhões a seus produtores e ao diretor Michael Bay e, apesar de perder fôlego, ainda traz boa resposta do público. Em poucas semanas de exibição, Transformers – O último cavaleiro já chegou a 517 milhões. Desde seu primeiro filme, nunca cheguei a ficar entusiasmado com os experimentos de Bay: visualmente confusos, narrativamente precários, mesmo com um visual belíssimo, principalmente o quarto, A era da extinção. Na sua origem, a grande diversão era o personagem de Shia LaBeouf e a produção de Spielberg, sempre cuidadosa na parte técnica, e ver o personagem principal correndo para todos os lados pelo menos serviu para que muitos soubessem quem são os The Strokes. Nas seguintes (O lado oculto da lua e A vingança dos derrotados), sempre nos moldes de Bay, as lutas se intensificavam, com uma porção notável de destruição, sem, por outro lado, um avanço na costura dos personagens e da mitologia dos robôs. No quarto, havia uma espécie de melhora com a troca do protagonista: Wahlberg se encaixou bem como Cade Yeager, um fazendeiro que transforma sucata em robôs, tendo de ajudar Optimus Prime contra figuras governamentais e proteger a filha, mesmo em disputa com o namorado dela, do mesmo modo que cenas de ação na China de grande competência, mais do que nos anteriores.

A história do quinto filme da série inicia em 484 d.C., mostrando o mago que acompanha o Rei Arthur (Liam Garrigan), Merlin (Stanley Tucci, já presente no anterior como Joshua Joyce, em outra participação muito boa), tendo conhecimento de uma civilização tecnologicamente avançada – pode-se adivinhar qual é. Trata-se de uma sequência interessante, remetendo também a um fragmento inicial de Prometheus, quando os cientistas buscam outras civilizações no espaço sideral.
Na Terra contemporânea, os Transformers são considerados ilegais e Optimus Prime (voz de Peter Cullen) saiu do Planeta à procura do seu criador. Um grupo de crianças, liderado por Izabella (Isabela Moner), sobrevivente da Batalha de Chicago, é salvo de uma cena de guerra por Bumblebee e Cade Yeager (Mark Wahlberg), que surgiu em A era da extinção, depois de passarem por um estádio destruído, imagem que remete diretamente a Batman – O cavaleiro das trevas ressurge. Quando Yeager leva Izabelle para um ferro-velho onde lida com alguns conhecidos, Bay movimenta a trama para uma espécie de semiapocalipse.

No espaço, Optimus Prime descobre que o mundo dos Transformers, Cybertron, se dirige à Terra, sendo que está sob o controle de Quintessa (voz de Gemma Chen). Por sua vez, um membro do TRF e ex-aliado dos Aubots, William Lennox (Josh Duhamel), negocia um acordo com Megatron (voz de Frank Welker), liberando vários Decepticons, que podem ajudar a recuperar um talismã que caiu nas mãos de Yeager. Na escapada deste, ele é abordado por Cogman, enviado por Sir Edmund Burton (o ótimo Anthony Hopkins), para que vá à Inglaterra, onde fica conhecendo a ligação que tem com os cavaleiros da Távola Redonda, assim como Viviane Wembly (Laura Haddock), professora de Oxford.
Com um humor insuspeito nos demais filmes, Transformers – O último cavaleiro mostra que 13 horas – Os soldados secretos de Benghazi não foi fruto do momento. Mesmo Sem dor, sem ganho, no qual Bay iniciou sua parceria com Wahlberg, já havia sinais de que o diretor conseguia desenvolver um bom humor interessante. Embora mantenha maneirismos inconvenientes, como a quantidade de destruição notável (e Bay é mestre nisso desde Armageddon e Pearl Harbour), este é o melhor filme da franquia, conciliando boas atuações, principalmente de Wahlberg, Haddock e Hopkins, com efeitos visuais extraordinários e uma fotografia belíssima de Jonathan Sela, quase artística, num blockbuster feito para faturar milhões.

Bay concilia imagens em interiores com externas reais ou em CGI de maneira que o espectador ingressa num universo mesclando caos e beleza plástica. Não havia até o quarto uma preocupação maior em estabelecer vínculos com a ideia de família e ela se acentua aqui. Os diálogos que estabelecem conexão com a história do rei Arthur são verdadeiramente interessantes, fazendo um apanhado mitológico interessante por meio da figura de Sir Burton – e se imagina, pela sequência inicial, o que Bay faria num filme de Idade Média em termos de ação e visual. Também há belas referências a O segredo do abismo, de James Cameron, em algumas sequências passadas no fundo do mar, com uma destreza técnica muito boa, e a Aliens – O resgate, com Yeager e Viviane em túneis segurando tochas, mais ao final. Este é um típico filme de ação pesada e fantasia, mas com certo sentimento não encontrado nos outros. Sim, há a mensagem robotizada em todos os sentidos de Optimus Prime, parecendo por vezes um anúncio de Budweiser, mas aqui ressoa algo a mais, mesmo porque ele voltou a seu planeta e deseja que a Terra não seja destruída. Para Peter Travers, é o filme “mais tóxico” do verão norte-americano; eu diria que é realmente um dos momentos de fúria em ação mais bem feitos e divertidos do ano.

Transformers – The last knight, EUA, 2017 Diretor: Michael Bay Elenco: Mark Wahlberg, Anthony Hopkins, Peter Cullen, John Goodman, Frank Welker, Laura Haddock, Josh Duhamel, Isabela Moner, Jerrod Carmichael, John Turturro, Liam Garrigan, Stanley Tucci, Erik Aadahl Roteiro: Art Marcum, Matt Holloway, Ken Nolan Fotografia: Jonathan Sela Trilha Sonora: Steve Jablonsky Produção: Matthew Cohan, Tom DeSanto, Lorenzo di Bonaventura, Don Murphy Duração: 149 min. Distribuidora: Paramount Pictures Estúdio: Paramount Pictures

 

Sem dor, sem ganho (2013)

Por André Dick

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Depois do díptico de Bad Boys e da série Transformers – que continua –, o nome de Michael Bay foi ligado exclusivamente ao uso do sentimento de destruição nas telas do cinema, como em Pearl Harbor, com suas externas tentando evocar filmes dos anos 50, e Armageddon, ambos com Ben Affleck à frente e mais propensos serem reconhecidos como videoclipes mais extensos. Seu novo filme, Sem dor, sem ganho, inicia com um personal trainer, Daniel Lugo (Mark Wahlberg), malhando de ponta-cabeça, quando chega uma equipe de operações da SWAT. Mesmo com a explicação de que a história a ser vista é baseada em fatos reais, lá está o estilo de Bay: as cores explosivas, o cenário da Flórida evocando um verão constante, ou um refrigerador, com luzes e neons dispersos, o estilo de voice-over que remete a uma propaganda da Budweiser e um elenco pronto para entrar em ação.
Sem dor, sem ganho não é, em primeiro lugar, igual à série Transformers, porque aqui existe uma crítica direta ao american way of life, tão direta quanto a sutileza de Bay para abordar este personagem, Lugo, uma espécie de continuação do Psicopata americano de Bale, que pretende ser um “realizador”, uma espécie de novo conquistador dos ideias da América, imaginando um passeio num trator em meio ao campo esverdeado e frequentando cursos de autoajuda de Johnny Wu (Ken Jeong) para a vida pessoal, enquanto trabalha como personal trainer.

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Sem dor, sem ganho

Bay deposita, no início, os lances mais variados de humor, quando Lugo conhece Paul (Dwayne Johnson, o The Rock), um ex-presidiário que tenta se adaptar à vida numa igreja, e Adrian (Anthony Mackie), e tem o plano de extrair o dinheiro de um milionário, Victor Kershaw (Tony Shalhoub), que frequenta a sua academia.
Se o filme basicamente trata de um grupo de fisiculturistas que resolve dar cabo da existência de um dono de lanchonete, seria ainda assim curioso. Mas aumenta a bateria de críticas quando Paul tenta seguir os ensinamentos religiosos e Adrian precisa ir ao médico porque não tem conseguido manter relações sexuais por causa de esteroides que anda tomando e se depara com uma enfermeira, Robin Peck (Rebel Wilson). Bay consegue, de forma eficaz, produzir uma série de críticas de maneira divertida, embora muitas vezes inconsequente, como se trouxesse a conversa dos bastidores para frente da tela. O milionário perseguido é cruel com seus funcionários e ganancioso; ou seja, é um estereótipo. Para um tipo desses, Bay encadeia uma série de fatalidades – algumas desagradavelmente engraçadas, outras excessivas.
Sem dor, sem ganho ganharia muito com um corte substancial na montagem e se pudesse transformar o personagem de Daniel Lugo não apenas em um símbolo da crítica ao american way of life, mas num indivíduo que não fosse como nos filmes de Bay apenas uma figura em cena, do mesmo modo que o excelente Ed Harris como um detetive. Wahlberg consegue trabalhar bem o papel, sendo às vezes perigoso, outras apenas ingênuo, embora de estilo um tanto doentio (como o psicopata americano de Bale). Quem reserva as cenas mais divertidas é The Rock, com uma série de gags engraçadas, embora Bay não lhe dê, ao final, um limite, ultrapassando barreiras, inclusive de guardas. Mas Bay é mestre em ultrapassar qualquer limite: seus filmes sempre parecem durar o dobro de tempo, pelos cortes que ele vai imprimindo, com situações ostensivamente longas (aquelas que envolvem o milionário, principalmente, embora Shalhoub seja um ator no mínimo interessante, têm uma dezena de minutos a mais). Em Sem dor, sem ganho, não basta ele fazer com que uma stripper, Sorina (Bar Paly), imagine pertencer à equipe da CIA, mas explorar toda a sátira possível a respeito disso, assim como colocar as mulheres obviamente apenas interessadas em dinheiro e plásticas e os policiais da Flórida como avessos a qualquer pessoa que venha da Colômbia. O universo de Bay, entre o machismo e o preconceito contra a presença feminina, se volta contra o seu próprio filme: ele é seu maior crítico aqui.

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É exatamente este elemento que extrai a energia que poderia haver – e certamente há em muitos momentos – de Sem dor, sem ganho, com sua sequência de cenas com a bandeira dos Estados Unidos e uma sátira incessante. Ainda que com escolhas problemáticas, Bay consegue desenhar um retrato de determinado universo contemporâneo, que valoriza os ideias de beleza física, colocando, inclusive, o figurino dos personagens a serviço de um ganho narrativo, para cenas de humor visuais. Ao mesmo tempo em que os cortes na verdade desaceleram a história, dando ao filme uma camada de cenas muito grande e variada, Bay consegue empregar, pelo menos até determinado ponto, a voice-over de maneira correta, dando uma quebra a determinadas cenas de modo engraçado. Que ele não consiga manter isso, a partir da metade e sobretudo no terço final, é justamente em função da montagem, não dando um desfecho razoável a uma quantidade de cenas muito bem feitas, embora cada vez mais se assemelhem a um videoclipe extenso, como é característico de sua filmografia. No entanto, comparado a outros filmes recentes (como Spring breakers e Bling Ring) com elementos de sátira, Sem dor, sem ganho tem uma qualidade, embora não o torne exatamente diferenciado: é aquele que menos se leva a sério.

Pain and gain, EUA, 2013 Diretor: Michael Bay Elenco: Mark Wahlberg, Dwayne Johnson, Anthony Mackie, Ken Jeong, Rebel Wilson, Ed Harris, Rob Corddry, Tony Shalhoub Produção: Donald De Line, Ian Bryce, Michael Bay Roteiro: Christopher Markus, Stephen McFeely Fotografia: Ben Seresin Trilha Sonora: Steve Jablonsky Duração: 129 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Platinum Dunes

Cotação 2 estrelas e meia

 

Ted (2012)

Por André Dick

Depois de arrecadar uma grande bilheteria nos Estados Unidos, chegou aos cinemas brasileiros a comédia Ted. A presença de Mark Wahlberg e Mila Kunis no elenco já mostram, de antemão, que não se trata de uma comédia despretensiosa, trazendo um casal que, de certo modo, apareceu em filmes de destaque nos últimos anos – Wahlberg em O lutador, Os infiltrados, e Mila, em Cisne negro. No entanto, diante de um filme como Ted, quase tudo poderia ser previsível: ele apresenta a história de um menino, John Bennett, que sofre preconceito dos amigos e, no Natal, faz um pedido: quer que o urso de pelúcia, seu presente, a quem chama de Teddy, ganhe vida e seja seu amigo real, o que acaba acontecendo. Vinte e sete anos se passam, e John (Walhberg) cresce, mas sempre acompanhado pelo ursinho, mesmo tendo uma namorada, Lori Collins (Mila). Trata-se de um argumento que não poderia render mais do que um passatempo, sobretudo se víssemos que o ursinho irá contracenar quase o tempo todo com outros humanos, além do seu amigo – sem que ninguém considere isso surpreendente. No entanto, esta comédia de Seth MacFarlane (autor de Uma família da pesada), narrada esporadicamente por Patrick Stewart – dando a ela um tom natalino e pueril, quando, na verdade, é ao contrário – mostra que com argumentos risíveis pode-se fazer uma diversão que, com um tom sem compromisso, acaba mostrando uma dose de relacionamento que não estamos mais acostumados a ver.
John é um personagem que não consegue sair da sua infância e trabalha com locação de carros, em que o gerente julga o máximo ter como cliente Tom Skerrit (numa das menções do filme a Top Gun), e não consegue estabelecer uma relação adulta com a namorada, sempre assediada pelo chefe – uma espécie de pseudoexecutivo colecionador de raridades, algumas escatológicas –, em razão de Ted, que é justamente o motivo para que isso aconteça. Criados com o mesmo medo de trovões – a cena em que vivenciam isso é hilariante –, eles também são fanáticos por séries (Cheers) e filmes (Flash Gordon, Apertem os cintos, o piloto sumiu) dos anos 1980. Ou seja, se o filme começa em 1985, é justo que a relação dos dois tenha se baseado justamente na cultura desta época – e hiberbado nela. O personagem é um misto de ursinho de pelúcia (dos que dizem “Eu te amo”) com Charlie Harper, e é nisto que a comédia justamente se baseia, uma espécie de Esqueceram de mim dentro do cenário de Two and a half men. Ted, na verdade, apesar de aparentar ser amoral (em seus vícios por drogas e prostitutas), também valoriza a amizade e ter uma família, embora, no caso, a de John não apareça depois do início. O diretor brinca com esses elementos da maneira mais divertida, quando, no início, ao dia seguinte do Natal, Ted chega na cozinha para ver os pais de John, e o pai pergunta, assustado, onde está a sua arma. Depois de mostrar a recepção a Ted durante anos, na mídia, ele já aparece no sofá, com John, conversando, usando drogas e atrasando-o para o trabalho. A namorada de John quer que ele abandone Ted, a fim de que possa finalmente se tornar adulto, e o filme acerta em não torná-la uma inimiga de Ted, o que seria previsível; pelo contrário, ele está sempre preocupado em agradá-la, a fim de não perder o amigo.
É interessante como MacFlane consegue extrair os melhores elementos de comédias superficialmente grosseiras, como O virgem de 40 anos e Missão madrinha de casamento, para mostrar a relação humana e a tentativa de a vida adulta representar uma ameaça ao significado da infância. Para o diretor, é justamente Ted a única possibilidade de John não ingressar não apenas na vida adulta (o que acontece também com o personagem de Steve Carell em O virgem de 40 anos, cercado de bonecos dentro de suas caixas originais), mas no universo cultural em que o diretor tripudia, que vai de Justin Bieber a Katy Perry (que rende uma das melhores partes do filme, com outra cantora). Para John e Ted, assistir os atores de Cheers falando mal um do outro; ou Flash Gordon enfrentando seu inimigo, ao som de Queen, vale mais do que horas no emprego e do que os cerca. Ted é um cinéfilo, capaz de desenhar a influência que teve Flash Gordon na vida dele e de John Bennett – o que poderia ser um elemento apenas descartável, mas que acaba encaixando bem no filme. E de se comparar ao androide Bishop (Lance Henriksen), de Aliens – O resgate, em dois momentos bem feitos – numa festa em que traz metade do bairro para dentro do seu apartamento e outro num estádio de futebol. E a relação deles é autêntica – e se revela ainda mais quando aparece um pai (Giovanni Ribisi), que deseja dar o urso a seu filho (Aedin Mincks) – em sequências que se situam num universo mais estranho e ameaçador, indefinidos entre a ingenuidade e a violência contida. É neste momento que a demasiada fama precoce de Ted acaba por envolvê-lo com um maluco infantil.

Impressiona  como o diretor, que estreia no cinema, ao utilizar computação gráfica aprimorada (em motion picture), consegue fazer um Ted convincente, que parece realmente contracenar com todos do elenco, sobretudo nas cenas em que confronta outros atores. E, por meio de recursos limitados (como a expressão dos olhos e das sobrancelhas, além da voz desbocada, feita pelo próprio diretor), Ted acaba ganhando vida imprevisível. Uma das melhores sequências do seu humor é quando ele está chegando a seu próprio apartamento, segurando algumas caixas com drogas e falando do ambiente, no entanto é nos diálogos (grosseiros, é verdade) com o dono do supermercado do qual insiste em tentar ser demitido que ele acaba ganhando um tom ainda mais natural. No entanto, ao mesmo tempo em que parece ser amoral e corrosivo, ele adota atitudes de recuo às suas próprias, o que acaba por torná-lo, mais do que um personagem de CGI, em algo humano, muito parecido com o Alf (referenciado algumas vezes), embora mais convicente.
Tanto Wahlberg quanto Mila Kunis contracenam com Ted de maneira que nos convencem da interação, caso contrário certamente o filme se perderia. Mais do que isso, eles tornam um filme que poderia se situar no limiar do grosseiro em uma fábula corrosiva do universo contemporâneo. O diretor não está interessado em contemplar a distância temas que podem soar mais agressivos, mas nunca passa para o terreno do mau gosto, o que faria por se perder o tom que pretende imprimir, de algo ao mesmo tempo pueril e mundano. Nesse sentido, o urso de pelúcia acaba sendo um símbolo para esse limiar, e um símbolo inesperado, mesmo porque ele costuma ser ligado apenas a um universo infantil. E seria um tanto deslocado imaginar que ele está lá simplesmente para mostrar que o adulto não quer deixar de ser criança: ele parece mostrar mais por que o adulto necessita de uma compensação infantil para esconder sua própria precariedade.

Ted, EUA, 2012 Diretor: Seth MacFarlane Elenco: Mila Kunis, Mark Wahlberg, Giovanni Ribisi, Jessica Stroup, Patrick Warburton, Seth MacFarlane, Joel McHale, Laura Vandervoort, Melissa Ordway, Aedin Mincks, Ralph Garman, Ginger Gonzaga, Alexandra East Produção: Jason Clark, John Jacobs, Seth MacFarlane, Scott Stuber, Wellesley Wild Roteiro: Seth MacFarlane, Alec Sulkin, Wellesley Wild Fotografia: Michael Barrett Trilha Sonora: Walter Murphy Duração: 106 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Media Rights Capital / Universal Pictures / Fuzzy Door Productions / Bluegrass Films / Smart Entertainment

Cotação 3 estrelas e meia