1917 (2019)

Por André Dick

Em 1999, o diretor inglês Sam Mendes estreava na direção com Beleza americana, sobre um pai de família descontente com o casamento que resolve deixar seu emprego para tentar uma volta à adolescência. Ele tem uma filha, admirada por um jovem vizinho sempre em conflito com o pai. Este fio de história não esclarece o que acontecerá, mas guarda um senso estranho de visão sobre a sociedade norte-americana. E já guarda uma ideia de guerra (entre familiares) que tomaria proporções diferentes na carreira do cineasta: sob a ótica dos gângsteres (Estrada para perdição), de um casal (Foi apenas um sonho) e mesmo militar (Soldado anônimo). Esta ideia de guerra (desta vez contra o terrorismo) foi explorada literalmente por Mendes em seus dois 007, alguns dos melhores de toda a série, e regressam em 1917.

Com o auxílio notável da fotografia de Roger Deakins, querendo adotar um plano-sequência com poucos cortes evidentes, Mendes coloca o espectador num campo de batalha da Primeira Guerra Mundial. Um jovem cabo, Blake (Dean-Charles Chapman), é chamado pelo General Erinmore (Colin Firth), a fim de levar uma mensagem ao Segundo Batalhão do Regimento de Devonshire. O aviso a ser transmitido  para o tenente Joseph Blake (Benedict Cumberbatch) é de que as tropas inglesas não devem avançar num terreno determinado, arriscando a vida de mais de 1.600 homens, porque isso seria uma cilada dos alemães. O soldado escolhe como parceiro de missão o amigo Schofield (George MacKay).
E esta premissa é motivo para Mendes exercer uma proeza técnica junto com Deakins numa tentativa de plano-sequências semelhante àquela que Iñárritu empreendeu com Emmanuel Lubezki em Birdman. Se no filme do cineasta mexicano esse plano se passava nos bastidores de um teatro da Broadway, e às vezes ia para as ruas de Nova York, Mendes filma os dois soldados caminhando em trincheiras e cenários devastados de guerra, até descampados.

Isso, no início, é bastante funcional, principalmente quando Mendes empreende alguns diálogos perto de uma fazenda perdida em meio ao cenário de guerra e, finalmente, depois de uma sequência fortíssima, aos poucos o filme vai retrocedendo até que a proeza técnica se constitua em si quase o único atrativo.
Não ajuda o fato de haver tão poucos diálogos para os personagens centrais, nem que as participações especiais se sintam engessadas, pelo formato, o que não acontecia em Birdman – quando a câmera de Lubezki buscava a expressão dos personagens e o plano-sequência, como em 1917, era um truque técnico, e muito bem realizado. Por meio de um design de produção meticuloso de Dennis Gassner, Mendes, de qualquer modo, insere o espectador a um cenário de Primeira Guerra, evocando em seus melhores momentos O resgate do soldado Ryan e Nascido para matar, além de Glória feita de sangue, os dois últimos de Kubrick, além, evidentemente, de Dunkirk, de Nolan (e, como este, 1917 é para ser visto na tela grande, com o melhor som possível, mas com o critério de que isso não torna um filme isento de falhas).

Mendes gosta muito de lidar com personagens que se sentem desamparados no mundo. Em Beleza americana, eles estavam perdidos, mas isso fazia com que, em algum momento, tentassem se encontrar. O roteiro ia delineando essas figuras com algum interesse pelo seu fim, sobretudo o vizinho, que filma um sacola voando ao vento. A violência em sua casa é apenas para o jovem que não pode se mover, sob o silêncio da mãe. Na outra, a mãe, trabalhando com vendas de imóveis, quer envolvimentos fora do casamento. Em 1917, a figura da mãe é decisiva para compreender a intimidade dos dois personagens centrais – e, mesmo distante, é afetuosa.
Para Mendes, o enfrentamento continua representando um pesadelo, e Beleza americana, ao contrário das belas rosas vermelhas que mostra (dialogando com David Lynch), apresenta mais espinhos. Em seu filme de guerra, os jovens soldados tranquilos embaixo de uma árvore, tendo ao fundo uma paisagem cheia de flores ao fundo, logo estão em meio ao barro, lama, cinza e marrom dos uniformes. Não há vida para Mendes aqui a não ser o heroísmo dos personagens. Ele também mostra uma árvore seca em meio à paisagem desolada num determinado momento, mostrando a progressão da narrativa. O que falta a Mendes, no entanto, apesar de uma sequência-chave angustiante, seguida de outra mais adiante depois de uma passagem de tempo que contraria a tentativa de realismo da narrativa (e, particularmente, me tirou em parte do filme, pois não tem a ver com o seu objetivo central) é justamente uma emoção: em certos momentos os personagens parecem, por meio de diálogos, reproduzirem etapas de um jogo: “Você quer voltar?”, pergunta um deles, aos 30 minutos do filme. Ou: “Eu preciso chegar a determinado lugar em X tempo”.

Boa parte dos poucos diálogos é excessivamente expositiva, mesmo que não se desprendam da realidade – e uma entrada numa das passagens escuras é notável. Do mesmo modo, algumas soluções se revelam apressadas demais e, pela dificuldade da filmagem, os atores dão a sensação de insegurança em expressar de maneira mais enfática seus diálogos, com o risco de terem de refilmar o que fizeram (embora antes tenham acontecido, claro, cortes que a montagem esconde). Ainda assim, Chapman (que faz o irmão de Chalamet em O rei) e MacKay (a grande revelação de Capitão Fantástico) são bons atores e fazem o possível com o roteiro. A trilha sonora de Thomas Newman no início é discreta e eficiente, no entanto aos poucos vai se tornando intrusiva e tentando impor uma emoção difícil de ser notada. E, finalmente, há uma sequência impecável de batalha, mas que indica o mais falho em 1917: a necessidade de chama a atenção para a câmera de Deakins, com um soldado correndo de maneira a ressaltar o que se passa ao fundo. É magistral do ponto de vista técnico; como função narrativa, é evidentemente forçoso. A ação se baseia basicamente em corridas, para que a câmera possa ir atrás dos personagens – no início funciona, depois cansa. A passagem de tempo se torna estranhamente sem ritmo, como se fosse um encadeamento apenas de passagens que precisassem retratar a guerra, porém sem qualquer contato verdadeiro com as situações, tornando-se tudo muito ligeiro e até sem criar expectativa.
De certo modo, 1917 é um filme que pela técnica merece ser visto e apreciado em escala, no entanto parece estar longe de mostrar o melhor de Mendes e Deakins em termos de funcionalidade narrativa Como virtuose, este talvez seja o auge deles– como artistas, possivelmente lhes falte ainda outro projeto mais interessante. 1917 está muito interessado em demonstrar técnica quando lhe falta um pouco de originalidade e um roteiro não tão focado apenas na ação de seus personagens.

1917, EUA/ING, 2019 Diretor: Sam Mendes Elenco: George MacKay, Dean-Charles Chapman, Mark Strong, Andrew Scott, Richard Madden, Claire Duburcq, Colin Firth, Benedict Cumberbatch Roteiro: Sam Mendes e Krysty Wilson-Cairns Fotografia:Roger Deakins Trilha Sonora: Thomas Newman Produção: Sam Mendes, Pippa Harris, Jayne-Ann Tenggren, Callum McDougall, Brian Oliver Duração: 119 min Estúdio: DreamWorks Pictures, Reliance Entertainment, New Republic Pictures, Mogambo, Neal Street Productions, Amblin Partners Distribuidora: Universal Pictures (Estados Unidos), eOne (Reino Unido), Reliance Entertainment (Índia)

Shazam! (2019)

Por André Dick

Dos mais recentes projetos de super-heróis, talvez o mais improvável seja Shazam! Depois de ter seu roteiro circulando por vários anos, certamente o sucesso de Deadpool abriu espaço para mais um personagem do gênero com tom cômico. Além disso, a Warner/DC vem, desde Mulher-Maravilha, adequando seus filmes mais ao público juvenil, embora não se deva subestimar a presença do idealizador do universo expandido da companhia no cinema de Zack Snyder. Assim como o filme de Jenkins, tanto a versão em conjunto com Joss Whedon de Liga da Justiça e Aquaman possuem vários pontos de contato com o estilo de Snyder, ao contrário do que repete quase em uníssono a crítica, como se a visão dele fosse intrusa. Aquaman, apesar das escolhas de James Wan, e o novo Shazam!, com seu apelo infantil, são parte de uma mesma visão.

Dirigido por David F. Sandberg, que realizou dois sucessos de bilheteria, Quando as luzes se apagam e Annabelle – A criação do mal, Shazam! tem elementos que recorrem ao clima oitentista e à história de Quero ser grande, com Tom Hanks, assim como várias cenas assustadoras e elementos tão soturnos (ou ainda mais) que qualquer momento de Batman vs Superman, embora por trás haja uma validação familiar mais propensa ao público juvenil e um clima natalino aparentemente inofensivo, rendendo até uma brincadeira com a figura do Papai Noel.
Ele tem como vilão Thaddeus Silvana (Ethan Pugiotto), que em 1974 foi levado para a Rock of Eternity, onde conhece Shazam (Djimon Hounsou), e se encontram estátuas que remetem aos sete pecados capitais, a fim de que possa ser testado, em momentos que remetem a O cristal encantado. No entanto, ele falha. Anos depois, na Filadélfia, Billy Batson (Asher Angel) é preso na busca por seu pai, aos 14 anos. Ele é adotado pela família Vasquez, Victor (Cooper Andrews) e Rosa (Marta Milans), e vai morar numa casa em que divide o quarto com Freddy Freeman (Jack Dylan Grazer), um admirador dos super-heróis da DC. Nela, também moram Mary Bromofield (Grace Fulton), Eugene Choi (Ian Chen), Pedro Peña (Jovan Armand) e Darla Dudley (Faithe Herman).

Num determinado momento, ele conhece o mesmo Shazam que havia dado uma oportunidade a Silvana, que cresceu e se transformou numa ameaça da área científica (Mark Strong, prosseguindo com vigor seu papel de vilão em John Carter) – e é escolhido como seu oponente, depois de uma cena fantástica num metrô e de ajudar seu amigo Billy na escola. Como em Quero ser grande, é Billy que passa a ajudá-lo a encarar o fato de que, quando ele diz a palavra Shazam, ele se torna um super-herói de mais idade (Zachary Levi). De modo geral, é possível entender que o universo compartilhado da DC se movimenta mais por temas, como deveria ser, e não por referências a personagens que soam intrusivos em tramas diferentes, como a própria ausência da família original que vemos também em outros super-heróis da companhia, a exemplo de Superman, Batman e Aquaman. Mas cada um funciona num plano: a questão é que os filmes de Snyder para Batman e Superman lidam com figuras deslocadas de uma maneira dramática, o que não necessariamente funciona para os demais. De qualquer maneira, sua paleta soturna se repete em todos os filmes, em alguns mais e em outros menos, e Shazam! praticamente a utiliza de ponta a ponta, com exceção para poucas sequências (como a mais engraçada, envolvendo um ônibus).
É Levi certamente o primeiro motivo para Shazam! funcionar tão bem. Com um timing preciso de humor, ele, por meio de um roteiro ágil de Henry Gayden, não segue o curso de Ryan Reynolds, mas se mantém num plano mais ingênuo, de descoberta sobre super-poderes e com uma despretensão que remete aos melhores momentos de Superman, nos anos 70, embora mais leve. A cena que se passa numa loja de brinquedos utiliza uma comicidade certamente mais orgânica do que até mesmo o primeiro Homem-Formiga, uma referência do gênero na dissolução entre ação e comédia. E ele faz lembrar o quanto é lamentável achar que o gênero de super-herói deve funcionar com ação entreameada por elementos cômicos: ao usar muita sátira, principalmente com a série Rocky, quando o que é engraçado é justamente um campo de ingenuidade. Isso com a colaboração essencial de Jack Dylan Grazer, como um adolescente fisicamente debilitado, porém com vontade de ajudar o amigo a entender seus novos poderes.

No entanto, não se deve subestimar a direção de Sandberg, que tem muita noção de elementos da história do cinema. Quando as luzes se apagam, por exemplo, tem muito dos filmes de Dario Argento, na utilização de cores, e o segundo e subestimado Annabelle remete aos exemplares da série Psicose dos anos 80, com uma cadeia de sustos impressionante e precisa, apesar de utilizar diversos lugares-comuns. Ambas as peças de Sandberg podem se sentir igualmente como episódios estendidos da série Além da imaginação ou uma peça de Creepshow dos anos 80 – de forma competente, não como no recente Nós –, mas se sustentam mais no seu diálogo visual e na temática de relacionamento familiar. Sandberg tem realmente noção de estética, não dependendo de produtores para colocá-la em prática, utilizando pouco CGI e ótimos efeitos visuais. Shazam! é um dos filmes mais bem resolvidos no campo, parecendo uma espécie de parque de diversões noturno, e suas influências no terceiro ato vão da série Harry Potter a Matrix revolutions. O uniforme do super-herói poderia ser kitsch, no entanto ele funciona de forma exata em meio a esse clima de mansão mal-assombrada ou trem fantasma em que se convertem alguns momentos com uma violência inesperada, remetendo principalmente ao curta-metragem de Sandberg que deu origem a Quando as luzes se apagam. Há uma série de gags que também se direcionam mais ao público adulto, nunca menosprezando também o público mais novo, além de ser uma surpresa de Sandberg o talento para cenas de ação bem encadeadas, visto que não é seu gênero de surgimento.

Shazam!, EUA, 2019 Diretor: David F. Sandberg Elenco: Zachary Levi, Mark Strong, Asher Angel, Jack Dylan Grazer, Djimon Hounsou, Cooper Andrews, Marta Milans, Grace Fulton, Ian Chen, Jovan Armand, Faithe Herman, Ethan Pugiotto Roteiro: Henry Gayden Fotografia: Maxime Alexandre Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch Produção: Peter Safran Duração: 132 min. Estúdio: New Line Cinema, DC Films, The Safran Company, Seven Bucks Productions, Mad Ghost Productions Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Armas na mesa (2016)

Por André Dick

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O diretor britânico John Madden conseguiu arrebatar vários Oscars em 1998 por Shakespeare apaixonado e, desde lá, procura acertar de novo um filme que possa ser indicado ao prêmio, em projetos como O capitão Corelli e O exótico Hotel Marigold. Em Armas na mesa, isso não aconteceu, mas seu estilo é visivelmente projetado para isso. É interessante como Madden vai mudando o estilo de acordo com cada projeto, não tendo exatamente uma referência dramática capaz de estabelecer um elo, embora o trabalho com a parte técnica seja sempre competente.
A atriz Jessica Chastain interpreta Elizabeth Sloane, a lobista mais conhecida em Washington, conhecida por sua ambição, e cada gesto dela tenta deixar isso claro. Tendo como parceiro Rodolfo Schmidt (Mark Strong), que a procura para combater a companhia onde trabalha, muito maior, ela se torna figura-chave numa discussão sobre uma votação que envolve congressistas do Senado e uma lei que visa ao controle de quem usa armas. Toda sua equipe a segue, menos Jane Molloy (Alison Pill), que parece tão ambiciosa quanto ela. A cultura norte-americana voltada ao armamento, tema já usado no conhecido documentário de Michael Moore Tiros em Columbine, é exposta de maneira a criar um diálogo com o próprio comportamento dos personagens: todos buscam um alvo, direto ou indireto.

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Do lado contrário, estão George Dupont (Sam Waterston), seu antigo chefe, que queria que ela fizesse lobby para as mulheres sobre o tema, Pat Connors (um interessante Michael Stuhlbarg) e o Senador Ron M. Sperling (John Lithgow), que tenta condená-la por tentar obter votos de maneira proibida. O diretor Madden tenta trabalhar a figura de Sloane de maneira complexa, contudo Chastain, uma atriz reconhecida por seu talento e suas nuances, se mostra um pouco overacting desde o início, excessivamente hiperativa, embora este seja o objetivo do personagem. Sua personagem, paradoxalmente, é excessivamente fria e pouco empática e ela não consegue desenvolvê-la como o faz Isabelle Huppert, por exemplo, em Elle, tampouco como surge em O ano mais violento (com um estilo visual, inclusive, parecido), sendo a primeira atuação realmente questionável do talento de Chastain, exibido desde sua estreia para as grandes plateias em A árvore da vida. Chastain sempre teve como principal elemento um misto de nervosismo com tranquilidade, o que a fazia tão viva em projetos como A hora mais escura. No entanto, ela precisa de um certo apoio do roteiro para realmente brilhar em Armas na mesa, o que falta em alguns momentos, e mesmo que a simbologia sustente a trama (os espelhos, o quarto vazio) tudo demora a fazer mais sentido.

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É quando ela se mostra mais vulnerável e complexa que o filme cresce, principalmente na sua relação com um jovem que acompanha mulheres, Forde (Jake Lacy), e com uma jovem chamada Esme (Gugu Mbatha-Raw), que ela tenta utilizar para tratar do tema de armamento. Quando, curiosamente, a narrativa apresenta menos diálogos e é mais introvertido que funciona. A partir desse ponto, seu comportamento, antes cercado por câmeras e discussões, jantares tentando contentar a políticos e encontros furtivos à noite, passa a ser visto como, inclusive, melancólico. O diretor perde a oportunidade de desenvolver mais a subtrama com Forde, reduzindo tudo a um choque entre identidades que se procuram sem a certeza de que se encontram uma na outra.
Madden utiliza um belo trabalho de fotografia de Sebastian Blenkov para mostrar os bastidores de Washington e a maneira como Sloane trabalha, em conflito com seus companheiros de equipe e sempre de forma ambiciosa, mas o mais curioso é que em nenhum momento se esclarece por que ela se predispõe a esse papel. A atuação de Chastain em conjunto com Mark Strong não tem a força que exibiam em A hora mais escura, embora renda bons momentos, naqueles em que o roteiro de Jonathan Perera encadeia diálogos e conflitos entre os personagens e a montagem de Alexander Berner, que realizou o feito de realizar aquela de Cloud Atlas para as irmãs Wachowski e Tom Tkywer, encubra muitas pistas com grande efeito.

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Armas na mesa também apresenta características que o aproximam de alguns filmes dos anos 70, em que havia conspirações políticas agindo nos bastidores de um tema visto por todos e entendido por poucos, por exemplo em A trama e Três dias do Condor, nos quais os bastidores da política se convertiam na perseguição a um determinado indivíduo, de maneira não muito clara. Em sua primeira parte, ele é particularmente confuso, alternando cenários das agências e jantares com congressistas, sem, no entanto, se perder quando passa para a vida solitária de Sloane. O que é mais perturbador nesse projeto é como Madden em alguns momentos realmente retrata a solidão existente em Washington, mesmo diante de mudanças que levariam a uma drástica reviravolta na sociedade. Assim, Armas na mesa realmente, em alguns momentos, capta a atmosfera de Washington e a pressão dessas equipes trabalhando contra o tempo para aprovarem determinadas leis. Trata-se de uma obra em parte desagradável, porque o espectador não tem exatamente pelo que torcer, e em parte instigante, à medida que trata de um tema bastante interessante e propício a debates.

Miss Sloane, EUA/FRA, 2016 Diretor: John Madden Elenco: Jessica Chastain, Mark Strong, Gugu Mbatha-Raw, Alison Pill, Michael Stuhlbarg, Jake Lacy, Sam Waterston, John Lithgow Roteiro: Jonathan Perera Fotografia: Sebastian Blenkov  Trilha Sonora: Max RichterProdução: Ariel Zeitoun, Ben Browning, Kris Thykier Duração: 132 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Transfilm

cotacao-3-estrelas

A hora mais escura (2012)

Por André Dick

A hora mais escura.Filme.Jessica Chastain

Antes de Guerra ao terror, que lhe rendeu o Oscar de melhor diretora e o de melhor filme, a cineasta Kathryn Bigelow nunca havia recebido grande atenção, mesmo tendo uma obra de terror comentada nos anos 80 (Quando chega a escuridão) e outra de ação no início dos anos 90 (Caçadores de emoções). A sua competência como diretora começou a ser reconhecida sobretudo por lidar com um sentimento norte-americano que passou a vigorar depois do terrível atentado às duas torres do World Trade Center, em 2001: o receio de novos ataques. Se Guerra ao terror não era um grande filme, era de se esperar que A hora mais escura viesse no mesmo rumo, pois é quase uma continuação daquele, no sentido de ser semidocumental, embora situado dentro do universo investigativo da CIA. Este é um dos motivos pelo qual o filme vem gerando grande polêmica nos Estados Unidos. Discute-se que Bigelow e seu roteirista, Mark Boal, tiveram acesso a informações confidenciais sobre a operação militar que levou a Osama bin Laden. Associado a isso, sofrem críticas as cenas de tortura que introduzem o filme, logo depois de vozes do 11 de setembro, que lembram o documentário Fahrenheit 11/9, de Michael Moore.
É difícil assistir a essas cenas, que transcorrem, com algumas pausas, durante a primeira meia hora. Ou seja, se havia uma possibilidade de se atenuar as tentativas de descobrir onde Bin Laden estava, ela logo desaparece, para dar entrada ao torturador, Dan (Jason Clarke), capaz, mais adiante, até de compartilhar um cigarro com uma de suas vítimas, Ammar (Reda Kateb, em interpretação impressionante). A maneira como Bigelow filma essas sequências, alternando a escuridão do ambiente, com a luz da porta que se abre, ou do teto, e mesmo das luzes acesas no rosto do torturado, conduzem o espectador a um universo que não gostaria certamente de conhecer – universo repleto de black sites, tendo num deles jaulas de prisioneiros dividindo espaço com uma de macacos.
Dito isso, A hora mais escura, embora em nenhum momento se constitua em diversão de Hollywood, não se concentra em tais cenas – mais um retrato desalentador dos fatos do que uma condescendência –, preferindo mostrar os passos da agente Maya (Jessica Chastain) atrás do homem que pode ser o informante de Bin Laden. Ela chega a um escritório coordenado por Joseph Bradley (Kyle Chandler, parecendo fazer quase o mesmo papel de Argo) e faz amizade com Jessica (Jennifer Ehle, parecida com Meryl Streep, mais jovem), sendo assessorada também por Jack (Harold Perrineau). Maya assiste às primeiras cenas de tortura incólume, inclusive pesquisando-as em seu escritório, e mais adiante participa diretamente de outra. Com isso, Bigelow tem a pretensão de considerá-la como parte direta daquele universo, no sentido de tomada de ações, fator para que o filme se torne mais real. A hora mais escura é também a hora da personagem: ela não coloca obstáculos para sua perseguição ter êxito. Do mesmo modo, ela é identificada por Bradley como “assassina”, quando Dan diz que ela parece muito nova para a função. Para Maya, os obstáculos são os outros, e talvez esta parte seja a menos verossímil de A hora mais escura. Sabe-se da tentativa, por anos, de se encontrar Bin Laden, mas no filme, em muitos momentos, tem-se a impressão de que Maya estava agindo quase sozinha, ou assessorada por poucas pessoas, além de receber a desconfiança de um superior decisivo – Leon Panetta (James Gandolfini) – e de George (Mark Strong), diretor de divisão da CIA, para que a ação tenha uma finalidade. De certa forma, esta escolha pela descontextualização atinge a questão ligada aos árabes. A política nunca é suscitada explicitamente, permanecendo nas entrelinhas, assim como a tensão real pode não se dissipar simplesmente com o fato de haver o intermédio de um Lamborguini.

A hora mais escura.Jessica Chastain.Filme 2

A hora mais escura.Imagem.Filme

De qualquer modo, seja pela captura de imagens, por meio da fotografia notável de Greig Fraser, Bigelow nunca faz a narrativa descansar. Ela mostra alguns atentados ocorridos desde o 11 de setembro com realismo, mesclando-os com imagens reais. Ou seja, aqui a Guerra ao terror se espalha justificadamente pelo mundo (e temos locações na Polônia, no Paquistão, no Iraque, na Inglaterra). As tomadas do filme são impressionantes, sobretudo quando a câmera é colocada à distância de pontos-chave, mostrando um céu azul que cria uma ligação com as cores das frutas de beira de estrada, no momento da procura ao esconderijo de Bin Laden, mas contrasta com tudo que cerca a narrativa. Nesse sentido, temos o centro de observação da casa onde Bin Laden estaria escondido com a mesma estrutura de uma equipe de observação de alguma pesquisa espacial, com o objetivo de colher detalhes, a fim de se ter um olhar mais adequado sobre a ação a ser desencadeada e sobre desvendar o que realmente abriga o local, no entanto já sem nenhuma sensação de conquista. Tudo vai da imensidão dos cenários e do barulho das ruas à restrição e ao silêncio de salas, interrompido por chamadas telefônicas.
Por meio de uma montagem que remete a um thriller, Bigelow obtém a pressão de escritórios, reuniões, discussões, dúvidas e brigas e perseguições cegas, por exemplo, no momento da tentativa de se rastrear ligações públicas em meio a um mercado público, com a participação decisiva de dois investigadores, Larry (Édgar Ramírez) e Hakim (Fares Fares), no que é diametralmente o oposto de Argo, cuja narrativa não trazia quase nenhum conflito entre os personagens e o que havia era propositadamente calculado e pouco efetivo. Em relação a Argo, deve-se dizer também que Maya é uma representação mais próxima da realidade, por isso menos admirável se comparada à postura de Tony Mendez naquele filme, apesar, também, de suas ações serem diferentes. Nesse sentido, Argo é patriótico no sentido de que não há falhas a serem vistas, enquanto A hora mais escura mostra não apenas as falhas, a moralidade ambígua, como também a tentativa de apaziguar um sofrimento inerente a cada uma daquelas figuras que o filme mostra de forma tão realista. Do mesmo modo, enquanto o filme anterior de Bigelow, Guerra ao terror, apresentava uma realidade da forma devastadora possível, A hora mais escura faz o mesmo, mas com uma intensidade maior no sentido existencial – a dor do sofrimento e da perda, do conflito pressionado pela política e por ataques, poucas vezes foi registrado de maneira tão explícita.

A hora mais escura.James Gandolfini

A hora mais escura.Quadro

Isso se deve tanto à presença de um elenco memorável quanto à atuação de Jessica Chastain, atriz que apareceu em três filmes de destaque em 2011, A árvore da vida, Histórias cruzadas e O abrigo. É ela, cuja fisionomia vai da preocupação à indiferença, diante de vários acontecimentos, passando por uma espécie de maldade contida (seu olhar diante de uma explosão vista pela tela do computador), ou de indignação, quando confronta Bradley, colocando ou não o véu para esconder o rosto e se mesclar a uma cultura da qual, indiretamente, faz parte, que traz para A hora mais escura um elemento mais humano, perigoso e próximo para espectador compartilhar suas dúvidas e ressalvas sobre o que está vendo. Em meio a uma cena ao afastamento, ela apoia um All Star sobre a mesa para lembrar algo mais remoto. Mais adiante, o olhar dos fuzileiros para ela, que contrasta com sua importância para o ato final, não é diferente daquela situação que precisa vivenciar para passar despercebida. Quando ouve o elogio de um assistente de que Maya é inteligente, o chefe da CIA diz: “Todos nós somos inteligentes”. Mesmo porque a personagem age num plano em que o político, se existe, nunca revela diretamente sua influência (o filme evita mencionar os nomes de Bush e de Obama, embora se mostre a imagem de ambos pela televisão, em diferentes momentos). Não havendo o político, a sua importância, segundo Bigelow, passa a ser quase nula. Não precisamos saber seu passado, nem se ela tem uma família ou teve interesse em se casar e ter filhos: Maya é um protótipo de isolamento autoimposto, pois ela, para o filme, só possui uma finalidade, a de estabelecer a ligação entre as imagens iniciais e a perseguição capaz de conduzir a um final. E, embora sem retórica, é por meio da presença dela diante do líder da CIA, com sua sombra projetada num quadro com a bandeira norte-americana (com a qual muitos personagens, afinal, contracenam), que se constitui uma voz ausente e presente. Mesmo sendo vital para a operação, ela, na verdade, se constitui numa espécie de distância calculada das autoridades. Percebe-se, no final, que Maya está sempre surgindo da escuridão ou sendo encoberta por ela: suas ações são secretas, não podem ganhar um corpo familiar. Perguntada pela amiga se tem amigos ou namorados ou por Panetta sobre qual é seu passado, Maya entrega apenas o silêncio.
À frente das câmeras de Bigelow, Chastain consegue traduzir o que a diretora trabalha em cada sequência. Se a piada do Globo de Ouro em relação a James Cameron foi mordaz, é verdade que Bigelow conseguiu extrair de Cameron o drama pré-resolução, o nervosismo transmitido pelas hélices de um helicóptero sendo ligadas e um grupo de fuzileiros adentrando o recinto para que se constitua uma missão, ao som, aqui, de mais uma trilha sonora primorosa de Alexandre Desplat. E, ao mesmo tempo em que a última meia hora constitui uma das sequências mais elaboradas do cinema recente, com uma impressionante reconstituição dos fatos relatados superficialmente (mesmo em razão da falta de informações detalhadas) pela imprensa, ela também é das mais melancólicas – e evita, a todo custo, qualquer ação ou elemento patriótico. Neste ponto, tanto Bigelow e Chastain conseguem concentrar, na tomada final, tudo aquilo que A hora mais escura apresenta: a solidão do ser humano, sobretudo diante dos fatos e das primeiras falas ecoando no início, assim como das cenas da tortura. Como, depois disso, apagar o início? Como apagar todas as vozes? Não há como, e é justamente nesse olhar da personagem, de uma memória que persistirá, portanto nunca entrará em descanso pleno, que se baseia, a meu ver, a visão de Bigelow. Depois de tudo, a questão lançada seria o que se ganha, na verdade, com todos os acontecimentos anteriores. Se este filme excepcional deixa perguntas soltas no ar, sem querer decisivamente respondê-las, é justamente porque, como o espectador, dificilmente se conhecerá as verdadeiras respostas.

Zero dark thirty, EUA, 2012 Diretor: Kathryn Bigelow Elenco: Jessica Chastain, Mark Strong, Jennifer Ehle, Chris Pratt, Taylor Kinney, Kyle Chandler, Édgar Ramírez, Reda Kateb, Harold Perrineau, James Gandolfini, Frank Grillo, Fares Fares, Mark Duplass, Stephen Dillane, Jason Clarke Produção: Kathryn Bigelow, Mark Boal, Megan Ellison Roteiro: Mark Boal  Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Alexandre Desplat Duração: 157 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Annapurna Pictures

Cotação 5 estrelas