A chegada (2016)

Por André Dick

a-chegada-3

O diretor canadense Denis Villeneuve vem se transformando num dos nomes mais cultuados do cinema, principalmente desde seu ingresso em Hollywood, com Os suspeitos, seguido por O homem duplicado e Sicario – Terra de ninguém. Antes de lançar a continuação aguardadíssima de Blade Runner, para a qual foi convidado pelo diretor Ridley Scott, Villeneuve apresenta uma ficção científica com roteiro de Eric Heisserer (Quando as luzes se apagam), baseado no conto Story of your life, de Ted Chiang, que vem, desde seu lançamento em Veneza, transformando-se no que foi Gravidade em 2013 e Interestelar em 2014, para não falar no interessante, embora falho, Perdido em Marte em 2015. Todos esses filmes tiveram grande recepção, inclusive indo ao Oscar ou ganhando outros prêmios importantes.
A narrativa já começa em alto movimento, mostrando os passos da linguista Louise Banks (Amy Adams), especialista em tradução, que é procurada pelo coronel Weber (Forest Whitaker) para que possa fazer parte de uma equipe em que se encontra também o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner), a fim de tentar estabelecer contato com uma espaçonave alienígena nos arredores de Montana, onde se montou um grande acampamento militar. Há doze dessas espaçonaves ao redor do mundo, e é inevitável, por mais que esta seja uma ficção arthouse, que A chegada acaba lembrando Independence day involuntariamente. Na verdade, há muitos momentos de A chegada que remetem a outras ficções conhecidas, como Contato, Interestelar e, claro, o clássico Contatos imediatos do terceiro grau. Mais ainda: não apenas pela dupla central, como pela atmosfera, A chegada deve muito a Arquivo X.

a-chegada-16

a-chegada-9

a-chegada-15

Não se está em questão, porém, a originalidade, já que a ficção científica tem passos semelhantes em muitos filmes – para dar um exemplo, Shawn Levy, que produz e dirige alguns episódios de Stranger things, está entre os produtores. Trata-se da pretensão. Em nenhum momento, a fotografia de Bradford Young se contenta com menos do que aparentar ser esta a ficção científica definitiva, e Villeneuve tenta oferecer ares de Solaris a alguns momentos, com toques de 2001, sobretudo quando se mostra a espaçonave. A trilha sonora de Jóhann Jóhannsson procura o mesmo caminho, com um tom grave oferecido a cada momento, acompanhado pelos efeitos sonoros muitas vezes aterradores, sem esquecer uma certa emoção em momentos decisivos.
Villeneuve, no entanto, ao contrário do que acontece em sua adaptação de Saramago em O homem duplicado, não torna essa narrativa aparentemente fácil em algo complexo. Sabemos que a equipe está em Montana para estabelecer esse contato e o que vemos são as tentativas, mas sem o envolvimento com os personagens e sim um afastamento que alguns poderiam chamar de malickiano. No entanto, Malick consegue, por meio de personagens às vezes vagos, constituir um panorama. Parece ser isto o que falta ao filme de Villeneuve, que se sustenta no contato da equipe com os alienígenas, baseado-se na linguagem que eles têm a oferecer para que não soe igual a outros. Este é o contato entre linguagens, seguido pelo possível atrito entre nações diferentes.

a-chegada-5

a-chegada-6

a-chegada-14

A chegada lembra um pouco Prometheus: Villeneuve aproveita elementos daquele (na imponência da espaçonave sobre a montanha, por exemplo, na questão de Deus existir ou não na solidão do espaço sideral e na perda de um ente querido, no caso de Prometheus, do pai da arqueóloga, e no caso de A chegada da filha da linguista). Os efeitos visuais, em alguns momentos, são notáveis, embora os alienígenas, apelidados de Abbott e Costello, pareçam lembrar excessivamente os aracnídeos de O homem duplicado e todo o diálogo com eles ser excessivamente hermético e mostrado ao espectador como se estivesse diante de uma tela de cinema – nesse sentido, é uma ficção também metalinguística. Perceba-se, nesse sentido, como a nave espacial lembra o formato das lâmpadas da casa de Louise e num determinado momento ela parece encarnar o personagem de Gyllenhaal de O homem duplicado, entre o sonho e a realidade. Há momentos de poesia, como aquele em que um dos tentáculos do alien se transforma numa espécie de estrela do mar; no todo, contudo, falta uma variação de cenários, tudo se situando entre a parte interna da espaçonave e o acampamento militar, além de o grande empecilho, o agente Halpern (Michael Stuhlbarg), ser excessivamente previsível.
No elenco, Adams tem uma boa atuação, apresentando uma dramaticidade já vista em DúvidaTrapaça e Grandes olhos, por exemplo. Apesar de sua personagem ser fascinante, ela não atinge o mesmo caminho daquelas que Villeneuve mostrava como principais em Polytecnique e Sicario, esta com uma Emily Blunt na melhor fase de sua carreira. Já Renner é um ator subaproveitado aqui, assim como Whitaker, mesmo que ambos sejam adequados.

a-chegada-4

a-chegada-12

a-chegada-10

Villeneuve é um diretor muito consciente de seu ofício e seus experimentos não raramente evocam de outros diretores: Os suspeitos é um David Fincher mais pop, enquanto Sicario é uma espécie de encontro entre Kathryn Bigelow e Steven Soderbergh, e mesmo o excepcional Polytecnique tem suas bases claras em Elefante, de Gus Van Sant. Ou seja, ele se mostra um diretor com claras referências, embutindo em todos o seu estilo próprio, inconfundível: uma certa lentidão europeia para tratar de temas espinhosos. Quando aqui ele tenta, por um lado, equivaler seu filme a obras-primas do cinema de ficção científica, por outro, acaba não encontrando o tom certo por vezes. É visível o seu desconforto com o roteiro e a tentativa de ser antilinear sem conceder ao espectador o momento certo de adivinhar a reviravolta.
O grande problema parece ser a indefinição de Villeneuve entre a ficção hermética e a mais emocional. Ele mantém o melhor para o ato final, em que convergem sinais de esperança na humanidade e uma delicada lembrança do que significa a ligação entre as pessoas. Há um choque de emoção que quase inexistia antes e, se talvez o filme fosse uma lembrança, ele pudesse crescer na memória. Seu cerebralismo excessivo se contrai quando sabemos que por trás de sua narrativa há esta tentativa de se estabelecer contato com um universo conhecido previamente, mas quando surgem analogias a partir da aproximação humana seu sentimento cresce de maneira incontornável.

Arrival, EUA, 2016 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Michael Stuhlbarg, Forest Whitaker, Mark O’Brien Roteiro: Eric Heisserer Fotografia: Bradford Young Trilha Sonora: Jóhann Jóhannsson Produção: Aaron Ryder, Dan Levine, David Linde, Karen Lunder, Shawn Levy Duração: 116 min. Distribuidora: Sony Estúdio: 21 Laps Entertainment / FilmNation Entertainment / Lava Bear Films

cotacao-3-estrelas-e-meia

As sessões (2012)

Por André Dick

As sessões

Mark O’Brien (John Hawkes) adquiriu poliomielite aos 6 anos de idade e desde então precisa respirar com um pulmão de ferro e ser cuidado por diferentes pessoas em diferentes horários. Além disso, ele é jornalista e poeta e, quando procurado para fazer uma reportagem, que se chamaria “On Seeing a Sex Surrogate”, sobre o sexo de pessoas com alguma deficiência física, logo se interessa em experimentá-lo, o que não chegou ainda a fazer, com 38 anos de idade.
O mote de As sessões, que inicia com uma narração ao estilo de documentário, poderia indicar uma espécie de drama piegas, com todas as notas correntes em outros filmes desse gênero, com raras exceções. Não é o que se vê. Por meio de uma direção competente do polonês Ben Lewin, o filme traz uma notável visão sobre como o corpo pode despertar, para O’Brien, sensações que possam preencher lacunas da própria existência, assim como trazer a sensação de pecado. As sessões implica na tentativa de O’Brien, com a ajuda do Padre Brendan (William H. Macy), que em certo momento parece saído de um filme de Wes Anderson, em tentar lidar com sua criação católica e compreender que pode ter uma experiência sexual sem a necessidade do compromisso, com a ajuda de Cheryl Cohen Greene (Helen Hunt). Ela é uma substituta sexual de Berkley, que o ensinará a ter prazer com o próprio corpo que lhe traz, a princípio, apenas dor física, na dificuldade de movimentos, além da respiração dificultosa. O interessante é a maneira como esse encontro se dá e a sensibilidade que surge dele. Cheryl é casada, mãe de um adolescente, e relata a experiência dia a dia num gravador, para pesquisas posteriores. O’Brien precisa enfrentar sua restrição e seu medo religioso diante do sexo e, para isso, Cheryl passa a também servir de confidente.

As sessões.Filme

As sessões.Filme 3

O diretor, que também teve de enfrentar a poliomielite, evita, a todo custo, tornar os cenários de As sessões como uma extensão das dificuldades físicas de O’Brien. Ou seja, todas as cores se intensificam (dos abajures, das flores, das portas) e mesmo as camisetas que o personagem veste, e não lembro de outro filme se passar em dias tão ensolarados e de céu azul semelhante, além dos ambientes serem, com poucas exceções, luminosos. Mesmo a igreja, que costuma ser retratada como um lugar de cores discretas, resulta com grandes luminosidades e um amarelo intenso e um azul celeste nas imagens e nos símbolos.
Trata-se, na verdade, de uma escolha estética de Lewin, e pode soar como um despiste para um cotidiano ainda mais duro, mais nebuloso, sendo a representação do próprio bom humor com que O’Brien relata sua trajetória, ao mesmo tempo em que não tira do filme sua autencidade elaborada em mínimos detalhes. Não acompanhamos a vida dele, que já foi tema de um curta documentário, em 1997, vencedor do Oscar, Breathing Lessons: The Life and Work of Mark O’Brien, ou seja, As sessões recorta uma experiência específica de sua vida.
Isso dá ao filme, inicialmente, uma lacuna, pois não conhecemos sua família, seu passado (a não ser por algumas imagens), atenuando um sentido de falta de amplitude pessoal. No entanto, por este recorte, Lewin consegue elaborar o personagem da maneira mais humana possível, seja com seu olhar noturno para o gato durante a noite, seus passeios no parque, as idas à igreja e à casa onde se encontra com Cheryl. Sua relação com Amanda (Annika Marks) e Vera (Moon Bloodgood) possui também uma espécie de distanciamento e aproximação calculados, nunca inserindo As sessões numa espécie de análise psicológica definitiva sobre os personagens e nunca colocando as pessoas como necessariamente culpadas ou perfeitas por ajudarem ou não na situação de O’Brien, sobretudo quando o tema são os encontros dele com Cheryl.

As sessões.Filme 4

A amizade com o Padre se desenha rapidamente, por meio do relato de O’Brien sobre mulheres por quem se apaixona, sobretudo aquelas que cuidam dele. Esses relatos contribuem com uma espécie de sentimento agridoce, capaz de o espectador se aproximar do personagem, vendo-o não especificamente sob o ponto de vista dramático nem complacente.  Os sentimentos do personagem central se colocam entre um diálogo e outro e, nesse meio tempo, a narrativa se costura de modo inteligente, parecendo haver uma superficialidade, mas nunca deslizando para o lugar-comuml. O fato de O’Brien querer estender o espaço de suas sessções ao cotidiano, como condição de uma normalidade que deseja, amplia esta sensação de que estamos diante de um drama que consegue costurar os desejos do personagem com a leitura que faz o espectador deles. Apesar de incorrer em alguns clichês e diálogos não elaborados como se esperaria, As sessões detalha como se dá a amizade, a admiração e o amor por meio de um desejo corporal, oferecendo, por meio de elementos a princípio insignificantes, um maior significado tanto à vida quanto aos sentimentos que a governam.
A medida dada ao personagem do padre por William H. Macy é notável. Ator que teve seu auge no período entre Fargo e Magnólia, apresenta quase sempre, como aqui, um desempenho acertado, e o diretor Ben Lewin evita dar a ele um espaço que possa encobrir o de O’Brien, no entanto sem deixar de elaborá-lo satisfatoriamente. Já John Hawkes (que nesta temporada também aparece em Lincoln), foi, de longe, o ator mais injustiçado do ano, esquecido pelo Oscar. Sua atuação é de excelente nível, e temos um sentido dos movimentos de O’Brien e de sua fala pausada de maneira esplêndida. Com o complemento de Helen Hunt, em seu melhor papel desde Melhor é impossível, desde o momento em que se autoriza a fazer uma interpretação sem nenhum receio de como será vista, As sessões segue um caminho raro no cinema norte-americano: o de utilizar um tema que permanece como tabu de uma maneira discreta (não se entenda como um passo atrás do filme em relação à realidade) e afetivamente comovente.

The sessions, EUA, 2012 Diretor: Ben Lewin Elenco: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Moon Bloodgood, Annika Marks, W. Earl Brown, Blake Lindsley, Adam Arkin, Ming Lo, Jennifer Kumiyama, Robin Weigert, Jarrod Bailey, Rusty Schwimmer, James Martinez, Tobias Forrest, J. Teddy Garces, B.J. Clinkscales, Jason Jack Edwards, Rhea Perlman, Daniel Quinn, Jonathan Hanrahan, Gina-Raye Carter, Amanda Jane Fleming, Stephane Nicoli Produção: Judi Levine, Ben Lewin, Stephen Nemeth Roteiro: Ben Lewin Fotografia: Geoffrey Simpson Trilha Sonora: Marco Beltrami Duração: 97 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Rhino Films / Such Much Films

Cotação 4 estrelas