Homem-Aranha – Longe do lar (2019)

Por André Dick

O personagem da Marvel com mais adaptações neste século sem dúvida é o Homem-Aranha. Desde a trilogia exitosa assinada por Sam Raimi, principalmente seus dois primeiros episódios, com Tobey Maguire no papel central, o super-herói conquistou uma legião maior de fãs, que já compreendia aquela dos quadrinhos. Logo depois da terceira parte assinada por Raimi, ele voltou interpretado por Andrew Garfield. Se as duas composições tinham talento, ainda com as presenças de Kirsten Dunst e Emma Stone, pareceu pouco natural que já em 2017 a Marvel trouxesse o reinício da franquia. Sobretudo porque O espetacular Homem-Aranha 2 havia sido um desastre e talvez um sinal de que o personagem mereceria um tempo de espera. Não foi o que aconteceu e Jon Watts dirigiu a nova versão, desta vez com Tom Holland à frente do elenco. Conhecido por sua atuação anterior em O impossível, Holland trazia a faceta mais juvenil, envolvido com problemas de adolescência, que os demais não destacavam com tanta ênfase.

Homem-Aranha – De volta ao lar foi um dos melhores filmes do universo MCU. Não por acaso, havia expectativa para esta segunda parte. Ela inicia com Nick Fury (Samuel L. Jackson) e Maria Hill (Cobie Smulders) no México, investigando uma estranha situação e sendo resgatados pelo misterioso Quentin Beck (Jake Gyllenhaal). Logo a narrativa se transporta para Nova York, na qual alunos da Midtown School of Science and Technology se preparam para viajar à  Europa, sob o comando dos professores Dell (JB Smoove) Roger Harrington (Martin Starr).
Ainda sob o impacto de uma reviravolta em sua vida, Peter Parker continua amigo de Ned (Jacob Batalon) enquanto tem a rivalidade de Flash (Tony Revolori). Ele pretende se declarar à colega Michelle “MJ” Jones (Zendaya). No entanto, fica preocupado com um possível interesse de Happy Hogan (Jon Favreau), colaborador de Tony Stark, por sua tia May (Marisa Tomei, mais presente do que no primeiro).
A primeira estadia é em Veneza, na Itália, numa lembrança de Indiana Jones e a última cruzada, onde Parker e seus amigos terão de enfrentar uma nova situação inesperada e ele vem a conhecer Mysterio (Gyleenhaal), a partir do qual vão se suceder novas reviravoltas. De fundo, a tentativa de Parker de conciliar sua vida com uma pretensão amorosa, cortejada por Brad (Remy Hii), ao mesmo tempo que seu amigo Ned passa a namorar Betty Brant (Angourie Rice).

Talvez o principal peso para o filme seja suceder o excelente Vingadores – Ultimato, em que o universo MCU conseguia o equilíbrio adequado entre drama, comédia e ação. O novo Homem-Aranha se sente como um regresso aos episódios anteriores, mais acessíveis e sem uma certa profundidade na composição de suas imagens. Se o primeiro tinha uma aura juvenil bem desenvolvida, com cores trabalhadas e pouco CGI, este segundo já tenta se adequar a uma certa grandiosidade que víamos nos episódios de Capitão América e Thor, embora com um tratamento descompromissado quando trata de Parker e seus amigos. O humor, no início, é orgânico, como no primeiro, desenhando um universo próximo daquele das peças de John Hughes, mas Watts vai tendo de fazer certas escolhas que não acrescentam muito ao tom da história. É um pouco difícil entender a escolha em situar todos numa viagem, senão por uma fraqueza de roteiro. Ou seja, como esses personagens não se encaixariam num cenário europeu, justifica-se a reunião deles numa viagem com Parker, e por vezes lembra até o raso Eurotrip – Passaporte para a confusão. Nesse sentido, os personagens bem-humorados têm à frente Hogan, numa boa atuação de Favreau, e Revolori, com pouco espaço, e ainda assim bem aproveitado.

O filme trabalha bem as diferentes paisagens – temos ainda Holanda e Inglaterra, por exemplo, ainda que fotografadas de maneira não tão expressiva quanto poderia – e orquestra bem suas cenas de ação, porém parece faltar um certo desenvolvimento em personagens basilares, a exemplo da própria Michelle Jones, apesar de Zendaya atuar bem. Também não parece um acerto o esquecimento de figuras vitais da primeira parte, em roteiro assinado apenas por Chris McKenna e Erik Sommers, fazendo certamente falta Jonathan Goldstein e John Francis Daley, que ajudaram a escrever o anterior e dirigiram A noite do jogo. Num conjunto, Homem-Aranha – Longe do lar funciona bem menos do que a primeira empreitada de Watts. Ele se mantém ainda com momentos destacáveis antes não pelo roteiro e sim pela presença carismática de Holland. Gyllenhaal poderia entregar um personagem mais interessante, embora seja acompanhado por uma cortina de efeitos visuais notáveis (principalmente uma perto do ato final, que dialoga, numa escala maior, com Doutor Estranho). Levando-se em conta a dificuldade de dar continuidade a um universo que atingiu seu filme-chave no fechamento de Vingadores – Ultimato, pode ser que esta é a principal explicação. Sem nunca atingir o desenvolvimento conseguido, por exemplo, no segundo exemplar assinado por Raimi, de 2004, a nova obra dedicada ao super-herói invoca uma nova tentativa de revitalização, com esses atores, contudo com outro direcionamento.

Spiderman – Far from home, EUA, 2019 Diretor: Jon Watts Elenco: Tom Holland, Samuel L. Jackson, Zendaya, Cobie Smulders, Jon Favreau, Martin Starr, J. B. Smoove, Jacob Batalon, Martin Starr, Marisa Tomei, Jake Gyllenhaal, Remy Hii, Angourie Rice Roteiro: Chris McKenna e Erik Sommers Fotografia: Matthew J. Lloyd Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Kevin Feige e Amy Pascal Duração: 129 min. Estúdio: Columbia Pictures, Marvel Studios, Pascal Pictures Distribuidora: Sony Pictures Releasing

Homem-Aranha – De volta ao lar (2017)

Por André Dick

Depois de o Homem-Aranha ser vivido por Tobey Maguire entre 2002 e 2007, na trilogia de Sam Raimi, ainda referencial, e por Andrew Garfield em dois filmes, um de 2012 e outro de 2014, a partir de Capitão América – Guerra Civil temos seu novo intérprete, Tom Holland. Revelado em O impossível, no qual fazia o filho de Naomi Watts num desastre da natureza, e integrante do elenco do ótimo Z – A cidade perdida, Holland reprisa o papel no seu primeiro filme solo, Homem Aranha – De volta ao lar.
A história tem início logo após a Batalha dos Vingadores contra Loki em Nova York, quando a empresa de Adrian Toomes (Michael Keaton), que ajuda a limpar a cidade, é barrada pelo Department of Damage Control (DODC), que constitui uma parceria entre o governo norte-americano e Tony Stark (Robert Downey Jr.). Toomes decide roubar algumas peças de tecnologia das naves alienígenas para fazer seus próprios artefatos. Esse início é um boa retomada da cena de combate da obra de Joss Whedon, quase esquecida em filmes posteriores da Marvel, com exceção de Homem de Ferro 3.

Oito anos depois, Parker é chamado por Stark para participar da luta contra o Capitão América –  e vemos algumas cenas de Guerra Civil filmadas com um celular, parecendo um making of. Pode-se dizer que, a partir daí, o diretor Jon Watts já esclarece seu caminho: este Homem-Aranha é muito mais bem-humorado do que os anteriores. O de Maguire era um tanto melancólico, e funcionava bem, com momentos pontuais de diversão, enquanto o de Garfield se fazia mais próximo deste, com uma certa adolescência em jogo e interesse por esporte (ele andava de skate, por exemplo). Peter Parker estuda na Midtown School of Science and Technology, à espera de um novo chamado para outra missão.
Ele é muito amigo de Ned (Jacob Batalon) e apaixonado por Liz (Laura Harrier), com quem participa do Decathlon acadêmico do Sr. Harrington (Martin Starr, conhecido por suas participações em Freaks and geeks e Adventureland), apesar de incomodado por um colega, Flash (Tony Revolori, de O grande hotel Budapeste). Sua tia, May (Marisa Tomei), nem desconfia que ele usa um uniforme secreto para combater o crime. Nas suas peregrinações atrás de criminosos, o Homem-Aranha se depara com alguns homens de Toomes, usando máscaras dos Vingadores, numa sátira a Caçadores de emoções, de Kathryn Bigelow. Como se trata do sexto filme do super-herói em 15 anos, Watts resolveu não contar novamente sua origem, ou seja, não temos a figura do tio do personagem, mesmo porque esta versão já aparecia na peça dos irmãos Russo.

O diretor encadeia as ligações de maneira muito ágil e descompromissada, tornando o humor orgânico, sem exageros, assemelhando-se, em proposta, a Homem-Formiga, um dos mais bem resolvidos do universo, por misturar naturalmente ação, drama e humor. Há uma influência visível no timing cômico e de ação dos filmes de Edgar Wright, e a impaciência adolescente de Parker é bem dosada por Holland. Sua participação em Guerra Civil se estendia como uma espécie de trailer antecipado para este filme, e havia um certo nervosismo do ator: aqui o nervosismo se converte, em determinado momento, em apelo dramático, e o ator funciona bem, principalmente no embate com um ótimo – embora subaproveitado – Michael Keaton, brincando com Birdman. Perto do semidesastre que foi o segundo filme com Garfield, com seu excesso de vilões e camadas irresolvidas, este se sente uma realização ainda que sem novidades na estrutura bastante eficiente. Ele se encaixa com o restante do universo sem parecer forçado e a participação de Stark não se sente intrusiva, como poderia antecipar o trailer (Downey Jr., aliás, está bem, assim como Jon Favreau, na pele de seu assessor Happy Hogan).

Os quarenta primeiros minutos têm um diálogo com filmes de adolescente recentes, a exemplo de Cidades de papel, com uma participação exitosa de Batalon, como o amigo de Parker, As vantagens de ser invisível e uma brincadeira com O clube dos cinco, de John Hughes – com o Capitão América servindo como uma espécie de guia dos bons valores escolares. Há uma boa solução de romantismo em relação a Liz, embora a atriz, Harrier, não tenha a mesma participação permitida a Kirsten Dunst e Emma Stone, das versões anteriores. Quando o Homem-Aranha procura criminosos, há um misto entre humor e ação bem dosados que faz lembrar o primeiro filme da franquia de Raimi, principalmente na conversa entre habitantes de um bairro (entre eles, Stan Lee). Watts também sabe criar uma boa ambientação, principalmente nas cenas noturnas, com um belo visual destacado pela fotografia de Salvatore Totino. Talvez Homem-Aranha – De volta ao lar comece a parecer repetitivo justamente quando ingresse nas cenas de ação inevitáveis (por vezes exageradas), o que é um problema. Não chega a haver tanta mudança de tom neste Homem-Aranha, mesmo com seis roteiristas, mas principalmente a sequência de embate conclusiva se sente um tanto apressada e sem vibração. Como praticamente o filme se sustenta num diálogo, bem feito, com o humor, a exemplo de Homem-Formiga, ele nunca se sente pesado o suficiente para entendermos que o super-herói está passando por ameaças vigorosas. Isso não prejudica o resultado, certamente um dos mais exitosos do gênero nos últimos anos.

Spider-man – Homecoming, EUA, 2017 Diretor: Jon Watts Elenco: Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Marisa Tomei, Jon Favreau, Gwyneth Paltrow, Zendaya, Donald Glover, Jacob Batalon, Laura Harrier, Tony Revolori, Bokeem Woodbine, Tyne Daly, Abraham Attah, Hannibal Buress, Kenneth Choi, Martin Starr, Selenis Leyva Roteiro: Jonathan Goldstein, John Francis Daley, Jon Watts, Christopher Ford, Chris McKenna, Erik Sommers Fotografia: Salvatore Totino Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Amy Pascal, Kevin Feige Duração: 133 min. Estúdio: Columbia Pictures, Marvel Studios, Pascal Pictures Distribuidora: Sony Pictures

A grande aposta (2015)

Por André Dick

A grande aposta 6

Este novo filme de Adam McKay, diretor de O âncora, Ricky Bobby e Quase irmãos (todos com Will Ferrell) e também presente na direção e roteiros de Saturday Night Live, é baseado num livro escrito por Michael Lewis, sobre a crise financeira de 2007-2008, causada, como todos sabem, por uma bolha no mercado imobiliário. Em 2005, a possibilidade de isso acontecer, especificamente em 2007, é antevista por Michael Burry (Christian Bale). Ele configura esse mercado como completamente instável, baseado em empréstimos fora de qualquer padrão. Visto como uma pessoa antissocial (e assumindo-se como tal), ele vai a vários bancos para tirar lucro da ideia, apostando o dinheiro da empresa para ganhar em cima da esperada perda na área. Os bancos apostam que o mercado é seguro, e ele acaba sendo visto como um desequilibrado; riem dele pelas costas.
Num determinado local, quem ouve a história de suas peregrinações é Jared Vennett (Ryan Gosling), que logo nota que as previsões são verdadeiras, e se junta a Mark Baum (Steve Carell). Os dois descobrem que a possível quebra está ligada a CDOs, grupos de empréstimo. Baum trabalha com Porter Collins (Hamish Linklater), Danny Moses (Rafe Spall) e Vinnie Daniel (Jeremy Strong), tentando ser convencida pela esposa, Cynthia (Marisa Tomei), a largar a profissão e o universo de Wall Street. A profissão de quem lida com o dinheiro é constantemente satirizada em A grande aposta e associada, como no filme de Scorsese, a strippers e boates onde ele é jogado pelos ares.

A grande aposta 7

A grande aposta 4

Há também, na mesma escala, os investidores Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), sabendo das ideias de Burry por via indireta, que passam a trabalhar para o ex-banqueiro Ben Rickert (Brad Pitt). Todos esses personagens estão envolvidos com a mesma possibilidade, no entanto nunca são vistos juntos, ou seja, eles apenas anteveem o que irá acontecer sem terem certeza de que isso acontecerá – ao mesmo tempo em que têm essa certeza.
McKay trabalha com esse elenco de maneira muito competente, mas estranhamente desigual, sendo prejudicado pela montagem, que dá espaço maior a personagens não tão interessantes quanto os de Bale, Pitt, Rosling e Carell, os principais (e fiquei imaginando se tivessem conseguido encaixar aqui Jim Carrey em seus melhores momentos). Todos estão muito bem, especialmente Carell, na atuação dramática que poderia ter lhe rendido uma nova indicação ao Oscar e complementa, em outro plano, aquela excelente que teve em Amor a toda prova (em que também contracena com sua esposa aqui, Tomei). O personagem de Bale é fascinante, principalmente no início, quando lhe é dado um merecido espaço, com suas manias, fuga do stress por meio de uma bateria e a Síndrome de Asperger. McKay, ainda assim, se equivoca ao restringi-lo somente a um espaço, sendo como o homem que não vê os outros, mas sabe tudo o que irá acontecer aos outros. Falta, digamos, um ponto alto, capaz de atrair todos os personagens, mesmo separados, para o mesmo núcleo dramático.

A grande aposta 5

A grande aposta 12

O roteiro é bastante complexo, principalmente para quem não sabe os detalhes da crise, ou seja, em certos momentos parece mais para o público norte-americano. No início, existe a impressão de que se trata mais de uma comédia satírica sobre o que aconteceu, porém, aos poucos, vai se anunciando mais um drama nas entrelinhas referentes aos personagens, sobretudo nas atuações de Pitt e Carell, às vezes oportunizando mesmo uma lição de moral, o que seria dispensável diante do que o filme nos mostra (e dificilmente A grande aposta pode ser visto como uma comédia, do modo como é vendido, não mais, por exemplo, do que um Cosmópolis, uma sátira ferina de Cronenberg tanto ao capitalismo exacerbado quanto aos ocupantes de Wall Street).
Há uma agilidade sensível na direção, ao mostrar personagens falando para a câmera. Isso às vezes funciona, outras não (passa a ser um recurso estranho quando ele se ausenta por muito tempo), no entanto a montagem vai selecionando muitas imagens para que o espectador nãos e distraia, mesmo que não entenda plenamente o contexto. Para isso, ele coloca Margot Robbie (curiosamente de O lobo de Wall Street) e Selena Gomez para dar explicações práticas das negociações em andamento, sobretudo, no segundo caso, quando há uma reunião em Las Vegas para discutir os rumos da economia. Há uma certa linguagem moderna que, por vezes, acaba se chocando com as reflexões do filme, mais exatamente do personagem de Carell, e isso cria um conflito claro na estrutura.

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Às vezes, ele lembra O lobo de Wall Street pela bateria de diálogos rápidos (Pitt tentou, lembremos, comprar os direitos e fazer esse filme), assim como uma excelente obra dos anos 90, chamado O sucesso a qualquer preço. E é interessante como todos os atores envolvidos no projeto já participaram de filmes com uma sátira ou crítica ao chamado capitalismo (mesmo Gosling fez Lost river, que trata também de pessoas sendo desalojadas e não deixa de ser uma metáfora da bolha financeira de 2008). Mas aqui não há o talento de Martin Scorsese quando, em O lobo de Wall Street, desmontou esse universo com o auxílio da atuação de DiCaprio. Havia mais foco na maneira como se dava esse olhar, e os personagens eram caricaturais, sem nenhum moralismo, quando aqui pelo menos o personagem de Pitt aparece para dizer palavras capazes de mostrar os verdadeiros erros. É interessante como McKay, um diretor de comédias, acaba levando mais a sério e querendo demonstrar com dados e definições de conceitos esse universo. Tudo é entregue para que o espectador possa selecionar as partes capazes de deixar o panorama mais claro; às vezes não fica, mas o elenco se esforça.
Mesmo com todas as falhas, ainda há mais virtudes em A grande aposta e uma real vida nas atuações, sem a neutralidade forçada e esforçada, por exemplo, de um Spotlight. Nisso, a fotografia de Barry Ackroyd, apesar de lembrar bastante a da série The Office (com Carell), e outras séries, diga-se de passagem, oferece um movimento ininterrupto e capta melhor os cenários, seja do centro de Nova York, dos escritórios ou de Las Vegas. A grande aposta acaba tendo como referência uma dissolução interessante de gêneros no fim das contas, além de contar com um elenco estelar em grande forma, apesar de alguns não terem o tempo necessário para poderem brilhar, talvez mesmo porque não quisessem, com a consciência de que o roteiro e a visão sobre o colapso financeiro e suas consequências até hoje, inclusive seu reaproveitamento sob outras formas, conta mais para o espectador ter consciência sobre o tema.

The big short, EUA, 2015 Diretor: Adam McKay Elenco: Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling, Brad Pitt, Finn Wittrock, Marisa Tomei, Max Greenfield, John Magaro, Karen Gillan, Melissa Leo, Hamish Linklater, Billy Magnussen, Rafe Spall, Tracy Letts Roteiro: Adam McKay, Charles Randolph Fotografia: Barry Ackroyd Trilha Sonora: Nicholas Britell Produção: Brad Pitt, Dede Gardner Duração: 130 min. Distribuidora: Paramount Pictures Estúdio: Plan B Entertainment / Regency Enterprises

Cotação 3 estrelas e meia

 

Amor a toda prova (2011)

Por André Dick

Amor a toda prova

É muito raro, no cinema recente, existirem comédias românticas que não sejam apenas passatempo, em que o espectador se sente envolvido com os personagens e com a narrativa. Por isso, Amor a toda prova é uma alternativa bastante interessante, sobretudo em razão do elenco (Steve Carell, Ryan Gosling, Julianne Moore, Kevin Bacon, Marisa Tomei…), que torna sua história menos previsível e mais próxima da humanidade, com a colaboração decisiva do trabalho de fotografia de Andrew Dunn (As vantagens de ser invisível), contrastando lugares claros e escuros, como a situação de cada personagem. Cal Weaver (Carell) e Emily (Moore) são casados, mas, logo no início, ela lhe pede o divórcio, pois o teria traído com um companheiro da empresa, David Lindhagen (Bacon). Desolado, ele leva a babá de seus filhos, Jessica (Analeigh Tipton), para casa. Ela gosta dele, sem saber que na família Weaver já há quem goste dela, Robbie (Jonah Bobo), um dos filhos. Cal vai para um bar tentar esquecer o que aconteceu.
Já neste momento, percebemos que o filme tem um elemento dramático, ou seja, ele não deseja mostrar relacionamentos da maneira mais debochada, como em O virgem de 40 anos (com o próprio Carell) ou Missão madrinha de casamento (que, de qualquer modo, insere sensibilidade em meio às piadas). Tudo direciona Amor a toda prova para um meio-termo entre gêneros. Em seguida, ao conhecer um rapaz, Jacob (Gosling), no bar, que pretende transformá-lo novamente em alguém capaz de conquistar as mulheres, há um momento de Hitch (com Will Smith), entretanto o filme não se mantém nessa linha, o que faria com que se perdesse. Gosling não tem uma tendência para o humor mais óbvio; é mais discreto, e seu personagem acaba oscilando entre a necessidade de companhia incessante e a solidão de sua grande mansão. Carell segue o mesmo caminho; é um ator de comédia que possui talento quando precisa se envolver numa situação dramática, como Jim Carrey de O show de Truman e O mundo de Andy (não parece por acaso que ambos fizeram a franquia Todo poderoso). Nesse sentido, apesar de ser uma situação estranha, nem Gosling nem Carell a transformam em algo previsível ou banal. Eles podem ter até um material não tão bom às mãos, e ainda assim conseguem jogar com as cenas.

Amor a toda prova 6

Amor a toda prova 5

O filme prefere se concentrar mais na dificuldade de amor entre idades diferentes, como aquele do menino Robbie pela babá. Enquanto isso, ela pede conselhos a uma colega mais experiente de como sair com homens mais velhos. Já Cal está perdido num universo no qual não se sente mais à vontade: da conquista. E, mesmo assim, ele se envolve com Kate (Marisa Tomei), durante uma noite, o que mais adiante resultará em uma surpresa. É interessante que o filme mostre a ex-mulher de Cal como uma pessoa ainda insegura, diante de um possível compromisso com o colega de trabalho. Julianne Moore é uma atriz que mostra, como poucas, a vulnerabilidade. Sabemos, ao olhar seus gestos, que ela está sofrendo com determinada circunstância, nunca deixando seus personagens caírem no lugar-comum (a cena em que ela liga para Cal, inventando que precisa de ajuda, enquanto ele está no pátio e consegue vê-la pela janela, é muito bem interpretada).
Ainda assim, a interpretação de Jonah Bobo é a melhor do elenco, pois ele justapõe essa ligação entre gerações – o momento em que tenta se declarar para a babá no colégio é um dos melhores – e coloca em dúvida a ideia de que um adulto entenderia melhor uma questão amorosa por ser mais velho. Trata-se, claro, de um elemento clichê, que os diretores Glenn Ficarra e John Requa conseguem traduzir em humanidade. Da mesma maneira, quando mostra a jovem Hannah (Emma Stone), que sonha em ser pedida em casamento pelo namorado e reluta em se envolver com Jacob, e quando os dois vão para casa dele se brinca com Dirty Dancing, dos anos 80, mostrando uma ingenuidade da conquista.
Neste sentido, Amor a toda prova mostra a dificuldade de se fugir à rotina – Cal volta às noites para casa, sem que a família veja, para poder molhar a grama –, de uma maneira bastante sensível, sem nunca colocar os personagens em descrédito. É evidente que, como em outras comédias românticas, em alguns pontos o filme não consegue sair da previsibilidade (o desfecho talvez seja ligeiro demais), mas, ao mesmo tempo, o espectador não se sente assistindo a apenas uma história em que homens e mulheres tentam se entender – ele consegue transformar a loucura e a estupidez do amor do título original em um encontro para a compreensão entre gerações.

Crazy, stupid, love, EUA, 2011 Diretor: Glenn Ficarra, John Requa Elenco: Ryan Gosling, Emma Stone, Steve Carell, Kevin Bacon, Julianne Moore, Marisa Tomei, Jonah Bobo, John Carroll Lynch, Josh Groban Produção: Steve Carell, Denise Di Novi Roteiro: Dan Fogelman Fotografia: Andrew Dunn Duração: 118 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Carousel Productions

Cotação 4 estrelas