Hook – A volta do capitão Gancho (1991)

 Por André Dick

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Esta fantasia de Spielberg teve alguns problemas durante a produção, mas resultou num conto de fadas original. Isso porque o roteiro atualiza a trama e explora a maldade do vilão, indo um pouco na linha contrária da adaptação em desenho dos estúdios Disney, sendo até mais interessante que a história de James Matthew Barrie (daqui em diante, spoilers). Agora o menino que não queria crescer, cresceu e virou Peter Banning (Robin Williams), executivo sem tempo para a mulher, Moira (Caroline) e os dois filhos pequenos, Charlie (Korsmo) e Maggie (Amber). Em viagem a Lonres, onde reencontra a avó Wendy (Maggie; na adolescência, Gwyneth Palthrow), ele tem seus filhos capturados pelo capitão James Gancho, e precisa voltar a ser criança para tê-los de volta. A fada Sininho (Julia) o leva para a Terra do Nunca, onde se encontra o enorme navio do vilão, Jolly Roger, e a tribo dos garotos perdidos. Arranja um duelo com o pirata, mas antes precisa esquecer seu lado adulto e cheio de compromissos e se concentrar numa espécie de volta forçada à infância esquecida. Para isso, Sininho tenta conseguir alguns dias de treinamento, mas quem acaba roubando a cena é o Capitão Gancho (Hoffman, em bela atuação) e seu braço direito Barrica (o excelente Bob Hoskins), emprestando humor – algumas vezes escrachado – às cenas. Com uma parte técnica impressionante, trilha de John Williams nos seus picos mais sentimentais e uma mensagem comovente, a trama de Malia Scotch Marmo, Nick Castle Jr. e Jim V. Hart sempre interessa, mas Hook é profundamente irregular em seu resultado.

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O primeiro problema é que nunca se decide em ser uma homenagem à história original, sempre agindo como uma espécie de sequência, ou um filme infantojuvenil ou melancólico (mais direcionado para adultos). Revendo hoje em dia, sua premissa é bastante próxima daquela de Prenda-me se for capaz, em que Steven Spielberg fez uma mistura divertida entre ação, comédia e drama, na qual DiCaprio interpreta Frank Abagnale Jr., uma espécie de minigênio desvirtuado que se torna falsificador de cheque e passa a assumir diversas personas para conseguir ganhar dinheiro (como ser médico e se casar com a filha de um magnata). Talvez por causa de DiCaprio, que faz tão bem Frank. Ele precisa se desvencilhar do agente do FBI (Hanks), que precisa prendê-lo. Encontra-se furtivamente com seu pai (Cristopher Walken), admirador de suas ações e abandonado pela mulher. Frank fixou aquela imagem infantil de família perfeita e não quer se desligar dela. Este é o mote do filme, sobretudo quando Frank se torna copiloto de avião sem, claro, nunca ter pilotado nenhum. DiCaprio tem uma imagem adulta e infantil, o que cabe bem num filme esteticamente bem produzido, com bela fotografia dos anos 60-70 e uma direção de arte bem cuidada. Os momentos em que o agente quase pega Frank são muito bem feitos e humorados, graças à dupla central, e Spielberg faz, como em Hook, uma espécie de releitura de alguém que não quer crescer, que precisa habitar um mundo de fantasia, mas ao mesmo tempo é chamado para a realidade.
O Peter Banning de Robin Williams, numa versão piorada de seu Popeye de Altman, precisa aprender a conciliar sua vida de empresário com a de pai, e tem em Sininho (Julia Roberts reduzida por Spielberg a uma coleção de sorrisos) sua confidente. Ele não lembra praticamente de nada que remete à infância. Seu dia a dia é dedicado à vida no escritório. Hook apanha Spielberg no conflito central de sua carreira, o que a torna também tão diferenciada: depois de dois filmes dramáticos de larga escala, A cor púrpura e Império do sol, com intenções de ganhar Oscar, ele fez o irregular Além da eternidade e retornou, aqui, ao molde que o havia feito conhecido a partir de Contatos imediatos, mas sobretudo de E.T. e da série Indiana Jones. Assim como Banning, Spielberg sabe que cresceu e esqueceu deliberadamente (ou quis esquecer) de determinados elementos que nortearam sua trajetória. No entanto, sente-se culpado e deseja ter novamente a atenção dos filhos – a plateia infantojuvenil – já adulta.

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Nesse sentido, com seu jogo de cores bonito, mas forçado, e sua direção de arte espetacular – embora nunca nos sintamos em outro universo, mas um universo de estúdio, pensado e elaborado para o filme –, Hook consegue atrair, mas sempre deixando o espectador adotando um recuo em relação às suas intenções mais claras. Ele tem elementos do fantástico, que Spielberg exploraria dois anos mais tarde novamente em Jurassic Park, mas uma espécie de tristeza, como O império do sol. Seus altos se concentram na tentativa de colocar o Gancho como uma figura necessária para que Banning assuma a paternidade. Com sua aversão à figura do crocodilo, que na obra de Barrie o colocou numa tentativa de escapar a qualquer relógio, é ele que sinaliza a falta de interesse em que o tempo passe na Terra do Nunca e, se Spielberg coloca um Peter Pan já com cinquenta anos em roupas verdes, tentando voar ao lado dos Garotos Perdidos, e enfrentando o atual líder deles, Rufio (Dante Basco), também há uma sinalização dele para territórios até então inexplorados com a mesma atenção, como a melancolia da separação dos filhos e, principalmente, o fato indesejável de ver os filhos realizando os sonhos ao lado do vilão de contos de fadas. E, neste ponto, Dustin Hoffman e Bob Hoskins formam uma ótima parceria. Ao mesmo tempo, é a primeira vez que realmente um personagem central de Spielberg valoriza estar ao lado da família depois do Capitão Brody de Tubarão. Não víamos isso em Contatos imediatos, E.T. e na solidão aventureira de Indiana Jones, tampouco em A cor púrpura. É como se Spielberg visse um elemento que não tinha tanto destaque em sua obra, na mesma época em que começou a aumentar sua família na realidade. E seu encontro com este elemento se dá um pouco pela culpa. Há menos espontaneidade do que vemos em E.T. na apresentação, por exemplo, dos Garotos Perdidos, como se Spielberg não conseguisse mais o mesmo equilíbrio mostrado anteriormente – e o embate entre Peter Pan e Rufio, num jantar multicolorido, por meio de palavrões, é um exemplo do campo em que Spielberg nunca foi bom, o do humor.
Não é possível, ao final, não ver um exagero quando Peter Banning volta da Terra do Nunca e reencontra a família, com um discurso que tenta ser comovente, auxiliado pela sinfonia de John Williams, e soa apenas forçado, desmanchando um pouco a energia que cerca a atmosfera tanto da Terra do Nunca quanto de Londres (Harvey Weinstein teria sido bem-vindo aqui com sua obsessão em editar filmes). Ainda assim, com todos os seus problemas, Hook continua sendo uma fantasia a ser vista e apreciada, mostrando uma transição interessante na obra de Spielberg, na qual o cineasta se revela por completo, também como autor.

Hook, EUA, 1991 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Dustin Hoffman, Robin Williams, Julia Roberts, Bob Hoskins, Maggie Smith, Caroline Goodall, Charlie Korsmo, Amber Scott, Laurel Cronin, Phill Collins, Dante Basco Roteiro: Nick Castle Jr., Jim V. Hart, Malia Scotch Marmo Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Gerald R. Molen, Jerry Molen Fotografia: Dean Cundey Trilha Sonora: John Williams Duração: 135 min. Estúdio: Amblin Entertainment / TriStar Pictures

Cotação 3 estrelas e meia

O exótico Hotel Marigold (2012)

Por André Dick

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O mais recente filme de John Madden tem todos os elementos do seu filme mais conhecido,  Shakespeare apaixonado: basicamente, mostra a tradição inglesa, aqui em relação com sua antiga colônia, a Índia, o grandioso país que desperta o exotismo do título. Mas a Índia não se presta a uma nova visão, e sim romântica e idealizada, desde o início, quando vemos um grupo de pessoas da terceira idade empreender uma viagem a ela. Lá estão uma viúva que precisa financiar a casa para pagar as dívidas do marido, Evelyn Greenslade (Judi Dench), o ex-juiz Graham Dashwood (Tom Wilkinson), o casal ​​em conflito Douglas Ainslie  (Bill Nighy ) e Jean Ainslie (Penelope Wilton), a ranzinza Muriel Donnelly (Maggie Smith), o conquistador Norman Cousins (Ronald Pickup) e a conquistadora Madge Hardcastle (Celia Imrie). Chegando à Índia, num ônibus abafado e passageiros oferecendo comidas estranhas, eles se hospedem no Hotel Marigold do título, coordenado por Sonny Kapoor (Dev Patel, de Quem quer ser um milionário?, fazendo o possível para ser divertido e trazendo a lição de moral da história), que quer casar com a jovem Sunaina (Tena Desae), contra a vontade da mãe (Lillete Dubey) e da família – em razão de um casamento já firmado – mas, principalmente, reerguer o hotel, deixado pelo pai e que já teve momentos de glória. Sonny é um idealista e na primeira noite quer conquistar os hóspedes pelo paladar, enquanto tenta convencer financiadores a  lhe emprestar dinheiro para que consiga reformar o hotel. Entretanto, o local é precário, possui vários problemas de encanamento, de portas e janelas, e alguns quartos não contam com divisórias. Num primeiro olhar, parece que é exatamente o Hotel Marigold que dará o mote para todos os conflitos. Não é o que acontece.
Os primeiros 30 minutos de filme não despertam grande curiosidade. Não sabemos ao certo o que Madden pretende nos mostrar, apesar do rápido resumo da colocação de seus personagens, pois não se estabelece nenhuma ligação nas conversas que eles trocam, de passagem, entre si. Baseado no romance These Foolish Things, de Deborah Moggach, o roteiro talvez se direcione nesse caminho exatamente para que, quando as relações se estabelecem mais claramente, sejam melhor aproveitadas. Então, cada um descobre o que pretendia num país estranho: Evelyn vai trabalhar e acaba tendo de aplicar o que aprendeu com uma vendedora de telemarketing; o juiz procura uma figura que pode ajudá-lo a acertar contas com o passado; o casal em conflito, depois de perder algumas economias com a filha, precisa redescobrir seu caminho; Muriel, além de fazer a cirurgia no quadril, para a qual se dispôs à viagem, começa a entender melhor sua condição passada entendendo uma empregada do hotel; e, afinal, para quem busca um amante, a Índia ajuda a criar um clima romântico, o que interessa a Madge e Norman (a sequência em que eles estão num local para encontrarem figuras importantes da Índia traz momentos divertidos). Madden, em nenhum momento, torna essas relações ou conflitos proeminentes. É como se o espectador andasse de carro rapidamente por alguns pontos da Índia – as locações são ótimas – e visse nesse país uma razão para que seus personagens não desistissem da vida. Tudo é muito romantizado (mesmo o barulho, as ruas cheias de gente), idealizado, porém isso não impede que nos interessemos pelos personagens.

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Eles são ressentidos na medida certa com um passado que não conseguiram resolver – e a verdade é que se trata de um tour de force do elenco. É difícil ver quem está melhor, mas creio que Bill Nighy e Tom Wilkinson estão excepcionais (mereciam ser lembrados para o Oscar). Wilkinson, que está na Índia para tentar solucionar uma questão do passado, que o atormentou a vida toda, consegue emprestar, com poucas falas, uma certa grandiosidade a seu personagem – e é quando Madden mais se sente à vontade para criar uma cena poética que, apesar de sob certo ponto de vista ser óbvia, consegue mesmo comover, apesar de não haver interesse em se mostrar o personagem indiano que criaria um elo com esse personagem, pois seu foco é realmente o exotismo (as únicas interações entre os ingleses e os indianos se dá numa brincadeira de crianças na rua, numa família que recepciona uma das hóspedes e num show de música), apoiado na bela fotografia de Ben Davis. Maggie Smith e Judi Dench (vencedora do Oscar de coadjuvante pelo outro filme de Madden, Shakespeare apaixonado) repetem os papéis de outros filmes, mas são atrizes de primeira estirpe. Maggie consegue, ao mesmo tempo, misturar a solidão e a revolta por esse sentimento com certa discrição inglesa que combina bastante com a interpretação de Nighy, que, por meio de um personagem quase limitado, se destaca em todas as cenas nas quais aparece. Assim como Maggie Smith, com seu estilo ranzinza, já visto em filmes de origem inglesa, sobretudo. Mesmo sua personagem sofrendo uma transformação repentina – em relação à sequência inicial –, Madden consegue transformá-la numa referência para o restante do grupo. E Dev Patel, apesar de em certos momentos caricato, parece-me menos forçado do que no decepcionante Quem quer ser um milionário?, que o fez conhecido.
É difícil avaliar que o filme é simpático por ser despretensioso, mas esta, sem dúvida, é sua principal qualidade, graças ao elenco – que está sendo lembrado em várias premiações. No entanto, se tivesse uma meia hora inicial mais interessante e os dramas fossem mais aprofundados, certamente se tornaria uma referência. Entretanto, não parece ser objetivo de Madden. Ele não parece facilitar o roteiro apenas por limitação. O conflito entre a Índia moderna e a antiga, por exemplo, simbolizado pela figura do Hotel Marigold, é pouco explorada, assim como as proibições da família de Sonny. De qualquer modo, nunca vemos um exagero nessa simplicidade forçada do filme, o que acontece em outros filmes. O seu otimismo, apesar de simplista, é verdadeiro, e os personagens, apesar de serem, ao mesmo tempo, rótulos, ganham interesse com o andamento da narrativa. Desse modo, acaba sendo um filme fechado (também em suas ideias) e linear, mas sem ser reduzido a um drama de TV – o que, em se tratando do cinema atual, confere a ele certa qualidade.

The Best Exotic Marigold Hotel, ING, 2012 Diretor: John Madden Elenco: Bill Nighy, Maggie Smith, Tom Wilkinson, Judi Dench, Dev Patel, Penelope Wilton, Celia Imrie, Ronald Pickup, Tena Desae, Liza Tarbuck Produção: Graham Broadbent, Peter Czernin Roteiro: Ol Parker Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Thomas Newman Duração: 124 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Blueprint Pictures / Fox Searchlight Pictures / Imagenation Abu Dhabi FZ / Participant Media

Cotação 3 estrelas