Aquarius (2016)

Por André Dick

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O cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho teve uma carreira inicial baseada em curtas-metragens, a exemplo de Eledrodoméstica e Recife frio, seguidos por uma grande estreia em longa, O som ao redor, que colheu opiniões entusiasmadas no mundo todo, e, particularmente, me parece uma obra-prima. Seu segundo filme, justamente este Aquarius, estreou em Cannes, cercado por um componente político: mais cedo ou mais tarde, muitos souberam que a equipe teria apontado em cartazes que haveria um golpe político no Brasil. Desde então, o filme vem sendo avaliado por muitos espectadores com um viés naturalmente ligado ao evento na Riviera Francesa. Eis que o filme estreou no Brasil na mesma semana em que foi votado o afastamento da presidente Dilma Rousseff, aconteceu a posse do até então interino Michel Temer e a polêmica veio à tona novamente.
Aquarius, de fato, como O som ao redor, é um filme político apenas para quem entende que a arte carrega sempre um discurso por trás dela. É permitido achar assim, e há filmes que se esclarecem contrários a um status quo. Ou dedicados a analisar políticas internas, como Nascido em 4 de julho e JFK, de Oliver Stone, ou à Revolução de Maio de 68 francesa, a exemplo de Amores constantes. Mas essas evidências não aparecem em O som ao redor, tampouco em Aquarius. Kleber Mendonça se movimenta entre uma visão de uma certa classe e suas aspirações à grandeza ou às circunstâncias mais comuns do cotidiano.

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Não por acaso, sua personagem central é Clara (Sônia Braga), na mesma Recife do diretor, uma ex-jornalista musical do alto de seus 60 e tantos anos, que mora no antigo edifício Aquarius, sendo a única a enfrentar a construtora Bonfim, que já comprou os outros apartamentos, a fim de modernizá-los. Essa construtora é representada pelo engenheiro Diego (Humberto Carrão, impecável), fazendo uma ponte com o personagem central de O som ao redor, João (Gustavo Jahn), que era um integrante do mercado imobiliário, cansado de suas tarefas. Diego é comprometido: ele realmente pretende tirar Clara do seu espaço. Este é o retrato universal de muitos personagens, ou seja, podemos ver esta temática nos mais diversos lugares, não sendo estritamente ligada ao Brasil – e me veio à mente principalmente Winter sleep, vencedor de Cannes em 2014, e seu dono de hotel com várias posses na região onde mora. Kleber sabe construir um sentido de ameaça por trás dessa condição, ao mesmo tempo que potencializa um certo drama que remete aos filmes de Jafar Panahi, Asghar Farhadi e exatamente Ceylan.
É nítido como, mais do que em O som ao redor, um filme extremamente experimentalista, apesar de aparentar apenas um retrato urbano, Kleber aqui condensa mais sua narrativa em algo acessível para o espectador. Juntamente com a atuação de Sônia Braga, em certos pontos exitosa e em outros menos (principalmente no ato final, quando algumas sequências são desnecessárias e parece haver um inacabamento), ele faz o filme se movimentar de maneira interessante, recorrendo à memória, mas, surpreendentemente, o faz de maneira plana – ao contrário de O som ao redor. Ele tem um olhar muito apurado para enquadramentos e sua primeira metade tem leveza e movimento, mas aqui lhe faz falta exatamente aquele toque experimental que fazia sua obra de estreia ser uma mistura entre um drama de Roberto Altman e um suspense de John Carpenter.

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Ele torna a personagem na representação de seu olhar sobre essa ameaça à memória sem reter dela o principal: de que ela não é meramente um símbolo contra o que considera uma injustiça; é, antes de tudo, uma personagem cotidiana. Kleber acaba destacando o posicionamento do engenheiro para que a personagem central, mais humana, se torne também uma heroína. Isso não acontece de modo sutil porque Braga, apesar de uma atriz experiente, não consegue em certos momentos superar o roteiro. Sempre que isso não acontece, porém, temos ainda a fotografia notável de Pedro Sotero e Fabrício Tadeu, já presentes em O som ao redor, com um traço luminoso em cada cena e mesmo enigmático, quando mostra os arredores do Aquarius ou a praia do Recife.
O início do filme, mostrando a festa de aniversário de uma tia dela, Lucia (Thaia Perez), anos antes (quando Clara é interpretada por Barbara Colen), se encarrega de ser o ponto inicial para o que se considera uma memorabilia de reuniões: Kleber pretende mostrar como as moradias guardam recordações de uma vida inteira (sobretudo quando mostra Clara lidando com seus discos, e não se pode ignorar que Sônia Braga foi consagrada na TV brasileira com a novela Dancing days, eminentemente musical), como também podem apagar ou reacender relações perdidas. Isso rende tanto boas sequências (mais exatamente no início) quanto algumas deslocadas (quando a namorada do sobrinho coloca uma música para que ela escute). Ele tem um interesse amoroso tímido, um salva-vidas, Roberval (o excepcional Irandhir Santos, infelizmente pouco aproveitado), em instantes que remetem a Praia do futuro, enquanto pretende se afastar de possíveis discussões que podem envolver a venda do imóvel com a filha Ana Paula (Maeve Jinkings, de O som ao redor, novamente irretocável). Esses núcleos são interessantes, porém surgem em meio a outros que parecem inseridos à força.

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A questão é que Kleber Mendonça Filho não apresenta a mesma perícia narrativa que havia exibido no seu filme de estreia, mesmo sabendo-se que se trata de um filme diferente em seu propósito: não por acaso, ele parece, algumas vezes, se voltar àquilo que Farhadi tentou fazer em sua peça seguinte à A separação, O passado. Kleber está mais interessado no retrato de um passado que se mantém no presente e o faz por meio de traços de melancolia, mas imbuídos de um certo vazio que não leva o espectador a ter uma expectativa especial pelo que acontece. O que mais guarda de semelhança com sua estreia é uma procura, às vezes, por imagens de tensão em zooms (não por acaso, há um cartaz de Barry Lindon no apartamento de Clara) e olhares deslocados. Em meio a isso, a necessidade final de desenhar um simbolismo que remete a David Lynch é superada pelo fato de que antes tudo é muito explícito para que soe de modo orgânico.
A recepção, claro, depende do espectador: se Clara torna-se uma personagem fascinante, o filme se encarregará do restante; caso não (particularmente da metade para o final), haverá uma sensação de afastamento e menos interesse. Dramaticamente, Aquarius empalidece perto, por exemplo, de dois filmes recentes que lidam com a casa como espaço da própria história: Casa grande e, no plano afetivo, É proibido fumar – sobre a relação entre uma mulher à procura de um amor (Glória Pires) com seu vizinho (Paulo Miklos). Clara é o ponto-chave, mesmo cercada de parentes e amigos, enquanto a grande riqueza de seu filme de estreia era a multiplicidade real de personagens e caminhos, uma mescla de vozes. Kleber, aqui, tenta se manter mais subjetivo, como se retratasse um monólogo: em certos momentos, ele cumpre com o objetivo; em outros, apenas o filme se encarrega de mostrar a sua passagem do tempo inabalável.

Aquarius, BRA, 2016 Diretor: Kleber Mendonça Filho Elenco: Sônia Braga, Julia Bernat, Humberto Carrão, Barbara Colen, Maeve Jinkings, Buda Lira, Irandhir Santos, Thaia Perez Roteiro: Kleber Mendonça Filho Fotografia: Fabrício Tadeu, Pedro Sotero Produção: Emilie Lesclaux, Michel Merkt, Saïd Ben Saïd Duração: 142 min. Distribuidora: Vitrine Filmes

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Boi neon (2015)

Por André Dick

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Há filmes que possuem uma parte estetizada tão forte que é costume não se encontrar com facilidade onde estaria sua parte mais humana, mesmo ela parecendo estar presente em todos os lugares. Em Boi neon (que certamente tem um dos cartazes mais belos já feitos), o diretor Gabriel Mascaro mostra a trajetória de Iremar (Juliano Cazarré), um vaqueiro que trabalha num grupo que viaja para apresentações de rodeios. São as chamadas vaquejadas, muito comuns no Nordeste brasileiro. Iremar cuida dos touros que são exibidos nas apresentações. No entanto, seu grande desejo é ser estilista, e desenha figurinos para Galega (Maeve Jinkings), que também faz danças sensuais nos eventos. Junto com eles, seguem a filha de Galega, Cacá (Alyne Santana), e Zé (Carlos Pessoa). Cacá tem como referência Iremar e sonha um dia em possuir um cavalo, sendo este animal representado como uma espécie de nobreza, mesmo em meio aos humanos. Esta companhia poderia ecoar Bye bye Brasil, de Cacá Diegues, do final dos anos 70, em que o bom humor era um despiste para a amargura dos personagens. E isto seria mote para um filme de grande humanidade: há problemas, porém, e nunca vemos os personagens mais do que como símbolos.

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É possível imaginar por que Boi neon foi tão bem recebido: ele tem elementos de arthouse, com uma fotografia plasticamente bela de Diego Garcia. Ele já trabalhou para Apichatpong Weerasethakul em Cemitério do esplendor, e pode-se dizer que Mascaro dialoga com a obra do tailandês nos cenários do Nordeste. Os personagens são sempre colocados a distância, não há trocas calorosas e diálogos aparentes, e tudo se concentra em mostrar a analogia entre a vida dessa companhia e os animais. Na obra do tailandês funciona  a presença da natureza porque ele a coloca de maneira quase orgânica, sem nenhuma imposição ao espectador; aqui não exatamente. Mascaro tem um talento evidente em compor um mosaico de imagens que contextualizam uma determinada vida; seus personagens é que parecem não ter a mesma vida encontrada no ambiente em que se inserem, sendo excessivamente simétricos ou estilizados. Quando em determinado momento surge uma nova personagem, Geise (Samya De Lavor), Mascaro a aponta como aquela que pode oferecer uma nova vida em todos os sentidos. Também surge Vinícius de Oliveira, o menino de Central do Brasil, com um estilo diferente como o de Iremar, mas que possui um rabo de cabelo tão bem tratado quanto o dos animais. Não se pode dizer que o filme tenha, como já dito, ecos de O segredo de Brokeback Mountain simplesmente por mostrar um lado mais sentimental de um vaqueiro. Boi neon se mantém mais num terreno de estranheza, jogando com imagens e dando a elas um movimento que seus personagens não exatamente possuem. Nesse universo, Iremar não quer desempenhar o papel esperado dele, assim como Galega. Eles atuam como figuras fora de seus sentimentos principais.

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Há belas analogias, mas elas funcionam mais num plano teórico do que na prática. Existe, igualmente, referências a Carlos Reygadas, principalmente na figura da Galega, que lembra uma de Luz depois das trevas ou alguma estranheza da boate de Twin Peaks – Fire walk with me, embora a referência ao neon, atualmente, seja em igual escala aos trabalhos de Refn (e lances dele se manifestem nos detalhes de cada cenário, em algum fragmento das imagens). E também temos bons momentos de humor, quando Iremar usa a revista com mulheres nuas de outro vaqueiro para desenhar em cima das imagens. Ao contrário de outro filme claro sobre o itinerário de uma companhia, o já referido Bye bye Brasil, este bom humor se dava de maneira clara; aqui, ele se revela mais nas trocas de palavrões. Tudo é encoberto por uma estranheza, que vai desde o fato de em determinado momento se tentar tirar sêmen de um cavalo valioso até o de uma égua a ser leiloada se chamar Lady Di. Tal estranheza é recorrente na obra de Mascaro, que iniciou como documentarista e enveredou pela ficção em Ventos de agosto, mesclando também trechos documentais. Nesse sentido, Boi neon procura ser uma espécie de mescla entre documentário e visão intimista de um universo reconhecido já em telenovelas, não porém sob esse ponto de vista. Este intimismo se converte em potência sexual num determinado trecho de quase seis minutos, filmado à meia luz com absoluta propriedade e que, ainda assim, não oferece à narrativa a tonalidade mais intensa.

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Ao mesmo tempo, temos uma boa atuação de Cazarré, o único realmente a se destacar, num papel curioso pela própria estranheza que desperta. Já que Maeve é subaproveitada, ao contrário do que acontece em O som ao redor, e os demais atores pouco aparecem. Todos eles parecem ter uma dificuldade de lidar com o roteiro sustentado basicamente por um encadeamento de imagens bem filmadas sem um núcleo narrativo capaz de ressoar junto ao espectador, mesmo quando sabemos que aqui o tratamento principal é mostrar o ser humano com instintos tão contidos quanto a natureza dos animais transportados em caminhões. Essa analogia é usada à exaustão, principalmente quando se coloca no mesmo quadro o gado encurralado pela cerca e o caminhão com a tenda estendida de Galega. Seria definitivo se não fosse excessivamente pré-programado, além de a narrativa não ter conflitos reais expostos (a não ser no imaginário do espectador que os interpreta de maneira literal, por meio das imagens reveladas a todo custo). Há muita vontade de ser didático ao espectador, sem deixar nenhum resquício de verdadeira liberdade para se formar uma visão à parte do filme. É de se lamentar que uma obra com temas tão instigantes se restrinja a ser apenas uma visão específica e não muito atrativa de um universo fascinante.

Boi neon, BRA/HOL/Uruguai, 2015 Diretor: Gabriel Mascaro Elenco: Juliano Cazarré, Maeve Jinkings, Carlos Pessoa, Alyne Santana, Vinícius de Oliveira, Abigail Pereira, Roberto Berindelli, Josinaldo Alves Roteiro: Gabriel Mascaro Fotografia: Diego García Trilha Sonora: Carlos Montenegro, Otávio Santos Produção: Rachel Ellis Duração: 101 min. Distribuidora: Memento Films International Estúdio: Canal Brasil / Desvia Filmes / Malbicho Cine / Viking Film

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O som ao redor (2012)

Por André Dick

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Ao assistir filmes como Holy Motors, Killer Joe e Indomável sonhadora, nos últimos meses, pôde-se ter uma ideia mais clara da palavra superestimado. Nenhum deles consegue trazer uma resposta ao que se espera, nem o que é comentado a partir de suas histórias corresponde às expectativas. Por isso, podia-se desconfiar também deste filme brasileiro, que começou a ganhar repercussão principalmente no fim do ano passado, quando fez parte de algumas listas dos melhores filmes (fala-se muito daquela do The New York Times, mas ele também está na lista da Slant). Fala-se também em sua participação de sucesso em festivais e em como o cineasta Kleber Mendonça Filho desenvolve, esteticamente, as propostas de alguns de seus curtas-metragens, como Eledrodoméstica e Recife frio por meio de uma nova narrativa. O próprio título, O som ao redor, se arrisca num terreno de estranheza – embora se saiba que o som ao redor, de certo modo, pode abranger tudo, mais ou menos como A árvore da vida, de Malick. Se para Mendonça somos reprodução também desses sons ao redor, é verdade que seu filme caminha num território das classes sociais.
E aí reside uma das surpresas de O som ao redor (daqui em diante, possíveis spoilers): Kleber Mendonça não faz um retrato específico de uma determinada classe média brasileira; ele sintetiza a sociedade brasileira (que tem pontos em comum com muitas outras). Desde o início, com as imagens em preto e branco de antigos engenhos de Pernambuco, para, então, chegar a um bairro de Recife, Kleber Mendonça traça um panorama complexo – apesar de sua aparente simplicidade – de como a vingança e a violência permanece em condições diferentes daquelas em que estamos acostumados a ouvir em histórias antigas ou de como era quando o país não havia entrado plenamente no século XXI, com seus computadores e pessoas escondidas atrás de grades e muros de condomínios. Kleber está interessado, antes de tudo, em traçar como a gênese da dominação e da violência do Engenho chega à cidade grande, no caso Recife, e de como ela é incontrolável e se alastra. Trata-se de um contexto bastante particular e, ao mesmo tempo, universal, sendo que O som ao redor lembra um pouco Short Cuts, de Altman, dentro de um perímetro urbano, dividido em capítulos como um bom filme de Tarantino (em determinado momento, vê-se o cartaz de Jackie Brown).

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O som ao redor

Com seus zooms de câmera para dar um ar semidocumental ao que se mostra, o diretor consegue equilibrar várias ações, com diferentes personagens, num curto espaço de tempo e território, mostrando personagens saindo de lugares onde outros chegam.
O personagem central, João (Gustavo Jahn), é um corretor imobiliário cansado, com um novo caso, Sofia (Irma Brown). No início, eles têm de se esconder da empregada, Mariá (Mauricéia Conceição), que chega em casa com suas crianças – passando desnudos da sala para o quarto –, e logo em seguida surge o mote da ameaça: o carro de Sofia teve seu vidro arrancado e o carro de som roubado. Como todos são conhecidos no bairro, João desconfia de que seu primo, Dinho (Yuri Holanda), está envolvido, já que cometeu diversos assaltos, comentando o caso com outro primo, Anco (Lula Terra). Chegam, nesse dia, à vizinhança seguranças oferecendo serviço, Clodoaldo (Irandhir Santos), e Fernando (Nivaldo Nascimento). Ambos são convidados a encontrar aquele que é uma espécie de dono da rua, Francisco Villa (WJ Solha, assustador na medida exata), que justamente veio do engenho – de uma fazenda que remete àquela que vemos em Tabu, avô de João, Dinho e Anco. É Francisco quem ordena aos seguranças que seu neto não seja importunado. A esses seguranças, junta-se Ronaldo (Albert Tenório). Ao mesmo tempo, vemos uma dona de casa, Bia (Maeve Jinkings), que tem problemas com o cão do vizinho, que não para de latir e uivar o dia inteiro, prejudicando, inclusive, as aulas de língua estrangeira dos filhos. Também vemos uma reunião em que se decide a demissão ou não por justa causa de um porteiro – na cena mais cômica do filme.
O som ao redor acaba ganhando um sentido maior exatamente quando a violência que antes parecia muito mais exposta agora acaba ficando reservada a situações do dia a dia e mesmo a tensão sexual se mostra opressiva – seja no beijo entre adolescentes no canto de um prédio, seja na relação entre uma mulher e um eletrodoméstico. Qualquer situação ganha uma aspereza, como a da mulher que avalia desconfiada o apartamento, ou o homem que discorda de João em relação ao porteiro, como se quisesse enfrentar a família de quem coordena a rua. O sentido do enfrentamento surge em momentos comuns, como aquele em que Francisco Villa adentra o mar, mesmo com a placa de que há perigo, pois pode haver um tubarão, ou quando um segurança liga do orelhão. Também na cena em que duas vizinhas precisam disputar por um determinado atendimento. Simples visualizações de celular ou por câmeras de vídeo de apartamento ganham um elemento de tensão. Esta nunca se reproduz por gritos, discussões quentes, mas por ameaças e olhares de desconfiança. Pode haver tensão mesmo em um casal descansando na rede de um engenho de interior. Ou no barulho de crianças cantando na varanda de uma escola. A disputa por território é anunciado por ameaças veladas, sem revelar o rosto. E a rua e os condomínios abrigam, ao mesmo tempo, segurança e insegurança – em determinado momento, a bola de um dos meninos cai no outro condomínio e, quando a jogam de volta, ele não está mais lá para recebê-la (lembrando a bolinha de tênis de O iluminado). Em outro, num apartamento que parece vazio, passa o vulto de um menino. Os sons também se reproduzem em todos os lugares, desde o cão latindo, a colisão de dois veículos até alguém riscando um carro, ou um construtor trabalhando numa obra ao lado de uma quadra de recreação.

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É como se Kleber Mendonça mostrasse que há, nesse isolamento com inúmeras pessoas, uma ameaça fantasmagórica, uma ameaça daquele mesmo ambiente em que o dono do engenho se cercava de empregados e perseguia aqueles que colocavam em dúvida sua autoridade – ou seja, em O som ao redor, uma chamada não respondida pode ser converter num duelo mais adiante. A ascensão desse movimento nunca é interrompida; não surge nenhuma classe social nova, ela apenas se movimenta e se dilui em meio a novas tecnologias e promessas de novos eletrodomésticos não para cultivar um pretenso vazio consumista – afinal, a questão financeira é universal, não pertence exclusivamente à classe média brasileira -, mas para tentar encobrir justamente a falta da presença humana, como acontece em qualquer sociedade e país; em outros casos, ela é apenas prolongada com o registro de novas vítimas. O medo de se conviver com uma vingança no campo é o mesmo de ter de dividir o seu espaço com sons estranhos e com as favelas. As classes, no Brasil, de qualquer modo, tendem a se misturar, sejam quais forem seus objetivos e mesmo que não desejem ou temam umas às outras, afinal, como disse Sérgio Buarque de Holanda, há sempre uma cordialidade no ar e nunca se sabe onde o desejo de uma termina e o de outro começa, mesmo porque são aspirações gerais – e é isso o que acontece em O som ao redor. O próprio personagem central, João, é uma espécie de síntese disso: já devidamente filtrado pelo ambiente da cidade, ele não se nega, no entanto, a conservar uma preocupação indiferente com as vidas alheias (como na reunião de condomínio).
Chegando a noite, a ronda começa – e o dia não acaba. Kleber Mendonça mostra como a tranquilidade aparente do horário em que todos se recolhem está sempre à beira de uma sombra ameaçadora, seja num sonho, seja nos vultos de alguém correndo por telhados ou apartamentos. O apartamento é um espaço físico e interno, representando o medo dos personagens. Para essas cenas de tensão atmosférica, por mais que tenha visto elementos de John Carpenter (homenageado em determinado momento), vemos muito mais David Lynch e seu A estrada perdida. Todos os momentos em que são mostrados ambientes vazios e uma ameaça que paira no ar, estamos no apartamento em que vive o casal do filme de Lynch – ou seja, sob uma influência de Hitchock, mas já devidamente filtrada. Do mesmo modo, quando os personagens caminham por um corredor e pela rua (com as luzes acendendo e apagando), estamos num território de Lynch e sua eletricidade estranha e irregular. Ou seja, o medo proporcionado por lâmpadas é um elemento lynchiano, que Kleber Mendonça consegue costurar à narrativa sem diluí-la, mas incorporando elementos. Há ainda outra presença de Lynch, que é aquela em que personagens surgem de lugares onde não estavam – a primeira entrada de Francisco para conversar com os seguranças (há um corte exatamente quando surge sua sombra). Já as cenas do bairro e das ruas lembram, a meu ver, bastante Caché (de Michael Haneke). A atmosfera não seria a mesma sem os atores e, a despeito das muitas críticas, nesse sentido, todos fazem um trabalho competente, com destaque para as excepcionais participações de Solha, Jinkings, Irandhir, Holanda, Nascimento e, ao final, Sebastião Formiga. O estilo de interpretação é mais natural, e as falas soam próximas daquelas do cotidiano; embora isso prejudique em alguns momentos, pelo som um pouco confuso, dentro do contexto trata-se de um elemento narrativo interessante.

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Não há apenas a influência de um gênero, pois O som ao redor é um híbrido. Temos, numa de suas partes, quase de cinema mudo (não fossem os sons ao redor), uma clara influência de Malick, quando João e Sofia e  viajam para o engenho de Francisco, e começam a abrir janelas, indo depois caminhar perto de uma escola – com um longo travelling – e nas ruínas de um cinema abandonado (ocasionando uma brincadeira com a ausência de som do lugar, mas também com os sons de filmes de terror que passaram ali, como eles fossem igualmente fantasmas). Finalmente, nesta parte, além da tranquilidade apenas aparente do engenho, escondida nos sorrisos de Sofia e João, temos a belíssima sequência de uma queda-d’água, fazendo os corpos deles e de Francisco brilharem contra a luz, o que cria uma analogia com a sequência em que João e Sofia voltam à casa de infância dela, que está para ser demolida e guarda uma piscina vazia. É nesta parte que se desenha a separação (e ao mesmo tempo a aproximação) entre a Recife de altos prédios, cobrindo as ruas de condomínios, e o verde arejado do interior com suas fontes-d’água – e o caminho para ele só poderia passar por um lodaçal.
Impressiona o senso de estética de Kleber Mendonça e do fotógrafo Pedro Sotero com auxílio de Fabrício Tadeu (os movimentos de câmera são sempre sutis), focalizando também objetos coloridos em meio a um cenário cinza, ou combinando cores de camisetas com cores de grades e vasos (no que lembra A separação), ou mesmo colocando fosforescentes numa barraca de rua. Este senso de Kleber Mendonça faz a trama ganhar em progressão, mesmo que repita algumas situações – como a da vizinha observando o cão pela janela ou angustiada pelo fato de que ele não faz silêncio. Nesse sentido, como Central do Brasil no final dos anos 90 e Cidade de Deus no início deste século, O som ao redor é uma obra universal e não restrita a um cenário específico (mesmo que também se alimente dele), que define uma espécie de divisão de águas na cinematografia brasileira. É de se pensar o que Kleber Mendonça Filho ainda fará.

O som ao redor, BRA, 2012 Diretor: Kleber Mendonça Filho Elenco: Gustavo Jahn, Irma Brown, WJ Solha, Maeve Jinkings, Irandhir Santos, Lula Terra, Yuri Holanda, Clébia Souza, Sebastião Formiga, Nivaldo Nascimento, Maria Luiza Tavares Produção: Emilie Lesclaux Roteiro: Kleber Mendonça Filho Fotografia: Pedro Sotero Trilha Sonora: DJ Dolores Duração: 131 min. Distribuidora: Vitrine Filmes Estúdio: Cinemascópio

Cotação 5 estrelas