No portal da eternidade (2018)

Por André Dick

In memoriam Eva Dias Pereira

O diretor Julian Schnabel é conhecido principalmente por O escafandro e a borboleta, sobre Jean-Dominique Bauby, considerado um dos melhores filmes da década passada. Ele já havia se aventurado antes em algumas cinebiografias, como Antes do anoitecer, sobre o poeta Reinaldo Arenas e sua vida em Cuba, e Basquiat, sobre o pintor contemporâneo, logo em sua obra de estreia. De maneira geral, Schnabel sempre se mostrou um cineasta interessado em trabalhar com diferentes tipos de fotografia e enquadramentos diferenciados, sendo de fato um pintor em sua origem. Em O escafandro, por exemplo, em boa parte do filme tínhamos a visão do protagonista numa situação delicada e essa estranheza concedia à história uma espécie de segunda camada sobre os dados reais fornecidos por cada personagem.

Desta vez, em No portal da eternidade, ele mostra parte da trajetória de Vincent van Gogh, vivido com grande perspicácia por Willem Dafoe (indicado ao Oscar), que, não vendendo suas obras, recebe a ajuda de seu irmão Theo (Rupert Friend) e tem como amigo Paul Gauguin (Oscar Isaac). Ao se deslocar para o sul da França, para a pequena cidade de Arles (onde fez mais de 70 pinturas), ele fica numa paragem onde conhece Madame Ginoux (Emmanuelle Seigner). Um crítico, Albert Aurier (Alan Aubert), recebe suas obras muito bem, mas o mesmo não se pode dizer de alguns mais próximos, que visualizam seu trabalho como precário. Isso o faz ficar com distúrbios, sendo levado para o asilo Saint-Paul em Saint-Rémy-de-Provence. Em outros momentos, há conversas sobre arte e religiosidade com um padre (Madds Mikkelsen). Schnabel, como em O escafandro e a borboleta, traz reflexões sobre a criação artística e os elos com uma divindade interna ou localizada na natureza, na mudança de percepções sobre a própria condição humana. Com a ajuda exitosa de Dafoe, o diretor lida com diversos temas em pequenos lances de subjetividade e diálogos até comuns. Van Gogh estava com em torno de 36, 37 anos anos no auge de sua obra, e Dafoe o interpreta com 63 anos. Trata-se de uma figura que se veste de maneira comum e usa um chapéu de palha que contrasta com o céu azul.

Com belo roteiro assinado por Schnabel com Jean-Claude Carrière, conhecido romancista e corroteirista, por exemplo, de O discreto charme da burguesia, e Louise Kugelberg, o filme possui uma fotografia tremida de Benoît Delhomme, parecendo até uma peça de Von Trier. No entanto, é como se o espectador visse as paisagens do modo que Van Gogh as vê, com sua proliferação de amarelos e desvios da realidade para contemplações próximas da eternidade, como ele diz em determinado momento. Tudo vai se configurando como se um pintor fosse lançando as cores na tela, na composição de uma obra. Van Gogh, deste modo, é um personagem muito disponível para se lidar com uma faceta quase poética de uma realização cinematográfica. Alguns cineastas já trabalharam sobre sua obra com destaque, com destaque para Robert Altman em Vincent & Theo, a animação Com amor, Van Gogh e o episódio de Sonhos, de Akira Kurosawa, que mostrava o pintor, interpretado por Martin Scorsese, caminhando dentro de algumas de suas obras.

No portal da eternidade parece confuso em seu início, contudo vai se estabelecendo, sobretudo com a exitosa parceria entre Dafoe e Isaac, que poderia durar mais tempo, e a reconstituição dos lugares enfocados. Tudo é muito minucioso, e a maneira como Schnabel filma os diálogos torna as conversas mais marcantes, tendo sido baseado nas cartas do pintor a seu irmão. Há uma sensação sempre de que o personagem está deslocado, tanto de sua realidade quanto o universo que ele habita, onírico e pictórico. Sua ligação familiar, por meio de Theo, cria bases sólidas para que ele continue sendo pintor, embora ainda duvide de seu talento, já que suas obras não são vendidas como espera. Há, aqui, um discurso implícito sobre a liberdade de criação do artista e a expectativa que ele gera quando se vislumbra real talento em suas tentativas de mostrar algo novo. É por meio dessas qualidades que Schnabel ergue sua versão de um dos maiores gênios da pintura. Talvez ele mesmo esteja projetando sua paixão por compor imagens no personagens, o que poderia, em parte, ser autoindulgente. O que permanece, porém, é uma sóbria delicadeza em cada um dos gestos efetuados por Van Gogh ao longo da narrativa e que não necessariamente o explicam, como uma pintura de alto nível e cuja composição pode estar tanto em se sentar frente a uma paisagem magnífica quanto encontrar uma pessoa que posa para um quadro sem saber que, por meio dele, irá atingir a eternidade de maneira incontornável.

At eternity’s gate, FRA/ING/EUA, 2018 Diretor: Julian Schnabel Elenco: Willem Dafoe, Rupert Friend, Mads Mikkelsen, Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Oscar Isaac Roteiro: Jean-Claude Carrière, Julian Schnabel, Louise Kugelberg Fotografia: Benoît Delhomme Trilha Sonora: Tatiana Lisovskaya Produção: Jon Kilik Duração: 110 min. Estúdio: Riverstone Pictures, SPK Pictures, Rocket Science, Rahway Road, Iconoclast Distribuidora: Netflix (França), Curzon Artificial Eye (Inglaterra), CBS Films (Estados Unidos)

Rogue One – Uma história Star Wars (2016)

Por André Dick

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No ano passado, todas as expectativas estavam voltadas para o fato de J.J. Abrams ter preparado o capítulo 7 da série Star Wars, intitulado O despertar da força, que alcançou grandes críticas e uma marca inacreditável nas bilheterias, de mais de 2 bilhões de dólares. Com vários méritos, no entanto, O despertar da força não se sentia plenamente um filme da saga: o estilo de Abrams, tentando reaproveitar de Lucas, fazia muitas vezes apenas uma reciclagem de antigas imagens e o estilo do diretor visivelmente não tinha liberdades. Para este ano, havia se anunciado um derivado da série, que deveria se passar entre A vingança dos Sith e Uma nova esperança, de 1977, no qual George Lucas mostrou seus personagens antológicos pela primeira vez. Mais uma chance para vender caixas de brinquedos para a Disney… Rogue One – Uma história Star Wars é dirigido por Gareth Edwards, cujo experimento anterior é o particularmente fraco Godzilla, um festival de destruições por onde o monstro icônico passa, e se sente, desde os trailers, como tal: mistura imagens que lembram os filmes da primeira trilogia com um elenco de qualidade. Não ajudou o fato de a primeira exibição junto a executivos ter recebido inúmeras críticas, convidando o diretor a refilmagens e a uma inclusão, talvez maior, de um personagem relevante para a saga.

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Nesta história, Jyn Erso é uma menina filha de Galen (Mads Mikkelsen), recrutado para trabalhar na construção de uma fortaleza espacial por Orson Krennic (Ben Mendelsohn). Ela fica órfã e passa a ser cuidada por Saw Gerrera (Forest Whitaker). Já adulta, ela se torna uma das componentes da Aliança Rebelde, integrando-se à equipe de Cassian Andor (Diego Luna) e seu androide K-2SO (Alan Tudyk). Enquanto isso, Galen manda uma mensagem à Aliança por meio de um piloto, Bodhi Rook (Riz Ahmed, colega de Gyllenhaal em O abutre). Numa das visitas a uma cidade, Jedha, eles conhecem Chirrut Îmwe (Donnie Yen), um guerreiro oriental orientado pela força – embora não especificamente um jedi – e o mercenário Baze Malbus (Jiang Wen). Ela acaba também se encontrando com o antigo mentor, Saw Gerrera, que possui uma mensagem de holograma que lhe interessa. Do lado do império, Grand Moff Tarkin (Peter Cushing, ressuscitado digitalmente de maneira espantosa) se reúne com Krennic, pondo sua gestão sobre a construção da fortaleza espacial em dúvida.
Quando se assiste a este tipo de filme, o certo é esperar no mínimo competência técnica. Como O despertar da força, Rogue One é espetacular em termos de efeitos visuais. Edwards, no entanto, ao contrário de Abrams, se aprimora ainda mais nos cenários e nas locações. A direção de arte é um espetáculo à parte. Há um senso de realismo e fantasia nela que não havia na obra de Abrams e era seu principal empecilho: em certos momentos, O despertar da força lembrava mais um parque temático do que propriamente um filme da saga Star Wars.

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Inevitável perceber que Edwards também tem uma noção muito maior no que se refere às transições de cena que tinham as peças originais de Star Wars: com a trilha retumbante de Michael Giacchino, mais efetiva do que a de John Williams em O despertar da força, a grandiosidade atinge o ápice durante as batalhas. Embora comece de maneira atropelada, encadeando sequências sem ligação visível entre si, a narrativa se recupera em seguida e não há quedas no ritmo nem a ligação entre os personagens soa forçada como acontecia em alguns momentos do capítulo de Abrams, sobretudo porque tinha de inserir Han Solo e a Princesa Leia em meio a um novo elenco. Edwards têm apenas a necessidade de expor uma missão e uma situação de guerra – mas o faz de modo extremamente notável. Desde referências ao filme A hora mais escura – o diretor de fotografia é o mesmo, Greig Fraser – até Apocalypse now, Rogue One tem ainda momentos que remetem ao grande A vingança dos Sith, de Lucas. Muitos momentos lembram principalmente de Guerra nas estrelas original, sobretudo na precariedade de alguns ambientes, sem o CGI normalmente utilizado, e isso leva o filme a uma nova escala. E Edwards tem um talento notável, não exibido a meu ver em Godzilla, para sequências de ação em que a grandiosidade se torna elemento normal, filmando naves como os Wachowski o fizeram em Matrix revolutions, de maneira mais aproximada e realista.

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Do mesmo modo, apesar de o roteiro de Rogue One não trazer novidades em termos de estrutura (ele é assinado curiosamente por dois diretores, Chris Weitz, de Um grande garoto e A bússola de ouro, e Tony Gilroy, de Duplicidade, Conduta de risco e O legado Bourne), eis a história da Disney que menos se parece com material da companhia. Se ele tivesse sido dirigido por Lars von Trier em sua estreia na ficção, não seríamos surpreendidos com tal grau de descompromisso com a bravura da saga que envolve a família Skywalker. Em Star Wars, sempre tivemos heróis quase imbatíveis; em Rogue One, os componentes da missão são figuras valentes, mas extremamente frágeis. Não vemos arroubos de heroísmo por parte de Jyn e Cassian, apenas a tentativa de completar a missão da melhor maneira. Isso é uma novidade para a mitologia Star Wars e não atenua quando Edwards leva tudo a um terceiro ato realmente espetacular, que rivaliza diretamente com O retorno de Jedi, numa mescla de cenas irreparáveis e extraordinárias. Que o mesmo diretor que fez Godzilla tenha feito este primor técnico e fantástico é uma surpresa – e nos perguntamos se Abrams não deveria ter estado aqui (spoiler até o fim do parágrafo), numa espécie de Melancolia situado no espaço sideral. Esta sequência que remete à obra de Von Trier é de uma beleza plástica memorável, unindo alegria e tristeza num laço inseparável, graças às atuações de Luna e Felicity.

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Nem mesmo a atuação de pouco vigor de Felicity Jones extrai a carga dramática que o filme possui, muito pela presença do ótimo Diego Luna, parceiro de García Bernal na pequena obra-prima … E sua mãe também, do mexicano Alfonso Cuarón. Donnie Yen e Ahmed estão ótimos, mesmo com pouco roteiro, e Mendelsohn, o que é de praxe em suas atuações (a exemplo de Reino animal), temível. Os personagens não atingem seu ápice porque exatamente são mensageiros na nova esperança – eles se concretizam por meio daqueles que ainda virão – e este é o lado mais emocionante de Rogue One, que parece simplesmente não ter sido dirigido para encantar as plateias encantadas pela saga e sim em conquistar um novo público (lamenta-se apenas que o final se sinta apressado e apenas uma ponte estabelecida com Uma nova esperança de maneira muito abrupta, tornando-se, aqui sim, mais para os fãs e conhecedores de Star Wars).
Havia uma grande obra nas mãos de Abrams no ano passado, mas quem a realiza é Edwards, este ano e contra todas as probabilidades. Rogue One não se sente apenas como um derivado: este é um legítimo filme Star Wars e que merecia carregar os créditos de história inicial, o que não acontece por ser exatamente apenas um capítulo à parte dos outros. Mas que capítulo! Não é simplesmente um fan service, apesar de remeter aos outros da saga, e sim uma obra de beleza plástica e conceitual que lembra o que George Lucas fez numa década conhecida hoje como “anos 80”, mas de maneira realmente contemporânea, mostrando uma missão em prol de um novo tempo a ser resgatado.

Rogue One – A Star Wars Story, EUA, 2016 Direção: Gareth Edwards Elenco: Felicity Jones, Diego Luna, Alan Tudyk, Donnie Yen, Jiang Wen, Ben Mendelsohn, Forest Whitaker, Riz Ahmed, Mads Mikkelsen, Jimmy Smits Roteiro: Chris Weitz, Tony Gilroy Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Allison Shearmur, Kathleen Kennedy, Simon Emanuel Duração: 134 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Allison Shearmur Productions / Lucasfilm Ltd / Walt Disney Studios Motion Pictures USA

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Doutor Estranho (2016)

Por André Dick

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O diretor Scott Derrickson, do remake de O dia em que a terra parou e de alguns filmes de terror, como A entidade, foi o escolhido para estar à frente da adaptação de Doutor Estranho, personagem criado por Stephen J. Ditko e Stan Lee, para as telas de cinema. Antes do lançamento, como ocorrem com os filmes de super-heróis, houve uma grande onda de marketing, levando à questão de que são eles que parecem manter o sistema financeiro de Hollywood girando, a fim de que se possam bancar outras produções. Nada menos do que cinco obras do gênero estão entre as dez maiores bilheterias do ano até o momento: Capitão América – Guerra Civil, Batman vs Superman, Deadpool, Esquadrão suicida e X-Men: Apocalipse. Tudo indica que Doutor Estranho irá entrar nessa lista.
O neurocirurgião Stephen Strange é brilhante e competente no que faz, embora ao mesmo tempo ambicioso. Tendo como interesse amoroso a médica e colega Christine Palmer (Rachel McAdams), ele sofre um acidente que o incapacita a trabalhar no campo a que se dedica com fidelidade e acaba viajando viajando para o Kathmandu, Nepal, a fim de descobrir uma cura. Nisso, já fomos introduzidos também ao grande vilão, feiticeiro Kaecilius (Mads Mikkelsen), que, depois de entrar em Kamar-Taj para roubar um livro proibido, luta com uma figura misteriosa em meio a prédios cuja envergadura e imponência, se desdobrando, remetem claramente ao filme A origem.

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Derrickson, porém, faz dessa experiência visual algo realmente reconfortante, como se a realidade fosse um jogo de espelhos desmontável. Ou seja, o que Doutor Estranho mais joga para o espectador é uma necessidade de questionar o que seria, afinal, a realidade: no filme, tudo passa a ser colocado em dúvida, inclusive a existência. Se na peça de Nolan havia uma inspiração filosófica, em Doutor Estranho Derrickson abre um leque mais pop. Quando o personagem se refugia no Oriente, e o filme incursiona numa linha de meditação, por meio dos personagens da Anciã e de Mordo (Chiwetel Ejiofor), o roteiro de Derrickson com Jon Spaihts e C. Robert Cargill apresenta uma amostra da discussão dos planos físico e material de modo delicado.
Há uma interessante busca de si mesmo que claramente dialoga com outras histórias, mas é o cuidado com que esse ambiente é introduzido que faz o espectador ficar agradecido pelas imagens em composição: no momento em que a Anciã leva Strange a uma viagem psicodélica, pode-se lembrar mesmo de Bowman em 2001 ou de Enter the void, de Noé: é, em suma, espetacular. Derrickson nunca chegou a ser um cineasta vistoso; aqui ele se torna competente com poucos elementos à mão, como quando insere o personagem na dimensão espelho, que lembra um pouco a aula de lutas de Paul Atreides em Duna.

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Eis que se deve dizer, ainda assim, que, a partir de determinado momento, alguns temas parecem se repetir, a sobreposição se acentua e as cenas de ação passam a existir em sequência, sem nenhuma lacuna entre elas e sem uma ligação orgânica. O Doutor Estranho não permanece a mesma figura interessante que Cumberbatch desenha em sua primeira parte. A entrada do personagem central na biblioteca protegida por Wong (Benedict Wong) passa a ser exemplo da necessidade de um humor inusitado e desperdiçado, com sua série de menções a nomes da música pop, que destoam da narrativa. Claro que existe toda uma condição em jogo: se Strange vai decidir usar sua energia para voltar a usar suas mãos como gostaria ou disponibilizá-las para um enfrentamento com Kaecilius, seguido por um grupo feroz e que pretende trazer ao cenário uma figura de dimensão assustadora.
Em meio a isso, também há uma grande competência em construir uma parte visual calcada em efeitos espetaculares. Deve-se lembrar que  eles não são apenas inspirados em A origem, como também o filtro da fotografia é o mesmo, embora nunca tenha a profundidade dada por Nolan no sentido de compor uma mente vagando, melancólica. Por sua vez, o desenho de produção se mostra pouco amplo, parecendo lembrar cenários de estúdio, principalmente na reconstituição de detalhes orientais, às vezes excessivamente fechados (talvez porque estejam todos dentro de uma caixa mental), o que contrasta com a amplitude das viagens proporcionadas pela Anciã e mesmo com as ruas cheias de população de Kathmandu.

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Com trilha sonora de Michael Giacchino, habitual colaborador de J.J. Abrams, aqui num momento menos inspirado e mais intrusivo, e competente fotografia de Ben Davis, de Guardiões das galáxia e Vingadores – Era de Ultron, Doutor Estranho é encarnado por um Cumberbatch indefinido entre empregar seu estilo reconhecido também em Sherlock e lidar com o roteiro repleto de frases de exposição. O ator, já reconhecido pelo vilão de Além da escuridão – Star Trek e por Alan Turing de O jogo da imitação, não consegue muitas vezes tornar Doutor Estranho numa figura que poderia: fascinante. Ele começa muito bem e transmite bem o sentimento de abandono e solidão, logo sendo prejudicado pela necessidade de o roteiro colocar o personagem em meio a gags deslocadas (outro ponto complicado é quando tenta se adequar a seu uniforme). No início, há uma espécie de tragicidade bem dosada e depois o roteiro esquece disso para transformá-lo, aos poucos, num super-herói que desenvolve poderes literalmente num passe de mágica – porém, não há um sentido de algo sendo descoberto, crescente, e sim apenas como parte do script. Com ele, o elenco extraordinário é subaproveitado, mesmo Swinton, McAdams e Ejiofor. O vilão, feito pelo grande ator Mikkelsen, não se sente em nenhum momento ameaçador e sua motivação é rasa, além de não receber um punhado de bons diálogos para rivalizar com o Doutor Estranho.

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Todos se sentem deslocados pelo roteiro desenvolvido rapidamente e sem se aprofundar. O bibliotecário Wong? Ele existe para os momentos de humor. A Anciã? Apenas para adiantar o que Doutor Estranho deve fazer. Onde o filme de Derrickson mais ganha é quando explora a espiritualidade e o plano físico de modo fundamental, como nas cenas do hospital e nos duelos que se expandem para novos edifícios, numa maravilha técnica de encantar os olhos, com exceção do CGI exagerado do terceiro ato. Porém, falta um elo humano, por exemplo, entre Doutor Estranho e a Anciã: tudo é projetado demais para ressonar uma verdadeira emoção e colocado em nome da franquia a ser iniciada (para ter um exemplo, mesmo com temas mais profundos, não chega perto do que acontece com o Groot ao final de Guardiões da galáxia). Doutor Estranho tenta mesclar discussões interessantíssimas sobre a vida e a morte, mas prefere, na maior parte das vezes, atenuar tudo com o humor e a exposição nos diálogos. Derrickson não consegue (ou não quer) expandir essa faceta que tornaria o personagem mais interessante; é como se temas complexos precisassem ser invariavelmente substituídos pelo programa a ser seguido. Quando vemos um elenco dessa estirpe (talvez o melhor reunido num filme da Marvel) e uma grandiosidade técnica ser diminuída por um roteiro pouco desenvolvido, nota-se que está em jogo a própria essência que a companhia desenvolveu tão bem em Os vingadores e Guardiões da galáxia, por exemplo: um misto entre humor, sentimentalismo e ação que poucas vezes se viu, sem pular de quadro em quadro para um filme totalmente diferente.

Doctor Strange, EUA, 2016 Diretor: Scott Derrickson Elenco: Benedict Cumberbatch, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Benedict Wong, Mads Mikkelsen, Tilda Swinton, Michael Stuhlbarg, Benjamin Bratt, Scott Adkins Roteiro: Jon Spaihts, Scott Derrickson, C. Robert Cargill Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Kevin Feige Duração: 115 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Marvel Studios

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A caça (2012)

Por André Dick

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Há uma espécie de indefinição no filme de Thomas Vinterberg, de A caça, que traz a oportunidade de apontar as falhas estruturais de narrativa e de lacunas de diálogos, transparentes para o espectador. Mas este não é um filme qualquer e, ainda que Vinterberg faça parte da geração do Dogma 95, destacando-se sobretudo ao lado de Lars von Trier, ele não depende de uma determinada visão cinematográfica, assim como, ao mesmo tempo, sobrevive a partir dela. Ou seja, A caça, de modo geral, é um drama humano, com alguns problemas narrativos, mas relativamente encobertos pela grande atuação de Mads Mikkelsen, ator que sempre teve problemas pela frieza que apresenta, não exatamente como o antológico vilão de 007 – Cassino Royale, mas por sua presença em O amante da rainha, sempre trazendo o filme para um plano não totalmente realizado, e que com Vinterberg consegue chegar a uma realização de destaque. Mads Mikkelsen é realmente quem oferece a este filme uma grandiosidade que ele talvez não tivesse com outro ator. O filme é dedicado à sua presença e dela se alimenta de maneira eficaz.
Como o professor Lucas, que trabalha num colégio de crianças, ele se mostra primeiramente uma figura bastante solitária, indo a pé da casa para o trabalho, numa pequena cidade dinamarquesa, observando o bosque onde ele e seus amigos têm a tradição de efetuar a caçada a cervos. Costuma se divertir brincando com os alunos nos intervalos e tem interesse em arranjar uma nova companheira, Nadja (Alexandra Rapaport), também para seu filho, Marcus (Lasse Fogelstrøm, ótimo), embora prefira sair e beber ou jogar com os amigos. No entanto, em determinado dia, ele sabe, por meio da diretora, que foi acusado por uma das alunas, Klara (Annika Wedderkopp, em excelente atuação), de ter abusado dela sexualmente. É o estopim para que não apenas a escola, como também a sociedade, passe a persegui-lo, como se fosse a caça, inclusive o pai de Klara, Theo (Thomas Bo Larsen), melhor amigo de Lucas. O espectador sabe o que realmente aconteceu, e passa, a partir daí, a ser testemunha de todo o caos que o gesto passa a causar em sua vida.

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Vinterberg estabelece esta analogia já no primeiro plano, quando mostra as brincadeiras de Lucas e seus amigos pulando num lago gelado. Esta é uma sociedade reservada apenas aos que dela fazem parte, tradicionalmente e no sentido de se inserir em círculos familiares, de pais e mestres. Muito se comenta sobre a ausência de reação de Lucas com as acusações e as constantes agressões pelas quais precisa passar, mas parece que Vinterberg está analisando a presença de um homem na cidade à qual deseja pertencer, e que qualquer resposta pode ser entendida também como um motivo para que ele não possa ficar nela, ser expulso, o que seria seu desaparecimento definitivo. Por um lado, o personagem representa uma espécie de submsissão à tradição, e é a partir deste ponto que o filme não se torna apenas o retrato factual de uma situação terrível, mas ainda mais agonizante, com um afastamento do personagem de tudo e todos como se estivesse perseguindo uma chance de ao menos se manter vivo, como se tivesse sempre, a cada gesto, de pedir perdão por algo que, o espectador sabe, ele não cometeu.
Não existe, em A caça, uma situação evidente para os personagens, um ponto a partir do qual eles são bons ou maus. A própria sociedade que não reconhece uma palavra a Lucas, por considerar, se baseia no pressuposto de que, aqui, a inocência tem a palavra definitiva – mas Vinterberg filma essa inocência de maneira provocativa, pois Klara, a menina, tem uma espécie de simbolismo que remete a algumas crianças do filme de Haneke, A fita branca, mas com a diferença do peso do sentimento para ela ignorado, em razão do afastamento que tem da família e às voltas com seu irmão e vídeos eróticos. Ela não consegue solucionar ao certo o que fala e, quando vê o universo de Lucas implodindo à sua volta, tampouco. (Ainda assim, num lance de ousadia narrativa, Vinterberg deixa em aberto se ela havia inventado a história ou projetado algo que aconteceu com ela na figura do professor.) Klara também parece simbolizar a figura feminina deixada de lado num universo quase de aldeia, repleta de homens que se escondem de um possível encontro com possíveis namoradas em noites de bebedeiras ou caçadas a cervos, e a necessidade de atenção, resultando na deturpação.

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Lucas, sem dúvida, é um personagem que precisa se manter como “a caça” a fim de que possa chegar ao motivo de entender a posição de uma, ou seja, ser perseguido sem uma razão definida – assim como os cervos que ele e seus amigos caçam. Em alguns momentos, isso não é tão efetivo, pois o espectador desconfia de sua imobilidade, mas, de certo modo, a paisagem gelada e o significado do Natal, com as famílias reunidas em torno de uma mesa e com as velas sendo vistas à distância, também corresponde ao comportamento dele. Vinterberg não foge ao fato de que a lição de moral ao final, que, é verdade, reduz um pouco o filme, lembra também a do universo imaginado pelo personagem de Laura Dern no final de Veludo azul, de David Lynch: há uma promessa de ingenuidade e de mundo idílico, nesta obra, que não se concretizam. Mas Vinterberg deseja fundamentar que a tradição é aquela pela qual o homem vive e morre: o momento derradeiro é profundamento humano e denso, não apenas pelo belíssimo desempenho de Mikkelsen, mas por sintetizar  a ideia de que nos colocando no lugar da violência a ser cometida ela pode simplesmente desaparecer.

Jagten, DIN, 2012 Diretor: Thomas Vinterberg Elenco: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Alexandra Rapaport, Annika Wedderkopp, Susse Wold, Lars Ranthe, Anne Louise Hassing Roteiro: Thomas Vinterberg, Tobias Lindholm Fotografia: Charlotte Bruus Christensen  Trilha Sonora: Nikolaj Egelund Produção: Morten Kaufmann, Sisse Graum Jørgensen, Thomas Vinterberg  Duração: 115 min.  Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Film i Väst / Zentropa Entertainments

Cotação 4 estrelas e meia

O amante da rainha (2012)

Por André Dick

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Há todo um contexto histórico em O amante da rainha, com os elementos que cercam um rei, Christian VII (Mikkel Boe Følsgaard), cujo casamento com a prima, Caroline Mathilde (Alicia Vikander), é um aceno de combinação entre seus países e suas famílias: ele, representando a Dinamarca; ela, a Inglaterra. Sem nunca ter visto o homem com quem irá conviver, ela o encontra primeiro escondido atrás de uma árvore, como se fosse uma criança incapaz de saber o que está se passando, com um certo ar cômico de desprezo. Chegando à Dinamarca, ela é de fato a esposa, anunciada num jantar para convidados. Quando toca piano, e todos a elogiam, ele manda interromper, pretendendo, ainda assim, encontrá-la. Sem sustentação emocional, o principal passatempo do Rei é passar as noites ao lado de prostitutas, no palácio ou em tavernas. Estamos em 1766, e as ruas de Copenhague estão infestadas de mau cheiro e com doenças, mas ele só pensa em aproveitar sua vida cartunesca. No nascimento de seu filho, ele decide fazer uma viagem de um ano pela Europa.
As ordens e sutilezas forçadas de um ambiente real já estavam explícitas num filme definitivo para o gênero, com toda sua carga pop, Maria Antonieta, de Sofia Coppola. O amante da rainha é muito mais intimista e talvez mais suntuoso, com sua reconstituição de época fabulosa, uma espécie de combinação entre Amadeus (em jantares e festas) e Barry Lindon (os campos esverdeados que, para Caroline, podem lembrar a Inglaterra). O diretor Nicolaj Arcel assinala uma discrição inicial para enfatizar em seguida uma montagem elíptica. A rainha engravida e aguarda a continuação de sua rotina.
Isso até a entrada de um médico, Johann Struensee (Mads Mikkelsen),  que passa a cuidar do rei, tratado como um louco pelos conselheiros. Com ideias iluministas, ele tentará dar um novo caminho à Dinamarca, procurando influenciar Christian VII e, ao mesmo tempo, envolvendo-se com Caroline. Identificada com ele por ter tido alguns de seus livros recolhidos e encontrar um livro de Jean-Jacques Rousseau em sua biblioteca, o conceito de liberdade para Caroline ganha um novo significado. Não fogem do roteiro os impulsos para a narrativa de conflitos: há um relacionamento escondido, um rei sendo manipulado pelos súditos e um homem por trás desejando iluminar essa sociedade que parece fadada ao esquecimento e mesmo a presença, por carta, de Voltaire. Há, também, uma madastra e alguns conselheiros cujo atraso é definitivo para manter a Dinamarca estagnada. Mas o romance é o tópico central, e ele surge aos poucos, em encontros no campo ou no quarto, longe dos empregados, sem que o Rei evidentemente saiba.

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No entanto, logo o tópico do romance e da traição, nunca avaliadas de forma culposa, mas simplesmente por condição do destino e de cada personagem, cede espaço ao ambiente político e a ideias filosóficas inseridas dentro de um contexto político comprometido em todas as suas camadas. Arcel não consegue estabelecer, neste caso, uma relação clara entre os personagens e suas ideias, facilmente entregando os atores a sequências imediatas, curtas, e outras mais extensas, e um tanto cansativas, pois não conectadas da forma mais ágil umas com as outras. Os últimos 40 minutos, pelo menos, são excessivamente lentos e soturnos, trazendo uma contenção extrema, o que não vemos no restante da metragem.
Principalmente a primeira hora de O amante da rainha é bastante agradável, quando os personagens estão se apresentando e as ações de cada um se constituem em um breve conhecimento a respeito de como agem. Inevitável refletir sobre a importância fundamental do elenco para a história ter um rendimento nesses trechos: se Mikkel Boe Følsgaard, como o Rei, evocando uma risada capaz de lembrar Tom Hulce como Mozart em Amadeus, é divertido, dentro dos limites de sua loucura calculada, o par central, em certos momentos, destoa. Alicia Vikander, embora pareça, não é apática, pela medida de que o filme perde um pouco seu brilho quando sua participação diminui, mas pode-se considerar Mads Mikkelsen excessivamente frio (ele é conhecido também por seu papel como vilão em 007 – Cassino Royale). Talvez, por outro lado, não seja exatamente culpa do elenco, e sim de Arcel, preferindo por um certo tom suntuoso ao gravar cada cena, querendo conceder um ambiente histórico capaz de proporcionar um clima geral de austeridade, e a fotografia de Rasmus Videbæk, mesmo com toda sua excelência, contribui para este resultado.
O amante da rainha não se ressente de querer encarnar um clássico, nem mesmo em seu relato inicial, com preenchimento no final, com uma espécie de padronização antecipada para a falta de participação de alguns personagens, optando por se circunscrever dentro do relato histórico. Nem mesmo a admiração do Rei pelo teatro, indo sempre a peças, e não raramente interrompendo com seus comentários, e sua potência para a encenação substituir sua falta de habilidade política, consegue ganhar espaço num filme como este, em que todos os elementos são excessivamente calculados e seguem uma espécie de roteiro em comum com outras obras.
Ainda assim, trata-se de uma obra capaz de despertar um interesse para a história da Dinamarca e da própria participação filosófica na Europa dentro da política e de personagens que, mesmo não atuando com vigor no presente, podem representar mais do que um alento para o futuro. Que o filme não consiga desenvolver isso da melhor maneira, apenas se lamenta, não tirando, entretanto, a sua importância.

En Kongelig Affære/A Royal Affair, Dinamarca, Suécia, República Tcheca, 2012 Diretor: Nicolaj Arcel Elenco: Alicia Vikander, Mads Mikkelsen, Mikkel Boe Følsgaard, David Dencik, Trine Dyrholm Produção: Meta Louise Foldager Sisse Graum Jørgensen Louise Vesth Fotografia: Rasmus Videbæk Trilha Sonora: Cyrille Aufort, Gabriel Yared Duração: 137 min. Distribuidora: Europa Filmes, Mares Filmes Estúdio: Zentropa Entertainments / Trollhättan Film AB / Film i Väst / Sveriges Television (SVT) / DR TV / Sirena Film

Cotação 3 estrelas