O mínimo para viver (2017)

Por André Dick

Nova produção da Netflix, O mínimo para viver traz Lily Collins como Ellen, uma jovem com anorexia. Sem a presença do pai, pouco disposto a enfrentar o problema, Susan (Carrie Preston), sua madrasta, a leva para um especialista no assunto, William Beckham (Keanu Reeves). Com o apoio da irmã Kelly (Liana Liberato), Ellen, muito a contragosto, pois não se considera doente, apesar de já ter passado por outras experiências, acaba sendo internada numa casa com outras cinco pacientes, além de um jovem, Luke (Alex Sharp), que tinha a dança como objetivo de vida. Tinha porque no momento, além de passar por distúrbios alimentares, ficou lesionado, e isso o impede de praticar sua arte. Luke fala como um tipo de lorde inglês, parecendo mais um jovem Sherlock do que exatamente um dançarino. Neste ano, a Netflix já lidou com o tema do suicídio, por meio da série 13 reasons why, repleto de ótimas atuações. Em O mínimo para viver, temos, numa narrativa mais concentrada, os mesmos dilemas da juventude mesclados com um problema aparentemente incontornável.
Em sessão de terapia com a família convocada pelo dr. Beckham, coloca-se o problema de que um desenho de Ellen no Tumbrl teria feito uma menina se suicidar. “Você está parecendo um fantasma”, diz sua mãe, Judy (Lili Taylor), que namora Olive (Brooke Smith), ao reencontrá-la nesse momento especialmente delicado. As conversas de Ellen com sua irmã e a fala desta ao dizer como se sente com uma irmã que carrega este problema apresentam alguns dos momentos mais afetivos, estabelecendo a situação de anorexia como uma questão capaz de afastar ou reunir sua família. Mas tudo parece mais inclinado ao fato de os personagens estarem solitários.

Na casa onde Ellen fica, também estão Megan (Lesbie Bibb), que espera um filho, ajudando a estabelecer pontes entre quem deseja viver ou não, Margo (Dana L. Wilson), Kendra (Lindsay McDowell), Tracy (Ciara Bravo) e Pearl (Maya Eshet), enquanto a responsável pelas reuniões é Karen (Alanna Ubach). Eles possuem uma contagem com pontos à medida que conseguem se alimentar e são vigiados por Lobo (Retta). De maneira geral, há uma atmosfera realista, remetendo a outros filmes de jovens em tratamento (no caso, psiquiátrico), a exemplo de Se enlouquecer, não se apaixone, ou com problemas envolvendo o alcoolismo, a exemplo do ótimo O maravilhoso agora. Há também alguns toques do emocionante Temporário 12, sobre uma casa de jovens deixados pela família, tendo à frente a personagem de Brie Larson. Os personagens são interessantes, embora pudessem ser melhor aproveitados, a exemplo de Pearl, numa ótima atuação de Eshet, parecendo saída de algum filme de Wes Anderson com sua caracterização, inclusive do lugar onde dorme. Todos, a começar pela madrasta de Ellen, poderiam facilmente ser caricaturas num projeto elaborado mais às pressas; aqui, pelo contrário, se sentem parte de uma família abalada decisivamente por uma questão.

Basicamente, o filme trata, sob um ponto de vista otimista (se fosse o contrário, diriam que apela certamente para o melodrama), sobre a tentativa de uma pessoa se reabilitar diante de um problema que pode vitimá-la. Ellen se enxerga gorda e faz abdominais, produzindo hematomas em suas costas e, neste ponto, a obra trabalha com sugestões visuais discretas, sem apelar a um excesso capaz de desviar a atenção. Muitas cenas se passam com os personagens reunidos numa mesa, na hora do almoço ou da janta, embora Ellen não consiga se alimentar. É interessante como eles são apresentados, com grande agilidade, e os diálogos não caem na excessiva retórica, graças também às atuações. Isso porque O mínimo para viver tem seu grande triunfo na interpretação de Lily Collins, atriz subestimada desde Espelho, espelho meu e que no ano passado esteve no ótimo filme de Warren Beatty Rules don’t apply, sendo ajudada por ótimos coadjuvantes. Ela consegue, ao contrário do que aconteceu em Okja, explorar nuances de sua personagem, sem agradar excessivamente ao espectador e nem se situar num determinado exagero dramático.

Depois dela, talvez a figura mais interessante seja a do Beckham de Reeves, à medida que poderia ser retratado como uma espécie de salvador para o problema desses jovens e se mostra muito mais humano. A franqueza dele é muito bem encenada por Reeves: “Dos seus familiares, a única que não é egoísta é sua irmã”, diz ele a Ellen. Sharp, um dançarino na vida real, estreia como ator também do melhor modo: seu papel se justifica em todas as cenas nas quais aparece. Pode-se apreciar a direção de Marti Noxon, bastante simples, sem ser simplista. Ele tem como parâmetro A culpa é das estrelas quando apela para uma emoção mais acentuada, no entanto algumas conversas, entre Ellen e sua mãe, assim como com o dr. Beckham, são cortantes e o drama central realmente interessante. Há uma passagem mais ao final em que a mãe feita por Taylor, destaque em Digam o que quiserem, dos anos 80, precisa voltar a uma espécie de infância da filha, e o resultado é discreto e dramaticamente arrebatador. Lamenta-se apenas que Noxon não invista, da maneira como poderia, na metáfora despertada pelo problema de Ellen, quando busca transportá-la para uma espécie de pensamento imaginário. Isso não impede de O mínimo para viver buscar a emoção em sentimentos reais.

To the bone, EUA, 2017 Diretor: Marti Noxon Elenco: Lilly Collins, Alex Sharp, Carrie Preston, Keanu Reeves, Kathryn Prescott, Liana Liberato, Alanna Ubach, Lili Taylor, Brooke Smith, Ciara Bravo, Retta, Michael B. Silver, Hana Hayes, Rebekah Kennedy, Maya Eshet Roteiro: Marti Noxon Fotografia: Richard Wong Trilha Sonora: Fil Eisler Produção: Bonnie Curtis, Karina Miller, Julie Lynn Duração: 105 min. Estúdio: AMBI Group, Sparkhouse Media, Foxtail Entertainment, Mockingbird Pictures Distribuidora: Netflix

 

Short Cuts – Cenas da vida (1993)

Por André Dick 

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O cineasta Robert Altman, no início dos anos 90, havia voltado à cena com o sucesso em Cannes de O jogador, uma homenagem a Hollywood com sua sátira mordaz, que encontramos em MASH, por exemplo. No ano seguinte, ele lançou Short Cuts – Cenas da vida, em que reúne contos de Raymond Carver para contar várias histórias ao mesmo tempo. Temos certeza de que o tema está em outros filmes de Altman, sobretudo Nashville: a desilusão de um ser humano com o outro, ainda que exista um otimismo; o entrelaçamento de histórias, como uma espécie de elo existencial. A literatura de Carver é repleta de detalhes, mas quem emprega um ritmo incomum a elas é Altman. Por isso, ele está interessado em mostrar casais entendiados com a vida a partir de uma sequência inicial com helicópteros fazendo uma pulverização na cidade de Los Angeles. Um policial, Gene Shepard (Tim Robbins), incomodado com os latidos do cachorro que só agrada aos filhos, trai compulsivamente a mulher, Sherri (Madeleine Stowe), com Betty Weathers (Frances McDormand). Esta se separou de Stormy (Peter Gallagher), piloto de helicóptero, ao que parece não muito satisfeito com a situação. O Dr. Ralph Wyman (Matthew Modine) está em conflito com a mulher pintora, Marian Wyman (Julianne Moore), desconfia de uma traição, e não consegue agir de forma acertada no hospital, enquanto Stuart Kane (Fred Ward) vive com Claire (Anne Archer), que trabalha como palhaça de festas infantis, parada pelo policial Gene numa de suas escapadas porque “está dirigindo devagar demais”. Temos ainda Doreen Piggot (Lily Tomlin), atendente numa lanchonete, onde Earl (Tom Waits), chofer com problemas de bebida, aparece constantemente. Ambos são pais de Honey (Lily Taylor), apaixonada por ver peixes no aquário do apartamento vizinho e casada com um maquiador, Bill (Robert Downey Jr.). Amigos de Lois Kaiser (Jennifer Jason Leigh), que faz programa telessexo em casa, diante dos filhos, e Jerry (Chris Penn), limpador de piscinas, obviamente reprimido pela situação à volta, Honey e Bill são os personagens mais enigmáticos do filme, e não por acaso, ao final, eles participam diretamente de uma determinada situação definitiva.

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Altman também mostra alguns amigos se reunindo para pescar, entre os quais Stuart Kane (quando encontram um corpo boiando, mas pensam que, se forem fazer uma denúncia, perderão o fim de semana), além de uma história que ajuda a estabelecer contato com outras: a de um menino, Casey (Zane Cassidy), filho de Howard Finnigan (Bruce Davidson), um âncora conhecido de TV, e Ann (Andie McDowell), que é atropelado, na ida para a escola. Ele acaba voltando para casa, dorme e entra em coma. As histórias aconteçam parelalamente, também em torno de uma cantora de jazz, Tes (Annie Hoss) e sua filha, Zoe (Lori Singer), uma violoncelista melancólica, que moram ao lado da casa dos Finnigans. Por isso, o centro é o atropelamento, que faz ligar todas as outras de modo incomum por Altman.
A maneira como o diretor entrelaça essas histórias, já demonstrada por ele mesmo em Nashville, seria inspiração para filmes como Magnólia e Crash, mas só aqui conseguimos ver com eventual clareza como as pessoas estão, descompromissadamente, interligadas. Não é motivo para Altman querer desenhar o perfil da humanidade, mas um retrato um tanto tedioso (embora sublime) dos Estados Unidos. Nele, não temos os neons entre cowboys de Thelma e Louise, mas uma frequente indagação diante do que não quer se deixar claro, na atitude dos personagens.
Uma constelação de figuras e imagens, além de conversas em profusão, tornam Short Cuts um dos filmes mais representativos dos anos 90, e uma espécie de síntese para os dias atuais, com sua ligação ininterrupta, antes dos tempos de internet, em que todos parecem conectados (para não falar em Cloud Atlas, que faz, em tempos diferentes, o que Altman apresenta aqui). Altman lança figuras como a do confeiteiro Andy Bitkower (Lyle Lovett) e do avô do menino Finnigan, Paul, que vai ao hospital desabafar com o filho, é feito por um extraordinário Jack Lemmon.

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Na verdade, é em Short Cuts, com suas ligações abruptas, que Altman antecipa o cinema nervoso dos dias atuais. Um cinema em que a montagem é peça fundamental para que o espectador se sinta inserido na narrativa. A constelação de personagens é uma espécie de significado para o fato de que a ação de um interfere nas ações de outros, mas não de forma evidente ou previsível. Pelo contrário: Altman coloca, nesse efeito, que personagens a princípio atenciosos na verdade não o são; que personagens tristes e melancólicos podem se recuperar em cumplicidade mútua.
Vejamos, por exemplo, como interfere o médico na condição do menino atropelado; ou como uma personagem que ouve a história da menina encontrada morta se emociona mais do que aqueles diretamente envolvidos pela situação, considerando-a apenas bizarra; ou como as pessoas dependem da vontade alheia para repercutirem a sua rotina por gerações e gerações. Do mesmo modo, como a simples escuta pode fazer um homem cercado de filhos entrar em pane e uma filha que tenta se aproximar da mãe por meio da música, sem conseguir ser bem-sucedida, preferindo fingir que está morta na piscina. Inevitável perceber como Altman vai construindo uma série de analogias: entre a mulher do rio e a menina da piscina; entre o menino doente e o casal que brinca com a agressão; entre o avô que espera uma chance de ajudar, sem saber se será verdadeira, e a mulher que vai ao velório da menina encontrada morta, sem conhecê-la; entre a pessoa que realmente tem sentimentos pela outra e o policial que acaba servindo de herói derradeiro para a família; entre o homem que deseja recuperar o filho no presente e o pai que só pretende lembrar do passado para justificar os erros cometidos. Consegue-se captar, nesse sentido, uma combinação entre o tédio e o patético, que oferecem uma comicidade ligeira, e o trágico, na própria indefinição dos personagens em agirem ou não conforme estão desejando. E a surpresa da ação de cada um: leva-se um peixe para um jantar pescado no mesmo rio da menina encontra morta; destrói-se uma casa porque sua dona partiu em viagem com o amante; uma mulher fica nua apenas para provocar o marido da amiga; e as amigas riem da angústia dos maridos em descobrirem se elas estão tramando algo.
Altman atinge escalas expressivamente humanas e desumanas nesta espécie de épico do cotidiano, sem concessão a batalhas ou feridas abertas de forma evidente. Os personagens estão buscando suas coisas, e entre elas está a própria vida que Altman concede a eles. Os cenários vislumbrados de Los Angeles soam, na maior parte do tempo, realistas, sem nenhum trabalho elaborado no que se refere à fotografia ou às imagens – apenas com o conhecido zoom de Altman –, mas é aí que reside o poder sensorial de Short Cuts, um filme que pode mesmo soar cansativo (suas três horas são percebidas em certos momentos), mas nunca desnecessário. Quando voltamos a ele, sabemos que, mais do que um filme, composto por um roteiro complexo e atores em fantástica exposição (de Lemmon, passando por Robbins, Tomlin, McDowell, até os que menos aparecem, como Chris Penn), estamos diante de um momento captado das vidas humanas.
Do alto, dos helicópteros, como Altman anuncia no início do filme, parecem apenas pontos brilhando na noite, alguns solitários se locomovendo para lá e para cá. Mas quando Altman os filma de perto, com a intimidade conhecida em sua obra e elimina qualquer senso de interpretação, a certeza é de uma obra brilhantemente arquitetada, em todos os seus detalhes. E as luzes se intensificam cada vez mais.

Short Cuts, EUA, 1993 Diretor: Robert Altman Elenco: Andie MacDowell, Bruce Davison, Jack Lemmon, Matthew Modine, Lane Cassidy, Julianne Moore, Anne Archer, Fred Ward, Jennifer Jason Leigh, Chris Penn, Lili Taylor, Robert Downey Jr., Madeleine Stowe, Tim Robbins Produção: Robert Altman, Cary Brokaw Roteiro: Raymond Carver, Robert Altman Fotografia: Walt Lloyd Trilha Sonora: Mark Isham Duração: 188 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: New Line Cinema

Cotação 5 estrelas