Ilha dos cachorros (2018)

Por André Dick

Lançado no Festival de Berlim deste ano, Ilha dos cachorros, embora possa se parecer com O fantástico Sr. Raposo, tem muito mais de Moonrise Kingdom do que qualquer outra obra de Wes Anderson, assim como remete, em vários momentos, ao restante de sua filmografia, com um humor agridoce e afetivo. A maneira como a cultura japonesa é apresentada pode soar, em alguns momentos, provocadora, mas poucos criadores do Ocidente conseguiram mostrá-la com tantos detalhes nos últimos anos, principalmente no uso de ambientações típicas.
A história mostra a decisão do prefeito de Megasaki, Kobayashi (Kunichi Nomura), que decide mandar todos os cães de seu país, por motivos de saúde, para uma ilha erguida por detritos. Ele é representante de uma dinastia que lutou contra a presença de cachorros na sociedade, preferindo os gatos – e o início do filme poderia lembrar Kagemusha. O menino que apadrinha, Atari (Koyu Rankin), deseja rever seu cão Spots (Liev Schreiber), indo de avião resgatá-lo na ilha.

O filme se passa vinte anos no futuro, e Anderson, junto com a história elaborada em parceria com Roman Coppola, Jason Schwartzman (com os quais escreveu Viagem a Darjeeling) e Kunichi Nomura, mostra uma sensibilidade insuspeita quando Atari encontra um grupo de cães: Chief (Bryan Cranston), Rex (Edward Norton), King (Bob Balaban), Boss (Bill Murray) e Duke (Jeff Goldblum). Há também uma estudante, Tracy Walker (Greta Gerwig), que deseja salvar esses cães. E há ainda Nutmeg (Scarlett Johansson), que cria interesse imediato em Chief, e dois cães que parecem guias misteriosos, Jupiter (F. Murray Abraham) e Oracle (Tilda Swinton).
Anderson mostra os cães como em seu cartaz: constantemente olhando para a câmera, numa quebra da quarta parede, concedendo uma humanidade imprevista. Do mesmo modo, ele trabalha com os espaços da ilha quase do mesmo modo que faz em Moonrise Kingdom, ampliando o olhar para detalhes no horizonte e em certa melancolia. Ele lida com sentimentos dos seres humanos pelos animais, mas de modo introspectivo, bem diferente do grande sucesso comercial (e divertido) Pets e dos clássicos 101 dálmatas e Todos os cães merecem o céu. Isso não o afasta de algumas gags efetivas (“Parem de lamber suas feridas”, diz o líder, enquanto um dos parceiros exatamente as lambe).

Desde o início, Ilha dos cachorros se mostra um filme de Wes Anderson, principalmente pela movimentação de câmera. É estranho que os diálogos em japonês não sejam legendados, apenas traduzidos em conferências (com a voz de Frances McDormand), talvez para criar mais um desvio narrativo. O uso da trilha sonora de Alexandre Desplat, assim como de canções no estilo indie típicas na filmografia de Anderson (com exceção feita a seu filme anterior, O grande Hotel Budapeste), se mostra mais uma vez acertada.
Estruturado nesses elementos, Anderson expande seus temas já mostrados antes: a figura da família é essencial para entender Atari. Ele é um menino órfão, assim como o de Moonrise Kingdom, do mesmo modo que tem uma relação conflituosa com seu padrinho, a exemplo do que vemos em outros momentos da carreira de Wes Anderson. Atari não é expansivo como outras crianças da filmografia do cineasta: suas reações são mais distantes. Ao contrário de O fantástico Sr. Raposo, também há um certo afastamento dos que podem ser considerados humanos, baseado na figura de Kobayashi, inspirado no ator Toshiro Mifune, que apareceu em diversos filmes de Akira Kurosawa e aqui parece ecoar aquela atuação de O barba ruiva.

O uso das cores, assim como no stop-motion anterior de Anderson, O fantástico Sr. Raposo, é espetacular, realçando o cenário como poucos cineastas, mesmo orientais, conseguiriam. É uma qualidade conhecida do cineasta, porém poucas vezes depurada como neste trabalho exemplar. Premiado como melhor diretor em Berlim, Anderson parece mais interessado em deixar seus sentimentos mais contidos do que revelados, o que já mostrou ao longo de sua trajetória, nunca de modo tão presente quanto aqui. Ele parece, ao mesmo tempo intensificar sua assinatura e fazê-la menos particular, inclusive no tom baixo das músicas e na quase falta de transição clara entre as cenas. De qualquer modo, há sempre ainda, por baixo de tudo, o sentimento familiar de seus primeiros filmes, a começar por Os excêntricos Tenenbaums e Viagem a Darjeeling, na maneira como os cães interagem, a princípio desconfiados uns dos outros, em seguida unidos pelo mesmo objetivo. A construção de ideia de família transita entre o mundo humano e o animal, no entanto nunca de maneira tão óbvia quanto aparenta nesta obra de verdadeiro comunicado sobre o comportamento da natureza, solícito ou não, preparado para o embate contra o que pode prejudicá-la.

Isle of dogs, EUA, 2018 Diretor: Wes Anderson Elenco: Bryan Cranston, Edward Norton, Bill Murray, Jeff Goldblum, Bob Balaban, Kunichi Nomura, Ken Watanabe, Greta Gerwig, Frances McDormand, Fisher Stevens, Nijiro Murakami, Harvey Keitel, Koyu Rankin, Liev Schreiber, Scarlett Johansson, Tilda Swinton, Akira Ito, Akira Takayama, F. Murray Abraham Roteiro: Wes Anderson História: Wes Anderson, Roman Coppola, Jason Schwartzman, Kunichi Nomura Narração: Courtney B. Vance Fotografia: Tristan Oliver Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Wes Anderson, Scott Rudin, Steven Rales, Jeremy Dawson Duração: 101 min. Estúdio: Indian Paintbrush, American Empirical Pictures Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

Spotlight – Segredos revelados (2015)

Por André Dick

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Alguns filmes adquirem, de um momento para outro, uma determinada importância que os fazem ser assistidos com mais ou menos expectativa. Alguns correspondem a ela, outros não. Quando o também ator Tom McCarthy (ele está na série Entrando numa fria, como um dos cunhados de Robert De Niro), realizou, por exemplo, O agente da estação, ainda era um cineasta em início de trajetória, e Ganhar ou ganhar mostrou sua sensibilidade, por meio da bela atuação de Paul Giamatti, enquanto Trocando os pés trouxe mais um Adam Sandler de rotina, mas com Spotlight – Segredos revelados ele acaba chamando a atenção para si e para o elenco que atrai para esta história baseada em fatos reais.
O jornal Boston Globe contava com uma equipe de reportagens especiais, Spotlight, tendo à frente Walter Robbinson (Michael Keaton), com Mike Rezendes (Mark Ruffalo), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams) e Matt Carroll (Brian d’Arcy James) como parceiros. Eles são incumbidos pelo novo chefe, Marty Baron (Liev Schreiber), de investigar abusos por parte de padres pedófilos ligados à Igreja Católica em Boston. Trata-se de um assunto de extrema importância, sobretudo porque necessita um tratamento que não seja condescendente com o assunto. Há alguns filmes pontuais que fazem uma crítica direta à Igreja Católica e são bastante ousados, a exemplo de O poderoso chefão III, quando mostra Michael Corleone com contatos diretos dentro do Vaticano.

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O tema de Spotlight é distinto – e lida com uma questão que atinge a Igreja há alguns anos, por todas as notícias a que se tem acesso. McCarthy tinha uma linha a seguir de emotividade, no entanto, em termos narrativos, Spotlight se destaca por ser um filme de diálogos sobre uma matéria a ser feita. Parece que muito está acontecendo, e quando se percebe não chega a haver uma linha mais aprofundada de cada personagem. Eles buscam informações e se movimentam, mas o espectador dificilmente está com eles. Como na referência central do filme, Todos os homens do presidente, sobre o Caso Watergate, eles vão atrás de pessoas e poucas vão recebê-los, no entanto Pakula sabia construir um crescente de tensão e desconfiança; McCarthy parece apenas registrar fatos e colocar personagens para dizê-los sem a ênfase necessária, ao som de uma trilha sonora surpreendentemente tímida de Howard Shore.
Spotlight fica no limite da denúncia, no entanto um pouco afastado do tema que pretende abordar, por meio, principalmente, do empecilho que o direito colocaria para impedir a verdade. A questão, ao que parece, é que a importância de Spotlight não parece ser a mesma de seu tema em questão, e pelo que se vê essa mistura está sendo feita em grande quantidade, mesmo quando tem grandes momentos.
Os relatos de vítimas são muito bem feitos no início, dando ao filme uma carga dramática específica, principalmente os de Phil Saviano (Neal Huff), Joe Crowley (Michael Cyril Creighton) e Patrick McSorley (Jimmy LeBlanc), todos em excelentes atuações, por outro lado McCarthy os descarta para dar uma movimentação ininterrupta. Todos os jornalistas falam o tempo todo dos casos, não abrindo espaço para uma emoção que podem tirar deles. Nessa movimentação, é visível que se ausenta a parte que na investigação é responsável pelos acontecimentos. Quando ela surge, é de maneira um tanto encoberta, como se não quisesse mostrá-la. Ou seja, há uma pauta jornalística a ser cumprida pela equipe Spotlight; isso em termos de cinema não significa que dê um filme destacado. E é difícil acreditar que McCarthy deseja extrair um traço de humor do aviso de Matt Carroll a seus filhos.

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Com esta falta de carga dramática, as atuações têm dificuldade para se sobressair, exceto as de Mark Ruffalo e de alguns coadjuvantes (Stanley Tucci e Schreiber), principalmente Billy Crudup como o advogado ambíguo Eric Macleish e John Slattery, no papel de Ben Bradlee Jr. Keaton e McAdams, apesar de estarem bem (e admiro ambos), talvez estejam em parte desperdiçados em personagens que poderiam mais contundência. Não há traços claros da sensibilidade interpretativa que McCarthy mostrou em seus belos O agente da estação e Ganhar ou ganhar, ou a simplicidade que realçava as bordas emocionais desses filmes. Num ano em que há um filme como Juventude, é difícil considerar que Spotlight chegue perto de ter o melhor elenco.
A montagem, para um filme quase documental, é igualmente confusa e as camadas vão se sobrepondo, abandonando ideias interessantes, outras menos, porém sempre deixando para trás alguma linha pela qual o espectador poderia seguir com mais clareza para que o impacto seja devidamente atingido. À medida que Spotlight hesita em mostrar quem eram os responsáveis pelos acontecimentos, em raras exceções, o filme se sente, de certa maneira, incompleto. Não há uma clareza entre o público e o privado, não da maneira proposital que deveria, e sim para o crescimento dos personagens nessas duas redomas. A exposição do problema crucial para Boston, tão referida ao longo do filme, se torna para além do filme: não é o ponto para McCarthy. Tudo, para ele, continua e continuará em segredo, pelo menos para o espectador que acompanha a história. A verdade só poderá vir depois da notícia, e nos perguntamos se veremos Saviano, Crowley e McSorley diante de quem cometeu algo trágico em suas vidas.

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Mesmo a maneira com que McCarthy filmou sua história, com um design de produção bastante simplista (lembra um telefilme antes das produções mais recentes sofisticadas) e movimentos de câmera em parte previsíveis (algumas conversas são acompanhadas pelas costas dos personagens, mas nunca recebem um significado mais amplo), incomoda. Além disso, a redação de jornal não se confirma como um lugar atrativo e os cenários além dela são dispersos e pouco numerosos. McCarthy opta por uma certa secura visual, como se isso desse a ele mais efetividade no tratamento do tema.
E ele realmente não consegue solucionar a montagem da melhor maneira. Não era o objetivo, claro, mostrar a amizade entre os repórteres; o problema é que em Spotlight não há um elo de ligação evidente que os torna uma equipe, e isso é sentido no resultado final, que parece absorver toda a emoção que haveria nos relatos originais, entregando apenas o que seria impresso. Isso acaba criando um afastamento inevitável do espectador que percebe esse impasse na narrativa de McCarthy, de que os personagens são apenas o elo para uma denúncia de impacto enorme (o final mostra muito bem essa característica, especialmente) e não, como em Todos os homens do presidente, também figuras intrinsecamente ligadas ao assunto, exceto a do personagem feito por Ruffalo, ao menos em termos de convencimento cinematográfico. O editor feito por Keaton é um exemplo. É isto o que mais chama a atenção ao fim de Spotlight: a vida dessas pessoas prejudicadas tragicamente por padres pedófilos parece, antes de tudo, servir apenas a uma matéria, e o roteiro acaba por se ressentir de um acabamento: aquele que faz do espectador também parte daquela emoção. Para o que gostaria de ser, falta, na verdade, um editor para Spotlight.

Spotlight, EUA, 2015 Diretor: Tom McCarthy Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachael McAdams, Liev Schreiber, Stanley Tucci, Billy Crudup, John Slattery, Len Cariou, Neal Huff, Michael Cyril Creighton, Jimmy LeBlanc Roteiro: Josh Singer, Tom McCarthy Fotografia: Masanobu Takayanagi Trilha Sonora: Howard Shore Produção: Blye Pagon Faust, Michael Sugar, Nicole Rocklin, Steve Golin Duração: 128 min. Distribuidora: Sony PicturesEstúdio: Anonymous Content / Participant Media / Rocklin / Faust

Cotação 2 estrelas e meia