Jornada nas estrelas – O filme (1979)

Por André Dick

Jornada nas estrelas.Filme 25

O primeiro filme para o cinema da série Jornada nas estrelas, baseado nos personagens criados por Gene Roddenberry, despertou certa polêmica à época de seu lançamento, dez anos depois de a série de TV ser interrompida (durou de 1966 a 1969). A impressão geral, tanto para o público em geral quanto para os fãs da série, é de que faltava ação e humor à trama. Mesmo na primeira visualização, essa impressão realmente se mostra em parte correta, devido ao roteiro soar um tanto frio, do mesmo modo como surge Spock, depois de uma temporada em Vulcano. À frente da direção, estava o cineasta Robert Wise, que havia ganho Oscars de melhor filme por Amor, sublime, amor e A noviça rebelde, além de ter dirigido O dia em que a terra parou e O enigma de Andrômeda. O estúdio investiu um grande orçamento, de mais de 40 milhões de dólares, consumidos principalmente pela área de efeitos especiais. Para ela, forma convocados os nomes de Douglas Trumbull e John Dykstra; o primeiro, responsável pelos efeitos de 2001, o segundo de Guerra nas estrelas.
O filme, de certo modo, recebe uma nova oportunidade com sua visualização em HD, em sua cópia de Blu-ray. E, depois das duas parcelas da nova geração filmadas por J.J. Abrams com o apuro de um dos melhores diretores de ação do momento atual, talvez não seja o melhor caminho comparar o ritmo – a série antiga, e sobretudo o primeiro episódio para o cinema, soam próprios de seu período, sem nenhum demérito.

Jornada nas estrelas

Jornada nas estrelas.Filme 7

Jornada nas estrelas.Filme 20

Jornada nas estrelas.Filme 14

Com uma etapa inicial marcada pela trilha sonora marcante de Jerry Goldsmith, Wise mostra toda a tripulação do seriado de volta, sob o comando do capitão Kirk (Shatner), que foi promovido a almirante e trabalha em San Francisco como Diretor de Operações da Frota Estelar. Em 2273, ele é convocado depois que uma força estranha composta de energia ameaça se aproximar da terra, depois de se deparar com uma esquadra klingon e detectada pela Frota Estelar estação de monitoramento, Epsilon Nine. No entanto, ele precisa confrontar o atual capitão da nave Enterprise, Willard Decker (Stephen Collins), rebaixando-o de posto. Levado à espaçonave por Scotty (James Doohan), Wise mostra a primeira visão da Enterprise como uma espécie da passagem do osso lançado ao céu para a estação espacial aguardando o ônibus de Floyd em 2001. O tempo longo de execução, por outro lado, se mostra interessante para demarcar este primeiro ingresso cinematográfico dos personagens de Roddenberry. Se as indicações ao Oscar (trilha sonora, direção de arte e efeitos especiais), são justas, parece não ser reduzir este episódio a uma antecipação do que a série ofereceria de melhor, o segundo capítulo, com A ira de Khan, e o sexto, A terra desconhecida, ambos dirigidos por Nicholas Meyer. Kirk se mostra inseguro diante da ameaça de não estar à frente do comando da Enterprise, e para isso ele se cerca dos amigos Dr. McCoy (DeForest Kelley), ou “Bones”, Uhura (Nichelle Nichols), e Sulu (George Takei), o piloto, além de Scotty.
Na ida para a ameaça que vem em direção à Terra, vem a bordo Spock (Leonard Nimoy), a fim de colaborar com a missão. Este reencontro, se não e um dos momentos mais divertidos do filme, é, sem dúvida aquele que melhor demarca a oposição entre Kirk e o vulcano. Spock não se mostra muito interessado em rever os companheiros, ainda mais por causa do curso pelo qual passou Essa linha fina de roteiro, porém, se expande quando uma das passageiras, Ilia (Perris Khambatta), é raptada por V’Ger, a força de energia, e substituída por uma réplica robótica, e regressa afirmando ser mensageira daquilo que se chama V’Ger. O que seria exatamente V’Ger? Para o espectador, fica clara a analogia com o monólito negro de 2001, de Kubrick, e onde este filme parou parece que Wise quer continuar.

Jornada nas estrelas.Filme 12

Jornada nas estrelas.Filme 13

Jornada nas estrelas.Filme 11

Jornada nas estrelas.Filme 9

O roteiro, desse modo, passa a se mostrar mais interessado em traçar o real mistério do que seria o V’Ger, perturbando os tripulantes da Enterprise, sobretudo Spock, que diz ser ele um dos motivos para ter vindo a bordo e que poderá ajuda-lo a completar o que não conseguiu entender em Vulcano. É neste ponto que o roteiro de Alan Dean Foster e Harold Livingston se mostra mais interessante, pois este Jornada nas estrelas – O filme tenta mostrar a Spock o que de fato ele, embora não pareça, quer sensações próximas à humanidade. O mistério do que significa o V’Ger levará Spock a reavaliar sua trajetória até ali. Não apenas isso: Ilia, ligada a Decker, guarda, em sua porção já dominada pelo V’Ger, o resquício de amor que nutria anteriormente por ele. Ou seja, se ela passa a ser quase uma mensageira de um enigma que a partir de determinado momento se confunde com uma máquina, o que certamente tem influência no recente Transcendence.
É interessante como num momento em que a ficção científica Guerra nas estrelas, George Lucas, havia se tornado uma referência, com sua mescla fabulosa entre humor e ação, Wise tenha optado em fazer de Jornada nas estrelas – O filme uma resposta, no imaginário popular, ao cerebral 2001 de Kubrick. Ele consegue, de fato, empregar um conceito por meio de V’Ger bastante instigante, e a maneira como descortina esse cenário do espaço sideral é inquietante, originalíssimo. Os gráficos, tanto de V’Ger quanto da viagem de Spock vestido de astronauta, se dialogam com David Bowman depois de sair da espaçonave, em razão de HAL-9000, antecipam, muito mais, as imagens de outros filmes, como O segredo do abismo, 2010 – O ano em que faremos contato, Tron – Uma odisseia eletrônica, Superman 2Blade Runner e A árvore da vida. Não por acaso, pois Trumbull foi o responsável pelos efeitos especiais dos dois últimos, por exemplo. Ele consegue, em Jornada nas estrelas, compor uma harmonia clássica de imagens com efeitos especiais. Os planetas visualizados por Spock, próximos de uma espiral que se abre e fecha como uma planta, além de formas que lembram a origem do homem, a sua genética, compõem um gráfico fabuloso não apenas para o final dos anos 70, como para a história da ficção científica no cinema. Trata-se de um momento impressionante, não uma tentativa de copiar 2001, e sim uma viagem autêntica ao espaço sideral, em termos de ficção científica.

Jornada nas estrelas.Filme 8

Jornada nas estrelas.Filme 16

Jornada nas estrelas.Filme 15

Jornada nas estrelas.Filme 21

Se o desenho de podução de Harold Michelson da parte interna da Enterprise parece menos futurista do que Alien, do mesmo ano, é certamente por vontade de Wise dialogar com a série de TV dos anos 60 – e, junto a seus figurinos, parece ser a parte mais datada deste filme. Ainda assim, é natural que um filme como Jornada nas estrelas também dialogue com sua época – e a introdução de Spock é um dos indícios desse caminho.
Uma das críticas feitas aos episódios de J.J. Abrams é sua necessidade de colocar seus personagens em tom de aventura e emoção, muitas vezes ignorado o mistério do espaço; isso é bastante flagrante se comparado com este filme, no qual o enigma vale muito mais do que qualquer emoção. Também é notável como Wise não consegue encontrar humor – que seria visível principalmente no quarto episódio, A volta para terra – nesses personagens: é como se ele realmente quisesse rever Kubrick. E é curioso como se veja este Jornada nas estrelas como maçante, quando, na verdade, seu ritmo é muito mais intenso do que o de 2001. Isso se deve, sobretudo, às atuações tanto de Nimoy, como Spock, quanto, principalmente, de William Shatner, talvez em seu melhor momento como o capitão Kirk, praticamente centralizando toda a comunicação entre os personagens – e Stephen Collins se torna um ator efetivo ao não concordar com as ordens de Kirk. Mas é justamente a composição visual em que esses personagens estão, com a trilha vigorosa de Jerry Goldsmith, que fazem este Jornada nas estrelas um belo prenúncio de novas viagens. Há uma ressonância distinta neste filme, capaz de ser percebida apenas com a distância dos anos – e para melhor.

Star Trek – The motion picture, EUA, 1979 Diretor: Robert Wise Elenco: William Shatner, Leonard Nimoy, George Takei, James Doohan, Walter Koenig, Nichelle Nichols, DeForest Kelley, Majel Barrett, Stephen Collins, Persis Khambatta Roteiro: Alan Dean Foster, Harold Livingston Fotografia: Richard H. Kline Trilha Sonora: Jerry Goldsmith Produção: Gene Roddenberry Duração: 132 min.Estúdio: Century Associates / Paramount Pictures

 

Jornada nas estrelas – O filme (1979)

Por André Dick

Jornada nas estrelas.Filme 25

O primeiro filme para o cinema da série Jornada nas estrelas, baseado nos personagens criados por Gene Roddenberry, despertou certa polêmica à época de seu lançamento, dez anos depois de a série de TV ser interrompida (durou de 1966 a 1969). A impressão geral, tanto para o público em geral quanto para os fãs da série, é de que faltava ação e humor à trama. Mesmo na primeira visualização, essa impressão realmente se mostra em parte correta, devido ao roteiro soar um tanto frio, do mesmo modo como surge Spock, depois de uma temporada em Vulcano. À frente da direção, estava o cineasta Robert Wise, que havia ganho Oscars de melhor filme por Amor, sublime, amor e A noviça rebelde, além de ter dirigido O dia em que a terra parou e O enigma de Andrômeda. O estúdio investiu um grande orçamento, de mais de 40 milhões de dólares, consumidos principalmente pela área de efeitos especiais. Para ela, forma convocados os nomes de Douglas Trumbull e John Dykstra; o primeiro, responsável pelos efeitos de 2001, o segundo de Guerra nas estrelas.
O filme, de certo modo, recebe uma nova oportunidade com sua visualização em HD, em sua cópia de Blu-ray. E, depois das duas parcelas da nova geração filmadas por J.J. Abrams com o apuro de um dos melhores diretores de ação do momento atual, talvez não seja o melhor caminho comparar o ritmo – a série antiga, e sobretudo o primeiro episódio para o cinema, soam próprios de seu período, sem nenhum demérito.

Jornada nas estrelas

Jornada nas estrelas.Filme 7

Jornada nas estrelas.Filme 20

Jornada nas estrelas.Filme 14

Com uma etapa inicial marcada pela trilha sonora marcante de Jerry Goldsmith, Wise mostra toda a tripulação do seriado de volta, sob o comando do capitão Kirk (Shatner), que foi promovido a almirante e trabalha em San Francisco como Diretor de Operações da Frota Estelar. Em 2273, ele é convocado depois que uma força estranha composta de energia ameaça se aproximar da terra, depois de se deparar com uma esquadra klingon e detectada pela Frota Estelar estação de monitoramento, Epsilon Nine. No entanto, ele precisa confrontar o atual capitão da nave Enterprise, Willard Decker (Stephen Collins), rebaixando-o de posto. Levado à espaçonave por Scotty (James Doohan), Wise mostra a primeira visão da Enterprise como uma espécie da passagem do osso lançado ao céu para a estação espacial aguardando o ônibus de Floyd em 2001. O tempo longo de execução, por outro lado, se mostra interessante para demarcar este primeiro ingresso cinematográfico dos personagens de Roddenberry. Se as indicações ao Oscar (trilha sonora, direção de arte e efeitos especiais), são justas, parece não ser reduzir este episódio a uma antecipação do que a série ofereceria de melhor, o segundo capítulo, com A ira de Khan, e o sexto, A terra desconhecida, ambos dirigidos por Nicholas Meyer. Kirk se mostra inseguro diante da ameaça de não estar à frente do comando da Enterprise, e para isso ele se cerca dos amigos Dr. McCoy (DeForest Kelley), ou “Bones”, Uhura (Nichelle Nichols), e Sulu (George Takei), o piloto, além de Scotty.
Na ida para a ameaça que vem em direção à Terra, vem a bordo Spock (Leonard Nimoy), a fim de colaborar com a missão. Este reencontro, se não e um dos momentos mais divertidos do filme, é, sem dúvida aquele que melhor demarca a oposição entre Kirk e o vulcano. Spock não se mostra muito interessado em rever os companheiros, ainda mais por causa do curso pelo qual passou Essa linha fina de roteiro, porém, se expande quando uma das passageiras, Ilia (Perris Khambatta), é raptada por V’Ger, a força de energia, e substituída por uma réplica robótica, e regressa afirmando ser mensageira daquilo que se chama V’Ger. O que seria exatamente V’Ger? Para o espectador, fica clara a analogia com o monólito negro de 2001, de Kubrick, e onde este filme parou parece que Wise quer continuar.

Jornada nas estrelas.Filme 12

Jornada nas estrelas.Filme 13

Jornada nas estrelas.Filme 11

Jornada nas estrelas.Filme 9

O roteiro, desse modo, passa a se mostrar mais interessado em traçar o real mistério do que seria o V’Ger, perturbando os tripulantes da Enterprise, sobretudo Spock, que diz ser ele um dos motivos para ter vindo a bordo e que poderá ajuda-lo a completar o que não conseguiu entender em Vulcano. É neste ponto que o roteiro de Alan Dean Foster e Harold Livingston se mostra mais interessante, pois este Jornada nas estrelas – O filme tenta mostrar a Spock o que de fato ele, embora não pareça, quer sensações próximas à humanidade. O mistério do que significa o V’Ger levará Spock a reavaliar sua trajetória até ali. Não apenas isso: Ilia, ligada a Decker, guarda, em sua porção já dominada pelo V’Ger, o resquício de amor que nutria anteriormente por ele. Ou seja, se ela passa a ser quase uma mensageira de um enigma que a partir de determinado momento se confunde com uma máquina, o que certamente tem influência no recente Transcendence.
É interessante como num momento em que a ficção científica Guerra nas estrelas, George Lucas, havia se tornado uma referência, com sua mescla fabulosa entre humor e ação, Wise tenha optado em fazer de Jornada nas estrelas – O filme uma resposta, no imaginário popular, ao cerebral 2001 de Kubrick. Ele consegue, de fato, empregar um conceito por meio de V’Ger bastante instigante, e a maneira como descortina esse cenário do espaço sideral é inquietante, originalíssimo. Os gráficos, tanto de V’Ger quanto da viagem de Spock vestido de astronauta, se dialogam com David Bowman depois de sair da espaçonave, em razão de HAL-9000, antecipam, muito mais, as imagens de outros filmes, como O segredo do abismo, 2010 – O ano em que faremos contato, Tron – Uma odisseia eletrônica, Superman 2Blade Runner e A árvore da vida. Não por acaso, pois Trumbull foi o responsável pelos efeitos especiais dos dois últimos, por exemplo. Ele consegue, em Jornada nas estrelas, compor uma harmonia clássica de imagens com efeitos especiais. Os planetas visualizados por Spock, próximos de uma espiral que se abre e fecha como uma planta, além de formas que lembram a origem do homem, a sua genética, compõem um gráfico fabuloso não apenas para o final dos anos 70, como para a história da ficção científica no cinema. Trata-se de um momento impressionante, não uma tentativa de copiar 2001, e sim uma viagem autêntica ao espaço sideral, em termos de ficção científica.

Jornada nas estrelas.Filme 8

Jornada nas estrelas.Filme 16

Jornada nas estrelas.Filme 15

Jornada nas estrelas.Filme 21

Se o desenho de podução de Harold Michelson da parte interna da Enterprise parece menos futurista do que Alien, do mesmo ano, é certamente por vontade de Wise dialogar com a série de TV dos anos 60 – e, junto a seus figurinos, parece ser a parte mais datada deste filme. Ainda assim, é natural que um filme como Jornada nas estrelas também dialogue com sua época – e a introdução de Spock é um dos indícios desse caminho.
Uma das críticas feitas aos episódios de J.J. Abrams é sua necessidade de colocar seus personagens em tom de aventura e emoção, muitas vezes ignorado o mistério do espaço; isso é bastante flagrante se comparado com este filme, no qual o enigma vale muito mais do que qualquer emoção. Também é notável como Wise não consegue encontrar humor – que seria visível principalmente no quarto episódio, A volta para terra – nesses personagens: é como se ele realmente quisesse rever Kubrick. E é curioso como se veja este Jornada nas estrelas como maçante, quando, na verdade, seu ritmo é muito mais intenso do que o de 2001. Isso se deve, sobretudo, às atuações tanto de Nimoy, como Spock, quanto, principalmente, de William Shatner, talvez em seu melhor momento como o capitão Kirk, praticamente centralizando toda a comunicação entre os personagens – e Stephen Collins se torna um ator efetivo ao não concordar com as ordens de Kirk. Mas é justamente a composição visual em que esses personagens estão, com a trilha vigorosa de Jerry Goldsmith, que fazem este Jornada nas estrelas um belo prenúncio de novas viagens. Há uma ressonância distinta neste filme, capaz de ser percebida apenas com a distância dos anos – e para melhor.

Star Trek – The motion picture, EUA, 1979 Diretor: Robert Wise Elenco: William Shatner, Leonard Nimoy, George Takei, James Doohan, Walter Koenig, Nichelle Nichols, DeForest Kelley, Majel Barrett, Stephen Collins, Persis Khambatta Roteiro: Alan Dean Foster, Harold Livingston Fotografia: Richard H. Kline Trilha Sonora: Jerry Goldsmith Produção: Gene Roddenberry Duração: 132 min.Estúdio: Century Associates / Paramount Pictures

Cotação 4 estrelas

 

Além da escuridão – Star Trek (2013)

Por André Dick

Star Trek.Filme

Em 1979, os produtores pediram ao diretor Robert Wise um Jornada nas estrelas – O filme mais comercial, na linha de Guerra nas estrelas; Wise não fez isso e até hoje o filme é lembrado por ser uma tentativa de reproduzir 2001, a obra-prima de Kubrick, com efeitos visuais que utilizaram boa parte do orçamento milionário. Mas, em seguida, vieram as continuações (quatro delas nos anos 80), que, ao contrário do primeiro, fizeram mais sucesso e apontaram um caminho de maior divertimento – sobretudo o segundo, com o antológico Ricardo Montalban como Khan, e o sexto e derradeiro desfecho pelas mãos de Nicholas Meyer.
No final da década passada, o diretor J.J. Abrams conseguiu trazer de volta os personagens da série Star Trek, criada por Gene Roddenberry, que havia tido o último filme de cinema no início dos anos 90. Privilegiado por retomar algumas séries, a julgar também pelos dois mais recentes Missão impossível (o terceiro e subestimado dirigido por ele) e o próximo Guerra nas estrelas, Abrams, tanto no primeiro Star Trek quanto neste segundo, Além da escuridão – Star Trek, apresenta seus traços como autor, a partir de uma criação alheia. É precipitado, a partir daí, considerar que o novo Star Trek seja apenas mais um blockbuster com ação frenética. Como em outros filmes seus, mesmo em Super 8, que homenageia as turmas dos anos 80, sobretudo a de Os Goonies, há, por trás da ação frenética, personagens e motivações. Assim, embora Abrams esteja em voga, seria injusto colocar sua presença no cenário como prejudicial ou excessiva. Capaz de mesclar a compreensão de fantasia de Spielberg, George Lucas e Peter Jackson, ele consegue sempre atingir a dramaticidade por meio de peças que parecem simplesmente estrondosas.

Star Trek.Filme 4

Star Trek.Filme 3

Como o primeiro filme da nova franquia, Além da escuridão, junto com a ação, aprimora o senso de humor em meio a um discurso político, que não pende para o exagero, mas se equilibra dentro da narrativa com algumas referências. Se no primeiro explosões de planetas, fugas de monstros, viagens no tempo justificavam uma grande celebração do encontro dos personagens, inclusive remetendo à sua infância, e os atores se entregavam a isso de forma despretensiosa, mas, ao mesmo tempo, fazendo dos diálogos afiados um ponto claro para a empreitada, nesta continuação, os personagens precisam enfrentar um dilema referente a matar ou prender um criminoso.
O início é nada menos do que espetacular (e parece que As aventuras de Tintim já tem companhia como o filme que melhor utilizou o 3D nos últimos anos), levando, em seguida, os personagens a uma sala de reuniões em que é discutido um ataque terrorista feito por John Harrison (Benedict Cumberbatch), em Londres. A Enterprise precisa novamente partir em missão e o almirante Marcus (Peter Weller, excelente), da Frota Estelar, dá a ordem para que isso aconteça. Ele ordena que a Enterprise leve um misterioso armamento, a fim de ser lançado, se necessário, num determinado planeta (qualquer diálogo com a perseguição a Bin Laden no Afeganistão e Paquistão não seria mera coincidência, mas o filme, de forma acertada, não se fundamenta nessa analogia externa).
Enquanto James T. Kirk teve um passado problemático e foi levado para a Enterprise pelo capitão Christopher Pike (o convincente Bruce Greenwood), tendo com ele uma dívida de confiança, que se acentua aqui, Spock é um vulcano que recorre à humanidade para contrabalançar suas dúvidas existenciais e o interesse amoroso pela oficial Uhura (Zoe Saldana). Nesta continuação, a humanidade de Spock é posta novamente em prova, e a arrogância de Kirk se coloca como uma esperança em reencontrar seu amigo, ao mesmo tempo em que é testado seu respeito por Pike. Desde o início espetacular, Spock conclui que a tripulação vale mais do que sua vida, mas, para Kirk, ele deve entender justamente o contrário, de que um amigo deve ser salvo sem que isso constitua um adendo para relatórios burocráticos. Por sua vez, Uhura precisa ser testada em seus conhecimentos, para que a harmonia da Terra não seja ameaçada, assim como deve traçar uma compreensão maior diante da desistência romântica de Spock.

Star Trek.Filme 9

Star Trek.Filme 7

Temos novamente Chris Pine como Kirk, desta vez menos pretensioso, e Zachary Quinto, como Spock, que apenas aparenta não ter insegurança e mostra estar à altura de Leonard Nimoy, e ambos os atores parecem, também pela experiência, mais à vontade e convincentes, principalmente Pine. É essa amizade com desentendimentos, mas com sensibilidade, que dá força a um conflito que poderia ser no máximo repetitivo e traz o interesse novamente pela série, apoiado também no elenco coadjuvante: o ator que faz Leonard McCoy, Karl Urban, por exemplo, é ótimo, assim como Anton Yelchin, no papel do navegador Chekov, e Simon Pegg, especialmente, como Scotty, acompanhado da estranha criatura do primeiro, cuja inexpressividade chega a ser divertida. Mais do que em Missão impossível III e Super 8, é em suas versões de Star Trek que Abrams comprova sua habilidade à frente dos atores e dá espaço decisivo a cada um para o desenvolvimento da narrativa, contrabalançando a ação e os diálogos. E é o personagem de Scotty que vai lembrar a Kirk que a Enterprise serve para explorações espaciais, e não para armamentos alimentares, indicando que Abrams guarda um discurso de paz. Não há, aqui, nenhuma opressão dos interrogatórios de Maya em A hora mais escura; é um Star Trek com fundo pós-11 de setembro, ainda assim realçando a mitologia da série, com a criação de cenários grandiosos, cuja sensação, para os olhos, nunca é excessiva (como na segunda trilogia de Star Wars). Também o novo vilão de Star Trek, ao contrário do romulano Nero (Eric Bana) do filme anterior, é mais complexo, em razão, também, de Benedict Cumberbatch ter um desempenho notável.
Críticas apressadas têm concluído que o filme, por um lado, não respeita a mitologia da série original e, por outro, a segue em excesso, com referências múltiplas. Há ainda aquelas que julgam o filme simplesmente oco (natural, à medida que Prometheus, no ano passado, também foi considerado). É mais interessante se comparar este Star Trek com as grandes continuações de ficção, a exemplo de O império contra-ataca. Ele consegue ao mesmo tempo remeter ao original, de 2009, e apresentar acréscimos dramáticos de vigor, sem circunscrever os personagens num determinado limite, ou seja, faz exatamente o que deveriam trazer as continuações. O roteiro de Alex Kurtzman, Damon Lindelof e Roberto Orci não tem excessos, e cria surpresas na medida apropriada. Mesmo sem a nostalgia de Super 8, e talvez por causa disso, Abrams vê o espaço sideral como extensão da humanidade – não à toa, a referência ao pai de Kirk (Chris Hemsworth) é trazida sempre à lembrança, por ter salvo uma nave em perigo, e por isso colocam tanta expectativa em seu filho, do mesmo modo que Spock coloca expectativa na permanência da sabedoria de seus ancestrais (e há uma surpresa, novamente, nesse sentido). Desta vez, Kirk não é apenas mais alguém querendo ser capitão de uma espaçonave, e sim alguém que pretende ter uma liderança referencial em relação aos demais, além de conseguir entregar a confiança necessária para que cada um realize seu trabalho da melhor maneira, mesmo sob pressão. Com um olhar impressionante para cenas de ação, a partir dos efeitos visuais e sonoros não menos que excelentes, e uma afinidade com a bela direção de arte, Abrams compõe uma espécie de aventura ritmada em cima das peças de composição de Michael Giacchino. Estamos longe de uma nova tentativa de 2001 que Robert Wise apresentou no belo Jornada das estrelas – O filme (1979). Mas Abrams, mesmo que não agrade a todos, consegue humanizar os personagens de modo intenso, sem simplificá-los. Seu novo Star Trek, como o êxito do anterior já antecipava, é espetacular.

Star Trek Into Darkness, EUA, 2013 Direção: J.J. Abrams Roteiro: Alex Kurtzman, Damon Lindelof, Roberto Orci Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Karl Urban, Benedict Cumberbatch, Zoe Saldana, Alice Eve, Simon Pegg, Anton Yelchin, John Cho, Leonard Nimoy, Bruce Greenwood, Peter Weller Produção: Alex Kurtzman, Bryan Burk, Damon Lindelof, J. J. Abrams, Roberto Orci Fotografia: Daniel Mindel Trilha Sonora: Michael Giacchino Duração: 129 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Bad Robot / Kurtzman Orci Paper Products / Paramount Pictures / Skydance Productions

Cotação 5 estrelas