Chatô – O rei do Brasil (2015)

Por André Dick

Chatô 56

Não parece ser exagero considerar que Chatô – O rei do Brasil é o filme mais polêmico já realizado no Brasil. Antes do início de suas filmagens, o projeto já chamava a atenção, pela tentativa de Guilherme Fontes, que acabou por dirigi-lo, colocar Francis Ford Coppola na realização. Coppola não quis estar à frente da tentativa de adaptar o livro de Fernando Morais para o cinema, mas indicou um roteirista: Matthew Robbins, parceiro de Guillermo del Toro em Mutação e A colina escarlate e diretor de filmes como Dragonslayer e O milagre veio do espaço, que se juntou a Fontes e a João Emanuel Carneiro, de Central do Brasil. No entanto, não foi exatamente essa tentativa de ter Coppola que chamou mais a atenção para o projeto. Produzido a partir de 1995 e rodado principalmente no início dos anos 2000, Chatô levanta grandes questões quanto ao seu lado financeiro, de captação de verbas, e já parou na justiça. Chatô também se tornou quase uma lenda, pois muitos acreditavam que ele não seria lançado. Além disso, é possível lembrar inúmeras matérias que colocavam em desconfiança a sua própria existência.
É delicado opinar sobre o que realmente aconteceu na produção dele e por que demorou tanto a ser lançado. Também não parece acertado se basear nesse problema para afirmar se o resultado é bom ou ruim. O mais difícil, nesse tempo, parece ter sido não apenas concluir as filmagens, em razão dos sobressaltos financeiros, como dar uma estrutura coesa ao roteiro por meio da montagem.

Chatô 50

Chatô 47

Chatô 53

Chatô, em muitos aspectos, é o que se costuma falar dele: um experimento tropicalista. Ele tem muito não apenas do modernismo, de Oswald de Andrade e de Tarsila do Amaral (cujas pinturas servem de pano de fundo a algumas cenas passadas como se fossem um julgamento do personagem central), como também de obras que partiram desses dois artistas, no cinema especificamente O homem do pau-brasil, do início dos anos 80.
O filme inicia no momento em que o personagem sofre uma trombose, levando-o à cama de um hospital, junto com uma máquina de datilografar adaptada às suas condições. A partir daí, tudo se transforma num grande delírio com lapsos históricos: o envolvimento de Assis Chateaubriand, ou simplesmente Chatô, com Getulio Vargas (Paulo Betti), sua relação com a esposa Maria Èdoxa (Letícia Sabatella), com a amante Vivi Sampaio (Andréa Belttão) e com a segunda esposa, Lola (Leandra Leal), filha de Consuelo (Eliana Giardini). Há grandes liberdades na maneira como Fontes mostra a trajetória de Chatô, e alguns desses personagens não existiram realmente.
Em ritmo de farsa contínua, Fontes se apoia numa interpretação calibrada de Marco Ricca, alternando a melancolia, a raiva e a tentativa de se dar bem em muitas situações sem saída. Para um filme com tantos problemas, é interessante acompanhar como Fontes tentou dar forma à história do jornalista paraibano que se tornou uma referência ao se envolver na construção de Diários Associados, que contou com mais vários jornais, emissoras de rádio e TV e revistas ao lado de Afrânio (Alexandre Régis), Teddy (Marcos Oliveira), Manuel (Ricardo Blat), e na estruturação de um canal de TV, a Tupi, além de contribuir na criação do MASP.

Chatô 46

Chatô 52

Chatô 48

A maneira como Fontes tenta sintetizar essa trajetória por meio de um julgamento, em que Chatô se vê diante de pessoas que participaram da sua vida, é resolvida de maneira muito interessante. A velocidade da montagem – que prejudica algumas cenas, enquanto dá vitalidade a outras – é naturalmente da linguagem televisiva, e talvez seja nessa modernidade que o filme se sai melhor do que outras obras. O elenco, nesse aspecto, está em grande momento, principalmente Beltrão e Gabriel Braga Nunes, como Carlos Rosemberg, uma mistura de personagens reais, como do jornalista Samuel Wainer. Mas é Ricca que consegue dar um desenho especial ao personagem central, com sua fala ininterrupta e em alto e bom som.
Sua mescla entre o nervosismo, a sátira e a provocação atinge grandes momentos, como quando ele conhece Vivi Sampaio numa festa, entrando nela com peixeira na mão, até se descortinar sua tentação numa sala à parte, permanece com o mesmo tom ao longo de todo o filme, o que lhe dá uma certa linearidade ágil. A necessidade de Chatô colocar seu jornal em movimento lembra algumas cenas da inspiração mais direta, Cidadão Kane, embora tenham um ritmo mais moderno, que Scorsese adota em seu O lobo de Wall Street – que obviamente quando o filme foi realizado não poderia ser uma referência, mas se destaca como há cenas parecidas. Embora a montagem apressada realmente prejudique algumas passagens, o filme consegue se sustentar de maneira interessada pela capacidade de oferecer humor.

Chatô 49

Chatô 45

Chatô 55

Para uma produção com notáveis problemas na explicação de seu orçamento, vendo estritamente sob seu aspecto cinematográfico, Chatô é uma realização estética das mais elaboradas já feitas no Brasil. Vejamos, por exemplo, o design de produção de Gualter Pupo Filho, o figurino de Rita Murtinho e a paleta de cores da fotografia de José Roberto Eliezer, que consegue reunir diferentes períodos e situações em diálogo com as pinturas de Tarsila exibidas no julgamento do personagem. Em muitos momentos, ele lembra a paleta do filme Dália negra, de Brian De Palma, de 2006, com a fotografia do mestre Vilmos Szgimond: o ambiente de época, de redações de jornal, da luz entrando pela janela é notável numa produção brasileira. O cuidado com os enquadramentos é minucioso e muitos diálogos – numa estrutura realmente confusa, mas por outro lado que não cansa – conseguem recriar o espírito de uma determinada época do país. Além disso, Chatô possui muito de certo humor usado por Guel Arraes em O auto da Compadecida e Lisbela e o prisioneiro, no início dos anos 2000, com uma certa agilidade e um pouco de gritaria para que o espectador não se distancie do que está acontecendo. Ele aponta para um estilo, mas nem por isso deixa também de ser original.

Chatô – O rei do Brasil, BRA, 2015 Diretor: Guilherme Fontes Elenco: Marco Ricca, Andréa Beltrão, Gabriel Braga Nunes, Guilherme Fontes, José Lewgoy, Leandra Leal, Eliane Giardini, Letícia Sabatella, Luis Antônio Pilar, Marcos Oliveira, Nathália França, Paulo Betti, Ricardo Blat, Walmor Chagas, Zezé Polessa Roteiro: João Emanuel Carneiro, Matthew Robbins, Guilherme Fontes Fotografia: José Roberto Eliezer Trilha Sonora: Luiz Farah, Philippe Neiva Produção: Guilherme Fontes Duração: 105 min. Distribuidora: Distribuição Própria Estúdio: GFF Filmes / Trio Filmes / ZB Facilities

Cotação 4 estrelas

 

O lobo atrás da porta (2013)

Por André Dick

O lobo atrás da porta.Filme 22

Nos últimos anos, o cinema brasileiro tem conseguido trafegar entre gêneros diferenciados, o que até um tempo atrás se mostrava mais difícil, não apenas pelo desinteresse dos cineastas em destoar das temáticas já conhecidas, mas porque de fato conta com uma nova geração capaz de trazer uma certa diferenciação e um toque mais interessante de influências cinematográficas. Desde Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, há, em muitos filmes, por exemplo, uma montagem mais elaborada, que lida com o ritmo da narrativa e menos centrada numa circularidade. Mas, se Meirelles parece ter esquecido esses ganhos no seu 360, não se pode deixar de perceber que ele conseguiu influenciar novos cineastas. Do mesmo modo, há uma certa influência também de Murilo Salles, o diretor de dois filmes subestimados, Faca de dois gumes e Como nascem os anjos, representativos dos anos 80 e 90. Finalmente, parece ser dentro do gênero que transita Salles que também transita este O lobo atrás da porta, a estreia na direção de Fernando Coimbra.
Percebe-se, no entanto, um olhar próprio no cineasta, desde o momento em que a trama começa: é realmente apreciável o início deste filme, sobretudo pela atuação de Juliano Cazarré como um delegado de polícia com tempo certo de humor, além das idas e vindas na narrativa. Trata-se de um delegado pouco disposto a esperar seu café esfriar para ter de lidar com o caso de uma menina que desapareceu. A mãe, Sylvia (Fabiula Nascimento) e o pai, Bernardo (Milhem Cortaz), aparecem desesperados na delegacia, atrás do paradeiro dela. A explicação: foi levada por uma estranha da creche onde estava por uma mulher que se disse amiga da mãe.

O lobo atrás da porta.Filme 19

O lobo atrás da porta.Filme 11

O lobo atrás da porta.Filme 18

A primeira suspeita é Rosa (Leandra Leal) que joga a culpa para uma moça que parece pouco disposta ao diálogo, feita por uma atriz excepcional, Thalita Carauta, à frente de alguns dos melhores momentos da narrativa. Dali em diante, Coimbra vai lidando com as hipóteses que podem ter levado ao sequestro, por meio de pistas que a princípio podem ser tanto verdadeiras quanto falsas.
Trata-se de uma história baseada em fatos verídicos, e o espectador ganha muito se não souber desses fatos para que a história transcorra com certa surpresa. Mas não há surpresa que possa se cumprir pela metragem do filme (possíveis spoilers a partir daqui): O lobo atrás da porta é mais um filme sobre um caso extraconjugal e o combatido Adrian Lyne é especialista nisso e visto como previsível justamente por isso. Por mais que haja um esforço para atingir uma narrativa diferenciada, os elementos do gênero estão todos guardados: a mulher que espera mais atenção do amante diz fazer sonhos de encontrá-lo longe de sua família e este tenta desviá-la do caminho de sua mulher e filha com desculpas e promessas sem nenhuma consistência. Para um filme que pretende criar suspense, não há outro gênero que elimine mais o suspense. Com isso, o nervosismo inicial da trama se perde numa sucessão de sequências que apenas tentam criar pistas falsas para o final.
Com isso, O lobo atrás da porta se estabelece e Milhem Cortaz, embora bem, repete suas atuações anteriores, nunca conseguindo estar no mesmo tom de Leandra Leal, cujas melhores atuações continuam sendo as de A ostra e o vento e O homem que copiava, em que ela consegue dosar um lado mais ingênuo com o dramático. A sensação é de que não há uma tensão entre os personagens suficiente para conseguir acelerar e desacelerar a trama, mesmo com a montagem rápida, e a irregularidade atrapalha, junto com os personagens sem camadas psicológicas. No início, essas camadas parecem melhor trabalhadas, com os personagens jogados numa situação desconfortável e há um bom ouvido para os diálogos, principalmente os do delegado, quando ele se dirige à dona da creche, num tom misto de ironia e seriedade.

O lobo atrás da porta.Filme 17

O lobo atrás da porta.Filme 12

O lobo atrás da porta.Filme 20

Mas, aos poucos, é como se esses personagens fossem colocados mais como figuras de uma reportagem do que propriamente como seres plausíveis; não há mais do que um traço nas suas ações e eles passam a agir apenas como figuras de algo prévio e misterioso que está para acontecer. A própria figura de Rosa não estabelece um contraste necessário para que se crie alguma expectativa do que virá a acontecer – quando tudo desencadeia, é apenas uma imposição do roteiro. O personagem dela, embora pareça interagir com os de Bernardo e Sylvia, não reserva, nessa interação, uma tensão na maior parte do tempo, e nunca desperta o mesmo interesse dos papéis dados a Cazarré e Carauta. Já a fotografia de Lula Carvalho, que compôs o visual do novo RoboCop, lida bem com as cores e os cenários (preferindo uma textura real de cores) e registra a emoção dos personagens, sobretudo na sequência em que Bernardo e Rosa ficam atrás de uma grade – como se a sua relação estivesse condicionada exatamente a uma prisão –, mas os diálogos não criam conflito. Ainda assim, há alguns lances de direção bastante interessantes, quando a personagem de Leandra Leal está num gira-gira de parque e sua vida pode continuar ou parar dependendo do que ela ouve. Tudo é conduzido para o final, suficientemente marcante e adequado para um suspense com toques policiais, embora sem ligação com a elaboração dos personagens, além dos toques fotográficos de sombras de pessoas no chão de Terrence Malick. Coimbra também extrai um certo enigma de uma cena aparentemente simples, quando um determinado personagem se revela. Mas ele não consegue fugir aos fatos da história e do filme: a montagem que a narrativa adquire a partir de determinado ponto impede O lobo atrás da porta de surpreender o bastante.

O lobo atrás da porta, Brasil, 2013 Direção: Fernando Coimbra Elenco: Leandra Leal, Milhem Cortaz, Juliano Cazarré, Antonio Saboia, Fabiula Nascimento, Tamara Taxman, Thalita Carauta Roteiro: Fernando Coimbra Fotografia: Lula Carvalho Produção: Caio Gullane, Fabiano Gullane Duração: 95 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Gullane Filmes

Cotação 2 estrelas e meia