007 contra Spectre (2015)

Por André Dick

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Alguns anos depois de 007 – Operação Skyfall, Sam Mendes relutou em voltar à franquia de James Bond, mas, convencido pelo estúdio, rodou mais este 007 contra Spectre. Segundo boa quantidade de admiradores do personagem, ele não deveria tê-lo feito, ou seja, teria sido melhor ele ter deixado sua marca apenas no anterior. Se a franquia com Daniel Craig no papel do agente britânico está em seu quarto filme, e Skyfall é considerado o melhor, seguido por Cassino Royale, deve-se admitir que este novo empreendimento está muito longe de ser o fracasso que quiseram transformá-lo. Pelo contrário, desde seu início no Dia dos Mortos na cidade do Novo México, quando James Bond está atrás de Marco Sciarra (Alessandro Cremona), e antes seduz uma latina para, então, partir de vez ao serviço programado, e o embate se dá num helicóptero, 007 contra Spectre se transforma no filme mais sólido do herói desde 007 – A serviço secreto de sua majestade, o único filme protagonizado por George Lazenby de uma série que já contou, entre seus atores, com Sean Connery, George Moore, Timothy Dalton e Pierce Brosnan.

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Daniel Craig sempre fez o James Bond mais bruto da história e aqui acontece o mesmo: a sua ação, desde o início, não é exatamente pela conversa mais ponderada, e sim pela ação da arma. Por isso, talvez M (Ralph Fiennes) queira desativar a sua função, o que Bond não considera, à medida que conta com a ajuda de Q (Ben Wishaw) e Moneypenny (Naomie Harris), em momentos de humor que estavam no mínimo ausentes em 007 – Operação Skyfall e sempre fizeram parte do personagem. Sua ida de Londres para Roma marca um dos grandes momentos da série, quando ele precisa encontrar a mulher de Sciarra, Lucia, feita por uma ótima Monica Bellucci (embora em papel diminuto), e depois se depara com uma seita que nada fica a dever para aquela de De olhos bem fechados, de Kubrick.
Eis um dos melhores momentos da trajetória de Sam Mendes: a construção de suspense dessas cenas desencadeia um 007 realmente mais soturno, mesmo em relação ao anterior, por causa também da fotografia notável de Hoyte Van Hoytema (de Interestelar e Ela), que rende uma das melhores cenas de perseguição. Que o 007 de Skyfall já lidava com traumas do passado do personagem e sua relação com M era, sem dúvida, uma conquista de Mendes e também do diretor de fotografia Roger Deakins, neste parece que o espectador consegue entrar na mente de Bond, como em determinado momento do filme, vendo seus temores. Isso fica claro numa sequência-chave em que ele encontra um determinado homem que o levará à personagem de Madaleine Swann. Que Léa Seydoux não está tão à vontade neste papel, é determinante para que se torne uma das bond girls mais discretas da história. No entanto, tal atitude não extrai de sua presença enigmática uma ponte com o passado do agente, capaz de explicar não apenas o filme, como também os capítulos anteriores, junto com Franz Oberhauser (Christoph Waltz), ou seja, há um espectro rondando 007 realmente, ritmado pela trilha de Thomas Newman, que aproveita temas clássicos dando uma roupagem de suspense.

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O que mais torna o James Bond de Craig interessante desde Cassino Royale é seu equilíbrio entre a força incalculável e uma certa vulnerabilidade em qualquer confronto que precisa enfrentar – e da qual o espectador não sabe se sairá bem, desde o momento em que acaba tomando um whisky de forma descuidada em Cassino Royale. Ainda assim, essa vulnerabilidade é que estabelece o personagem como um ser humano e não meramente um agente secreto capaz de defender as cores da Rainha da Inglaterra desde sua origem.
Mendes, de maneira sugestiva, coloca os momentos iniciais numa claridade que serão ofuscados pela noite tanto da Inglaterra quanto de Roma, onde se dará o início dos eventos que levarão ao grande confronto, e durante a narrativa vai alternando lugares escuros com lugares claros dependendo das motivações estarem evidentes ou não para Bond. Há um enigma em 007 contra Spectre que não havia nos filmes anteriores de Craig e dificilmente foram tratados em algum momento. Sam Mendes é um cineasta irregular, mas muito interessante, capaz de ter se consagrado já no início de carreira com Beleza americana e sucedendo a trajetória com filmes que mostram os recantos escuros da América, a exemplo de Estrada da perdição, Soldado anônimo e Foi apenas um sonho, além de seu singelo Distante nós vamos, irrealizado filme sobre um casal querendo criar laços entre si e com os outros. Em todos esses filmes, Mendes mostra a fragilidade das relações, no entanto sempre oferece uma espécie de segunda chance a seus personagens.

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Num determinado encontro com Madeleine, a claridade do vagão de trem não chega a iluminar por completo uma cena que certamente vai desencadear algo muito remoto e escondido dentro de cada um desses personagens, além da ameaça de Mr. Hinx (Dave Bautista). É como se David Fincher estivesse fazendo um capítulo da franquia de 007, e não por acaso, mesmo pela presença de Craig, temos indícios da presença de Millennium na maneira como as paisagens são enquadradas, embora Rooney Mara seja mais participativa do que Seydoux e estabeleça uma parceria mais convincente com o ator. O ritmo empregado por Mendes traz um equilíbrio entre as paisagens espetaculares e as ações, com uma elegância incomum, já entrevista em Operação Skyfall, mas que chega ao ápice neste filme. Sua necessidade de mostrar James Bond como uma figura complexa, sempre ligado a uma questão familiar, é uma das saídas mais interessantes do período da série em que Daniel Craig está à frente. Mendes, com isso, nunca o mostra como um agente voltado apenas para sua missão, e sim como uma figura com virtudes e falhas. Desse modo, 007 contra Spectre é uma peça de alta tensão, feita realmente com a dedicação dada a um filme de Bond e que alterna cenários distintos como a naturalidade de quem muda o figurino do personagem central.

Spectre, Reino Unido, 2015 Diretor: Sam Mendes Elenco: Daniel Craig, Christoph Waltz, Léa Seydoux, Ben Whishaw, Naomie Harris, Andrew Scott, Monica Bellucci, Ralph Fiennes, Dave Bautista Roteiro: John Logan, Neal Purvis, Robert Wade Fotografia: Hoyte Van Hoytema Trilha Sonora: Thomas Newman Produção: Barbara Broccoli, Michael G. Wilson Duração: 148 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: B24 / Columbia Pictures / Eon Productions / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / United Artists

Cotação 4 estrelas e meia

 

O grande Hotel Budapeste (2014)

Por André Dick

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Depois de um breve intervalo de dois anos em relação a Moonrise Kingdom, talvez o filme que mais tenha conciliado público e crítica de sua trajetória, Wes Anderson regressa, em O grande Hotel Budapeste, com seu elenco preferido em mais uma história que poderia ser lida pelos excêntricos Tenenbaums. No entanto, ao centralizar a narrativa numa república europeia fictícia, Zubrowka, nos Alpes, com toda a ambientação própria, ele não deixa de se voltar, esta vez sim, para elementos de violência da história. Se este filme abriu o Festival de Berlim, enquanto Moonrise Kingdom havia aberto o Festival de Cannes, e tudo pareça, mais uma vez, apenas mais um passo de Anderson em direção à predominância da forma e do estilo em detrimento do conteúdo, se olharmos mais perto, O grande Hotel Budapeste possui um clima singular de redescoberta do universo que nos cerca, mas consegue colocar este clima dentro de uma narrativa capaz de esconder algo menos superficial – como acontece desde o primeiro filme do cineasta. No entanto, não se trata de um movimento congelado por um estilo ou pelo que se costuma chamar hoje, em sua obra, de “simetria”. É claro, aos poucos, que em O grande Hotel Budapeste Anderson está sempre acrescentando novos traços em sua abordagem, embora pareça permanecer nela desde sempre. Percebe-se isso, por exemplo, pela parceria na realização do roteiro com o quadrinista Hugo Guinness. Anteriormente, Anderson havia escrito seus filmes com Owen Wilson, Noah Baumbach, Roman Coppola e Jason Schwartzman, diretores ou atores de cinema, e procura uma referência de escrita de outro campo.

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O concierge Monsieur Gustave H. (uma interpretação refinada de Ralph Fiennes) trabalha no Hotel Budapeste e deseja fugir da barbárie do período entre-guerras, na década de 1930, mas para isso precisa da ajuda de Moustafa (Tony Revolori), chamado de Zero. Apesar de a trama constituir numa lembrança de Moustafa mais velho (na pele de F. Murray Abraham), o que soa em certos momentos previsível, e como um relato concedido a um escritor (Jude Law na juventude e Tom Wilkinson mais velho), há neste filme um regresso a algum lugar ainda mais esquecido. Monsieur Gustave tem várias amantes, que se hospedam no hotel e recebem seu atendimento, entre as quais Madame D. (Tilda Swinton, quase irreconhecível). Por baixo do comportamento comedido do concierge, nunca se entende muito bem, como os principais personagens de Anderson, se há apenas uma ingenuidade ou se esta esconde um certo oportunismo – principalmente para não ter de enfrentar o mundo. Os rumos da trama irão levá-lo a uma pintura valiosa, a um conflito com determinada família capaz de acusá-lo de se aproveitar de uma situação – tendo à frente Dmitri (Adrien Brody) – e a uma amizade com Zero, seu fiel (e novo) braço direito, capaz de tentar salvá-lo das situações mais adversas, apaixonado por Agatha (Saoirse Ronan). E há o Hotel Budapeste, uma espécie de representação de um ambiente europeu que Anderson certamente compartilhou de alguma fábula de Roald Dahl, sua maior influência.
Dentro de seu reconhecido estilo, Anderson procura outros rumos. Não há, aqui, a câmera lenta que havia nos demais filmes, nem uma trilha sonora com várias canções, apesar da bela música de Alexandre Desplat. O cuidado com os cenários magníficos e os movimentos de câmera lembram sua filmografia, mas ganham o acréscimo de uma passagem à la Jim Jarmusch, de Daunbailó, na prisão, em que Harvey Keitel é um líder e possivelmente a mais acertada. Em meio a uma trama com pistas falsas e seus toques habituais de sátira, no que acaba colocando grandes atores como Bill Murray e Owen Wilson como figurantes (e existe aqui, pela primeira vez na trajetória de Anderson, em demonstrar que esse elenco está dedicado a ele, mesmo que apareça apenas como componente de um grande elenco) e a excelente Léa Seydoux com poucas falas, Anderson ingressa numa avaliação dos crimes contra a humanidade – naquele que é possivelmente o seu filme mais melancólico, dividindo um pouco o espaço com Rushmore, sob determinado ponto de vista sobre a saída da infância (tanto da criança quanto da humanidade).

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Assim como Monsieur Gustave, Anderson parece querer se guardar dentro do Hotel, com uma inter-relação restrita a seus funcionários ou clientes, do mesmo modo que apontam ser suas características autorais em relação ao espectador. Mas Anderson, como Monsieur Gustave, é chamado para a realidade, e esta é sombria, em certos momentos com leves toques de macabro de Tim Burton: os vilões de O grande Hotel Budapeste não parecem apenas pessoas boas desvirtuadas, mas pessoas realmente más, mesmo cercados por uma atmosfera fantasiosa. Mesmo a violência de Anderson, que sempre aparenta ser atenuada, como vemos, por exemplo, em Moonrise Kingdom, quando o grupo de escoteiros passa a ir atrás de Sam e se defronta com ele, partindo para a batalha, aqui, mesmo expondo sua faceta mais leve, também deixa os personagens abalados e mesmo estupefatos diante do que pode estar ocorrendo, e nem mesmo Monsieur Gustave, com sua gentileza, pode modificar essa sensação.
Embora isso pareça se perder numa visão a princípio fantasiosa, lá estão as imagens de um trem sendo parado num inverno rigoroso. Não há certamente mais a felicidade de Viagem a Darjeeling, embora um humor cáustico de Monsieur Gustave ao declinar de algumas pérolas de sabedoria que solta em determinado momento e com certeza Anderson está em movimento, temendo por aquilo em que pode se transformar o trem: por trás das cenas que remetem a uma animação ao vivo, pela agilidade, com referências às Olimpíadas, com um fluxo de Buster Keaton, Anderson, ao que parece, pela primeira vez não quer proporcionar apenas uma visão agridoce com elementos de humor; ele está, antes disso, ingressando num terreno em que sua obra tende a ser vista como falha, não sem sobressaltos, pois se trata de uma mudança feita em relação a seu conhecido estilo. Com soldados usando em seus uniformes um símbolo da Companhia Zig-Zag (ZZ), que claramente remete à SS nazista, Anderson está preocupado com a possibilidade de a violência do mundo ser trazida para dentro deste Hotel em que ele pode se fechar, fugindo da mesma guerra. E, segundo Anderson, o universo colorido e de paz (representado pela cor rosa do Hotel Budapeste), pode ser imediatamente revertido para uma sequência imprevista de enfrentamentos e estampidos.

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Não haveria espaço nesse mundo para autores como Stefan Zweig, escritor austríaco que inspirou o filme e foi perseguido pelo nazismo, como acontece com determinados personagens do filme de Anderson, nem para Monsieur Gustave e outros nomes – perseguidos e fichados. Num universo em que pessoas como o concierge e confeiteiras são colocadas como ameaças, pode-se entender, por outro lado, que um bolo, na chegada à prisão, pode não ser desmanchado pelo fiscal por causa de sua beleza – e se notícias problemáticas vêm à tona, pode-se enviar uma carta acompanhada de várias estrofes e versos. Os doces e o universo cor de rosa da confeitaria anunciam um período de trevas, em que apenas o ser humano e o respeito às obras de arte pode se sobressair. Mas, mesmo neste respeito às obras, Anderson deposita uma certa desconfiança: Monsieur Gustave, com sua sensibilidade e seu respeito em relação ao hotel, quer garantir seu futuro.
Nesse sentido, além de ser o filme mais melancólico de Anderson, também é aquele que consegue lidar ao mesmo tempo com um contexto histórico. O elenco compartilha disso, com Jeff Goldblum, Adrien Brody, Edward Norton, Abraham e Keitel como destaques (mas há outros, em participações especiais). Ao estilo de Anderson, o filme consegue tratar dos indivíduos sem pátria e sem família, mas com o desejo de se unirem e enfrentarem uma situação em que estas questões são colocadas de lado em nome da guerra. Daí possivelmente a pintura, como em Moonrise Kingdom, representar não apenas um escape da realidade, mas uma possibilidade de levar adiante uma ideia de tradição da amizade. Monsieur Gustave tem inúmeras amantes que sustenta ao longo de anos no Hotel Budapeste, mas também acredita em gentilezas e em servir uma tigela de cereais (aqui sem os tigres de Viagem a Darjeeling). Para Anderson, sempre pode haver no microscópio algo a ser transformado, atingindo tamanho desconhecido. Tudo é muito ordenado neste universo, desde a direção de arte que dialoga novamente com a de O iluminado, de Kubrick, e de filmes como A viagem do capitão Tornado, Nicholas e Alexandra e Arca russa, até a fotografia e seus movimentos sempre calculados ao extremo, mas Anderson reflete sobre a violência histórica que também pode atravessar e perturbar este universo a princípio intocado. Nisso, ele acaba se sentindo como um homem com família enviesada, do mesmo modo que Zero, sem apego a uma determinada tradição, a não ser aquela que ele mesmo constitui em seu pensamento. Parece ser esta a condição buscada por Monsieur Gustave e por Anderson neste filme cuja beleza se encontra na despedida da infância.

The grand Hotel Budapest, EUA/Reino Unido/ALE, 2014 Diretor: Wes Anderson Elenco: Ralph Fiennes, Tony Revolori, Saoirse Ronan, Edward Norton, Adrien Brody, Willem Dafoe, Mathieu Amalric, Jeff Goldblum, Tilda Swinton, Harvey Keitel, Jude Law, F . Murray Abraham, Tom Wilkinson, Bob Balaban, Jason Schwartzman, Léa Seydoux Roteiro: Hugo Guinness, Wes Anderson Fotografia: Robert D. Yeoman Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Jeremy Dawson, Scott Rudin, Steven M. Rales, Wes Anderson Duração: 100 min. Estúdio: American Empirical Pictures / Indian Paintbrush / Scott Rudin Productions

Cotação 4 estrelas e meia

Azul é a cor mais quente (2013)

Por André Dick

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Baseado numa graphic novel assinada por Julie Maroh, Azul é a cor mais quente foi o filme vencedor deste ano em Cannes, ganhando, em seguida, uma promoção que o transforma num dos lançamentos do ano, como aconteceu em anos anteriores com os vencedores A árvore da vida e Amor. Ao contrário dessas obras, o filme do franco-tunisiano Abdellatif Kechiche, que esteve à frente do difícil O segredo do grão, também por seu material de origem, que trata da aproximação e o amor entre duas mulheres, tem um apelo mais pop, sobretudo por trazer duas atrizes de grande talento, Léa Seydoux (de Meia-noite em Paris) e Adèle Exarchopoulos. Em 2005, quando foi lançado o excelente O segredo de Brokeback Mountain, foi possível ver meses de polêmica. Com Azul é a cor mais quente (tradução melhor do que o título original), acontece quase o mesmo. Desde o lançamento em Cannes, fazendo a temática prevalecer sobre a história, até recentemente, na chegada do filme ao mercado, quando o diretor revelou que se arrependia do resultado e Seydoux reclamou dos métodos empregados por ele nas filmagens, percebe-se que há mais do que cinema aqui: Azul é a cor mais quente é um grande acontecimento cultural, que pretende servir não apenas como cinema, mas como debate sobre a relação entre duas mulheres. O interessante é ver se, além da abordagem polêmica, a história teria algo de realmente diferente.
Kechiche pretende mostrar a relação entre Adèle (Exarchopoulos), uma estudante, e Emma (Seydoux), que estuda Belas Artes, ao longo de vários anos, e em primeiro lugar há o estilo dele. Como em O segredo do grão, utiliza-se a técnica de colocar os atores em close, procurando emprestar aos personagens que interpretam uma proximidade e outra dimensão; lá, esta técnica atrapalhava, pois Kechiche se excedia no movimento ininterrupto dos personagens, enquanto em Azul é a cor mais quente adquire outra dimensão. Isto fica claro durante toda a narrativa, quando conhecemos as personagens, e o diretor tenta se concentrar no rosto de cada uma, explorando todos os detalhes, inclusive a cor do cabelo azul de Emma e de outros objetos e situações em cena. Mas não apenas nesse sentido. Kechiche consegue trabalhar com elementos tão bem mesclados por Laurent Cantet em Entre os muros da escola e por Gus Van Sant em Elefante e Paranoid Park. Há, no colégio de Adèle, um clima de adolescência e diálogos que vão desde o comprometimento com o que se espera – Adèle gostar de um jovem mais velho, Thomas (Jérémie Laheurte) – até os preconceitos que podem surgir quando a personagem precisa lidar com o fato de que foi com o amigo Valentin (Sandor Funtek) para um lugar que as colegas condenam. Os diálogos de Kechiche seguem num ritmo e agilidade do cotidiano, acompanhados por uma música multiétnica e um poder de persuasão das ruas, sem nunca soarem forçados, assim como a troca de influências musicais, filosóficas e artísticas de Emma e Adèle não parece direcionada ao fato de tornar o filme mais complexo.

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É interessante como Adèle, de certo modo, é o oposto de Emma no que se refere à recepção do mundo como uma fonte artística: para a personagem central, a experiência cotidiana vem antes da arte, e não o contrário. Emma prepara esboços, mas nunca conseguirá definir o rosto de Adèle; é como se, a partir daí, não pudesse entendê-la, assim como as suas escolhas, independente do que se refere a uma relação homossexual. Emma ainda tem uma idealização romântica, de Adèle ser sua musa, mas esta (e interpretá-la como alguém supostamente inferior intelectualmente é própria do romantismo) quer as sensações que o cotidiano pode oferecer, longe de uma figura idealizada e da ideia de arte como um posto superior das relações humanas. Pode-se caminhar por museus e tentar analisar pinturas, mas são o banco da praça e as folhas de um outono já perdido que se fixam na memória da personagem central. A escrita talentosa de Adèle se reproduz num diário – e diários são considerados corriqueiros demais, assim como contar histórias para crianças. Desse modo, o filme não trata exatamente de orientação sexual ou o conflito que emerge dela, e sim da solidão do indivíduo que tenta se encontrar, mesmo que seja em meio a uma multidão ou fingindo estar em grupo, e toda a sensação de sentir o primeiro amor, optando por seu caminho próprio, independente de gêneros.
À medida que a trama vai criando outros caminhos, Kechiche retoma um olhar sobre a aceitação ou não das famílias em relação às duas, assim como coloca o que parece ser a verdadeira razão do filme: Adèle é uma jovem deslocada, e o fato de não ser o que esperam dela não se baseia exatamente no pressuposto de sua relação com Emma – e toda a decisão que pode surgir da sociedade e do choque com o que ela espera do indivíduo não passa de uma abstração quando a personagem figura isolada em quartos ou quando caminha em meio a pistas de dança sem que consiga encontrar alguém para conversar. Nesta progressão, o filme vai se intensificando até as cenas de sexo polêmicas, que servem quase como uma analogia com hábitos culinários, como Greenaway fez em O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante, levando em conta que aqui elas são mais explícitas. Kechiche mostra as cenas como a atração entre as personagens, sendo que elas são extremamente bem feitas, e colocam as atrizes num tour de force notável. Essas cenas acabam sendo criadas com o objetivo de haver uma intensidade em que não se perca de vista a proximidade das personagens, e o ritmo causado por tudo ao redor. E, para se obter o distanciamento desse relacionamento, e o sentimento de perda, é preciso haver o momento de impulso.

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Seydoux tem uma atuação notável, mas é Adèle Exarchopoulos que realmente tem uma atuação extraordinária. Ela consegue mesclar o sentimento de abandono quando precisa tomar suas escolhas e a necessidade de precisar da amada mais do que talvez pudesse, além da sensação permanente de estar sem um rumo definido e sem um apoio familiar. É fácil entender por que Kechiche a selecionou para interpretar Adèle e é visível como ele se aproveita do talento da atriz para tentar aplacar o cansaço que poderia haver em relação às idas e vindas da trama, bastante circulares, no entanto. Inclusive, os capítulos 1 e 2, do título francês, não estão completamente claros, com uma sutileza na edição do filme que faz o tempo transcorrer sem que o espectador perceba com clareza que os personagens estão ficando mais velhos, ou apenas por mudanças no cabelo, sem a presença excessiva de amigos e familiares para delimitar uma certa solidão nas escolhas.
A questão é se o roteiro poderia tratar de um tema polêmico e, a princípio, dentro dos limites de perdas e descobertas. Cada diálogo tem uma duração mais longa para exatamente criar uma tensão para a próxima cena e, basicamente, Azul é a cor mais quente explora essa relação, mas obtendo as nuances necessárias a partir de uma história que poderia ser considerada até previsível. Isso já era visível em O segredo do grão: Kechiche é um diretor bastante talentoso em organizar cenas com uma naturalidade que parece despertar o realismo de Eric Rohmer. Se naquele, ele não conseguia sintetizá-las, em Azul é a cor mais quente mesmo o que parece excessivo torna a história mais interessante. E Kechiche, além disso, consegue extrair significado de determinadas imagens: em determinado momento, a personagem está na água, solitária, como se estivesse nascendo individualmente, ao contrário de outra em que parece descobrir o vínculo emocional com o corpo da amada. A belíssima fotografia de Sofian El Fani distribui um espelho de reflexos que parece tentar iluminar um período de sombras da vida de Adèle, prestes realmente a se encontrar. E Kechiche não poupa o espectador: Azul é a cor mais quente, com seus personagens apresentados com intensidade, torna-se, a cada movimento, tão singelo quanto cortante. Se o diretor agiu corretamente ou não com suas atrizes, trazendo uma discussão dos bastidores para a cena pública, não saberia definir. O que se sente é que ele tornou as duas atrizes em seus personagens, e isso poucos diretores fariam com o mesmo talento. Por isso, Azul é a cor mais quente tem a qualidade de uma obra-prima.

La vie d’Adèle – Chapitres 1 e 2/Blue is the warmest color, França/Bélgica/Espanha, 2013 Diretor: Abdellatif Kechiche Elenco: Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux, Alma Jodorowsky, Aurélien Recoing, Benjamin Siksou, Catherine Salée, Fanny Maurin, Jérémie Laheurte, Salim Kechiouche, Sandor Funtek Roteiro: Abdellatif Kechiche Fotografia: Sofian El Fani Produção: Genevieve Lemal Duração: 179 min. Distribuidora: Imovision Estúdio: Quat’sous Films / Wild Bunch

Cotação 5 estrelas