Joias brutas (2019)

Por André Dick

Os irmãos Josh e Benny Safdie ficaram mais conhecidos há dois anos por Bom comportamento, no qual Robert Pattinson tinha uma atuação de destaque, interpretando um assaltante que vagava pela cidade de Nova York preocupado com o seu irmão problemático. Agora, em Joias brutas, eles procuram abordar novamente a vida cotidiana insana de Nova York pela figura de Howard Ratner (Adam Sandler), dono de  uma joalheria. Apesar de casado com Dinah (Idina Menzel) e com filhos, ele tem mais atenções para a amante Julia (Julia Fox), sua funcionária, para a qual paga um apartamento.
Em 2012, ele recebe uma correspondência cobiçada: uma opala encontrada por etíopes judeus na mina de Webo, na África. Demany (Lakeith Stanfield), que ajuda Howard a conseguir clientes, leva à joalheria o jogador de basquete Kevin Garnett (interpretando a si mesmo). Este pede para ficar um tempo com a opala – a qual parece lhe transmitir uma energia diferente. Para que o filme funcione, o espectador precisa aceitar essa premissa às vezes um pouco forçada  numa narrativa que se pretende realista, pois o interesse de Garrett é muito instantâneo, sem a devida contextualização.

A partir daí, Howard tem de lidar com o fato de ficar sem sua joia, com dois homens em seu encalço, Phil (Keith Williams Richards) e Nico (Tommy Kominik), a mando de um agiota, Arno (Eric Bogosian),,  que querem que ele pague uma dúvida. O início do filme se passa basicamente dentro dessa joalheria, criando um clima claustrofóbico por causa do gabinete de segurança existente antes de entrar nela e das sucessivas tentativas de abri-la por causa de um problema técnico. Isso é acentuado pela trilha sonora de Daniel Lopatin, que parece mais afeita a uma narrativa que se passa num quarto do pânico.
Joias brutas tem como seus méritos centrais a atuação de Adam Sandler, tão eficiente quanto irritante (falta pouco para a sua voz ser igual àquela que usa em Sandy Wexler), e a edição, que transforma a narrativa numa espécie de montanha-russa, na qual se alternam sonhos, cobiça, amor, interesse e complicações inesperadas. A fotografia do excelente Darius Khondji oferece o que o roteiro precisa, dando ao filme dos Safdie uma interessante imersão numa cidade perturbadora. Nela, o homem se sente ao mesmo tempo esperançoso e acuado, o que já acontecia, sem a mesma eficiência, em Bom comportamento.

O elenco coadjuvante, começando por Stanfield e Fox, é muito bom, servindo como sustentação ao personagem instável de Sandler. Este, depois de muitas comédias superficiais, desenvolve o que já conseguia mostrar em Embriagado de amor, Espanglês, Homens, mulheres e filhos e Os Meyerowitz. É uma atuação feita no limite, com muita correspondência e vontade de tornar este momento diferente do restante de sua carreira (embora ela tenha peças divertidas, a exemplo de Terapia de choque). O ator desenvolve um personagem confuso e, ao mesmo tempo, com empatia, fazendo com que o espectador torça por ele, embora não seja uma referência determinada. Howard mistura ganância e ingenuidade e mesmo bondade em alguns momentos, o vislumbre de certo romantismo desastrado, mesmo com todas as falhas que comete e os atalhos que tenta tomar sem a devida preocupação em ser assertivo.
Em termos de temática, se os irmãos Safdie empreendiam uma saga noturna em Bom comportamento, aqui eles preferem conciliar a noite com a luz solar. Não há diferença entre os dois tempos quando se trata de confusões do personagem central. À noite, em sua casa, ele tenta se conciliar com a esposa e aproveitar o tempo com os filhos, mas a sensibilidade não se manifesta para ele se não no universo do jogo, literalmente. De algum modo também, mesmo com uma vida financeiramente conturbada, ele transparece em casa suas apostas, embora pareça nunca se inserir no mundo como gostaria, principalmente relativo a festas e fama. Ele corre o dia inteiro e faz planos para jogos de forma incessante, no entanto nunca consegue compartilhar de verdade sua agonia e deslocamentos provocados, o que torna tudo irreversível, por ele mesmo.

Joias brutas, essencialmente, é um retrato dele e de como é seu posicionamento diante do mundo – com o qual o espectador dificilmente vai compartilhar. A maneira como ele gostaria de pertencer ao universo no qual aposta (do basquetebol), diante de sua posição apertada num escritório e visando apenas à venda, sem ter como bônus a consagração diante da torcida, revela a dramaticidade de seus passos, principalmente a partir do momento em que vai ao colégio assistir a uma apresentação de sua filha. É um contraponto ao fato de a joia ter sido encontrada por negros na Etiópia: ela representa não apenas o lucro financeiro, como uma tentativa de ela produzir mais ganhos por meio de uma grande personalidade. Isso se esclarece na maneira como os Safdie parecem filmar a essência da joia, ligando personagens distintos por meio dela. É neste elemento que o filme ganha força especial.

Uncut gems, EUA, 2019 Diretores: Josh Safdie e Benny Safdie Elenco: Adam Sandler, Lakeith Stanfield, Julia Fox, Kevin Garnett, Idina Menzel, Eric Bogosian Roteiro: Ronald Bronstein, Josh Safdie, Benny Safdie Fotografia: Darius Khondji Trilha Sonora: Daniel Lopatin Produção: Scott Rudin, Eli Bush, Sebastian Bear-McClard Duração: 135 min. Estúdio: Elara Pictures, IAC Films, Sikelia Productions Distribuidora: A24 (Estados Unidos), Netflix (Internacional)

 

Entre facas e segredos (2019)

Por André Dick

O diretor Rian Johnson, antes de se tornar mais conhecido por Star Wars – Os últimos Jedi, foi sempre um admirador de histórias de investigação. Sua obra A ponta de um crime era uma espécie de noir adolescente, com Joseph Gordon-Levitt no papel de um jovem tentando desvendar um assassinato ligado a estudantes num colégio. Em 2012, ele fez Looper, desta vez brincando com a passagem do tempo, em que Levitt se tornava Bruce Willis, numa ficção científica também com elementos de mistério.
Agora, entre Facas e segredos, Johnson volta aos tempos de A ponta de um crime, com uma história sinuosa de enigmas. Tudo começa com a investigação feita pelo detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) em relação ao suicídio de um romancista de livros de crime, Harlan Thrombey (Christopher Plummer). Ele apareceu morto na manhã seguinte de sua festa de 85 anos, encontrado pela empregada Fran (Edi Paterson). Blanc passa a investigar os componentes da família do escritor, todos hospedados em sua mansão: seu genro Richard (Don Johnson), casado com a filha Linda (Jamie Lee Curtis), pais de Megan (Katherine Langford), a ex-nora Joni (Toni Collette), além de Walt (Michael Shannon), com quem Harlan trabalhava na editora, casado com Donna (Riki Lindhome ) e pai de Jacob (Jaeden Martell). E há ainda Hugh (Chris Evans), também filho de Richard e Linda, e a enfermeira que cuidava do milionário, Marta Cabrera (Ana de Armas). Quase todos eles, de certa maneira, um pouco antes da morte, acabaram sendo desmascarados pelo escritor e, desse modo, podem ter culpa no cartório.

Ajudando o detetive Blanc estão o tenente Elliot (Lakeith Stanfield) e o policial Wagner (Noah Segan) – e os primeiros interrogatórios são cercados por uma aura de Agatha Christie, a referência principal de Johnson. Blanc é uma espécie de inspetor Hercule Poirot (vivido mais recentemente por Kenneth Branagh na versão de Assassinato no Expresso Oriente). Blanc não sabe por quem foi contratado para o caso. Isso acaba criando uma expectativa de que algo muito errado está acontecendo na mansão onde ocorreu a morte.
Johnson, de modo geral, tem um conhecimento respeitável do cinema. Seus filmes possuem um jogo de luzes e sombras, auxiliado pela fotografia de Steve Yedlin, e um design de produção interessante. Em certos momentos, a mansão lembra de Mistério em Gosford Park, de Robert Altman, e Os sete suspeitos, dos anos 80, um experimento também nos moldes de Agatha Christie, além de Vocês ainda não viram nada!, de Alain Resnais. Ele também sabe usar as digressões, estabelecendo pequenas pistas, quase invisíveis, para o espectador destrinchar o mistério.

No entanto, sua maior qualidade continua sendo a direção de atores. Todos no filme estão bem, desde o sempre ótimo Plummer – reprisando o seu papel de Todo o dinheiro do mundo, com um ar mais simpático, se isso pode ser dito diante do que ele acaba travando com a família –, passando por Johnson e Curtis, até Collette e Shannon, embora nem todos sejam exatamente desenvolvidos ou recebam muitos diálogos. Ainda assim, são Ana de Armas e Daniel Craig os destaques. Armas teve um papel de relevo em Blade Runner 2049 como a companhia virtual do personagem principal e aqui, como a enfermeira que toda a família gostaria de adotar, se mostra na medida exata, entre o conflito de ter ocasionado uma tragédia e sua condição quase de heroína. Já Craig que nos últimos anos praticamente se dedicou ao papel de James Bond se mostra muito à vontade, mesclando o papel que fazia em Millennium com seu humor britânico às vezes deslocado das situações.

A ligação de seu detetive com Marta é o que leva Entre facas e segredos à frente, junto com a sucessão de diálogos rápidos. Todas as figuras parecem ter torcido para o desaparecimento do escritor patriarca da família, porém é Blanc quem tentará desvendar por que eles se comportam desse modo. A maneira como o espectador vai conhecendo um a um é o grande atrativo para o estabelecimento dessa trama. Talvez, nisso, o único porém seja que Entre facas e segredos seja um grande parque de mistério metalinguístico, com os personagens agindo a todo momento como partes de um grande esquema, sem espaço para uma certa humanização. Johnson, como em A ponta de um crime, em nenhum momento deixa essa família suspirar, digamos, vida real: ela está a serviço de um tabuleiro. Talvez por isso o acréscimo de Chris Evans, ator normalmente associado ao Capitão América, seja tão relevante: ele consegue estabelecer uma dinâmica vibrante junto com Armas e Craig. Se os dois primeiros atos vão preparando a tensão para estabelecer a trama, o terceiro vai amarrando as pontas soltas de maneira verossímil, sem cair em elementos de farsa. Misturando elementos de humor, surpresa e tensão, Entre facas e segredos se mostra uma das diversões mais consistentes do ano,.

Knives out, EUA, 2019 Diretor Rian Johnson Elenco: Daniel Craig, Chris Evans, Ana de Armas, Jamie Lee Curtis, Michael Shannon, Don Johnson, Toni Collette, Lakeith Stanfield, Katherine Langford, Jaeden Martell, Christopher Plummer Roteiro: Rian Johnson Fotografia: Steve Yedlin Trilha Sonora: Nathan Johnson Produção: Ram Bergman, Rian Johnson Duração: 130 min, Estúdio: Media Rights Capital, T-Street Distribuidora: Lionsgate

Millennium – A garota na teia de aranha (2018)

Por André Dick

O diretor uruguaio Fede Alvarez chegou a Hollywood com a exitosa refilmagem de Evil Dead, um filme mais assustador do que o original dos anos 80, de Sam Raimi, e em seguida fez o sucesso de bilheteria O homem nas trevas. Estranhamente, este segundo, mesmo com suas limitações narrativas, teve uma extraordinária recepção crítica. Imagine-se o que pensa agora Alvarez com a recepção dada à sequência de Millennium – Os homens que não amavam as mulheres, de David Fincher, intitulado A garota na teia de aranha. A sua estreia se deu no Festival de Veneza e desde então tem enfrentado comentários pouco elogiosos no que se refere a seu desenvolvimento.
Pode-se dizer que, por anos, se achou estranho que Daniel Craig e Rooney Mara, os astros do original de 2011, e David Fincher nunca se interessaram pela continuação da história escrita por David Lagercrant, com base em personagens criados por Stieg Larsson. No entanto, busca-se, neste novo filme, dar continuidade à trajetória de Lisbeth Salander, com Claire Foy (The crown e mais recentemente em O primeiro homem) no papel que era de Mara, a hacker de computador que se mostra mais uma vez como justiceira contra homens que agridem mulheres.

Depois de um início forte, em que ela enfrenta um homem que bate em prostitutas – o que dialoga com o episódio anterior –, Salander é procurada por Frans Balder (Stephen Merchant), funcionário da NSA e criador do Firefall, um programa que fornece acesso a códigos nucleares espalhados pela Terra. Ele quer destruir o programa, mas sua preocupação central é com a segurança do filho August (Christopher Convery). Em meio a tudo, ela pede ajuda novamente ao jornalista do Millennium, Mikael Blomkvist (Sverrir Gudnason), que tem um relacionamento com sua editora, Erika Berger (Vicky Krieps, de Trama fantasma), enquanto Edwin Needham (Lakeith Stanfield) também está no alcanço de Salander, sendo especialista de segurança da NSA.
Lvarez, de forma apropriada, no entanto, coloca como principal flashback da vida de Salander a menina Camila (Carlotta von Falkenhayn), sua irmã, abalada por problemas que moldariam a própria personalidade dela e que também dialogam com a obra de Fincher. Na verdade, A garota na teia de aranha é uma continuação que se autossustenta e, ao mesmo tempo, expande os temas do anterior de modo eficaz, apostando numa trilha sonora incisiva e uma fotografia extraordinária de Pedro Luque, que, apesar de lembrar aquela do Millennium de 2011, não chega a ser tão intimista.

No filme anterior Blomkvist forma parceria com Lisbeth, sob a tutela do Estado desde os 12 anos e que, sem nenhum tipo de estudo, conseguiu se tornar numa investigadora perita. O jornalista é chamado por um ricaço, Henrik Vanger (Christopher Plummer), de um clã que mora numa ilha, para, além de escrever uma biografia sobre ele, buscar a solução para o desaparecimento de sua sobrinha, Harriet, desde 1966. Ele mora num vilarejo da Suécia, quase sem contato com os familiares. A recompensa seria dar ao jornalista algumas informações sobre Wennerstrom na justiça. Depois de se instalar numa pequena casa à beira de um lago, onde tem como companhia apenas um gato, Blomkvist inicia o processo de entrevistas com familiares, tentando descobrir sobretudo o que aconteceu com Harriet, num passo a passo lento e investigativo. Nada disso há nessa sequência de Alvarez, muito mais parecido com um thriller policial, em que Krieps em determinado momento evoca uma femme fatale e a vice-diretora do Serviço Secreto Sueco Gabriella Grane (Synnove Macody Lund) observa uma silhueta feminina num restaurante.

Como no primeiro,  o enfoque em Lisbeth é sempre misterioso. Com vários piercings e tatuagens (a garota com a tatuagem de dragão do título original), ela atua como um hacker, invadindo os computadores das pessoas que pretende investigar. É uma personagem situada entre a infância – na obra anterior, está sempre com algum lanche para crianças por perto – e o mundo conturbado em que se inseriu desde cedo. Em nenhum momento, no entanto, é uma figura completamente autônoma ou responsável por tudo o que faz e, quando age violentamente, no filme, é para se vingar do que cometem com ela.
Sua parceria com Blomkyvist não se dá com a mesma intensidade, e Sverrir Gudnason mal tem chance de aparecer, como em Borg vs McEnroe, no qual fazia um tenista com grande competência, também não possuindo o talento interpretativo de Craig. Talvez, no entanto, o que mais funcione seja uma dupla feminina: Gabriella Grane e uma personagem interpretada com raro talento por Sylvia Hoeks (tão bem quanto em Blade Runner 2049), que confere à obra de Alvarez uma perturbação existente no ato final do original de Fincher, mesclando traumas de infância e violência incontida. A mulher representa aqui justiça, perversão e traição, não necessariamente nessa ordem, e tudo produzido pela figura do homem, tal como na obra de Fincher. A personagem de Hoeks lembra, em determinado momento, pelo próprio figurino, uma espécie de Chapeuzinho Vermelho às avessas, representando o próprio lobo em meio a paisagens gélidas da Suécia, ecoando o subestimado Boneco de neve. Alvarez tinha tudo para sucumbir ao estilo de Fincher extremamente forte. Suas composições são belas, inserindo os personagens em quadros, sem jamais perder a essência deles. Por causa das escolhas narrativas e principalmente em razão de Claire Foy, A garota na teia de aranha é uma sequência muito interessante.

The girl in the spider’s web, CAN/ALE/SUE/EUA/ING, 2018 Diretor: Fede Alvarez Elenco: Claire Foy, Sverrir Gudnason, Lakeith Stanfield, Sylvia Hoeks, Stephen Merchant, Vicky Krieps, Synnove Macody Lund, Christopher Convery Roteiro: Jay Basu, Fede Alvarez, Steven Knight Fotografia: Pedro Luque Trilha Sonora: Roque Baños Produção: Scott Rudin, Eli Bush, Ole Søndberg, Søren Stærmose, Amy Pascal, Elizabeth Cantillon Duração: 115 min. Estúdio: Columbia Pictures, Metro-Goldwyn-Mayer, Regency Enterprises, Scott Rudin Productions, Yellow Bird, The Cantillon Company, Pascal Pictures Distribuidora: Sony Pictures Releasing

Death note (2017)

Por André Dick

O diretor Adam Wingard tem feito alguns filmes interessantes e até subestimados, a exemplo de O hóspede e a refilmagem de A bruxa de Blair, esta especialmente criticada em seu lançamento e muito superior à versão dos anos 90, a começar por seu terceiro ato claustrofóbico. Aqui ele parte de um mangá criado por Tsugumi Ohba e Takeshi Obata para desenhar a vida de um adolescente de Seattle, Light (Nat Wolff). Depois de se mostrar interessado pela líder de torcida Mia (Margaret Qualley), em meio a uma tempestade, ele se depara com um caderno que cai do céu, cuja inscrição na capa é Death Note. Por meio do caderno, ele entra em contato com a figura assustadora de Ryuk (Willem Dafoe), o deus da morte. Detalhe: se ele escrever o nome de uma pessoa no caderno traçando seu destino e imaginar seu rosto, pode eliminá-la. Rapidamente, ele já tem alguém em vista, e o destino da vítima é doloroso de assistir. A meia hora inicial de Death note é instigante, e temos ainda a relação entre Light e seu pai, o detetive James Turner (Shea Whigham), além de cenas que remetem a um clima de terror que verdadeiramente assusta.

No entanto, quando surge o investigador L (Lakieth Stanfield), acompanhado por seu pai e assistente Watari (Paul Nakauchi), e a química entre Light e Mia começa a soar forçada, o roteiro vai se perdendo aos poucos, apesar de o visual continuar interessante, um dos méritos da filmografia de Wingard, com a ótima fotografia climática de David Tattersall, o mesmo de Speed Racer, inspirada em Demônio de neon e Enter the void (nas cenas passadas em Tóquio). O problema é a tentativa de transformar o conceito original, mais reflexivo, em algo muito popular e apressado, e não se pode imaginar que Nat Wolff tenha sido escolhido por outro motivo. Muito bem em A culpa é das estrelas, Palo Alto e Cidades de papel, ele tem uma atuação bastante limitada, talvez pelo roteiro e pela direção. Ele acaba sendo sobrepujado por Qualley, sua parceira, que deseja agir em conjunto para enfrentar o mal do mundo usando um caderno que serve a uma figura maligna com o intuito de ser “mais do que uma líder de torcida”.
Se eles chegam a uma festa de colégio em que está tocando “Don’t change”, do INXS, é exatamente o contrário do que acontece com ela, justamente porque passa a ter mais ideias sobre o que deve ser feito, e aos poucos o conjunto de mortes em escala universal atinge uma escala de autoperturbação e desejo de domínio sobre o outro. Trata-se de uma ideia aparentemente simples, mas que pode ganhar um significado se o diretor estivesse disposto a colocar a discussão por trás dela realmente em prática; isso fica apenas na aparência e em cenas violentas. A montagem ágil acaba não dando peso às sequências, ou seja, se o filme não cansa, ele dificilmente convida a olhar os personagens além da maneira como aparecem na tela. A simbologia que os cerca se perde.

Em O hóspede, Wingard já lidava com um personagem que se situava entre o bem e o mal, ambíguo, e Light não é diferente. No entanto, falta uma certa densidade a alguns conflitos enfrentados por ele, sobretudo quando Ryuk sugere que a autoria das mortes seja assinada pelo codinome Kira. A seu lado, Stanfield (que aparece bem em Corra! e War machine) tem uma atuação equivocada, tentando repetir certos maneirismos do personagem original, mas logo caindo mais numa espécie de caricatura. Shea Whigham e Willem Dafoe, por sua vez, aparecem muito bem e dão respaldo às suas cenas. Longe de ser o desastre como está sendo apontado, haveria espaço para um desenvolvimento melhor de personagens. Há assuntos delicados aqui (querer fazer justiça em cima de criminosos por meio de uma figura maligna), no entanto as coisas se perdem em determinado momento, recuperando-se apenas mais ao final, com uma ótima sequência de ação, uma das especialidades de Wingard. É preciso dizer que esta sequência tem um trabalho visual principalmente com as cores poucas vezes visto no cinema blockbuster e o rumo dos personagens lembra um episódio de Além da imaginação.

Talvez se Wingard também tivesse delimitado melhor seus objetivos – ele se situa entre uma tentativa de reproduzir outros filmes de adolescentes já citados com o próprio Wolff e um terror lado B, nos moldes de Creepshow, inclusive utilizando um trabalho de câmera semelhante –, aproveitando melhor a trilha sonora de Atticus e Leopold Ross (vencedores do Oscar por A rede social), inspirada claramente naquelas que Cliff Martinez compôs para as obras mais recentes de Refn, poderia ter realizado um filme realmente marcante. É claro que ele tinha um potencial narrativo a ser explorado com mais detalhes, à medida que tinha um elenco de ponta em suas mãos. Preferiu o caminho de apelo mais pop, e é justamente nesse terreno que ele vem sendo tão criticado. Para uma obra desse estilo, ele precisaria ter levado mais em conta os pressupostos originais, mesmo que quisesse, como fez, realizar uma adaptação mais livre. Fazer uma versão nos Estados Unidos requisita outro estilo, como o mostrado, com uma atmosfera bastante atraente, mas é preciso manter certo jogo de ideias, como, aliás, acontece em outras adaptações de mangás. Ainda assim, Death note tem suas qualidades e merece ser visto.

Death note, EUA, 2017 Diretor: Adam Wingard Elenco: Nat Wolff, Lakeith Stanfield, Margaret Qualley, Shea Whigham, Paul Nakauchi, Jason Liles, Willem Dafoe Roteiro: Charles Parlapanides, Vlas Parlapanides, Jeremy Slater Fotografia: David Tattersall Trilha Sonora: Atticus Ross, Leopold Ross Produção: Roy Lee, Dan Lin, Masi Oka, Jason Hoffs, Ted Sarandos Duração: 100 min. Estúdio: LP Entertainment, Vertigo Entertainment, Lin Pictures Distribuidora: Netflix

War machine (2017)

Por André Dick

Um dos lançamentos este ano da Netflix, War machine (que ficou sem título em português) é uma comédia de guerra nos moldes de Uma repórter em apuros, de qualidade, com Tina Fey e Martin Freeman. No entanto, ao contrário de jornalistas, o roteiro mostra mais exatamente a rotina dos militares na Guerra do Afeganistão. Eles são coordenados pelo general Glen McMahon (Brad Pitt), personagem baseado no general Stanley McChrystal. Ele chega ao país tentando conversar com o presidente Hamid Karzai (Ben Kingsley), que não o leva muito a sério, e tem entre seus comandados Willy Dunne (Emory Cohen), Greg Pulver (Anthony Michael Hall) e Matt Little (Topher Grace), seu assessor de imprensa. McMahon também conhece o soldado Ricky Ortega (Will Poulter), mais comedido, e o rebelde Billy Cole (Lakeith Stanfield). A questão é que ele está lá para ganhar a guerra e não simplesmente controlá-la, como pedem seus superiores, entre eles Pat McKinnon (Alan Ruck), Edith May (Sian Thomas), Dick Wabble (Nicholas Jones) e Ray Canucci (Griffin Dune). Para o general, ganhar significa tentar convencer o povo de que as tropas dos Estados Unidos estão ali para educar.

É muito fácil avaliar o filme sob o ponto de vista político, e ele não é exatamente favorável ao comportamento na área bélica de Barack Obama (herdado de George W. Bush), traço já analisado também no ótimo Castelo de areia, mas o diretor australiano David Michôd não tem exatamente o intuito de apresentar uma peça social. Ele é bastante satírico no modo como mostra o general feito por Pitt, num overacting que faz lembrar seu Aldo Raine de Bastardos inglórios, e particularmente achei o ator num de seus melhores momentos, com timing de humor ótimo. Os coadjuvantes, principalmente Hall (dos filmes sobre adolescentes de John Hughes), estão muito bem, auxiliando realmente na narrativa.
Em certos momentos, como o encontro do general com a mulher, Jeanie (Meg Tilly, surpreendente, uma das principais atrizes dos anos 80), a dramaticidade está presente, mas em geral o filme se situa entre ser um MASH e um Patton (principalmente este) contemporâneos, com uma excelente fotografia de Dariusz Wolski, habitual colaborador de Ridley Scott e Woody Allen. Há também uma interessante composição sobre a maneira com a qual o estrangeiro se infiltra em outro país, o que podemos ver sob o ponto de vista mais bem-humorado também no recente Rock em Cabul, com Bill Murray.

Especialmente bem feito é o jantar em que comparecem Glen e sua esposa Jeanie, em homenagem ao Afeganistão, no qual ele comete uma ligeira confusão de postos de homenagem e homenageado, ou quando o casal fica a sós para discutir a relação e tudo se resume, para o comandante, a uma questão de calendário.
Se as melhores falas parecem ser de Greg Pulver, feito por Hall, sintetizando o absurdo da guerra e as mudanças de rumo quando se está em jogo a política e não exatamente a salvação de vidas humanas, é uma pena que Michôd, que dirigiu o excelente Reino animal e o irregular The rover, se estenda um pouco mais no terceiro ato e tire um pouco o foco do personagem central, o que atenua a agilidade. Quando se dá mais espaço para o campo de combate, a obra parece tentar algum diálogo com Nascido para matar e outros recentes do gênero, sobretudo os filmes de Bigelow, não trazendo exatamente nenhuma novidade, a não ser uma sátira em relação ao comportamento dos comandantes dessas tropas. Ainda assim, War machine é um filme muito interessante sobre os efeitos da guerra e a posição de quem imagina controlar tanto ela quanto as vidas com que lida.

Tal elemento é explorado nos diálogos de Glen com Hamid Karzai, numa atuação cômica exitosa de Kingsley, normalmente boa escolha para esses papéis, a exemplo do que já mostrou em O ditador. Baseado num artigo de Michael Hastings (no filme, Scoot McNairy) escrito para a Rolling Stone, o filme está sendo criticado principalmente por mostrar Obama como um presidente que deu espaço a militares excêntricos. Neste sentido, a obra em si de Michôd não é discutida. Está se perdendo a carga de crítica ressonante que ela apresenta, principalmente se lembrarmos outros filmes de guerra este ano tão elogiados e sem a resposta devida em qualidade. E lembre-se ainda que o trecho final, com a participação inesperada de um astro do cinema, é um dos encerramentos mais eficientes do ano, mostrando a circularidade de uma guerra em que se não havia razão no início tampouco terá em seu final.

War machine, EUA, 2017 Diretor: David Michôd Elenco: Brad Pitt, Emory Cohen, RJ Cyler, Topher Grace, Anthony Michael Hall, Anthony Hayes, John Magaro, Scoot McNairy, Will Poulter, Alan Ruck, Lakeith Stanfield, Josh Stewart, Meg Tilly, Tilda Swinton, Ben Kingsley Roteiro: David Michôd Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Nick Cave/Warren Ellis Produção: Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Ted Sarandos, Ian Bryce Duração: 122 min. Estúdio: Plan B Entertainment, New Regency, RatPac Entertainment Distribuidora: Netflix

Corra! (2017)

Por André Dick

Esta estreia na direção de Jordan Peele tem tido uma recepção que lembra a de A bruxa ou The invitation, no ano passado. No entanto, ao contrário desses dois filmes, ele tenta um diálogo interessante com questões envolvendo uma sociedade fundada sobre um preconceito prévio, mesmo que, no caso dos Estados Unidos, Barack Obama tenha sido eleito presidente duas vezes (e afirma-se isso principalmente porque sua figura é lembrada textualmente durante a narrativa). Corra! parece o resultado de um encontro entre um filme de terror dos anos 80 e a série Histórias maravilhosas, produzida por Spielberg.
O fotógrafo afromericano Chris Washington (Daniel Kaluuya) viaja com a namorada branca Rose Armitage (Allison Williams) para conhecer os pais dela, o neurocirurgião Dean (Bradley Whitford) e a psiquiatra que trabalha com hipnose Missy (Catherine Keener), assim como o irmão Jeremy (Caleb Landry Jones). Eles moram numa casa de campo, com a criada Georgina (Betty Gabriel) e um ajudante braçal, Walter (Marcus Henderson). Chris está inseguro que os pais dela não saibam que ele é um afroamericano e tem como melhor amigo Rodney Williams (LilRel Howery); Rose, por sua vez, não dá importância, pois acredita que seus pais não terão nenhum preconceito.

Depois do primeiro encontro, em que tudo se passa bem, apesar de algumas conversas enviesadas, Missy (numa brilhante atuação de Keener) se oferece, à noite, para hipnotizar Chris, a fim de que ele consiga parar de fumar; o jovem acorda no dia seguinte como se tudo não tivesse passado de um sonho, envolvendo também sua mãe. Este é o ponto de partida para uma história bastante original. Chris não entende, sobretudo, por que os personagens com que se depara agem de maneira estranha. No entanto, a sua namorada é uma figura que mantém sua posição de não desconfiar do que está ocorrendo, e ela, sem dúvida, é muito bem desenhada pelo roteiro, pois indica toda a sensibilidade que parece faltar às demais pessoas, a começar por uma festa na casa de campo.
Corra! foi lançado no Festival de Sundance e, a partir de um orçamento irrisório de 4,5 milhões, já arrecadou 214. O sucesso se deve certamente à sua mescla entre suspense, terror, crítica social e toques de comédia que parecem deslocados, mas que no conjunto fortalecem o resultado. É um filme que prende a atenção do início ao fim, no entanto o espectador necessita de uma certa suspensão da narrativa mais comum do gênero, pois Corra! trabalha num campo em que Richard Kelly, de A caixa sobretudo, é um referencial. Desde a década de 70, o terror normalmente esteve personificado em ameaças indestrutíveis, como Freddy Krueger, Michael Myers e Jason, além de outros derivados; em Corra! esse medo parece se basear no comportamento da humanidade e de como a vítima reage a ele.

Kelly se revela a principal influência de Peele, seguido por John Carpenter, Nicolas Winding Refn e David Cronenberg, aquele de Videodrome, pelo indie atmosférico de Ryan Gosling, Rio perdido, e pelo suspense Corrente do mal. Desse último, é extraída a qualidade do que se mostra como ponto de movimento ao fundo e sobretudo alguns sustos provocados por situações corriqueiras, que não representam ameaça alguma. Peele consegue lidar de maneira exitosa com o humor em um contexto no qual ele pareceria deslocado, por meio da atuação primorosa de LilRel Howery (lembrando Anthony Anderson, de Todo mundo em pânico), que parece saído de outro filme, e em algumas falas engraçadas, como uma que remete a De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick. Peele dá a impressão de aproveitar elementos do cinema mais previsível com um contexto bem mais delineado do que se espera, e será lamentável se quiserem transformar esta peça no início de uma nova franquia.
Ele possui, além de tudo, um senso de estética muito forte, com auxílio da bela fotografia de Toby Oliver, trabalhando o jogo de luzes e sombras de maneira afiada, além de um jogo elaborado de plasticidade que lembra Sob a pele. Todo o elenco está em grande momento, com destaque para Kaluuya e uma convincente Williams, mostrando que Peele tem um domínio sobre o elenco. E há os sustos: Corra! rivaliza, até agora, com Vida como um dos filmes deste ano que realmente mais amedrontam o espectador e o colocam em uma posição permanente de insegurança, na maneira com que é filmado e nas situações verossímeis que vão se configurando.

Há certas referências a Tarantino e Amargo pesadelo, porém Peele conduz tudo como uma obra realmente original. Ele, inclusive, não se sente tão pretensioso como seu marketing sugere, querendo indicá-lo como uma obra-prima. Sob um ponto de vista mais metafórico, no qual trabalha em muitos momentos, pode-se indicar que ele está representando um certo domínio de uns em relação aos outros, mesmo por meio de seus ambientes (a sala de estar, depois um quarto no piso inferior), além de uma comunidade toda reunida com o objetivo talvez de manter as coisas como estão, ou, na opinião dela, sempre esteve. Em certos momentos, Corra! pode até ser visto como uma sátira, no entanto Peele parece saber exatamente que é neste limite que seu trabalho se dá do melhor modo: não está levando tão a sério o que mostra e isso concede a seu trabalho um insuspeito talento de concretizar uma ideia que normalmente estaria equivocada desde o início.

Get out, EUA, 2017 Direção: Jordan Peele Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Catherine Keener, Bradley Whitford, LilRel Howery, Caleb Landry Jones, Marcus Henderson, Betty Gabriel, Lakeith Stanfield, Stephen Root Roteiro: Jordan Peele Fotografia: Toby Oliver Trilha Sonora: Michael Abels Produção: Edward H. Hamm Jr., Jason Blum, Jordan Peele, Sean McKittrick Duração: 104 min. Estúdio: Blumhouse Productions / QC Entertainment