Dois caras legais (2016)

Por André Dick

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Desde o roteiro dos quatro filmes da série Máquina mortífera, dos anos 80 e 90, com Mel Gibson e Danny Glover, Shane Black se tornou um especialista em filmes sobre duplas. Em O último boy scout, ele colocou, sob direção de Tony Scott, Bruce Willis ao lado de Damon Wayans. Já em 1993, em O último grande herói, ele traz uma homenagem ao cinema de ação, na amizade entre um menino e Arnold Schwarzenegger. Em 2005, Black finalmente estreou na direção com o ótimo Beijos e tiros, uma homenagem ao cinema noir com cores surpreendentes, tendo à frente o dueto entre Val Kilmer e Robert Downey Jr. E, quando voltou à direção quase 10 anos depois, em Homem de ferro 3, não deixava também de estabelecer como uma dupla o Homem de Ferro e o Coronel James Rhodes.
Desta vez, em Dois caras legais, o roteiro (daqui em diante, possíveis spoilers), em parceria de Black com Anthony Bagarozzi, trabalha na pista dos filmes de investigação policial e de literatura do gênero, a exemplo de Vício inerente, de Thomas Pynchon. A trama se passa em 1977, na cidade de Los Angeles. Um menino, Bobby (Ty Simpkins), é testemunha de um acidente de carro envolvendo a atriz pornô Misty Mountains (Murielle Telio). Na mesma semana, Holland March (Ryan Gosling) é procurado pela Sra. Glenn (Lois Smith), a tia da atriz, pedindo para encontrá-la, como se ainda estivesse viva.

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March conclui que uma menina desaparecida, Amelia Kutner (Margaret Qualley), está envolvida no caso. No entanto, Amelia contrata Jackson Healy (Russell Crowe) para assustar Holland. Healy é abordado por dois bandidos, Blue Face (Beau Knapp) e Older Guy (Keith David), que questionam sobre Amelia, e procura Holland, a fim de encontrarem Amelia antes dos bandidos. Isso tudo com a ajuda de Holly (Angourie Rice), jovem filha de Holland.
Os dois iniciam uma investigação que os levará a um projecionista, Dean (Jack Kilmer), e a um cineasta amador, Dean, com quem Amelia rodava um filme, parando numa festa onde estaria Sid Shattack, um produtor de pornografia notório. Acabam sendo contratados pela mãe de Amelia, Judith Kutner (Kim Basinger), do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que enxerga a filha como uma vítima do sistema de pornografia que invade Los Angeles, tentando encontrá-la ainda com a ajuda de sua assistente, Tally (Yaya DaCosta). Ou seja, como em livros do gênero, Dois caras legais caracteriza-se por uma trama intrincada – embora, em seu caso, mais pop do que certamente hermética.
Há uma clara influência também de Dália negra, filme de De Palma baseado em romance de James Elroy, nesta ligação de Los Angeles com um underground de pornografia, e, enquanto o elenco coadjuvante é excelente, Gosling mostra uma química e desenvoltura irretocável com Crowe: Gosling é o desastrado (e torna refinado seu traço cômico já bem aproveitado em Amor a toda prova), que consegue parar no hospital ao tentar arrombar uma porta.

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Já Crowe é o durão, sem perder um lado afetuoso e cômico: ele não aparece desse modo desde o subestimado Um bom ano, em que faz um executivo que envereda por uma paixão romântica. Ambas são figuras críveis e simpáticas e o relacionamento entre ambos se estabelece numa mescla entre desconfiança e tentativa de apresentar um trabalho minimamente sério em suas investigações, mesmo que muitas vezes tortuosas.
Tanto Gosling quanto Crowe aceitam que não há senso para seus personagens que não seja o de serem imprevisíveis. Também há acenos para obras como Chinatown, Boogie Nights e Los Angeles – Cidade proibida, com um talento inegável de Black em mesclar tons de investigação e violência com bom humor e até o envolvimento de adolescentes em meio a um cenário mais soturno, com uma atmosfera bem captada pela cinematografia do francês Philippe Rousselot, o que já se constatava no ótimo Beijos e tiros, e o figurino alegre e que se corresponde com uma espécie de atmosfera de disco music. Black desenvolve alguns diálogos saborosos, lembrando um pouco o comportamento de Dirty Harry em seu filme de estreia, mesmo que o tom geral soe despretensioso. Por exemplo, a presença da filha de Holland, Holly – metade do nome de Hollywood –, ajuda não apenas a estabelecer uma ligação com os jovens, como a tornar mais humana a amizade entre seu pai e o detetive feito por Crowe, principalmente porque este age de determinada maneira num momento-chave, denunciando um certo vício de profissão.

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O grande momento para esses personagens é realmente o da festa numa das colinas de Los Angeles, na qual se mesclam referências a Vício inerente, de Anderson, e Cidade dos sonhos, de Lynch, sob uma ótica decisivamente original, com a brincadeira de Holland numa piscina com moças que desempenham o papel de sereias. É o ano de Os embalos de sábado à noite, e Hollywood, como a perseguição desses detetives, está em transformação. Mas Black não reitera a violência que poderia haver num filme policial situado nos anos 70, preferindo equilibrar tudo com doses maciças de humor e ironia. Não se trata exatamente de uma sátira, e sim de uma mescla inteligente entre gêneros que poucas vezes funciona como aqui. Como Beijos e tiros, ele se passa quase totalmente à noite, e seus poucos indícios de luz remetem a uma nova cultura surgindo de dentro da cidade. Como pano de fundo, assim como em outras obras suas, está o próprio cinema, e Black brinca com a metalinguagem de maneira inteligente, de modo que não soe forçada dentro do contexto em que os personagens se inserem. Realmente é uma grata surpresa esta comédia e apenas se lamenta que seu orçamento (50 milhões de dólares) tenha retornado até agora em pouca bilheteria (57), talvez invalidando uma possível e merecida franquia com esses personagens. Dois caras legais é um filme que apenas superficialmente parece comum. Por baixo de sua estética, lembra o que há de melhor no cinema norte-americano de diversão.

The nice guys, EUA, 2016 Diretor: Shane Black Elenco: Russell Crowe, Ryan Gosling, Angourie Rice, Matt Bomer, Margaret Qualley, Kim Basinger, Murielle Telio Roteiro: Anthony Bagarozzi, Shane Black Fotografia: Philippe Rousselot Trilha Sonora: David Buckley, John Ottman Produção: Joel Silver Duração: 116 min. Distribuidora: Diamond Films Estúdio: Misty Mountains / Silver Pictures / Waypoint Entertainment

Cotação 4 estrelas e meia

 

Batman (1989)

Por André Dick

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Determinados filmes conseguem, por um motivo às vezes também secundário ao cinema, marcar uma determinada época. Em 1989, o trailer de Batman, de Tim Burton, tinha uma presença destacada em salas de cinema. A diferença do mês de estreia nos Estados Unidos para o do Brasil ainda era considerável (nos Estados Unidos, a estreia se deu em junho, aqui em outubro), auxiliando num dos mais bem feitos trabalhos de marketing da história. A expectativa se dava não apenas em razão dos fatores de produção e da presença de Jack Nicholson no elenco, mas por se tratar do primeiro grande filme de Tim Burton, que havia assinado um ano antes a comédia Os fantasmas se divertem e tinha estreado em 1985 com As grandes aventuras de Pee-wee, com um personagem mais familiar para os norte-americanos. E pelo menos desde 1978, de Richard Dooner, não era feito um filme baseado em herói dos quadrinhos tão esperado. Precedido ainda por críticas elogiosas da imprensa estrangeira, a estreia de Batman se deu num ambiente receptivo – e a questão seria se sua qualidade corresponderia ao marketing.
A primeira surpresa de Batman é que se tratava de um trabalho autoral: do início ao fim, estamos diante de uma obra de Tim Burton. E, no que também inspirou a série Batman assinada por Cristopher Nolan, o trabalho de Burton era baseado na adaptação do herói feita por Frank Miller, com um tom muito mais sombrio (embora no mesmo ano, 1989, tenha sido lançado a que me parece ser a peça em quadrinhos mais vital, Asilo Arkham, de Dave McKean e Grant Morrison). Este Batman possui elementos do dia a dia (gângsteres modernos que tentam movimentar o comércio de produtos químicos, em uma metrópole dominada pela criminalidade), mas o que predomina é a indefinição histórica – ou seja, não tem a concepção mais realista (em determinados termos) daquele de Nolan, o que é uma característica de Burton. Sua Gotham City tem um ambiente europeu entre o início do século XIX e o início do século XX: muita fumaça de fábricas, como na Revolução Industrial, e os ambientes enevoados, semelhante a um filme noir, preenchidos por um design que evoca não exatamente Blade Runner, ao qual foi comparado, mas o expressionismo alemão.

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Esta proximidade aumentaria, inclusive, na continuação de Batman, em que o vilão interpretado por Cristopher Walken se chamava Max Schreck, mesmo nome do antigo ator que fez Nosferatu, em 1922. Se o Batman de Nolan parece mais um policial moderno, o de Burton ainda lembra um detetive em meio a policiais de capote. A influência mais direta no visual de Batman é o trabalho de Hammett, feito também em 1982, por Wim Wenders, em que o escritor trabalhava como detetive e tentava descobrir uma quadrilha de mafiosos no bairro Chinatown. Nesse sentido, o diálogo entre figurinos e ambiente do filme de Burton, sintetizado na direção de arte (de Anton Furst) premiada com Oscar, com cenários montados no lendário estúdio Pinewood, estabelece uma atmosfera adequada para o desenvolvimento da narrativa. Combinado com uma trilha de Danny Elfman em seu início, ainda sem os maneirismos de sua trajetória, e os efeitos especiais de Derek Meddings (Superman e Duna), numa era ainda sem a tecnologia atual, mas com uma fusão orgânica em relação à narrativa, e temos um Batman certamente interessante.
A mitologia do herói criado por Bob Kane, que participou da construção do roteiro, também é mantida (daqui em diante, possíveis spoilers). Durante o dia, Bruce Wayne (Keaton) é um milionário, mas à noite enfrenta o crime de sua cidade, como Batman, sobretudo porque aconteceu um fato em sua infância que o conduziu a este caminho. O único a saber de sua dupla identidade é o mordomo de sua mansão, Alfred (Michael Gough). Já entre os gângsteres, Jack Napier (Nicholson) faz jogo duplo com seu chefe, Carl Grissom (o ótimo Jack Palance), obedecendo suas ordens, mas o traindo com sua esposa, Alicia (Jerry Haal). Para investigar as histórias de Batman, chega à cidade a jornalista Vicki Vale (Basinger), da Time, juntando-se ao repórter desajeitado, Knox (Wuhl), para extrair informações do comissário Gordon (Hingle), próximo a Harvey Dent (Billy Dee Williams). Enquanto o departamento de jornal de Gotham City se baseia novamente nesta concepção noir, não ficam para trás as reuniões da polícia e dos políticos: os ambientes suntuosos mesclam, ao mesmo tempo, um peso atmosférico, por trás de figurinos e maquiagens. Também não se deve esquecer que o primeiro encontro entre Wayne e Vicki Vale acontece num salão com armaduras medievais, cercado de espelhos: nesta sequência, filmada com grande talento por Burton, introduzindo cada diálogo de maneira ao mesmo tempo divertida e irônica, o personagem de Bruce Wayne revela sua dualidade e antecipa que o uso de armaduras não faz parte apenas de sua história, mas foge ao limite histórico.

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As coisas vão mudar em Gotham City. Durante um roubo à empresa de produtos químicos da cidade, Napier, depois de cair num tonel cheio de ácido, fica com o rosto deformado, com um sorriso permanente, voltando para acertar contas com seu chefe. Vicki conhece Bruce Wayne e se apaixona, e ele passa a enfrentar o maior rival, o Coringa, a nova personalidade de Napier. Então, acontece o choque: Batman criou o Coringa, e quem criou Batman? Este fio de narrativa administrado por Burton de maneira efetiva guarda mais do que estamos acostumados num filme de herói. Não existe apenas o duelo entre dois personagens, mas também a tentativa de entender a origem deles.
Outra característica de Burton é a maneira como lida com a dualidade dos personagens. Talvez Bruce Wayne seja o personagem melhor delineado por Burton ao lado de Ichabod Crane de A lenda do cavaleiro sem cabeça e de Ed Wood no filme homônimo, ambos protagonizados por Johnny Depp. E isto se dá com o auxílio direto de Michael Keaton, ator que não compromete depois da pressão dos fãs, que não o queriam no papel, mas no ano anterior havia feito não apenas Os fantasmas se divertem, com Burton, mas o dramático Marcas de um passado (e neste ano, depois de sua excelente participação em RoboCop, regressa com um filme que também brinca com sua atuação aqui, em Birdman). Keaton oferece uma discrição eficiente, ao mesmo tempo em que desenvolve bem seu traço familiar, perturbado por um acontecimento decisivo.
Por sua vez, o personagem do Coringa – e antes dele de Jack Napier – é solucionado de maneira adequada por Nicholson, com sua tendência a ser o primeiro artista homicida do mundo, apesar do exagero, perfilando-se ao lado daquelas que o ator emprega em Um estranho no ninho e O iluminado, e hoje infelizmente, algumas vezes, menosprezada em relação à de Heath Ledger. Suas atitudes colaboram na condução do personagem e sua entrada num restaurante com seu grupo transformando as obras de artes expostas nele num rascunho para Duchamp, e a solução de preservar uma obra de Francis Bacon, com a música de Prince ao fundo, parece uma síntese de um certo cinema dos anos 80 e a passagem para os anos 90, em que o colorido é borrado ou ganha um tom mais soturno. Apesar de o Coringa ser certamente perigoso, Burton concede uma veia mais cômica a ele, fazendo com que seu comportamento assustador seja atenuado em favor de uma visão mais voltada à série antiga de TV, não tanto aos quadrinhos, embora Nicholson realmente traga sua carga para o papel. E, mesmo que o Superman de Donner tenha desencadeado o universo de adaptação de super-heróis para o cinema, Batman é, sem dúvida, a confirmação de que se pode fazer um filme neste campo com um peso autoral, e, sem negar a influência dos quadrinhos, fazer referência ao próprio cinema: é a principal influência de, por exemplo, Dick Tracy, dirigido por Warren Beatty no ano seguinte, com suas homenagens aos filmes de máfia e musicais dos anos 40 e 50, com cenários equivalentes aos dos quadrinhos.

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A necessidade de diálogo entre os personagens e o cenário ganha o ponto máximo na sequência da catedral de Gotham City, uma construção gótica e que destaca, por seu abandono, o principal: a cidade desses personagens não tem nenhuma espécie de religião. Com seu habitual talento para imagens, Burton faz discretamente um filme em que os temas são suscitados por cenários. Temos um senso de design onipresente ao longo do Batman de Burton e não se anuncia nenhum elemento deslocado, mesmo em cenários que nos anos 80 talvez pudessem ser menos elaborados, como o da caverna em que ele guarda suas criações e armas para o combate ao crime organizado. Este senso se encaixa de maneira equilibrada com o comportamento dos personagens: enquanto Bruce Wayne é mais afeito ao cálculo e ao comedimento, mas também avesso ao tamanho de sua mansão, Jack Napier e sua porção extravasada, o Coringa, se comporta como um anunciante de produtos e mesmo de dinheiro jogado aos ares de Gotham City. Além do seu interesse por fotografias e obras plásticas, ele tem outro: recorta fotografias até que preencham o piso do chão. Em Burton, o Coringa é a própria infância (desvirtuada) que Bruce Wayne não teve. Mas o próprio Batman não deixa de ser, para o Coringa, uma personificação da infância: “Onde ele consegue esses brinquedos?”, pergunta o Coringa em determinado momento. Há uma provocação neste comportamento de cada um que não foge a Burton, com seu olhar atento para detalhes que poderiam escapar de um cineasta comum.
De algum modo, o duelo estabelecido (também nas atuações) entre Keaton e Nicholson, ao mesmo tempo, beneficia o elenco. A descompromissada Basinger está bem – no melhor momento da sua trajetória, junto com Los Angeles – Cidade Proibida –, e Wuhl tem uma participação divertida como Knox. Mesmo Jack Palance, com o pouco tempo em cena, é marcante (dois anos antes de receber um Oscar de ator coadjuvante por um caubói em Amigos, sempre amigos), além de Michael Gough (em papel que seria na nova franquia de Michael Caine). Trata-se de uma qualidade de Tim Burton, que ele tem em comum exatamente com Donner, do primeiro Superman: seus filmes, apesar de contarem com grande orçamento, valorizam não apenas as ideias, como as atuações, e tudo acaba soando como um conjunto estabelecido. E não se tem dúvida de que, assim como muitos, Nolan sentou-se muitas vezes em frente a este Batman de Burton para imaginar como seria o seu, principalmente o ótimo Batman begins. Apesar de um tanto esquecido em relação à trilogia mais recente, o filme de Burton continua a figurar entre as maiores adaptações de quadrinhos já feitas, um verdadeiro feito diante das expectativas que se tinha em relação a ele.

Batman, EUA/Reino Unido, 1989 Diretor: Tim Burton Elenco: Jack Nicholson, Michael Keaton, Kim Basinger, Pat Hingle, Billy Dee Williams, Jack Palance, Robert Wuhl, Michael Gough, Lee Wallace, Tracey Walter, Wayne Michaels, Bruce McGuire, Del Baker, Philip O’Brien, Rocky Taylor, Vincent Wong, Steve Plytas, Liz Ross, John Sterland Roteiro: Sam Hamm, Warren Skaaren Fotografia: Roger Pratt Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Peter Guber, Jon Peters Duração: 126 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Warner Bros. / The Guber-Peters Company / Polygram Filmed Entertainment

Cotação 5 estrelas