JFK – A pergunta que não quer calar (1991)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Trágica e complexa são palavras que podem definir a morte de John Fitzgerald Kennedy, presidente norte-americano assassinado em 22 de novembro de 1963, no estado do Texas, em Dallas, durante um desfile pelas ruas da cidade. Baseado neste episódio da história americana e em duas obras, Crossfire: The Plot That Killed Kennedy, de Jim Marrs, e On the Trail of the Assassins, de Jim Garrison, com uma montagem que mistura cenas documentadas com outras fictícias, Stone constrói uma teia de personagens ligados a políticas e ideologias e consegue transformar uma rede de imagens em algo ressonante. E o principal: cineasta polêmico, vindo de dois filmes sobre a Guerra do Vietnã (Platoon e Nascido em 4 de julho), ele fornece uma ousadia tão grande que o filme provocou discussões e reclamações reais – igual a A hora mais escura, de Bigelow, que tem elementos dele, e a Todos os homens do presidente, seu precursor mais imediato, no qual Robert Redford e Dustin Hoffman interpretam dois jornalistas tentando desvendar o Watergate envolvendo Nixon.

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Para Jim Garrison (Kevin Costner) e, consequentemente, Stone, quem matou Kennedy foi uma conspiração formada por cubanos anti-Castro, a CIA, a máfia e até o próprio governo, e não o atirador Lee Oswald (no filme, interpretado por um impressionantemente parecido Gary Oldman). Este, depois do assassinato, logo foi preso, num cinema, e se costurou sua história de ligação com a KGB como uma explicação para o que teria acontecido com o presidente. Após um interrogatório feito pela polícia (nunca encontrado), foi morto por Jack Ruby (Brian Doyle-Murray), ligado à máfia, que também não conseguiu se manter vivo.
Oliver Stone coloca a pergunta: por que se desejar encobrir o assassinato de Kennedy, visto como a ação solitária de Lee Oswald? Para isso, tenta desvendar aquilo que ficou encoberto no acontecimento em Dallas, Texas. Num lugar associado à mitologia do velho oeste, o presidente sofreu a emboscada de um inimigo oculto, quando não teve chance de defesa. Mas Stone também está tratando daquele que é considerado como o país que tenta sempre estar à frente de qualquer questão política ou de guerras. No período em que Kennedy estava à frente do cenário político, havia conspirações de toda ordem para que os Estados Unidos organizassem a situação no Vietnã e se contrapusessem à União Soviética. Havia motivos para que se quisesse, segundo Stone e os livros nos quais ele se baseia, a eliminação de JFK, quando ele teria deixado de agir com a firmeza esperada diante desses fatores – e não apenas se restringem a uma ação de Oswald.

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Promotor público de New Orleans, Garrison é casado com Liz (Sissy Spacek ) e, sempre com um cachimbo, nos moldes de um Sherlock Holmes, tenta provar justamente isso desde o acontecimento, interrogando David Ferrie (Joe Pesci), o qual prende em determinado momento. Garrison parece desistir da investigação. Em 1966, conversa, numa viagem de avião, com o senador Long (Walter Matthau), que o leva a conhecer em detalhes o Relatório Warren e procurar outras provas, interrogando também Jack Martin (Jack Lemmon), agredido por ser visto como aliado dos cubanos; Willie O’Keefe (Kevin Bacon), que tinha relacionamento com Ferrie; um advogado (John Candy) chamado para defender Oswald; e Clay Shaw (Tommy Lee Jones), empresário que tinha contato com os cubanos e havia trabalhado na CIA. Tem como apoio dois assistentes, Bill Broussard (Michael Rooker) e Lou Ivon (Jay O. Sanders).
A primeira parte possui uma narrativa mais tensa e ágil, com Garrison, à procura de provas, visitando o local de onde, supostamente, Lee Oswald teria atirado no presidente, e segue indo atrás de todas as testemunhas possíveis, que presenciaram os tiros de perto e se pergunta: “De onde eles vieram?”. Na segunda parte, envolvido pelo caso, o promotor acaba se afastando da família, assim como se encontra com o misterioso Coronel X (Donald Sutherland), que traz as maiores teorias conspiratórias, envolvendo a Máfia, a CIA e o FBI. Além disso, afirma que Kennedy queria tirar as tropas norte-americanas do Vietnã e de que havia lido, na Nova Zelândia, a notícia de que Oswald havia matado o presidente norte-americano sem haver tempo suficiente para a impressão do jornal.

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Há, claro, uma dose de exagero de Stone, querendo ver Kennedy como uma espécie de político que gostaria de ter conduzido os Estados Unidos a um acordo com a União Soviética – e não à toa até J. Edgar Hoover aparece no meio da história como contrário a ele –, ou seja, gostaria de ter interrompido a Guerra Fria, assim como impedir a Guerra do Vietnã, o que faria com que o governo não investisse bilhões em armas, helicópteros e outros equipamentos. São questões dificilmente comprováveis, elucubrações de Oliver Stone, algumas tão verdadeiras quanto as viagens de Jim Morrison em The Doors, que ele dirigiu no mesmo ano.
Stone não é um cineasta de sutilezas, e ele funciona melhor assim, como em seus subestimados Um domingo qualquer e Reviravolta. Nisso, Garrison é visto como um modelo combativo de família, pretendendo reconstruir a imagem de Kennedy, destacando uma seleção de homens que escondiam por trás apenas ameaças, e quando os acordes de John Williams soam é como se a perfeição entrasse em cena. Seu comportamento diante da esposa é um tanto idealista – proporciona os diálogos mais inconsistentes do filme – e com os filhos, mas se trata, na verdade, de dar acesso ao espectador a uma trama ao mesmo tempo histórica e sobre a construção familiar. Se a narrativa reúne apenas teorias, ele o faz da maneira mais interessante já vista no gênero, tornando a investigação num thriller policial certamente precursor de Zodíaco. Nesse sentido, torna-se mais difícil negar o fascínio de JFK como cinema, e não aula de história. Dentro dos seus exageros, Stone é de fato um cineasta. Além disso, toca na ferida: a falta de explicação permite a qualquer um imaginar o que pode ter acontecido e, quando um indivíduo toca um sistema inteiro, é bem plausível acreditar que o óbvio não parece ser tão óbvio.

A narrativa é densa, com fotografia escura e os diálogos, extremamente rápidos. A maneira como Stone conta a história, com pistas acertadas, outras falsas, interrogatórios longos ou curtos e uma atmosfera constante de pressão (quando Ferrie tenta pedir auxílio policial para se proteger ou quando Garrison vai a um programa de TV e não pode mostrar as fotos que possui do caso), é extraordinária. Poucas vezes viu-se uma obra tão bem editada (por Pietro Scalia e Joe Hutshing) e fotografada (por Robert Richardson), inclusive mostrando o assassinato de Kennedy (por meio das imagens reveladoras de Abraham Zapruder) nos minutos finais, com uma profusão de detalhes inigualável em filmes desse gênero. Vencedor dos Oscars de melhor fotografia e montagem, tendo concorrido também a melhor filme, direção, ator coadjuvante (Jones), roteiro adaptado, trilha sonora e som, JFK é uma obra-prima.

JFK, EUA, 1991 Diretor: Oliver Stone Elenco: Kevin Costner, Jack Lemmon, Vincent D’Onofrio, Gary Oldman, Sissy Spacek, Michael Rooker, Laurie Metcalf, Gary Grubbs, Beata Pozniak, Joe Pesci, Walter Matthau, Tommy Lee Jones, John Candy, Kevin Bacon, Donald Sutherland Roteiro: Oliver Stone, Zachary Sklar Fotografia: Robert Richardson Trilha Sonora: John Williams Produção: A. Kitman Ho, Oliver Stone Duração: 205 min. Ano: 1991 Estúdio:  Canal+/Regency Enterprises/Alcor Films Distribuidora: Warner Bros. Pictures

A grande jogada (2017)

Por André Dick

Esta estreia na direção de Aaron Sorkin, mais conhecido por seu trabalho como roteirista, reúne suas qualidades já percebidas em Questão de honra, O homem que mudou o jogo e A rede social. Em comum, nesses filmes há um trabalho de encadeamento de diálogos muito apurado, nunca deixando de definir o perfil dos personagens. Aqui ele conta a história, baseada em fatos reais, de Molly Bloom (Jessica Chastain), que esteve à frente de muitos jogos de pôquer em Los Angeles e Nova York, até cair na rede do FBI e precisar ser defendida pelo conhecido advogado Charlie Jaffey (Idris Elba). O roteiro é feito a partir da própria autobiografia de Molly, com um título bastante sugestivo: Molly’s Game: From Hollywood’s elite to Wall Street’s billionaire boys club, my high-stakes adventure in the world of underground poker.

Como o último trabalho de Sorkin havia sido o falho e irregular Steve Jobs, esta estreia em A grande jogada vinha com uma série de dúvidas. No entanto, a maneira como ele apresenta Molly, em que ela faz amizade primeiro com um ator, ou melhor, X (Michael Cera), uma mistura, por informações que acompanham o filme, de Ben Affleck, Tobey Maguire e Leonardo DiCaprio, e depois com Douglas Downey (Chris O’Dowd), que a apresenta a integrantes da máfia russa, é notável pela sequência magnetizante de diálogos e narração em off de Molly, contando sua história. Não há intervalos em A grande jogada, o que poderia soar cansativo, mas nunca ingressa nesse caminho, e sem gostar de jogos muitas vezes me perguntei o que este filme tem de diferente. Na base, ele é uma cinebiografia com elementos até previsíveis, mas a maneira com que foi filmada e a atuação de Jessica Chastain, recuperando-se do overacting de Armas na mesa, no qual tentava exagerar uma frieza, são exemplos de como transformar um filme que poderia ser apenas comum em algo atrativo.

A relação entre Molly e seu pai Larry (Kevin Costner, discreto e eficiente), é o pano de fundo da narrativa, porém é o advogado feito por Elba que traz alguns momentos de intensa dramaticidade, mesmo sendo, no fim das contas, subaproveitado. Não conhecemos muito bem a personagem central como uma personalidade, mesmo com os flashbacks de quando era mais jovem e esportista treinada pelo pai, e sim como a figura inserida numa situação complexa e que determinou sua vida em certo ponto.
Como em Questão de honra, Sorkin apresenta uma atração pelo universo dos advogados e do tribunal, embora as cenas passadas nele não se estendam, sendo mais trabalhados os bastidores, com as tentativas de Charlie em lidar com os advogados que tentam entrar em acordo com sua cliente. E como no ótimo e às vezes esquecido O homem que mudou o jogo há um verdadeiro jogo entre o que pode ser ganho caso se invista em determinadas jogadas – quando no filme de Miller tudo se fazia em torno de compra e venda de jogadores para a construção de uma equipe competitiva. A atração pelo jogo, contudo, era intrínseca, embora no filme com Brad Pitt mais voltada a uma questão histórica, para os personagens e para a equipe.
No entanto, há a presença de mais humor, sobretudo pela figura de Douglas Downey, graças à atuação calibrada do sempre subestimado O’Dowd (o policial de Missão madrinha de casamento) e, quando a violência de uma determinada situação surge para espantar a calmaria, parece que Sorkin recorre a truques bem colocados de suspense.

Apesar de aproximações feitas com A rede social, esta personagem é muito diferente do Zuckerberg daquele filme. Há um senso de realismo muito mais presente, assim como um sentimento de desamparo e solidão da personagem num universo em que ela se insere com gosto pela luxúria e sobrevivência. Sorkin visualiza esse universo longe da simetria informatizada e dividida em atos definidos de Boyle para seu roteiro de Steve Jobs (o qual já não era necessariamente interessante) e recorre a vários cenários para multiplicar essa visão de submundo repleto de ricos, em que transitam interesses pelo dinheiro e pela sexualidade dosados por uso de drogas, sem fixar essa visão.
Chastain transforma Molly numa personagem mais interessante do que transparece ao início, em que parecemos estar diante mais de uma mulher apenas ousada em se envolver com o universo do pôquer – quando há camadas mais psicológicas. Ela encarna uma mulher a princípio determinada, mas depois bastante volúvel, difícil de ser definida. É difícil haver um filme com tantos flashbacks que parece acontecer no mesmo tempo, de maneira linear. Em nenhum momento, Sorkin confunde o espectador com artifícios que fujam ao roteiro ou tenta ser hermético por meio da montagem. Com temas que perfazem um grande panorama, a partir basicamente de apostas, literalmente, A grande jogada se faz marcante.

Molly’s game, EUA, 2017 Diretor: Aaron Sorkin Elenco: Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner, Michael Cera, Jeremy Strong, Chris O’Dowd, Bill Camp Roteiro: Aaron Sorkin Fotografia: Charlotte Bruus Christensen Trilha Sonora: Daniel Pemberton Produção: Mark Gordon, Amy Pascal, Matt Jackson Duração: 140 min. Estúdio: The Mark Gordon Company, Pascal Pictures, Ciwen Pictures, Huayi Brothers Pictures Distribuidora: STXfilms

Estrelas além do tempo (2016)

Por André Dick

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Em Estrelas além do tempo, o diretor Thedore Melfi utiliza as mesmas características já apresentadas em seu filme anterior, Um santo vizinho: uma história inspiradora com elenco em grande momento. Se nesse Melfi mostrava Bill Murray como um senhor de idade em transformação ao conhecer uma criança que muda sua vida, na nova obra os personagens estão também a um passo da mudança que pode ocasionar um impacto, principalmente na época enfocada. Ambientado em 1962, quando a segregação racial estava vigente nos Estados Unidos, o roteiro de Melfi com Allison Schroeder, adaptado de um romance de Margot Lee Shetterly, mostra um trio feminino à frente seu tempo. Katherine Johnson (Taraji P. Henson) trabalha numa equipe de mulheres negras na Nasa, ao lado de Mary Jackson (Janelle Monáe), que pretende ser engenheira, e Dorothy Vaughan (Octavia Spencer), que supervisiona essa equipe. Porém, elas trabalham num departamento à parte, onde não há os mesmos direitos dos demais.

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Para enfrentar o sucesso dos russos na ida para o espaço, Al Harrison (Kevin Costner, lembrando o Jim Garrison de JFK), diretor do Space Task Group, precisa providenciar a ida de um norte-americano às estrelas. Katherine passa a fazer parte de sua equipe para obter cálculos exatos para a programação de viagens, mas precisa se remeter ao engenheiro principal Paul Stafford (Jim Parsons). Extremamente perspicaz com os cálculos, ela logo se torna uma referência em seu departamento, mesmo que precise se deslocar, de forma inconveniente, todos os dias, do prédio onde está trabalhando, por motivo de segregação e sem dizer aos colegas.
As suas amigas também tentam seguir seus caminhos, como Dorothy, que tenta uma promoção, mas é barrada sempre por Vivian Mitchell (Kirsten Dunst),  e está preocupada com a chegada de computadores da IBM numa sala próxima da sua. Já Mary Jackson tenta entrar em aulas de engenharia, destinadas apenas aos homens brancos. Em meio à rotina, surge a figura do coronel Jim (Mahershala Ali), que, infelizmente, não é tão aproveitado quanto sugere a boa interpretação do seu ator.

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Com uma ótima direção de arte e música de notas comoventes de Hans Zimmer, Pharrell Williams (um dos produtores) e Benjamin Wallfisch, além da bela fotografia de Mandy Walker, constituindo de fato uma atmosfera que insere a narrativa nos anos 60, Estrelas além do tempo traz à discussão tanto os sonhos quanto o racismo do período enfocado. Se ele não desenvolve totalmente alguns personagens – mesmo a relação do trio se dilui um pouco, quando não vemos uma compartilhar sua realização pessoal com a outra, extraindo parte de sua dramaticidade –, este filme desenha bem a tentativa de ser lembrado e pertencer à história. Com alguns momentos que lembram Os eleitos, de Kaufman, por evocar a mesma situação, na figura de John Glenn (Glen Powell, numa bela participação), Melfi não chega a armar conflitos intensos entre os personagens; tudo transcorre de maneira calma e bem feita.
Em certos momentos, ele evoca, igualmente, Histórias cruzadas, ao tratar de um tema delicado de forma bem-humorada e com cenas de apelo direto (talvez, sob certo ponto de vista, forçadas), sobretudo aquelas protagonizadas por Costner. Pode-se imaginar por que Melfi, afinal, não utilizou tais personagens para de fato tratar os temas de forma espinhosa: não era seu objetivo, e nem por isso o material que tem em mãos diminui. Ele não se concentra no problema do racismo em si e sim em como reagir a ele, de forma contundente e individual. O melhor momento, nesse sentido, é aquele em que Katherine se dirige de maneira oportuna a seus colegas de trabalho; é o melhor momento da atuação de Henson.

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No elenco, a atuação de Henson é bela nos momentos certos, e Spencer é competente como é de forma habitual, num papel à altura que teve em Histórias cruzadas, pelo qual recebeu o Oscar de atriz coadjuvante, mas é Monáe (de Moonlight) que se destaca nas cenas em que interagem, assim como Dunst entrega uma personagem que poderia ser maquiavélica em uma interpretação discreta, tal como Parsons, embora este numa figura pouco desenvolvida, sem aproveitar o seu potencial, já revelado antes no drama The normal heart. Não se entende como seu personagem não possui, ao longo de toda a narrativa, uma conversa substancial. Ali, por sua vez, é um destaque como em Moonlight: sua calma ressoa em todas as cenas em que aparece. Todos eles fazem de Estrelas além do tempo um filme interessante sobre como a corrida espacial pôde inspirar figuras diferentes a seguirem suas aspirações. Alguns dirão que este filme tende a glorificar ainda mais o destaque aos astronautas, o que se trata de um pensamento tendencioso: sob esse ponto de vista, seriam apenas destacáveis aqueles que surgem, nesta história, sob holofotes. Ou seja, o preconceito passa a ser justamente em relação às figuras que fazem um trabalho que não se torna conhecido pela maioria das pessoas, mas tampouco deixa de ser essencial para a chegada do homem às estrelas. Sob esse ponto de vista, o preconceito passa a existir de modo enviesado, igualmente sem justificativa. E não é disso que obviamente Estrelas além do tempo trata.

Hidden figures, EUA, 2016 Diretor: Theodore Melfi Elenco: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Jim Parsons, Mahershala Ali, Kirsten Dunst Roteiro: Allison Schroeder, Margot Lee Shetterly, Theodore Melfi Fotografia: Mandy Walker Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch, Hans Zimmer, Pharrell Williams Produção: Donna Gigliotti, Jenno Topping, Peter Chernin, Pharrell Williams, Theodore Melfi Duração: 127 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Chernin Entertainment / Fox 2000 Pictures / Levantine Films

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Os intocáveis (1987)

Por André Dick

Os intocáveis 8É difícil não gostar de Os intocáveis, com seu ambiente situado nos anos 30, mesclando diversos gêneros: policial, aventura, suspense, drama e alguns momentos de violência. Desde o início de sua carreira, De Palma se notabilizou por sua influência do mestre Alfred Hitchcock, o que fica claro em filmes como Carrie, a estranha e, sobretudo, Um tiro na noite, Vestida para matar e Dublê de corpo. No entanto, ele parece ter encontrado a maneira certa de incorporar essas referências neste último policial verdadeiramente clássico (depois dele, apenas Los Angeles – Cidade proibida talvez rivalize com ele), com uma atmosfera ao mesmo tempo contemporânea, muito em razão da fotografia de Stephen H. Burum. Trata-se, a princípio, de uma colagem de referências – mas uma colagem que nos remete a vários tempos do cinema, sem nenhum artificalismo ou vontade de fazer simples metalinguagem. Quatro anos antes, De Palma havia refilmado Scarface, de Howard Hawks, com Al Pacino, e aqui, ele reproduz boa parte do clima dos anos 30 com méritos subversivos ainda mais refinados do que em sua adaptação de um dos símbolos da máfia. O filme tem características diferentes do seriado em que se baseou, no qual Robert Stack era Eliot Ness (aqui interpretado por Kevin Costner). Passa-se em Chicago, na época da Lei Seca, quando se proibia qualquer venda de bebidas, e Al Capone (De Niro, ótimo mesmo em papel secundário) governava o crime (daqui em diante, spoilers). O detetive Ness entra em ação convocando policiais novos e veteranos: o jovem George Stone (Andy Garcia, antecipando a grande atuação de sua carreira, em O poderoso chefão III), na verdade Giuseppe Petri, o veterano Jim Malone (Connery, em atuação que lhe valeu o Oscar de coadjuvante) e um agente do FBI, Oscar Wallace (Charles Martin Smith, convincente), dedicado à contabilidade.

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Eles se autodenominam “os intocáveis” e começam a lutar contra Capone e seus homens, encurralando-os nas entregas de bebidas em lugares determinados. A maneira como Ness parte do fracasso ao combate contra Capone – numa das batidas, ele é enganado por uma informação falsa, descobrindo um carregamento de sombrinhas – e encontra Malone, fazendo uma ronda noturna, torna-se memorável, junto com o instinto de selecionar este policial experiente para apoiá-lo. Justamente Malone propõe um combate mais endurecido e ajuda a selecionar Stone, de origem italiana, enquanto Ness entrega uma arma ao assustado Wallace. De Palma utiliza bem o elenco e faz menções a clássicos como O encouraçado Potemkin (o tiroteio nas escadarias), além de nunca se perceber se ele não está sempre refazendo cenas de filmes antigos, como o tiroteio em cima do prédio. A música de Ennio Morricone possui um tom eletrizante (como no letreiro inicial, em que o título vai formando uma espécie de cidade com edifícios e suas sombras), remetendo tanto às suas colaborações com faroestes quanto com Era uma vez na América (com seu parceiro Sergio Leone), o figurino, bem cuidado, e a direção de arte, muito fiel – em todas essas categorias, Os intocáveis foi indicado ao Oscar.
Em algumas cenas, De Palma incorpora tanto Hitchcock quanto Dublê de corpo. Lembremos que neste filme, também dos anos 80, um ator de filmes B que sofre de claustrofobia (o eficiente Craig Wasson) se envolve num jogo de sedução quando testemunha os stripteases de uma vizinha de condomínio, olhando-a pela luneta de casa (clara referência a Janela indiscreta), começando a segui-la – a stripper é Debora Shelton, ex-miss dos Estados Unidos. Não se entende muito bem por que ela tem envolvimento com um amigo de Wasson, mas é certo que o filme diverte, com seu clima de sedução e estranheza, ajudado ainda por Melanie Griffith. O filme, como outros de De Palma, quer ver a ambiguidade dos personagens, e sua principal qualidade, além desta, é saber realizar movimentos de câmera que não fiquem exagerados. Em Os intocáveis, em toda a sequência na qual Malone parece ser perseguido por um mafioso dentro de seu apartamento e depois se vira com a arma, surpreendendo-o, para expulsá-lo pela porta, traz esse clima que vemos em Dublê de corpo.

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Desse modo, a câmera de De Palma, não raramente em travelling, quer mostrar ambientes caracterizados pela tensão: é assim no início, quando acompanhamos um homem levantando o jornal e o café até Al Capone. Um filme que revive os antigos tempos e em meio a esse cuidado de fotográfico, Os intocáveis não se nega a lançar alguns lugares-comuns, como as ameaças à família de Ness assim que Capone passa a persegui-lo (fazendo com que ele tente escondê-la longe da cidade), e a corrida dos intocáveis por uma rua noturna, armados e conversando ao mesmo tempo, que antecipa uma das muitas influências que recebe do western (que irrompe na cena da polícia montada canadense, ao mesmo tempo em que os personagens estão à espera de um carregamento ilegal de bebidas numa cabana). É claro que se pretende falar da ética policial em muitos momentos e do quanto o crime corrompe – Capone representa isso, assim como o homem que ele coloca para perseguir os intocáveis, Frank Nitti (Billy Drago), e um policial que se ressente da fama inesperada de Malone. Mas é Nitti que aparece no filme como uma espécie de ameaça invisível, apoiado pela lei e pela política, ao lado de Capone, num terno branco alinhado de forma impecável. E Capone, em razão da atuação meticulosa de De Niro, é uma mistura de gentleman com serial killer, dividido entre quartos de hotel caríssimos, óperas e reuniões com taco de beisebol, avesso a risadas enquanto discursa. Este vilão consegue se contrapor a Ness de maneira que se torna um dos motes para o interesse de Os intocáveis, assim como se mostra oposto a Malone e sua dedicação contra o crime.

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Os intocáveis 12Esta movimentação entre mocinhos e vilões chega ao cuidado fotográfico. Em muitos momentos, a câmera foca Capone de cima, quando ele está se barbeando. Em outros, o mostra de baixo para cima, e vice-versa, como na cena da reunião com os comparsas num salão luxuoso. Há também a sequência em que Ness e Capone se enfrentam numa escadaria de hotel: Ness o observa de baixo para cima. Outra é aquela em que George segura o carrinho de nenê empunhando a arma de baixo para cima contra o comparsa de Capone. Mais ainda: Ness aponta a arma para Frank Nitti, quando está no parapeito de um prédio e, finalmente, depois aponta a arma novamente para Nitti quando este se encontra pendurado numa corda tentando descer do prédio. Em outro momento, Malone sai pela porta de seu apartamento e vê Nitti com sua metralhadora, à distância, no andar de cima. Nessa composição fotográfica, De Palma lida não apenas a situação daqueles personagens em determinado momento, mas um jogo de poder, de perseguidor e perseguido – mas não exatamente de vencedor ou perdedor. Além disso, o roteiro de David Mamet (diretor de Jogo de emoções e As coisas mudam), dramaturgo de origem, é inteligente, trabalhando todos os elementos de maneira equilibrada – diante de filmes atuais, chega a ser um tanto incômodo saber que esse roteiro teve tantas críticas, apontando-o como superficial. A meu ver, Os intocáveis, o que não é pouco, é o grande filme de Brian De Palma, como elenco, direção e parte técnica perfeitos. Ele anteciparia outras obras dele normalmente desconsideradas pela crítica, como Pecados de guerra, A fogueira das vaidades e Síndrome de Caim, mas com qualidade, e mantém-se como exemplo de filme que, capaz de mesclar diversos gêneros, se torna único a ponto de ser uma obra-prima.

The untouchables, EUA, 1987 Diretor: Brian De Palma Elenco: Kevin Costner, Sean Connery, Charles Martin Smith, Andy Garcia, Robert De Niro, Richard Bradford, Billy Drago Roteiro: Oscar Fraley, Eliot Ness, David Mamet Fotografia: Stephen H. Burum Trilha Sonora: Ennio Morricone  Produção: Art Linson Duração: 119 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures

Cotação 5 estrelas

O homem de aço (2013)

Por André Dick

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A desilusão com o Superman de Bryan Singer em 2006 foi tão grande que a franquia acabou sendo deixada de lado pela Warner, até se encontrar uma possibilidade de retomá-la (imagina-se se teria sido melhor a versão planejada por Tim Burton, com Nicolas Cage, antes daquela de Singer). O grande problema parecia ser a comparação com a primeira série, cujos dois episódios, de Richard Donner e Richard Lester, eram referenciais para os filmes de super-heróis feitos a partir de então. Mas também porque Singer não conseguiu delinear um Superman para o público, preferindo situá-lo apenas como um indivíduo em busca da explicação para sua existência. Se a parte técnica do filme era respeitável, o mesmo não se podia dizer de sua falta de ação, a ponto de se desconfiar se era um filme de super-herói. Além disso, Kevin Spacey destoava como Lex Luthor, pelo menos quando comparado a Gene Hackman, e tanto Brandon Routh (Superman) quanto Kate Bosworth (Lois Lane) tinham dificuldade em trabalhar o roteiro. No início desta década, a Warner decidiu retomar a franquia, apagando o nome Superman e intitulando O homem de aço, desta vez a cargo de outro diretor, com novos roteiristas e atores.
Se as lições no que diz respeito à ação foram aprendidas com a versão desanimada de Singer, e atores melhores foram colocados nos papéis principais, O homem de aço tenta contrabalançar toda sua expectativa com doses maciças de movimento, ao mesmo tempo com uma tentativa de humanizar o personagem que remete a filmes mais contidos.
A primeira impressão é a visual, e parece que a paleta de cores frias foi um risco – independente de os primeiros filmes serem dos anos 70 e 80, uma época considerada mais ingênua, e o atual existir em meio a acontecimentos deste século. O primeiro Superman teve a fotografia de Geoffrey Unsworth (2001), e este possui o trabalho de Amir Mokri, mais conhecido por parcerias com o diretor Michael Bay, tornando a textura de algumas imagens parecida com a dos filmes Transformers. Quando acerta, e cria uma amplitude especial para os cenários, destacam-se as cores cinza e azul, com um tempo quase sempre chuvoso, úmido, sobretudo quando mostra a infância de Superman, trazendo imagens que lembram A árvore da vida, mas que não chegam a contrastar com o restante, além de luzes em ambientes escuros.

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Com essa escolha, ainda temos o design do filme. Desta vez, Krypton é uma mistura entre os ambientes de Matrix e, sobretudo, de H. R. Giger (da série Alien), e ainda da Terra média, o que acaba prejudicando a desvinculação do filme dessas referências claras e tirando do filme seu impacto inicial, a não ser em imagens excepcionais na água (remetendo novamente a A árvore da vida). Não se trata, nesse caso, de reproduzir os dois primeiros filmes do Superman, mas dar um visual menos denso e derivado ao filme (as cores do Superman, afinal, também são icônicas para uma certa pop art). De qualquer modo, pode-se imaginar essa escolha para que se deixasse o filme parecido com um ambiente da Roma Antiga, inclusive nos cortes de cabelo e do figurino, e no fato de que, aqui, o herói surge como um Messias que pode ameaçar os rumos de um ditador.
O filme (alguns spoilers a partir daqui) inicia da mesma maneira que o original, de 1978, com Jor-El (Russell Crowe, lembrando Gladiador) e sua mulher Lara (Ayelet Zurer), colocando Karl-El num berço em formato de espaçonave, antes da destruição de Krypton, e o envio para o espaço do General Zod (Michael Shannon). À medida que o berço espacial cai na Terra, já se mostra o personagem, chamado Clark Kent, adulto, viajando pelo país, trabalhando nos lugares mais inóspitos, enquanto cada ação recorda um momento da infância, com seus pais, Jonathan Kent (Kevin Costner) e Martha (Diane Lane) – certamente, os atores mais humanos do elenco, ao lado daqueles que fazem Clark quando criança, Cooper Timberline e Dylan Sprayberry (ambos ótimos). Numa estação do Ártico, ele vai conhecer Lois Lane (Amy Adams). Embora Znyder conte com a excelente montagem de David Brenner – e ela torna orgânica essa transição do presente para o passado, inovando em relação às versões anteriores –, ele não estabelece uma ligação mais clara entre os personagens. Num primeiro momento, torna-se difícil entender por que a aproximação de Clark e Lois não acontece de modo mais lento, pois era este detalhe que tornava o espectador suficientemente próximo deles do filme de 1978 – depois, percebe-se que o objetivo era centralizar especificamente na ação.

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Para um filme de 143 minutos, no entanto, falta uma transição entre as passagens: tudo soa um tanto abrupto (imagina-se, certamente, uma pilha de material na sala de edição). Também não há proximidade na apresentação dos componentes do Daily Planet, como o chefe de Lois, Perry White (o competente Laurence Fishburne); parece que Snyder tinha receio de repetir a lentidão de Singer e tentasse acelerar mesmo o que acaba não sendo, de fato, mostrado. E torna-se difícil aceitar por que o personagem central simplesmente parece reduzir sua primeira participação ao fato de querer ajudar o exército dos Estados Unidos, com um tom triunfalista, que, se o uniforme não esconde, pelo menos na série universal era atenuado por humor (em determinado momento, o Coronel Nathan Hardy (Cristopher Meloni), depois de ver o herói destruir quase toda Smalville durante um combate, lamenta por não ter visto que ele na verdade é um amigo, não um inimigo).
Não é uma característica de Snyder, responsável pelo cansativo 300 e pelo visualmente interessante Sucker Punch, além de ter adaptado Watchmen, o humor, assim como não é um elemento que o roteirista David S. Goyer e o coargumentista Cristopher Nolan (responsável pela trilogia Batman), também produtores, têm em mente ao criarem seus filmes. Nolan, especialmente, costuma apresentar diálogos em muitos momentos expositivos – mas aqui, especialmente, se percebe a falta do seu irmão, que ajudou a fazer os roteiros da trilogia de Batman. Apenas nos momentos em que Jonathan e Clark Kent estão em cena, ele consegue traduzir uma espécie de humanidade do personagem de Clark, assim como em certa mitologia do ser perseguido por reunir em si a genética de seus descendentes. Há algumas escolhas estruturais que lembram especialmente Batman begins. O personagem de Clark Kent, não por acaso, viaja pelo país, sofrendo, assim como Bruce Wayne em Batman begins, e não por acaso a mocinha parece deslocada – nunca foi o forte de Nolan a concepção de um idealismo romântico. Do mesmo modo, enquanto o Batman realista de Nolan agia sempre com a polícia e o Inspetor Gordon, aqui o Superman parece integrar o exército mesmo antes de revelar todos os seus poderes. O tom contra a destruição de Gotham City era o mote em Batman; aqui o tom é contra a destruição da Terra, de aceitar que os humanos merecem sobreviver. Mas fica faltando o elemento humano: a Terra é ameaçada, mas parece que a população não se refere ao herói, criando um afastamento decisivo. Assim como Star Trek e outras produções recentes, há uma cota de referências ao 11 de setembro, lembrando em outras partes (não foi, diga-se, uma boa lembrança) Independence day e Godzilla, de Roland Emmerich, em algumas cenas-chave, e, em seus melhores momentos, Guerra dos mundos. O melhor, nesse diálogo entre filmes, é que há uma série de referências a Contatos imediatos do terceiro grau, como a origem do Superman escondida embaixo de uma montanha do Ártico, quando ele volta à noite para ver sua mãe e entra pela porta a fim de ver a TV (como a do menino de Contatos imediatos), a aproximação da nave de Zod em meio a árvores, um retrato de Clark quando menino ao lado do pai e de uma montanha como aquela em que as espaçonaves descem no filme de Spielberg para encontrar o personagem de Richard Dreyfuss.

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Nesta ação ininterrupta – e aqui o tratamento é exatamente de Snyder, já que Nolan não segue uma linha frenética –, a atuação de Henry Cavill é interessante, sobretudo porque tenta outro caminho que não o de Reeve (seguido por Brandon Routh, de Superman – O retorno), e se Amy Adams não recebeu alguns diálogos a mais para justificar a ligação com o herói mostra-se novamente boa atriz. Na verdade, os dois têm um vínculo mais claro do que o casal de Superman – O retorno, mas Snyder tira a sutileza que poderia haver na sua proximidade, tornando a faceta mais romântica deste filme quase ausente.
Por outro lado, existe, pela primeira vez, uma visão mais física dos poderes do herói, como o voo, assim como a ligação com os quatro elementos da natureza. Da água, passando pelo fogo, até a terra e o ar, sobretudo numa sequência-chave, considerada por alguns absurda, mas adequada ao contexto do filme, de que o herói, mais do que de aço, é uma composição da força da natureza, O homem de aço apresenta uma simbologia. Os efeitos especiais são extraordinários, ainda que a maneira como alguns deles são apresentados traga a lembrança de atos terroristas, assim como em Homem de ferro 3 (não em Star Trek, cuja abordagem é mais discreta): parece que dentro da fantasia se quer tornar o ambiente pesado, extraindo a energia necessária para o envolvimento decisivo entre os personagens e, quando o herói fala em esperança para um grupo de militares, temos a impressão que ele está falando também como presidente dos Estados Unidos, o que soa irremediavelmente deslocado.
Há, com essa temática de fundo realista (o terrorismo), a presença de referências religiosas, e Snyder não é exatamente sutil ao abordá-las. Superman em vários momentos é comparado à figura de Jesus Cristo, inclusive no momento em que ele está na água com os braços abertos e de barba, ou quando diz que pode curar Lois Lane de um determinado ferimento, ou quando vai até uma igreja e um vitral da figura de Jesus é visto ao fundo, projetando-se ao lado dele. Mas nada, nesse sentido, se compara ao fato de que algumas vezes é referida sua idade: 33 anos. Isso acaba trazendo uma analogia ostensiva, que parece ser encaixada para tentar oferecer uma certa profundidade temática ao personagem de Jerry Siegel e Joe Schuster. Ela consegue ser melhor encaixada quando se visualiza seu nascimento, com a perseguição em seguida de uma espécie de cúpula rebelde que pretende tomar Krypton como a Roma Antiga, e sua infância, quando, num momento aterrorizante, se vê como Clark foi descobrindo, aos poucos, seus poderes.
Por toda a expectativa que criou, embora O homem do aço fique afastado das possibilidades que apresentava, como filme de ação funciona e diverte (mesmo com suas lacunas de roteiro), e nunca é entendiante (como alguns momentos de Homem de ferro 3), mantendo a ação pelas idas e vindas do tempo, trazendo alguns acréscimos à mitologia do Superman (destaque-se a trilha sonora de Hans Zimmer). A questão é que depois de toda a grandiosidade buscada aqui torna-se complicado trazer a série para um movimento não apenas de blockbuster com ação frenética, mas como estudo de um personagem de quadrinhos que fascina desde sua criação. Parece que realmente, depois das experiências com Singer e Snyder, que Superman, ao contrário da série Batman, que teve Tim Burton à frente de uma franquia e Nolan à frente de outra, não tem conseguido diretores autorais, com, entre qualidades e defeitos, uma visão mais sensível. Quando está em movimento, O homem de aço impressiona, mas quando precisa lidar com os personagens o fato é que deixa o espectador nostálgico.

Man of steel, EUA, 2013 Direção: Zack Snyder Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Russell Crowe, Michael Shannon, Kevin Costner, Diane Lane, Antje Traue, Ayelet Zurer, Cristopher Meloni, Laurence Fishburne, Cooper Timberline, Dylan Sprayberry Produção: Charles Roven, Christopher Nolan, Deborah Snyder, Emma Thomas Roteiro: David S. Goyer, Cristopher Nolan Fotografia: Amir Mokri Trilha Sonora: Hans Zimmer Duração: 143 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Atlas Entertainment / Legendary Pictures / Warner Bros. Pictures

Cotação 3 estrelas e meia