Thor: Ragnarok (2017)

Por André Dick

O terceiro filme da Marvel/Disney este ano, depois de Guardiões da galáxia Vol. 2 e Homem-Aranha – De volta ao lar, traz de volta o personagem Thor, o Deus do Trovão, tendo atrás das câmeras Taika Waititi. Se o humor e a ação funcionavam realmente nesses dois filmes, a expectativa era que funcionasse ainda mais no principal (pelo menos em termos de chamariz) deles. O diretor se tornou mais conhecido com O que fazemos nas sombras, um filme divertido sobre um grupo de vampiros que se unia numa cidadezinha para suportar junto a eternidade. Em seguida, ele fez Hunt for the wilderpeople, conhecido no Brasil como A incrível aventura de Rick Baker ou Fuga para a liberdade. Se O que fazemos nas sombras tinha uma produção modesta, o segundo possuía uma fotografia extraordinária, com uma sucessão de gags interessante em meio a um drama familiar, influenciado por Wes Anderson, a mesma referência em Loucos por nada, filme de Waititi de uma década atrás.

Thor: Ragnarok, pelos prognósticos, se tornaria aquilo que impediram Homem-Formiga de ser: um filme autoral, por causa justamente de Waititi. Ele mostra Thor (Chris Hemsworth) precisando salvar Asgard de uma nova e terrível ameaça, Hela (Cate Blanchett). Ao lado do irmão, Loki (Tom Hiddleston), ele tem um breve encontro com outro personagem conhecido da Marvel, antes de se depararem com o pai, Odin (Anthony Hopkins). Thor vai parar no planeta de Sakaar, onde vira prisioneiro de Valquíria (Tessa Thompson), sempre uma dose etílica acima do esperado, que o entrega ao Grão-Mestre (Jeff Goldblum). Esta parte do filme é a que melhor funciona, com Taika Waititi apresentando diálogos ágeis e situações cômicas no ponto exato, brincando com a cultura nórdica e a mitologia de Asgard (além da participação especialíssima, e engraçada, de um ator conhecido na reprodução de uma peça teatral), e tanto Hemsworth quanto Goldblum se destacam, além de Thompson valer cada cena em que aparece.
Em 2011, Thor teve uma transposição assinada por Kenneth Branagh, mais conhecido por suas adaptações para o cinema de obras de Shakespeare. Era este justamente o diferencial dessa produção: o herói dos quadrinhos tem, em grande parte, uma profusão de diálogos que lembram uma peça de teatro, mas sem cair no forçado ou pretensioso. Branagh mesclava a comédia com drama nos pontos certos, principalmente quando o herói cai numa cidade do deserto do Novo México, encontrando um grupo de cientistas, liderado por Jane Foster (Natalie Portman), ajudada por Darcy Lewis (Kat Dennings) e pelo Dr. Erik Selvig (Stellan Skarsgård), ausentes dessa continuação.

Havia sequências bastante divertidas, como a de Thor experimentando comida numa lanchonete ou as pessoas desconfiadas de seu figurino. A direção de arte de Bob Ringwood (o mesmo que fez os cenários de Batman – O retorno e Edward, mãos de tesoura, para Tim Burton) misturava o tom do deserto com a profusão de cores de Asgard, lembrando um pouco os anos 80, sobretudo na ponte multicolorida, com as galáxias ao fundo. Estranhamente, este filme de Branagh foi rechaçado em geral pelo público e recebido com certa indiferença pela crítica. Mais ainda: entende-se que ele não teria o bom humor agora utilizado.
Talvez porque Waititi esteja com mais nome do que Branagh se tenha criado o fato de que Thor: Ragnarok em algum momento está à altura de uma sátira à space opera como sua principal influência, Flash Gordon, dos anos 80, e que seu visual traga algo de espetacular. “Immigrant Song”, do Led Zeppelin, um diálogo com a trilha do Queen para a obra de Mike Hodges, funciona, assim como as cores são fiéis aos quadrinhos, com o auxílio da fotografia de Javier Aguirresarobe. Porém, não há comparação no resultado. Mesmo o segundo filme, Thor – O mundo sombrio, possuía um design de produção mais interessante, assim como um humor bem explorado no seu ato final. Aqui, Waititi se concentra muito em objetos com superfície real e amontoados de coisas que lembram restos de sucata, por causa do planeta que serve de locação principal. Para quem fez filmes com direção de arte irretocável como Hunt for the wilderpeole e Loucos por nada, poderia ser melhor. O figurino se sente criativo, mas leve demais e com pouca diversidade, assim como as batalhas de naves se assemelham em demasia às do segundo filme para ter uma real distinção e todo o arsenal de raios de luz se sente um pouco exagerado, mesmo sendo esta a finalidade, quando, na verdade, o roteiro funciona melhor em sua simplicidade: um dos personagens se comparar a Tony Stark é uma boa referência ao restante do universo e não se sente ultrajante, e uma torcida desfilando pelas ruas de Sakaar com cartazes de um determinado super-herói é suficientemente criativo.

Além disso, Waititi interrompe dois atos de comédia leve e calibrada, sua especialidade, e repassa suas cargas para um filme previsível de ação (com montagem confusa), tentando dar dramaticidade para a qual não havia despertado anteriormente. É difícil, mesmo que seja esta a pretensão, adentrar no drama depois de dois atos dedicados, de forma promissora, a uma sucessão de sequências divertidas e diálogos com duplo sentido (e a verve de Hemsworth já foi provada nas refilmagens de Férias frustradas e Caça-fantasmas). A graça da narrativa era justamente desconsiderar a pompa shakesperiana oferecida por Branagh, mesmo com bom humor em determinados trechos, e fazer uma sátira espacial. O roteiro de Eric Pearson, Craig Kyle e Cristopher Yost insere o personagem de Bruce Banner (Mark Ruffalo) e, consequentemente, de Hulk de forma desajeitada. Funciona num primeiro momento, mas no final se sente vazio, como se fosse apenas um espaço para um personagem que não aparecia desde Os vingadores – Era de Ultron. Cate Blanchett tem um ótimo início e seu papel dá a entender que teremos uma vilã inesquecível, junto com o comandado Skurge (Karl Urban). No entanto, algo se perde, e as cenas de ambos se tornam muito distantes do restante da história. Thor: Ragnarok sofre um conflito inevitável, que leva a um impasse capaz de transformá-lo no que não era em seus dois primeiros atos, pela tentativa de Waititi em explorar novas nuances desse universo: uma obra até determinado ponto comum.

Thor: Ragnarok, EUA, 2017 Diretor: Taika Waititi Elenco: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Idris Elba, Jeff Goldblum, Tessa Thompson, Karl Urban, Mark Ruffalo, Anthony Hopkins Roteiro: Eric Pearson, Craig Kyle, Cristopher Yost Fotografia: Javier Aguirresarobe Trilha Sonora: Mark Mothersbaugh Produção: Kevin Feige Duração: 130 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

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Meu amigo, o dragão (2016)

Por André Dick

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Esta refilmagem atualizada do clássico de 1977 em que o grande destaque era Mickey Rooney, passado nos anos 1900, envolvendo pescadores e o dragão do título, acompanhados de várias canções e sua mistura de humanos com animação – na época, mais de uma década após o sucesso de Mary Poppins e alguns anos depois do êxito de Se minha cama voasse – se dá num momento em que a Disney atravessa uma fase de grandes sucessos de animação, como Zootopia, e live action, como Mogli – O menino lobo. A companhia tem sido exitosa em recuperar algumas obras clássicas sob nova roupagem, emulando a mesma atmosfera de seu período mais áureo, dos anos 40 aos anos 60, além de conceder espaço à série Star Wars em grande escala depois de George Lucas vender seus direitos.
A história inicia mostrando Pete (Levi Alexander), um menino de cinco anos, que viaja com seus pais (Gareth Reeves e Esmée Myers) quando o carro acaba sofrendo um acidente. O menino se vê obrigado a entrar na floresta de Millhaven, à margem da estrada, onde passa, depois de perseguido por lobos, a ser protegido por um dragão. É um momento-chave para a história, à medida que depois desse acontecimento tudo se transformará em sua vida. Ele dá o nome de Elliot ao dragão, em razão de ser o nome do cachorro de seu livro favorito. E, se há uma coisa que os estúdios Disney gostam de fazer, é mostrar dragões em suas histórias, não apenas no clássico a partir do qual este filme parte, mas Dragonslayer, de 1981, com efeitos visuais até hoje interessantes, assinado por Matthew Robbins.

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Depois de seis anos, Pete (agora Oakes Fegley) vê o integrante de uma serraria que surge para fazer uma obra na floresta de Pacific Northwest, Gavin (Karl Urban, fazendo um personagem diferenciado do McCoy de Star Trek), e é perseguido por Natalie (Oona Laurence), filha de Jack (Wes Bentley). Quando Natalie acidentalmente cai da árvore onde tenta alcançar Pete, seus gritos atraem seu pai, e sua namorada, uma guarda florestal, Grace Meacham (Bryce Dallas Howard). Pete tenta fugir, no entanto Gavin, irmão de Jack, o derruba. O pai de Grace (Robert Redford) sempre contou sobre uma lenda de dragão nas redondezas às crianças, mas sua filha nunca acreditou nele. Isso é um bom início para mudar de ideia. E, a partir de determinado momento, o xerife Dentler (Isiah Whitlock Jr.), também vai querer conhecer melhor essa história. Nenhum dos personagens, porém, segue uma linha de completa bondade ou de vilania – todos se mantêm num meio-termo.
Se Meu amigo, o dragão conserva a magia do original, é acrescido, pelo diretor David Lowery, um tom que lembra inicialmente O quarto de Jack e Super 8, não apenas pela aparência do menino principal, como pelo drama de não ter uma família evidente. Pete é sozinho e tem em Elliot – não por acaso, nome do menino de E.T. – sua grande companhia existencial, que creem ser imaginária, inicialmente: ambos dormem numa caverna e passam o dia pela floresta, entre escaladas de árvores e passeios pelo rio (porém, o dragão, às vezes, pode não ser visto).

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A amizade entre Pete e Grace se faz rapidamente, no sentido mais apurado da fantasia e da aceitação familiar, pois é um menino que procura um núcleo. Como poucas peças hoje em dia, este é um filme que possui coração e uma certa magia que retoma elementos perdidos em algum passado longínquo. Há uma espécie de ingenuidade no bom sentido nas ações dos personagens que levam a narrativa a um espaço amplo de aceitação do espectador. Não há dúvida de que o diretor Lowery utiliza vários encaixes comuns a esse tipo de história – desta vez, porém, a arquitetura é realmente interessante, e mesmo o que poderia se transformar numa ode à defesa do meio ambiente se converte mais numa melancolia passageira relacionada aos homens que sobrevivem da floresta e de sonhos abrigados (ou esquecidos) nela.
Há elementos também de Mogli e o dragão nem de longe lembra Smaug (sendo uma criação da empresa de Peter Jackson), mas é muito mais primo distante do cão de A história sem fim – e pode-se imaginar que Pete o imagina assim também por causa de sua história favorita. O diretor Lowery fez há alguns anos um filme indie, Amor fora da lei, com Ryan Fleck e Rooney Maara, e a montagem de um cult de Shane Carruth, Upstream color. Em Meu amigo, o dragão ele focaliza bosques enevoados e um clima gélido, cercado pelo calor familiar e de Grace, com boas atuações de todo o elenco, principalmente de Fegley e Dallas Howard, atriz subestimada desde Histórias cruzadas, em que fazia um personagem que era contraponto ao de Jessica Chastain, com quem é muito parecida plasticamente, e aqui numa oposição oposta à de A vila.

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No ano passado, ela participou do grande sucesso Jurassic world, entretanto com uma personagem não exatamente interessante. Redford também está bem, com seu aspecto envelhecido sem forçar a sabedoria da idade, evocando talvez Junior Boomer, dos anos 70, o homem branco que largava a civilização para habitar a natureza, e Lowery lida com este elenco multiestelar com talento insuspeito e grande acerto na condução de cada um.
De modo geral, Meu amigo, o dragão é muito bem realizado, com efeitos visuais discretos e eficientes e um contínuo tom de descompromisso, no roteiro escrito por Lowery em parceria com Toby Halbrooks. Não há mais as canções do original, e sim algumas canções, como de Leonard Cohen, St. Vincent e The Lumineers, criando, por vezes, uma atmosfera indie de origem do diretor, com sua tentativa de dialogar com Malick. Superior a outras refilmagens, como a de Cinderela, Meu amigo, o dragão é agradável no ponto certo, emocionante sem cair na pieguice e por vezes dramático no melhor sentido.

Pete’s dragon, EUA, 2016 Diretor: David Lowery Elenco: Bryce Dallas Howard, Robert Redford, Oakes Fegley, Oona Laurence, Wes Bentley, Karl Urban, Isiah Whitlock Jr. Roteiro: David Lowery, Toby Halbrooks Fotografia: Bojan Bazelli Trilha Sonora: Daniel Hart Produção: James Whitaker Duração: 103 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Walt Disney Productions

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Star Trek – Sem fronteiras (2016)

Por André Dick

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Quando estava para ser feita a terceira parte de Star Trek, vários rumores surgiram: o primeiro foi o afastamento de J.J. Abrams da direção, para se dedicar a Star Wars – O despertar da força e, em seguida, o anúncio de Edgar Wright, de Scott Pilgrim contra o mundo, como o novo diretor. No entanto, a direção coube finalmente a Justin Lin, de quatro episódios da série Velozes e furiosos. Estava configurada a temeridade: poderia o terceiro episódio reproduzir a qualidade dos dois primeiros filmes de Abrams? Isso porque Abrams praticamente conseguiu refundar esses personagens criados por Gene Roddenberry sob uma nova roupagem, com mais agilidade e não exatamente menos reflexão, uma característica da série que iniciou na TV nos anos 60 e se transportou para o cinema do final dos anos 70 até o início da década de 90 (não por acaso, um dos cartazes de Star Trek – Sem fronteiras e é quase uma réplica do de Star Trek – O filme, de Robert Wise, que tentava repetir 2001). E é difícil entender a demissão em parte da crítica ao segundo episódio, um dos melhores construídos da história da franquia, e ainda assim questionado por seus temas voltados à política e com indiretas à política norte-americana de invasão a determinados países em guerra.
Neste terceiro episódio, a Enterprise volta de uma missão de cinco anos à base estelar Yorktown (uma destreza em design, mesmo que com clara influência de Elysium). O Capitão James T. Kirk (Chris Pine) está refletindo sobre a sua função, um pouco entediado do que julga ser uma rotina episódica – qualquer metalinguagem é mera coincidência –, depois de todos esses anos, e pensa em querer promover Spock (Zachary Quinto) como novo capitão da Enterprise. Ficamos sabendo que a relação deste com Uhura (Zoe Saldana) não se mostra como era antes e que aconteceu a perda de um ente querido (o Spock mais velho, Leonard Nimoy, a quem o filme também é dedicado).

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Uma cápsula é encontrada numa nebulosa, e nela uma sobrevivente, Kalara (Lydia Wilson), que avisa que sua nave está em Altamid, um planeta nas localidades. A Enterprise sai em missão de resgate, mas acaba se deparando com uma invasão alienígena liderada por Krall (Idris Elba), que está atrás de um artefato descoberto por Kirk numa de suas missões. Este artefato, o Abronath, colocará a Enterprise numa situação delicada, capaz de lembrar, particularmente, o momento mais espetacular de Matrix revolutions, deixando os combates anteriores entre naves nos filmes anteriores para trás em termos de impacto.
Temos de volta não apenas Kirk e Spock, como também Uhura, Sulu (John Cho), Chekov (Anton Yelchin, em sua participação lamentavelmente derradeira, R.I.P.), Leonard McCoy (Karl Urban), Montgomery Scott (Simon Pegg), e o ritmo empregado por Justin Lin não é muito diferente daquele usado por Abrams nas duas primeiras partes. Existe, aqui, uma necessidade de mostrar a equipe agindo em núcleos, depois de um grande imprevisto, e Lin consegue desenvolvê-los de maneira adequada, sobretudo a ligação entre McCoy e Spock. E ainda há uma nova personagem, Jaylah (Sofia Boutella, de Kingsman), embora seja um spoiler se eu dissesse qual sua participação.
Se não existe aqui a interação entre Kirk e Spock que havia nos demais, e mesmo assim Pine e Quinto continuam ótimos em seus papéis, muito em conta dessa separação por aqui, Star Trek – Sem fronteiras, se mostra mais leve em sua maneira de apresentar a ação, mesmo que igualmente espetaculoso, com design de produção fantástico e um figurino acertado. Percebe-se o cuidado em realmente não se concentrar no CGI, mas reproduzir alguns cenários em alta visual de impacto (apesar de termos a cidade espacial que pode ser um passo além das experimentações visuais de Gravidade).

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O roteiro, escrito por Pegg, também responsável pelas narrativas de Chumbo grosso, Paul – O alien fugitivo e Heróis de rassaca, em parceria com Doug Jung, é muito interessante na maneira como estabelece a história sem uma divisão clara, com uma ação contínua, em que um quadro desencadeia o outro, sucessivamente, transformando-se numa sequência bastante envolvente e na qual não existe a quebra que havia, nos anos 80, de A ira de Khan para À procura de Spock. O que falta às vezes é justamente um toque de humor, especialmente de Pegg, que havia em doses maciças no primeiro empreendimento desta franquia de Abrams, que segue como produtor, e mesmo o ator não está no seu momento mais inspirado, talvez por dividir desta vez suas funções. Ele simplesmente não consegue desenvolver a mesma agilidade quanto aos personagens que Abrams conseguia, e Damon Lindelof, um dos roteiristas do segundo, faz especialmente falta. Também há um descuido talvez na maneira como apresentam uma determinada cena com Sulu, que foi alvo de comentários, pois não expande a ideia, como deveria, e parece apenas um acréscimo forçado, pois logo a abandona, não trazendo aquela ligação dramática para o resultado final. Ainda assim, a homenagem a Nimoy soa interessante e sente-se aproximação de Kirk novamente com seu passado, do seu pai (Chris Hemsworth) e do almirante Pike (Bruce Greenwood), como um adendo capaz de ressoar junto ao espectador como antes.

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Em relação ao segundo, há a perda de Benedict Cumberbatch como vilão, e Idris Elba está escondido depois de uma pesada maquiagem (lembrando Louis Gosset Jr. em Inimigo meu), sofrendo os mesmos problemas de Eric Bana do primeiro Star Trek desta geração mais jovem. Não chega a haver uma justificativa mais concreta para as posições de Krall, sentindo-se sua presença também diminuída em relação ao vilão do segundo filme. Isso não exclui a maneira como Lin transforma esse vilão mais assustador em alguns instantes, sobretudo porque ele se alimenta da energia alheia e tenta escravizar inúmeras pessoas para constituir uma alternativa à Federação. Outro destaque é a trilha de Michael Giacchino, igualmente bela e sem repetir o padrão dos dois primeiros trabalhos, com uma escala e variação musical exuberante.
Se Lin não consegue ser Abrams na confecção de cada ato e na motivação, algumas vezes, dos personagens, por outro lado, ele possui, mais do que Abrams, um olhar mais próximo dos anos 80 para esses personagens. Ou seja, principalmente nas cenas de ação, há uma espécie de improviso que caracteriza esses personagens com a ênfase oferecida nessa década, mais corporal e menos calcada apenas nos efeitos especiais (embora esses, quando surjam, sejam nada menos do que espetaculares). À parte, deve-se dizer o quanto o visual desse Star Trek incorpora um trabalho de cores específico e muito atrativo, por todos os cantos, também mais próximo da estética dos anos 80. Dentro do seu gênero, continua um referencial e tanto.

Star Trek Beyond, EUA, 2016 Diretor: Justin Lin Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Karl Urban, Zoe Saldana, Simon Pegg, John Cho, Anton Yelchin, Idris Elba, Sofia Boutella, Joe Taslim, Lydia Wilson, Deep Roy, Harpreet Sandhu Roteiro: Doug Jung, Simon Pegg Fotografia: Stephen F. Windon Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Bryan Burk, J.J. Abrams, Roberto Orci Duração: 122 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Bad Robot / Paramount Pictures / Skydance Productions

 Cotação 4 estrelas

Além da escuridão – Star Trek (2013)

Por André Dick

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Em 1979, os produtores pediram ao diretor Robert Wise um Jornada nas estrelas – O filme mais comercial, na linha de Guerra nas estrelas; Wise não fez isso e até hoje o filme é lembrado por ser uma tentativa de reproduzir 2001, a obra-prima de Kubrick, com efeitos visuais que utilizaram boa parte do orçamento milionário. Mas, em seguida, vieram as continuações (quatro delas nos anos 80), que, ao contrário do primeiro, fizeram mais sucesso e apontaram um caminho de maior divertimento – sobretudo o segundo, com o antológico Ricardo Montalban como Khan, e o sexto e derradeiro desfecho pelas mãos de Nicholas Meyer.
No final da década passada, o diretor J.J. Abrams conseguiu trazer de volta os personagens da série Star Trek, criada por Gene Roddenberry, que havia tido o último filme de cinema no início dos anos 90. Privilegiado por retomar algumas séries, a julgar também pelos dois mais recentes Missão impossível (o terceiro e subestimado dirigido por ele) e o próximo Guerra nas estrelas, Abrams, tanto no primeiro Star Trek quanto neste segundo, Além da escuridão – Star Trek, apresenta seus traços como autor, a partir de uma criação alheia. É precipitado, a partir daí, considerar que o novo Star Trek seja apenas mais um blockbuster com ação frenética. Como em outros filmes seus, mesmo em Super 8, que homenageia as turmas dos anos 80, sobretudo a de Os Goonies, há, por trás da ação frenética, personagens e motivações. Assim, embora Abrams esteja em voga, seria injusto colocar sua presença no cenário como prejudicial ou excessiva. Capaz de mesclar a compreensão de fantasia de Spielberg, George Lucas e Peter Jackson, ele consegue sempre atingir a dramaticidade por meio de peças que parecem simplesmente estrondosas.

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Como o primeiro filme da nova franquia, Além da escuridão, junto com a ação, aprimora o senso de humor em meio a um discurso político, que não pende para o exagero, mas se equilibra dentro da narrativa com algumas referências. Se no primeiro explosões de planetas, fugas de monstros, viagens no tempo justificavam uma grande celebração do encontro dos personagens, inclusive remetendo à sua infância, e os atores se entregavam a isso de forma despretensiosa, mas, ao mesmo tempo, fazendo dos diálogos afiados um ponto claro para a empreitada, nesta continuação, os personagens precisam enfrentar um dilema referente a matar ou prender um criminoso.
O início é nada menos do que espetacular (e parece que As aventuras de Tintim já tem companhia como o filme que melhor utilizou o 3D nos últimos anos), levando, em seguida, os personagens a uma sala de reuniões em que é discutido um ataque terrorista feito por John Harrison (Benedict Cumberbatch), em Londres. A Enterprise precisa novamente partir em missão e o almirante Marcus (Peter Weller, excelente), da Frota Estelar, dá a ordem para que isso aconteça. Ele ordena que a Enterprise leve um misterioso armamento, a fim de ser lançado, se necessário, num determinado planeta (qualquer diálogo com a perseguição a Bin Laden no Afeganistão e Paquistão não seria mera coincidência, mas o filme, de forma acertada, não se fundamenta nessa analogia externa).
Enquanto James T. Kirk teve um passado problemático e foi levado para a Enterprise pelo capitão Christopher Pike (o convincente Bruce Greenwood), tendo com ele uma dívida de confiança, que se acentua aqui, Spock é um vulcano que recorre à humanidade para contrabalançar suas dúvidas existenciais e o interesse amoroso pela oficial Uhura (Zoe Saldana). Nesta continuação, a humanidade de Spock é posta novamente em prova, e a arrogância de Kirk se coloca como uma esperança em reencontrar seu amigo, ao mesmo tempo em que é testado seu respeito por Pike. Desde o início espetacular, Spock conclui que a tripulação vale mais do que sua vida, mas, para Kirk, ele deve entender justamente o contrário, de que um amigo deve ser salvo sem que isso constitua um adendo para relatórios burocráticos. Por sua vez, Uhura precisa ser testada em seus conhecimentos, para que a harmonia da Terra não seja ameaçada, assim como deve traçar uma compreensão maior diante da desistência romântica de Spock.

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Temos novamente Chris Pine como Kirk, desta vez menos pretensioso, e Zachary Quinto, como Spock, que apenas aparenta não ter insegurança e mostra estar à altura de Leonard Nimoy, e ambos os atores parecem, também pela experiência, mais à vontade e convincentes, principalmente Pine. É essa amizade com desentendimentos, mas com sensibilidade, que dá força a um conflito que poderia ser no máximo repetitivo e traz o interesse novamente pela série, apoiado também no elenco coadjuvante: o ator que faz Leonard McCoy, Karl Urban, por exemplo, é ótimo, assim como Anton Yelchin, no papel do navegador Chekov, e Simon Pegg, especialmente, como Scotty, acompanhado da estranha criatura do primeiro, cuja inexpressividade chega a ser divertida. Mais do que em Missão impossível III e Super 8, é em suas versões de Star Trek que Abrams comprova sua habilidade à frente dos atores e dá espaço decisivo a cada um para o desenvolvimento da narrativa, contrabalançando a ação e os diálogos. E é o personagem de Scotty que vai lembrar a Kirk que a Enterprise serve para explorações espaciais, e não para armamentos alimentares, indicando que Abrams guarda um discurso de paz. Não há, aqui, nenhuma opressão dos interrogatórios de Maya em A hora mais escura; é um Star Trek com fundo pós-11 de setembro, ainda assim realçando a mitologia da série, com a criação de cenários grandiosos, cuja sensação, para os olhos, nunca é excessiva (como na segunda trilogia de Star Wars). Também o novo vilão de Star Trek, ao contrário do romulano Nero (Eric Bana) do filme anterior, é mais complexo, em razão, também, de Benedict Cumberbatch ter um desempenho notável.
Críticas apressadas têm concluído que o filme, por um lado, não respeita a mitologia da série original e, por outro, a segue em excesso, com referências múltiplas. Há ainda aquelas que julgam o filme simplesmente oco (natural, à medida que Prometheus, no ano passado, também foi considerado). É mais interessante se comparar este Star Trek com as grandes continuações de ficção, a exemplo de O império contra-ataca. Ele consegue ao mesmo tempo remeter ao original, de 2009, e apresentar acréscimos dramáticos de vigor, sem circunscrever os personagens num determinado limite, ou seja, faz exatamente o que deveriam trazer as continuações. O roteiro de Alex Kurtzman, Damon Lindelof e Roberto Orci não tem excessos, e cria surpresas na medida apropriada. Mesmo sem a nostalgia de Super 8, e talvez por causa disso, Abrams vê o espaço sideral como extensão da humanidade – não à toa, a referência ao pai de Kirk (Chris Hemsworth) é trazida sempre à lembrança, por ter salvo uma nave em perigo, e por isso colocam tanta expectativa em seu filho, do mesmo modo que Spock coloca expectativa na permanência da sabedoria de seus ancestrais (e há uma surpresa, novamente, nesse sentido). Desta vez, Kirk não é apenas mais alguém querendo ser capitão de uma espaçonave, e sim alguém que pretende ter uma liderança referencial em relação aos demais, além de conseguir entregar a confiança necessária para que cada um realize seu trabalho da melhor maneira, mesmo sob pressão. Com um olhar impressionante para cenas de ação, a partir dos efeitos visuais e sonoros não menos que excelentes, e uma afinidade com a bela direção de arte, Abrams compõe uma espécie de aventura ritmada em cima das peças de composição de Michael Giacchino. Estamos longe de uma nova tentativa de 2001 que Robert Wise apresentou no belo Jornada das estrelas – O filme (1979). Mas Abrams, mesmo que não agrade a todos, consegue humanizar os personagens de modo intenso, sem simplificá-los. Seu novo Star Trek, como o êxito do anterior já antecipava, é espetacular.

Star Trek Into Darkness, EUA, 2013 Direção: J.J. Abrams Roteiro: Alex Kurtzman, Damon Lindelof, Roberto Orci Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Karl Urban, Benedict Cumberbatch, Zoe Saldana, Alice Eve, Simon Pegg, Anton Yelchin, John Cho, Leonard Nimoy, Bruce Greenwood, Peter Weller Produção: Alex Kurtzman, Bryan Burk, Damon Lindelof, J. J. Abrams, Roberto Orci Fotografia: Daniel Mindel Trilha Sonora: Michael Giacchino Duração: 129 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Bad Robot / Kurtzman Orci Paper Products / Paramount Pictures / Skydance Productions

Cotação 5 estrelas