Animais noturnos (2016)

Por André Dick

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O cineasta Tom Ford estreou em Direito de amar, em 2009, com uma atuação vigorosa de Colin Firth indicada ao Oscar antes do papel que lhe renderia de fato o prêmio, no ano seguinte, com O discurso do rei. Ligado ao universo da moda, cujos trabalhos incluem ser diretor criativo na Gucci e Yves Saint Laurent, Ford demonstrava talento numa trama minuciosa e uma bela fotografia em preto e branco. No seu segundo experimento, Animais noturnos, ele mostra Susan Morrow (Amy Adams), proprietária de uma galeria de arte, que recebe o manuscrito do livro Nocturnal animals, de seu ex-marido, Edward Sheffield (Jake Gylleenhaal). Seu casamento com Hutton Morrow (Armie Hammer) passa por um momento delicado, com infelidelidade da parte dele.
Susan inicia o livro e, a partir daí, vemos Ford alternar entre o que acontece nele e a realidade da personagem. No romance, Tony Hastings (Gyleenhaal) viaja com a esposa, Laura (Isla Fisher), e a filha, India (Ellie Bamber), por uma estrada do Texas, quando são abordados pelo carro de Ray Marcus (Aaron Taylor-Johnson), Lou (Karl Glusman, cada vez mais presente depois de sua boa participação em Love, de Gaspar Noé) e Turk (Robert Aramayo). O que acontecerá a eles será o mote da narrativa, principalmente para construir um elo entre o presente de Susan e o passado em que estava casada com o marido e teria um filho. No livro, chega-se ao ponto em que Tony precisa recorrer a um xerife, Bobby Andes (Michael Shannon, espetacular).

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Susan não consegue dormir – ela ganha o apelido de “animal noturno” por causa disso – e em sua galeria, também em razão da maquiagem que utiliza, parece mais uma espécie de vampira. Há claras referências aqui, nos cenários e comportamentos dos personagens, a filmes de David Lynch, especificamente A estrada perdida, Coração selvagem e Veludo azul. Onde Lynch é mais interessante – na maneira como consegue conciliar suas narrativas a um surrealismo quase natural -, Ford é mais comedido, embora às vezes imite até as roupas e maquiagens do filme de Lynch. Quando Laura Linney aparece como Anne Sutton, mãe de Susan, é claro que ela deve lembrar Diane Ladd em Coração selvagem, assim como Andrea Riseborough, no papel de Alessia Holt, casada com Carlos (Michael Sheen), evoca qualquer estranheza de Twin Peaks.
Animais noturnos tem um início um pouco desinteressante, na maneira que salta da vida de Susan para as páginas do livro, mas, à medida que a trama avança, o paralelo começa a ser construído de maneira eficiente, com atuações notáveis de todo elenco. Amy não chega a construir um personagem por completo, e ainda assim está excelente, assim como Taylor-Johnson surpreende e Gyleenhaal volte a mostrar por que se trata de um ator excepcional para papéis curiosos. Ford utiliza o subtexto – o romance – como uma forma eficiente de entender o casamento de Susan e Edward, o que se esclarece nas digressões, em que ela relembra como o conheceu e como eram os dois quando casados. Esses flashbacks se situam entre a atmosfera soturna a vida de Susan e o frio oposto ao calor do lugar onde Edward situa sua história: quando há uma determinada revelação, ele se encontra embaixo da chuva. A fotografia de Seamus McGarvey, habitual colaborador do diretor inglês Joe Wright, utiliza esse conflito de atmosferas para fazer brilhar sua iluminação, dialogando com outro sucesso deste ano, A qualquer custo, com Jeff Bridges (que será lançado em fevereiro).

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Nesse sentido, além de ser uma sátira ao papel da arte na vida do indivíduo – vejam-se, por exemplo, as esculturas da galeria de Susan, ou o vestuário de sua funcionária, Sage Ross (a sempre estranha Jena Malone), e mesmo o nome de uma amiga, que remete a um personagem clássico do terror, Samantha Van Helsing (Kristin Bauer van Straten) -, Animais noturnos é um exemplo de como mesclar ficção, realidade e cinema, além de homenagens ao cinema surrealista. O comportamento do xerife, muito por causa da atuação de Shannon, adquire um ar de impacto que falta ao início do filme, com a revelação de que ele está com uma doença e precisa lidar com os criminosos da maneira mais direta possível. E Shannon joga todas suas cenas com uma frieza que teria feito bem à composição de seu Zod em Homem de aço, uma mescla entre um personagem de Fargo e de um xerife de faroeste dos anos 50. Uma cena exemplar dessa situação surreal é quando ele encontra o criminoso Ray Marcus num momento que deveria ser privado – e Aaron Taylor-Johnson parece ser como uma escultura viva da galeria de Susan, tamanho o absurdo da situação em que se encontra. Formado em arquitetura, Tom Ford também sabe construir cenários que ele dispõe como peças de um grande tabuleiro, em que um vai se ligando ao outro de maneira ousada e inquestionavelmente interessante, transformando Animais noturnos nos símbolos que questiona a cada momento.

Nocturnal animals, EUA, 2016 Diretor: Tom Ford Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Aaron-Taylor Johnson, Michael Shannon, Armie Hammer, Isla Fisher, Ellie Bamber, Andrea Riseborough, Michael Shannon, Karl Glusman, Robert Aramayo Roteiro: Tom Ford Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: Abel Korzeniowski Produção: Robert Salerno, Tom Ford Duração: 115 min. Distribuidora: Universal Estúdio: Focus Features / Universal Pictures

cotacao-4-estrelas

Demônio de neon (2016)

Por André Dick

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O cineasta dinamarquês Nicolas Winding Refn pode ser visto como um dos mais polêmicos hoje em dia. Não que a sua trajetória se inscrevesse com essa qualidade em Drive, no qual Ryan Gosling era um dublê de cenas com carros em Hollywood, mas principalmente por causa da obra seguinte, Apenas Deus perdoa, com sua violência literal nas ruas de Bangkok. Este segue sua filmografia anterior a Drive, como em Bronson, filtrado por Laranja mecânica, porém, sobretudo, os filmes da saga “Pusher”, com uma violência ainda mais intensa. Drive, sob qualquer ponto de vista, ainda é um divisor de águas em sua carreira. Os sintetizadores de Cliff Martinez, emulando os anos 80, repercutiriam no filme seguinte, e agora em Demônio de neon, agora desprovidos de qualquer romantismo.
Não por acaso, o novo filme de Refn se situa entre o suspense e o terror. A sua principal influência é muito clara: Suspiria, a obra-prima de Dario Argento, nos anos 70. Se nesse terror uma estudante de dança chegava a uma academia alemã de influências sobrenaturais (que se tornaria mais real em Cisne negro), em Demônio de neon, Elle Fanning interpreta Jesse, uma menina de 16 anos que vem do interior, sem pais, para fazer carreira de modelo em Los Angeles. Ela primeiro faz uma sessão de fotos com o Dean (Karl Glusman, de Love), onde conhece a maquiadora Ruby (Jena Malone). Em seguida, ela apresenta o book a uma agência de modelos, tendo à frente Roberta Hoffman (Christina Hendricks).

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A maquiadora, numa festa, a apresenta a suas duas amigas, Sarah (Abbey Lee) e Gigi (Bella Heathcote). Claramente, Refn posiciona Jesse como uma espécie de Alice no país das perdições, com seu figurino de moça inocente e ingênua. Em seu encontro com Dean, numa colina de Los Angeles, à luz do luar, ela diz não ter outros atributos a não ser a beleza. E é essa lua que antecipa o verdadeiro horror de Demônio de neon. Hospedada num hotel, clara referência a Psicose, em seus letreiros, em que o gerente, Hank (Keanu Reeves), age de forma pouco convidativa a conversas e como um cafetão, Jesse é uma espécie de personagem de Naomi Watts em Cidade dos sonhos. Basta reparar na maneira como Refn retrata as cores de seu quarto. Ela pertence a um universo da fantasia. Nesse universo, oposto ao real, ela se sente em casa. No entanto, quando passa, a partir de um desfile para o designer de moda Robert Sarno (Alessandro Nivola), a ser uma das preferidas do mundo da moda, suas antigas conhecidas passam a vê-la ainda mais como uma ameaça. Elas não têm o que conversar entre si: enquanto as antigas modelos falam em plásticas e sexo, Jesse tenta emular uma vida que nunca teve.
Naturalmente, Demônio de neon tem um objetivo muito claro: ser uma crítica ao universo da moda. Parece fazê-lo de modo simples, quando na verdade percebe-se que Refn atinge seus detalhes e nuances de modo mais indireta. Os símbolos, como o da lua ou do gato selvagem, e mesmo de três triângulos em neon (que representam a passagem de Jesse para outro universo, como o cubo de Cidade dos sonhos), ou de Hank como uma representação do falo masculino, são uma síntese da personagem. Todos esses símbolos têm uma analogia com o sangue.

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O personagem Dean é uma espécie de príncipe encantado, a figura certamente mais despretensiosa do filme, aquele que traz flores à mocinha, enquanto os outros personagem observam Jesse como se ela fosse uma vítima a ser perseguida – e Refn constrói essa tensão por meio de olhares, sobretudo da personagem da maquiadora em relação a ela, por meio dos reflexos de espelhos. Ou vejamos a maneira como o fotógrafo Jack (Desmond Harrington, ótimo) a olha durante a sessão de fotos, em que a configuração visual remete a THX 1138, de George Lucas, e sua modelo se torna uma espécie de cerâmica viva. A obsessão pela juventude é tão perturbadora quanto em Fome de viver, dos anos 80, com David Bowie e Catherine Deneuve.
Refn tem um interesse em aproximar o universo da fotografia e da modo de um universo cadavérico. Para ele, as pessoas estão sempre fazendo poses, imóveis ou querendo ser invisíveis, como se fossem, como diz Gigi, em determinada altura, fantasmas. Gigi também pergunta a Jesse como é ser o sol num dia de inverno, e, ao final, sua metáfora parece justamente se mostrar ao contrário. E, mesmo Jesse sendo uma pessoa real, sua fachada sempre lembra uma fina camada de porcelana; é como se, de fato, fosse uma boneca humana. Refn a aproveita aqui, muitas vezes, como Coppola o faz em Virgínia. Na realidade, o fato de aparentar ser uma boneca humana, mesmo em seu gestual, faz desse um personagem mais complexo do que aparenta, e o fato de ser o oposto de mulheres que se consideram fantasmas não a torna menos do que um espectro.

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O que se pode dizer é que Demônio de neon atravessa uma linha que poucos filmes se arriscam a fazer. Não apenas o roteiro de Refn, em parceria com Mary Laws e Polly Stenham, é enigmático, como ingressa, em seus 20 minutos finais, em situações nas quais o cinema pouco pisou, sob uma perspectiva mesmo histórica. É quando Refn mais se mostra desagradável como em vários momentos de Apenas Deus perdoa e, justamente, consegue arrematar sua visão sobre o mundo da moda e do que se considera belo. Seu filme é construído com uma fotografia perfeccionista de Natasha Braier (The Rover), com cada tiro lembrando uma pintura, e ainda assim o que ele tem a trazer aqui é que, por baixo de toda a beleza, há doença e uma terrível desesperança. Nesse sentido, é mais melancólico do que Drive e Apenas Deus perdoa, que ainda lida com certos elementos românticos. Em Demônio de neon, é como se Refn admitisse que não há espaço para nenhuma idealização, representada por Jesse, principalmente num universo em que ela é uma estranha, mesmo parecendo ser bem recebida. É como se ela entrasse num bosque do qual não pode voltar justamente no momento em que se depara com os triângulos de neon. A passagem que eles oferecem revela não apenas o universo da moda em Los Angeles, como também o mistério pelo qual a personagem central é envolvida. Pode-se perceber que, assim como no clube noturno, na passarela, no estúdio de fotos e no quarto, Jesse se sente sempre sozinha, como se todos que estivessem à volta não existissem, ou quando espera numa cadeira para uma teste e suas colegas estão imóveis. A questão colocada implicitamente por Refn: ela existe de fato? Este universo existe? A maquiadora Ruby vive numa mansão vazia. O que faz ali, em que há uma piscina vazia?

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Como Jesse, Elle Fanning está excepcional, mostrando como a atriz de Super 8 e Um lugar qualquer realmente tinha um talento especial, mas é Malone, Lee e, principalmente, Heathcote que conseguem lidar com papéis difíceis. Karl Glusman é um ótimo ator aqui, também, assim como Keanu Reeves faz uma boa participação especial (lamentando-se que Hendricks tenha apenas uma cena).
Entende-se perfeitamente que o espectador não goste deste filme ou se sinta mesmo revoltado com suas premissas, mas é inegável que Refn consegue avançar num terreno que se mostrava inexplorado talvez desde David Lynch em Twin Peaks – Os últimos dias de Laura Palmer, também, como ele, vaiado em Cannes. No filme de Lynch, tão surrealista quanto este, a ameaça à personagem central se dava de maneira tão contundente que de uma série bem-humorada o espectador passava a um ambiente bem mais próximo do horror e do assustador. Esta parece ser a mesma trajetória visualizada por Jesse. De qualquer modo, Refn não esclarece direito quem seria essa personagem, assim como o motorista de Drive. Não há nela um sentido de humanidade exato. Ela está durante toda a história entre a realidade e o sonho, e sua realidade é permeada de comportamentos estranhos. Esta não é uma obra fácil; pelo contrário, é perturbadora, pois entrega algo totalmente diferente do que aparenta por suas imagens belíssimas.

The neon demon, DIN/EUA/FRA, 2016 Diretor: Nicolas Winding Refn Elenco: Elle Fanning, Karl Glusman, Jena Malone, Bella Heathcote, Abbey Lee, Christina Hendricks, Keanu Reeves, Desmond Harrington, Jamie Clayton, Alessandro Nivola, Charles Baker Roteiro: Nicolas Winding Refn, Mary Laws, Polly Stenham Fotografia: Natasha Braier Trilha Sonora: Cliff Martinez Produção: Lene Børglum, Nicolas Winding Refn, Sidonie Dumas, Vincent Maraval Duração: 118 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Bold Films / Space Rocket Nation / Vendian Entertainment

cotacao-5-estrelas

Love (2015)

Por André Dick

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O diretor franco-argentino Gaspar Noé sempre foi conhecido por seus filmes polêmicos, a começar por Sozinho contra todos, mas, principalmente, por Irreversível, desde o seu lançamento em Cannes. O Festival francês costuma ser o palco da estreia de seus filmes, e o mesmo ocorreu com Enter the void, em 2009, e Love em 2015 – em ambas as ocasiões sem receber nenhum prêmio ou mesmo ter um destaque especial. Se Enter the void tornou-se, com o tempo, numa obra referencial – e parece, em retrospectiva, o melhor trabalho de Noé –, tudo indica que com Love (lançado nos cinemas em 3D) possa acontecer o mesmo, levando em conta se tratar de uma história sobre um triângulo amoroso que se depara com uma determinada realidade.
O estudante de cinema Murphy (Karl Glusman), depois de receber uma ligação da mãe de sua antiga namorada, Electra (Aomi Muyock), passa a recordar dela, enquanto procura enfrentar o momento que vive, ao lado de Omi (Klara Cristin), com quem tem um bebê. Ele lamenta os rumos que sua vida tomou e principalmente por ter se afastado daquele que considera o amor de sua vida. Aos poucos, descobrimos que Omi foi a peça de um triângulo amoroso do canal, num momento em que a confiança que poderia existir (e ao longo do filme se mostra cada vez mais ambígua) acaba sendo desconstruída.

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Gaspar Noé, como em Enter the void, acompanha Murphy não raras vezes pelas costas, colocando o personagem em corredores de apartamento, de ruas ou de clubes noturnos. Trata-se de um estilo inconfundível e que se mostra ainda mais evidente ao longo de Love. Como Enter the void, também, há uma influência notável de 2001 em muitas sequências. Apresentando-se aos outros como responsável já por vários projetos, Murphy tem o filme de Stanley Kubrick como o seu favorito. Já havia um cartaz dele numa das paredes do apartamento do casal vivido por Cassel e Belucci em Irreversível, e em Enter the void essa influência se dava principalmente no jogo de luzes. Mas parece ser em Love que tal influência se materializa em vários lugares pelos quais Murphy passa.
Quando ele chega a uma galeria de arte – em que o responsável é vivido por Gaspar Noé –, o fundo dela se projeta com a mesma brancura do quarto vitoriano de 2001; quando Murphy e Electra passam a viver momentos arriscados sexualmente à noite, projeta-se um vermelho que remete ao subterrâneo como também à cabine de HAL-9000; isso sem contar as inúmeras cenas de sexo em que a iluminação vai alternando cores como amarelo, verde e vermelho, dependendo do que sugere cada relação. Noé imagina uma idealização do amor também em alguns cenários – o primeiro encontro de Murphy acontece num restaurante com luz agradável; depois, quando Murphy e Electra se mostram apaixonados, há um pano de fundo como se fosse um quadro, com dois flamingos posicionados à esquerda. Em outro momento ainda, outras referências: um cartaz de O nascimento de uma nação numa parede, e o Motel Love, de Enter the Void, ao lado da cama de Murphy, anunciam que este é um filme que adentra o imaginário de um personagem preso entre a realidade e sua fuga cinematográfica.

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Não me parece que Gaspar Noé, apesar das cenas de sexo recorrentes, esteja interessado em usá-lo como retrato de uma sociedade, pelo menos como Von Trier, de Ninfomaníaca. A impressão é que ele, numa tradição que focaliza a liberdade sexual, está mais interessado em compor ligação com O último tango em Paris, na maneira como Murphy vai se entregando aos prazeres da carne, e Os sonhadores, ambos de Bertolucci, embora com uma visão diferente do que seria o amor. Chega a ser curioso que o filme tenha sido vendido – com o apoio, é bom dizer, do próprio Noé – como uma polêmica calcada na pornografia. Love atinge uma tranquilidade nos momentos-chave, sem fazer com que os personagens sejam vistos de maneira apenas impulsiva. Como já mostrou em Irreversível e Enter the void, o amor e o sexo surgem quase como pedaços de um trauma do indivíduo – e não é diferente com Murphy, alguém que acreditava numa determinada relação antes de ser despistado por uma realidade com a qual não gostaria de conviver. Electra, para ele, nesse sentido, simboliza uma liberdade e a fantasia do cinema, o que seu relacionamento e a família não lhe concedem. É um material bruto para Noé, e ele se esmera num jogo de cores para fazer valer essas figuras e essas questões. Os diálogos não são o forte da narrativa, mas os atores tentam dar plausibilidade a cada situação, e de certo modo conseguem.
É por meio da quase inação desse triângulo que Noé desenha um retrato sobre o receio de perder um amor e a necessidade de reencontrá-lo em algum momento para que se possa compreender o que aconteceu. É como se esses personagens quisessem se apegar ao sexo para esquecerem da dor que pode angustiá-los, mas de certo modo se deparassem com o fato de que as lembranças são mais fortes e os constituem. De certa maneira, é o que já fazia sentido em Enter the void e ganha uma captura aqui mais naturalista, não apenas pelos cenários mais apegados ao cotidiano e pelo sexo sem a profusão de luzes que caracteriza o filme de 2009.

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Mais do que liberador, Love tem uma estranha sensação de que os personagens não podem se libertar daquilo que sentem e que isso necessariamente os afasta, pois nenhum tem o mesmo interesse do que o outro. Ou seja, a vida que cada um escolhe para si não tem nenhuma oportunidade de fazer com que a outra, que poderia estar junto, se mantenha como tal. Desse modo, o que pode soar como algo conservador faz com que entregue o principal argumento desta obra de Noé: a expectativa pela permanência pode estar naquilo que soa transitório e efêmero. É o que Love tem em comum com o restante da obra de Noé, que volta no tempo para recordar que a palavra central é amor. Este filme, portanto, guarda uma segunda superfície, em que os personagens parecem se esconder do que são, mas em algum ponto vão sempre se revelar, seja onde for. Como surpresa, a obra tem sua justificativa nessa tranquilidade.

Love, FRA/BEL, 2015 Diretor: Gaspar Noé Elenco: Aomi Muyock, Benoît Debie, Deborah Revy, Gaspar Noé, Isabelle Nicou, Juan Saavedra, Karl Glusman, Klara Kristin, Stella Rocha, Vincent Maraval, Xamira Zuloaga Roteiro: Gaspar Noé Fotografia: Benoît Debie Trilha Sonora: Virginie Verdeaux Produção: Brahim Chioua, Edouard Weil, Gaspar Noé, Rodrigo Teixeira, Vincent Maraval Duração: 134 min. Distribuidora: Imovision Estúdio: Les Cinémas de la Zone / Rectangle Productions / RT Features / Scope Pictures / Wild Bunch

Cotação 4 estrelas