Suburbicon – Bem-vindos ao paraíso (2017)

Por André Dick

George Clooney tem se mostrado alguém capaz de mesclar as carreiras de ator e diretor com uma competência poucas vezes vista. Depois de ser elogiado principalmente por Boa noite e boa sorte, que recebeu várias indicações ao Oscar, inclusive a melhor filme, sua carreira passou a ser mais visada: nesse caminho, Tudo pelo poder foi um êxito fora de série, com uma parceria notável entre Clooney e Ryan Gosling, e Caçadores de obras-primas, recebido com uma grande indiferença.
Para este novo projeto, depois da rejeição a seu último filme, Clooney obteve um roteiro dos irmãos Joel e Ethan Coen, que ele desenvolveu ainda mais com Grant Heslov. Passado em 1959, no bairro de Suburbicon, habitado por brancos, tudo treme com a chegada dos Mayer, uma família afro-americana. O início representa bem isso: o carteiro passeia pela rua entregando correspondências até que vê a senhora Mayer (Karimah Westbrook). Ele logo pergunta à vizinha se já viu quem chegou ao bairro e o que acontece a seguir é uma reunião no estilo Ku Klux Khan como que para definir o que fazer com a nova família. Isso é mais do que uma sátira: é uma visão ainda mais contundente sobre os subúrbios que Tim Burton já havia feito nos ótimos As aventuras de Pee-wee e Edward, mãos de tesoura, além do recente Grandes olhos.

Determinada noite, a família de Gardner Lodge (Matt Damon) é atacada por ladrões (Glenn Flesher e Alex Hassell), que amarram sua mulher, Rose (Julianne Moore), loira, que vive numa cadeira de rodas, assim como Margaret, a irmã gêmea, com cabelo escuro, e o filho Nicky (Noah Jupe). Este é o único que conversa com o filho dos Mayer, Andy (Tony Espinosa).
A invasão é estranha e deixa marcas na família, mas o que mais implode é a raiva dos moradores de Suburbicon contra os novos vizinhos. Margaret passa a agir de modo ainda mais estranho, tomando o lugar da irmã, inclusive ao pintar o cabelo da mesma cor que o dela. Há uma estranha relação entre Gardner e os bandidos que invadiram sua casa, que remete a Fargo e Arizona nunca mais, outras obras dos Coen. De maneira geral, pode-se entender por que esse roteiro dos Coen foi escrito logo depois da estreia deles, em Gosto de sangue, em 1984: ele basicamente antecipa os temas da dupla de diretores no cinema. No entanto, ao contrário dos Coen, Clooney utiliza os pátios de um bairro calmo nos Estados Unidos para fazer uma espécie de homenagem às pinturas de Edward Hopper, assim como em Um homem sério, no entanto com uma falta de alívio cômico (o humor, sobretudo no personagem de Damon, é anticlimático a todo momento).

O filme soa pesado em todos os termos de tratamento que oferece a seus personagens, lembrando a estreia de Clooney na direção, Confissões de uma mente perigosa, nunca deixando o espectador confortável, e a trilha excelente de Alexandre Desplat mostra uma espécie de recuperação da imagem do subúrbio como uma ameaça presente desde Alfred Hitchcock. Os personagens também são ambíguos, no melhor sentido, nunca se sentindo fáceis ou meras caricaturas, como poderiam ser, o que acontece nos experimentos mais fracos dos Coen, a exemplo de Matadores de velhinhas e O amor custa caro. Clooney trabalhou com os diretores em outro momento menos inspirado, E aí, meu irmão, cadê você?, e aqui ele mostra um determinado senso que remete a eles no visual. No entanto, mais do que a eles, Clooney retoma um padrão clássico de imagem e sonoro, dos anos 50, para introduzir uma ambientação bem trabalhada. Mesmo quando Gardner e Margaret são flagrados no porão por Nicky há um clima de Psicose no ar (não parece aleatória a escolha de Julianne Moore para o papel, tendo ela feito a refilmagem da obra de Hitchcock nos anos 90). Também existe uma mescla entre comportamento estranho, relacionamentos não esclarecidos e um desrespeito constante à infância diante dos problemas que eclodem no bairro. O elenco, a começar por Moore e Isaac, contribui muito para esse senso deslocado.

A fotografia de Robert Elswit, com sua luminosidade, apenas esconde um lado muito nublado, turvo, da América, que não se deixa identificar. Numa visita à delegacia, também sentimos a presença da textura de imagem, além do trabalho impecável de figurino, da obra-prima O mestre, de Paul Thomas Anderson. Não parece inexplicável que este filme tenha sido tão questionado pela crítica em geral: Suburbicon realmente não define seu gênero nem explica exatamente sua proposta. A visão de Clooney para o que deveria ser um roteiro menos corrosivo dos Coen se mostra caótica, tanto quanto a recepção da vida moderna que temos aqui por meio de imagens dos anos 50. Tudo aqui antecipa a era Kennedy e os protestos em torno de Malcolm X, que trouxeram um novo panorama à sociedade norte-americana. O trabalho de Gardner Lodge, por trás de escritórios e portas simétricas, esconde apenas uma desilusão. Para Clooney, esses personagens querem mudar suas famílias, de algum modo, e visam sempre uma espécie de trama implícita em suas ações. Não há nada em Suburbicon que não esteja em pé de confronto, mas os personagens se escondem disso, agindo de maneira infantilizada e enfrentando uma rua escura com uma bicicleta.

Suburbicon, EUA, 2017 Diretor: George Clooney Elenco: Matt Damon, Julianne Moore, Oscar Isaac, Noah Jupe, Glenn Fleshler, Alex Hassell, Gary Basaraba, Jack Conley, Karimah Westbrook, Tony Espinosa, Leith Burke Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen, George Clooney, Grant Heslov Fotografia: Robert Elswit Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: George Clooney, Grant Heslov, Joel Silver, Teddy Schwarzman Duração: 105 min. Estúdio: Paramount Pictures, Black Bear Pictures, Silver Pictures, Smoke House Pictures Distribuidora: Paramount