O retorno de Mary Poppins (2018)

Por André Dick

No clássico Mary Poppins de 1964, duas crianças, Michael e Jane, causam muitos problemas aos pais, até o dia em que pedem uma nova babá. Quem chega, voando de guarda-chuva, é a personagem-título (Julie Andrews), que transforma a vida dessa família tradicional, administrada por Mr. Banks (David Tomlinson). O melhor amigo dela é um rapaz que faz apresentações no parque – talvez a interpretação mais conhecida de Dick Van Dyke. Enquanto Mary viaja com as crianças por um mundo encantado (a primeira mistura perfeita de humanos com animação), Banks pretende associá-las ao banco onde trabalha. Mary Poppins é, ao mesmo tempo, um musical e um filme infantojuvenil clássico. Difícil negar sua qualidade e números de dança, como o da chaminé, na qual se mistura a realidade e a fantasia para recriar um novo mundo. Desde a parte técnica, passando pela direção e elenco, a obra de Robert Louis Stevenson baseada em livro de P.L. Travers marcou época.
Em 1971, na mesma linha, foi realizado Se minha cama voasse, do mesmo diretor de Mary Poppins, também com algumas cenas animadas. A atriz da Broadway Angela Lansbury faz uma aprendiz de feiticeira na época da invasão nazista. Utiliza uma de suas mágicas para fazer uma cama voar e leva junto três crianças. Juntas, viajam para um mundo animado (com cenas que lhe valeram o Oscar de efeitos especiais).

A história de O retorno de Mary Poppins inicia em 1935, na mesma Londres no primeiro, agora no período da Grande Depressão. Michael Banks (Ben Wishaw), mais velho e que perdeu sua mulher Kate há um ano, cria os três filhos, Annabel (Pixie Davies), John (Nathanael Saleh) e Georgie (Joel Dawson), com a ajuda da governanta Ellen (Julie Walters). Com problemas no banco, ele precisa travar um embate com o rei William “Weatherall” Wilkins Jr. (Colin Firth), de quem é empregado e é o novo presidente do Fidelity Fiduciary Bank. É um começo que remete muito ao argumento de Os Goonies, embora baseado numa das sequências escritas por P. L. Travers, e Michael e sua irmã Jane (Emily Mortimer), ao lembrarem que o pai deixou ações no Fidelity Fiduciary Bank, passam a procurar a prova da propriedade. Michael encontra a pipa de infância, que coloca em pertences para venda. Quando as crianças veem Mary Poppins descer do céu para ajudá-los, junto com essa pipa, ela é uma brisa literal de esperança.

A partir daí, vem o problema dessa sequência: Jane e Michael, ao reencontrarem Mary Poppins, parecem não sentir nenhuma emoção em especial – apesar de Rob Marshall encadear canções que tentem motivá-la junto aos personagens, repetindo até a mistura entre humanos e animação num dos pontos mais nostálgicos do filme, em que aparece ainda como destaque o acendedor de luzes de rua Marty (Lin-Manuel Miranda) e uma tigela se torna o objeto-chave da narrativa, sendo levada para uma excêntrica Topsy (Meryl Streep, descontrolada e ainda assim um bom acréscimo, reeditando por um breve momento a parceria com Blunt de O diabo veste prada), capaz de arrumá-la. A história segue os passos de Hook – A volta do Capitão Gancho, com a passagem do tempo como conceito de fundo para os acontecimentos e a velha rivalidade da Disney com as cifras (existente só dentro de seus filmes), o que já aparecia este ano no superior Christopher Robin.

Visualmente, O retorno de Mary Poppins é uma peça encantadora: poucas obras nos jogam de volta numa atmosfera dos anos 60, graças ao trabalho de fotografia de Dion Beebe (habitual parceiro de Marshall) e ao figurino irretocável de Sandy Powell (vencedora de três Oscars), com cores remetendo ao trabalho que apresentou em A invenção de Hugo Cabret, mas sem perder o verniz de contemporaneidade, e o elenco tenta lidar bem com o roteiro disperso. Embora Blunt tenha carisma, ela não consegue, em razão do roteiro, se alçar no papel como Julie Andrews, por um detalhe substancial: ela não tem, curiosamente, uma grande presença em cena. Por vezes, sente-se que Mary Poppins está na história apenas para justificar que se trata de uma sequência – ou melhor, um remake disfarçado – do filme de 1964. Blunt cresceu muito como atriz nos últimos anos, porém não lhe é dado o devido espaço para mostrar a atriz talentosa que é, a não ser alguns maneirismos que lembram os de Andrews, curiosamente ausente da sequência mesmo em se tratando de alguma homenagem. Enquanto isso, Lin-Manuel Miranda é uma grata surpresa, rivalizando com a empatia de Dick Van Dyke. Se as fichas fossem concentradas na relação entre Mary Poppins e Marty, a obra certamente cresceria. O problema central é a direção de Marshall, acompanhada pelo roteiro de David Magee, responsável pelos bons diálogos de Em busca da terra do nunca, sobre o criador de Peter Pan e As aventuras de Pi. No entanto, não se deve esquecer que Wishaw, Firth e a atuação das crianças não são pontos para a história criar a densidade, mesmo fantasiosa, de que necessitava.

Vencedor do Oscar por Chicago, ele fez Memórias de uma gueixa, Nine, Caminhos da floresta e outras peças que não primavam pelo estilo próprio. Em O retorno de Mary Poppins, ele tenta captar o que Stevenson fez no primeiro, no entanto o apanha apenas no visual, uma vez que as sequências musicais parecem intrusivas e pouco naturais, embora as canções sejam afetivas, e o embate entre reis das finanças com o homem mais simples é, em se tratando de seus propósitos, no mínimo forçado. Marshall não tem um grande talento para compor momentos grandiosos, e eles existiriam em profusão aqui se melhor encenados, assim como o design de produção se mostra menos amplo do que o esperado, excessivamente de estúdio. Mesmo com todos os elementos à mão, ele sempre prefere a montagem caótica, ligeira demais, quando os temas tratados exigem um tratamento mais lento. É ele certamente o responsável por O retorno de Mary Poppins ser mais um lembrete do quanto o filme de 1964 foi marcante. É agradável, contudo seu potencial exigia ser muito mais do que isso.

Mary Poppins returns, EUA, 2018 Diretor: Rob Marshall Elenco: Emily Blunt, Lin-Manuel Miranda, Ben Whishaw, Emily Mortimer, Julie Walters, Dick Van Dyke, Angela Lansbury, Colin Firth, Meryl Streep Roteiro: David Magee Fotografia: Dion Beebe Trilha Sonora: Marc Shaiman Produção: Rob Marshall, John DeLuca, Marc Platt Duração: 130 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Lucamar Productions, Marc Platt Productions Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

Brooklyn (2015)

Por André Dick

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O espaço para filmes históricos foi preenchido por três filmes no Oscar: O regresso, Ponte dos espiões e Brooklyn. O filme de Iñárritu abriga um velho oeste com grande movimento, o filme de Spielberg é uma retomada sobre o universo da Guerra Fria, enquanto Brooklyn vai numa direção contrária: apesar de mostrar uma imigrante irlandesa, ele não tem especial interesse em desenhar um painel político ou social de sua época, a não ser por breves detalhes nas entrelinhas. Com base num roteiro de Nick Hornby, reconhecido por Alta fidelidade e Um grande garoto, entre outros livros com material pop, adaptado de um romance de Colm Tóibín, Brooklyn estreou no Festival de Sundance, no qual surgem produções que se destacam ao longo do ano.
A história inicia em 1952, quando Eilis Lacey parte de Enniscorthy, pequena cidade da Irlanda, para os Estados Unidos, depois da ajuda de sua irmã Rose (Fiona Glascott), deixando sua mãe (Jane Brennan). Sua viagem de navio lembra imediatamente a de Era uma vez em Nova York, assim como as recomendações que Eilis recebe antes de chegar aos Estados Unidos. No entanto, o filme de Crowley não tem a pretensão do filme de Gray, sendo extremamente simples.

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Eilis passa a viver na pensão de Sra. Kehoe (Julie Walters) junto com outras mulheres, e trabalha num departamento, tendo como chefe Miss Fortini (Jessica Paré), enquanto recebe ajuda para enfrentar a distância de casa do padre Padre Flood (Jim Broadbent). Ao longo de dias de melancolia, Eilis vai a um baile, onde conhece Tony Fiorello (Emory Cohen), de origem italiana, um encanador, que logo se mostra interessado em estabelecer um romance. A narrativa se mostra de maneira compassada: a jovem se adapta à América porque precisa se adaptar, e esquecer um pouco os familiares faz parte do que estaria traçado. Nada fugirá a este script, e talvez seja exatamente isso que torne Brooklyn, em parte, menos surpreendente do que poderia. Junte-se a isso um roteiro de Hornby, conhecido por sua agilidade em termos de diálogos, e torna-se estranho que o filme pelo menos não mostre uma fluência próxima ao contemporâneo, ou seja, algumas situações de Brooklyn se sentem próximas de um filme dos anos 40 e 50.
Quem admirou o visual de Carol, o filme de Haynes, possivelmente não tenha menos motivos para apreciar um design de produção e uma fotografia (assinada por Yves Bélanger, colaborador de Jean-Marc Vallée em Clube de compras Dallas e Livre) notáveis, em alguns momentos lembrando também a beleza de Era uma vez na América, dos anos 80. Nenhum detalhe técnico, por outro lado, supera ou chama mais atenção do que a atuação encantadora de Saoirse Ronan, indicada ao Oscar e que surgiu para o cinema de forma destacada em Hanna e no ano passado também estava na estreia na direção de Ryan Gosling em Lost river, até cantando. No filme de Wright, Ronan já mostrava uma versatilidade: aqui, em cima de um roteiro bastante problemático, ela consegue realmente extrair sensibilidade.

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Quando sua personagem passa a se envolver com Tony e precisa, ao mesmo tempo, ter notícias de sua cidade natal, Ronan se revela uma atriz de talento insuspeito. Nesses momentos, Brooklyn apresenta um retrato da sociedade da época, o sonho de pertencer à fundação de uma América que possa ser próspera para os imigrantes. Brooklyn é muito mais otimista do que outros filmes de imigração, mesmo contendo uma melancolia em sua superfície – que Crowley não eleva a certo material excessivamente emotivo. Falta, com isso, uma espécie de empuxe dramático ou emocional à direção, principalmente porque conta com uma excelente Ronan e as participações de Emory Cohen e Domhnall Gleeson, como Jim, que mora na Irlanda. Em nenhum momento, a história aponta para algum conflito que pudesse lembrar o de Madame Bovary: os personagens parecem estar apenas à espera do que o roteiro já promete de antemão. Nesses anos 1950 de Crowley, parece que não há conflitos nem a Segunda Guerra Mundial é tão recente; não há interesse por escombros e reconstrução de um passado, apenas a tentativa de uma jovem encontrar seu amor e contrabalançar sua vinda para a América com a culpa de ter deixado seus pais e sua irmã.
Há um problema bastante perceptível na estrutura de Brooklyn: sua montagem é muito apressada, não dando espaço à construção dos personagens, como o do padre Flood, embora as motivações da personagem sejam interessantes e bem arquitetadas para o espectador. Eles permanecem apenas figuras dispersas, sem uma real contribuição para a história de Eilis. Tudo parece harmoniosamente clássico, como Carol, minando um pouco as situações nas quais poderia haver mais drama ou humor.

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Quando o diretor consegue ressaltar essas emoções, Brooklyn cresce, por exemplo, na sequência em que Tony apresenta Eilis à sua família: o Sr. Fiorello (Paulino Nunes), Sra. Fiorello (Ellen David) e seus irmãos Maurizio (Michael Zegen), Frankie (James DiGiacomo) e Laurenzio (Christian de la Cortina). Frankie, principalmente, é o destaque desta família. Esta sequência se constitui no momento em que Brooklyn mais exibe sua potencialidade de mostrar um ambiente familiar e os conflitos possíveis entre duas culturas – a italiana e a irlandesa – de modo afetivo, principalmente pela atuação de Cohen, um ator que se destacou anteriormente no belo O lugar onde tudo termina.
Brooklyn, sob qualquer ângulo, é mais uma fantasia sobre a imigração, e isso transparece na luz solar que o diretor Crowley capta, com uma câmera lenta um pouco incômoda, lembrando excessivamente telefilmes antigos, mas, por causa do elenco, de Ronan sobretudo, atinge uma emoção verdadeira em certos momentos, quando ela fica em dúvida se deve ficar com a descoberta da América ou voltar ao velho mundo, à segurança de estar num lugar de origem. Não há uma dramatização intensa revelando isso, acabando por prejudicar o empenho do elenco em trabalhá-la, mas Brooklyn possui uma certa sinceridade que outras obras com mais pretensão não capturam, o que não o afasta de um modo de fazer cinema já clássico e cujo hype suscitado pelo Oscar apenas o prejudica.

Brooklyn, IRL, 2015 Diretor: John Crowley Elenco: Saoirse Ronan, Domhnall Gleeson, Julie Walters, Emory Cohen, Jim Broadbent, Mary O’Driscolll Roteiro: Nick Hornby Fotografia: Yves Bélanger Trilha Sonora: Michael Brook Produção: Finola Dwyer Duração: 111 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Irish Film Board / Item 7 / Parallel Film Productions / Wildgaze Films

Cotação 3 estrelas