História de um casamento (2019)

Por André Dick

Revelado no final dos anos 90, o diretor Noah Baumbach passou a se destacar quando coescreveu A vida marinha com Steve Zissou com Wes Anderson e fez A lula e a baleia, um drama sensível sobre uma família envolvida pela arte com um núcleo em processo de separação. Seus filmes posteriores, de certo modo, sempre desenvolveram essa ideia de família sendo investigada em seus pormenores, seja por meio de uma figura frustrada (Greenberg), ou uma jovem que gostaria de ser artista (Frances Ha), ou ainda casais que se sentem adolescentes numa época errada (Enquanto somos jovens). Baumbach, em 2017, fez um dos melhores filmes da década, Os Meyerowitz, demitido de Cannes por Pedro Almodóvar mesmo antes de sua estreia. Nele, o diretor concentrava os ganhos anteriores com uma história muito bem narrada sobre um pai de família dedicado à arte que se via numa situação difícil em meio aos filhos.

Agora, ele regressa com o que parece ser o destaque de sua carreira, devido ao hype desde o lançamento no Festival de Toronto: História de um casamento, nova parceria com a Netflix. Baumbach escolhe como cenário original a cidade de Nova York, como fez em seus filmes anteriores, desta vez mostrando um diretor de teatro, Charlie Barber (Adam Driver), casado com uma atriz, Nicole (Scarlett Johansson), a musa de suas peças. Ela teve um breve sucesso em Hollywood com um filme de adolescentes e, quando se mudou para Nova York, apaixonou-se pelo que viria a se tornar seu marido. Ambos têm um filho, Henry (Azhy Robertson), que passa a ser o ponto crítico de um divórcio. Para tratar dele, Nicole contrata a advogada Nora Fanshaw (Laura Dern), e Charlie, Bert Spitz (Alan Alda), depois de passar pelo escritório do desconfiado Ray Marotta (Ray Liotta). Enquanto Nora é rigorosa, Bert é mais pacífico.
Baumbach mostra que Nicole deseja se separar porque, principalmente, quer se dedicar a ser atriz de uma série de TV em Los Angeles. No início, como em sua filmografia, Baumbach apanha algumas influências básicas de Woody Allen, o que fez com que sua carreira fosse vista, de certo modo, como uma homenagem ao criador de Noivo neurótico, noiva nervosa. Em História de um casamento, ele sublinha Charlie como um artista egocêntrico, mas que deseja acompanhar o crescimento do filho. É interessante como Baumbach se dedica a mostrar esses personagens com nuances definidas. Charlie é um tanto manipulador, sendo amigo da mãe da esposa, Sandra (Julie Hagerty), e de sua irmã, Cassie (Merritt Wever), sem antes perguntar sobre como Nicole se sentiu nos episódios de TV que passou a gravar.

Ele é uma espécie de incógnita, que parece dedicado plenamente a seu filho, no entanto não vê o casamento como uma possibilidade de dialogar com sua carreira artística, não da maneira que gostaria. Aos poucos, no entanto, Baumbach vai se afastando dos maneirismos de Allen para ingressar num drama que faz lembrar, em seu estilo, fotografia e trilha sonora, o grande vencedor do Oscar de 1980, Kramer vs Kramer, sobre um pai (Dustin Hoffman) e uma mãe (Meryl Streep) disputando na justiça a guarda do filho.
História de um casamento, sob esse ponto de vista, não é original. Mas, em razão das atuações notáveis de Adam Driver e Scarlett Johansson, ambos nos melhores momentos de suas trajetórias, torna-se um estudo muito interessante como um divórcio pode mover personagens a mudar interiormente e deslocarem seus maiores objetivos para algo que pode ser mais sensível e atemporal, ligado aos filhos e a uma ideia de família, embora não seja exatamente aquela esperada. O personagem de Driver, nesse sentido, é significativo. Do mesmo modo, Baumbach vê a ação dos advogados como pessoas que interferem diretamente não apenas na privacidade, mas no rumo e na conveniência do que obriga cada um a se adaptar, e nesse sentido Dern, Liotta e Alda são bastante funcionais. Detalhes da vida íntima vêm à tona em troca de direitos e acusações são feitas no tribunal, enquanto existe um alívio nas conversas privadas. Há pelo menos uma cena de conflito entre os personagens de Driver e Johansson que estão entre algumas das melhores já feitas, não apenas porque a teatralidade funciona, como também, ao mesmo tempo, impulsionado pelas atuações, surge a autenticidade do sentimento exposto.

Chama a atenção, igualmente, como Baumbach entrelaça o cenário de ruas lotadas de Nova York e os preparativos da peça de Charlie para estrear na Broadway com as ruas cheias de palmeiras de Los Angeles e o apartamento a ser preenchido ainda por móveis, para evocar um estabelecimento provisório a fim de se lutar pela guarda do filho. Tudo guarda uma estética dos anos 70, impressão consolidada pela trilha sonora de Randy Newman e pela fotografia de Robbie Ryan, criando uma textura caseira e documental para cada cena, porém sem menosprezar o trabalho de luzes e sombras. Isso cria uma sensação extra de solidão dos personagens. No entanto, Baumbach não conduz tudo para um mero drama conjugal nem se apega àquilo que sustentava alguns de seus filmes, um humor patético, e sim para um teatro contundente sobre como o embate pode levar pessoas a se recolocarem no mundo, tentando descobrir o que as levou até determinado ponto e sem negar os sentimentos de afeto. Em alguns momentos, parece que História de um casamento está tratando de um divórcio. Na verdade, ele está tratando, de modo pouco usual e brilhante, da verdadeira conciliação.

Marriage story, EUA, 2019 Diretor: Noah Baumbach Elenco: Scarlett Johansson, Adam Driver, Laura Dern, Alan Alda, Ray Liotta, Julie Hagerty, Merritt Wever Roteiro: Noah Baumbach Fotografia: Robbie Ryan Trilha Sonora: Randy Newman Produção: David Heyman, Noah Baumbach Duração: 136 min. Estúdio: Heyday Films Distribuidora: Netflix