Halloween (2018)

Por André Dick

Em 1978, John Carpenter, um mestre do terror e do suspense, criou uma das franquias mais exitosas do gênero, com Halloween, tendo à frente a jovem Jamie Lee Curtis e um assassino por trás de uma máscara, Michael Myers. Ele rendeu uma série de sequências, a segunda com o mesmo estilo, assinada por Rick Rosenthal, e a terceira mudando a perspectiva para um tom mais fantasioso. Depois, vinte anos depois, tivemos Halloween H-20 – Vinte anos depois, com a personagem de Curtis de volta, assim como em Halloween – Ressurreição. Já em 2007 e 2009 Rob Zombie fez uma reinicialização da saga contra o psicopata, desta vez com um estilo mais hiperbólico, com violência ao extremo e um excesso de luzes que remetia a um clube noturno.
O novo Halloween se passa quatro décadas depois do que aconteceu na noite enfocada pela obra clássica de John Carpenter. A localidade é a mesma: Haddonfield, Illinois. No entanto, o filme começa com jornalistas, Aaron Korey (Jefferson Hall) e Dana Haines (Rhian Rees), que vão para o Sanatório de Smith Grove tentar entrevistar Michael Myers (Nick Castle sem máscara e James Jude Courtney com), tratado pelo Dr. Ranbir Sartain (Haluk Bilginer), que substituiu o Dr. Samuel Loomis (Donald Pleasence).

Os jornalistas buscam, em seguida, de Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), a sobrevivente da chacina de 1978. Sua relação com a família é distante, tendo perdido a guarda de sua filha, Karen Nelson (Green), que se casou com Ray (Toby Huss) e teve a filha Allyson (Andi Matichak). Esta tem como amigos Vicky (Virginia Gardner) e Dave (Milles Robbins) e namora Cameron Elam (Dylan Arnold).
Se a história continua a história de 1978, desconsiderando as continuações, pode-se dizer que o estilo é mais interessante, sob o ponto de vista de movimentação de câmera, o que se deve à presença de David Gordon Green na direção, cineasta de origem indie. Diretor de obras respeitadas (George Washington, Prova de amorContra corrente), Gordon Green nos últimos anos se situou entre comédias desconexas (Sua alteza), retratos de homens comuns (Joe e Príncipes da estrada) e uma análise semidocumental das eleições (Especialista em crise, uma espécie de No com Sandra Bullock), mas voltou a mostrar seu melhor em O que te faz mais forte. Isso inclui diálogos críveis e uma montagem suficientemente atraente para que não esqueçamos da importância de cada personagem e do drama existencial maior que cerca cada pessoa. Seu filme comove do melhor modo e dá a importância adequada aos acontecimentos enfocados.

No entanto, o que o diretor Green faz é muito mais eficaz: ele mostra como um determinado acontecimento lida não apenas com o extremo da pessoa visivelmente atingida por um atentado terrorista, Jeff Bauman (Jake Gyllenhaal), como aqueles familiares que o cercam, do mesmo modo que os amigos próximos. Essa característica se reproduz na maneira que enfoca Laurie Strode, traumatizada por décadas com Michael Myers e que construiu uma casa que parece uma fortaleza contra o crime. Há, sem dúvida, um posicionamento crítico e social na visão de Gordon Green. Aqui, as mulheres resistem ao mal, enquanto os homens, de certo modo, são fracos ou fascinados pela figura do psicopata, ou simplesmente desconsideram a segurança da família (sim, de modo geral, eles são os vilões). Laurie não quer depender da polícia, adquirindo suas próprias armas para defesa, mesmo porque aquela não lhe ofereceu segurança no primeiro filme. O xerife Frank Hawkins, (Will Patton) simplesmente não consegue organizar seus comandados, enquanto pensar muito não parece ser o forte de Dr. Ranbir. A neta de Laurie também, em determinado momento, enfrenta o namorado diante de uma atitude dele, enquanto Dave recua em defender Vicky numa sequência que envolve o menino Julian Morrisey (Jibrail Nantambu), de quem ela é babá, num diálogo direto com o original de Carpenter, aqui um dos colaboradores da antológica trilha sonora.

O roteiro de Jeff Fradley, Danny McBride e David Gordon Green, nesse sentido, é interessante na sua maneira de editar as passagens, sem excessos. A primeira meia hora, principalmente na visita dos jornalistas a Myers no sanatório, é muito bem feita e simbólica. Eles caminham em direção ao criminoso sobre um chão pintado como se fosse um tabuleiro gigante, antecipando as próprias ações a seguir: saber quais personagens escaparão de Myers será o principal. Depois, Laurie observa sua neta Allyson a distância, do lado de fora do colégio, como se fosse um espectro, igual a Myers no original observando os jovens pelas ruas, mostrando seu trauma inabalável. Green mescla o estilo dos anos 70 a uma nova visão de cinema, com destaque para a iluminação dos ambientes, não apenas pelo uso de luzes quanto pela mescla entre o ambiente noturno, entrecortado pelas abóboras iluminadas nas ruas e varandas das casas, e as sirenes dos carros de polícia, influenciado não apenas pelo Carpenter dos anos 70, como por Corrente do mal, de David Robert Mitchell, e Nicolas Winding Refn (além de uma breve homenagem a Sombras da vida, na cena do lençol de fantasma). A elegância de sua direção é essencial para a permanência do gênero de terror nesta releitura, servindo também como sequência, muito digna de um clássico.

Halloween, EUA, 2018 Diretor: David Gordon Green Elenco: Jamie Lee Curtis, Judy Greer, Andi Matichak, Will Patton, Virginia Gardner, Nick Castle Roteiro: Jeff Fradley, Danny McBride, David Gordon Green Fotografia: Michael Simmonds Trilha Sonora: John Carpenter, Cody Carpenter, Daniel Davies Produção: Malek Akkad, Jason Blum, Bill Block Duração: 105 min. Estúdio: Miramax, Blumhouse Productions, Trancas International Films, Rough House Pictures Distribuidora: Universal Pictures

Homem-Formiga e a Vespa (2018)

Por André Dick

O universo estendido da Marvel já teve dois filmes este ano, Pantera Negra e Vingadores – Guerra infinita. A eles vem se juntar a sequência daquele que seria o mais despretensioso do conjunto, lançado em 2015. Todos sabem que a parceria dos estúdios Disney com a Marvel vem resultando numa sequência de obras com variados super-heróis: Thor, Homem de Ferro e Capitão América, entre outros. Enquanto isso, paralelamente, a Fox tem feito franquias de X-Men e Deadpool. Homem-Formiga é um dos personagens mais improváveis desse universo. O primeiro tinha a colaboração no roteiro de Edgar Wright, o mesmo de Chumbo grosso e Scott Pilgrim contra o mundo, com Joe Cornish, que escreveram As aventuras de Tintim. Quem o substituiu na direção do filme antes de começarem as filmagens foi Peyton Reed, que regressa para a sequência. Ele tem uma obra muito curiosa sobre o amor com o estilo dos anos 50 (Abaixo o amor) e também dirigiu Jim Carrey numa de suas melhores comédias pós-anos 90, o subestimado Sim, senhor, uma sátira também aos gurus da autoajuda.

Desta vez, Homem-Formiga e a Vespa conta com um roteiro assinado a dez mãos por Chris McKenna e Erik Sommers (dupla de LEGO Batman – O filme), além de Paul Rudd, Andrew Barrer e Gabriel Ferrari. Scott Lang (Paul Rudd) teve problemas com a justiça depois de ajudar o Capitão América a enfrentar o Homem de Ferro em Guerra Civil e é vigiado pelo agente da SHIELD Jimmy Woo (Randall Park). Por isso, ele tenta conviver o máximo com sua  filha, Cassie (Abby Ryder Fortson), dentro de casa, em brincadeiras que remetem a Os Goonies, enquanto tem a ajuda da antiga mulher, Maggie (Judy Greer), casada com o policial Paxton (Bobby Cannavale).
Ele está afastado de Hank Pym (Michael Douglas), cuja filha Hope van Dyne (Evangeline Lilly) se transforma na super-heroína Vespa e estão atrás, no universo quântico descoberto por Lang no primeiro filme, de Janet (atriz em participação surpresa), mãe de Hope. No entanto, algo os aproxima novamente – e essa química entre eles reproduz boa parte daquele filme de 2015, com Douglas, Rudd e Lilly trocando farpas de modo engraçado. E novamente estão de volta o amigo Luis (Michael Peña), com os parceiros atrapalhados Kurt (David Dastmalchian), gênio da informática, e Dave (T.I.). A ameaça parece ser Ava Starr/Ghost (Hannah John-Kamen), acompanhada por Bill Foster (Laurence Fishburne), porém surge pelo caminho também Sonny Burch (Walter Goggins), um negociante do mercado subterrâneo de tecnologia.

Como no filme de 2015, o humor leve não soa forçado, nem mesmo em seus ligeiros flashbacks, inspirados claramente nas ideias de Edgar Wright. Pelo universo tecnológico envolvido, novamente há as referências à SHIELD, mas esta sequência se mostra próxima de Homem-Aranha – De volta ao lar, com uma passagem de Lang por um colégio, que rende uma das cenas divertidas do filme. Tudo é ainda despretensioso, embora os personagens não sejam mais novidade. O que interessa é como Reed desenha esse super-herói: ele não tem as pretensões de outros, nem carrega uma tentativa de lado épico, apegando-se ao cotidiano, e isso o torna inegavelmente humano. Outra qualidade é a falta de ligação explícita com o universo expandido, que distrai em demasia a atenção do espectador para o próprio filme, às vezes incorrendo num didatismo desnecessário.
O ator Paul Rudd é, de longe, um dos comediantes subestimados de sua geração, com boas participações em O virgem de 40 anosA razão do meu afeto As patricinhas de Beverly Hills. No início desta década, ele participou de Como você sabe, uma tentativa de James L. Brooks reproduzir Melhor é impossível, e depois fez o professor de As vantagens de ser invisível, além de interpretar seu melhor papel, em Bem-vindo aos 40. Com sua mescla entre um humor agridoce e um sentimentalismo bem dosado, ele não tem tanta chance de mostrar sua empatia como no primeiro e quem conquista o espaço novamente é Peña, no papel do amigo atrapalhado, que tem um momento de interrogatório que remete a um dos meninos de Os Goonies, enquanto Douglas é competente e Lilly adorável no papel de elo romântico. Cannavale não tem a mesma participação convincente do primeiro filme, aparecendo um pouco deslocado, assim como Greer, mas Goggins compensa (era um destaque já em Os oito odiados, de Tarantino).

Igual ao primeiro, impressiona como Reed consegue aliar um triunfo de técnica e bom humor. Não são poucas as vezes em que é surpreendente como ele coloca Lang entre o mundo dos insetos e o mundo dos homens de maneira que a fantasia nunca soe excessiva, sobretudo nas sequências de confronto, principalmente, desta vez, com casas e edifícios encolhendo, assim como carros de todos os tipos, em perseguições que remetem a Bullit dos anos 60, auxiliadas pela fotografia do sempre competente Dante Spinotti, mesmo que com um jogo de cores menos atrativo daquele do primeiro, mais lúdico. Nessa mesma linha, o design de produção não se mostra suficientemente criativo, levando em conta que Reed dirigiu o visualmente belíssimo Abaixo o amor, esquecido em categorias técnicas pelo Oscar em 2003. Os movimentos da Vespa são, de qualquer modo, captados com uma resolução notável, um verdadeiro feito na área, assim como o universo quântico possui uma esplendorosa concepção molecular, lembrando o momento da criação de A árvore da vida, de Malick. Novamente, e ainda mais que o primeiro, ele dialoga com Querida, encolhi as crianças – e os efeitos da Industrial Light & Magic se expandiram realmente, embora o lado artesanal do filme de Johnston em 1989, ano em que inicia o primeiro Homem-Formiga, tenha seus méritos – e Querida, estiquei o bebê. De qualquer modo, Homem-Formiga e a Vespa se ressente de um roteiro ágil como o do primeiro, capaz de entrelaçar as gags com a ação de maneira afetiva e impondo aqui o drama existencial de Ghost, que destoa um pouco do conjunto, embora seja bem trabalhado em alguns momentos, inclusive visualmente. Isso não o impede de ser novamente uma das obras exitosas do universo expandido da Marvel.

Ant-man and the wasp, EUA, 2018 Diretor: Peyton Reed Elenco: Paul Rudd, Evangeline Lilly, Michael Douglas, Michael Peña, Walton Goggins, Bobby Cannavale, Judy Greer, Tip “T.I.” Harris, David Dastmalchian, Hannah John-Kamen, Abby Ryder Fortson, Randall Park, Laurence Fishburne Roteiro: Chris McKenna, Erik Sommers, Paul Rudd, Andrew Barrer, Gabriel Ferrari Trilha Sonora: Christophe Beck Fotografia: Dante Spinotti Produção: Kevin Feige, Stephen Broussard Duração: 118 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

15h17 – Trem para Paris (2018)

Por André Dick

Este é considerado por muitos o pior filme da carreira de Clint Eastwood. No entanto, há filmes de Eastwood considerados obra-primas e que sequer são bons, embora a média geral seja de grande qualidade. Sua obra mais recente se baseia numa história real, envolvendo Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos, soldados dos Estados Unidos que viajam pela Europa, a fim de buscar diversão e descanso.
A história de 15h17 – Trem para Paris começa um pouco antes, mostrando-os desde a infância, quando tinham interesse por armas e eram mandados para a sala do diretor do colégio onde estudavam. Stone (interpretado então por William Jennings) e Alek eram mais próximos; depois, Sadler (Paul Mikél-Williams) se aproxima de ambos. Do mesmo modo, desenha-se a ligação de Stone com sua mãe Joyce (Judy Greer) e de Alek (Bryce Gheisar) com sua mãe Heidi (Jenna Fischer).

Esta interligação com eles ainda crianças mostra uma certa simpatia de Eastwood pela construção do herói improvável e seu filme é uma obra filmada como ficção, mas que poderia ser um documentário, já que conta com as figuras reais em ação na vida adulta. Inicialmente, se o espectador desconhece a história, a sensação é de Eastwood mostrar a cultura armamentista já visualizada no belíssimo Elefante, vencedor da Palma de Ouro em Cannes. Ao mesmo tempo, se quer mostrar a criação religiosa principalmente de Stone. Trata-se de um clima pouco visto na filmografia do diretor: o da infância, com alguns recursos nostálgicos de imagens no bosque, o contato com a natureza, diminuído depois pelos corredores do exército.
Afirma-se que, por isso, o elenco tem um tom amador, entretanto é justamente essa despretensão que torna a narrativa de Eastwood interessante. Há elementos de Sniper americano aqui, um movimento elegante de câmera e intensifica sua tensão no ato final com perícia de um grande diretor. Baseado no livro The 15:17 to Paris: The True Story of a Terrorist, a Train, and Three American Heroes, de Jeffrey E. Stern, Spencer Stone, Anthony Sadler e Alek Skarlatos, o roteiro de Dorothy Blyskal se caracteriza pela agilidade. A naturalidade dos acontecimentos dialoga muito bem com obras recentes sobre jovens militares, a exemplo de A longa caminhada de Billy Lynn e Honra ao mérito.

É possível apontar algum reducionismo na maneira como algumas situações são enfocadas, no entanto é inegável que Eastwood tem talento. O ambiente militar trazido por este filme e Sniper de certo modo se espalha pela trajetória do diretor. Temos, por exemplo, Firefox e O destemido senhor da guerra nos anos 80, assim como Cartas para Iwo Jima e A conquista da honra. Nesses filmes, Eastwood visualiza seus personagens de maneira a nunca tratá-los como uma extensão do discurso que existe por trás deles.
Talvez seja mais interessante desconhecer a história verdadeira antes de assistir a 15h17 – Trem para Paris, assim como não ver o trailer e ler críticas, que basicamente sintetizam o que ocorre. Não sabia o que iria acontecer (talvez eu tenha visto matérias na época do acontecimento, mas há fatos divulgados em tanta quantidade nos tempos modernos que notadamente acabamos não lembrando de todos) – e isso aumentou a tensão. O fato de ter sido demolido pela crítica diz muito mais desta do que da qualidade do filme, e talvez decorra do fato de o roteiro não trabalhar também o ponto de vista de quem leva a ação às consequências finais da narrativa. E do elenco Sadler é um inevitável destaque; mesmo interpretando a si mesmo, ele confere mais dramaticidade do que os outros.

O final pode se sentir muito formal e previsível, principalmente em relação à sequência-chave da história (com uma crueza bem trabalhada e uma sensação de combate iminente), no entanto poucos filmes falam de como uma pessoa comum pode se tornar verdadeiramente importante num determinado momento em que é requisitada a agir. Esse tema acaba dialogando diretamente com a bela obra anterior do diretor, Sully – O herói do Rio Hudson, com uma atuação magistral de Tom Hanks e um tom documental que não se deixava abater pela neutralidade ou alguma frieza diante dos acontecimentos. Eastwood, acostumado a faroestes clássicos no início de sua carreira e até especialmente a obra-prima Os imperdoáveis, deixa que as figuras enfocadas falem por si, e isso é raro no cinema norte-americano.

The 15:17 to Paris Diretor: Clint Eastwood Elenco: Anthony Sadler, Alek Skarlatos, Spencer Stone, Judy Greer, Jenna Fischer,William Jennings, Paul Mikél-Williams, Bryce Gheisar Roteiro: Dorothy Blyskal Fotografia: Tom Stern Trilha Sonora: Christian Jacob Produção: Clint Eastwood, Jessica Meier, Tim Moore, Kristina Rivera Duração: 94 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, Village Roadshow Pictures, Malpaso Productions, RatPac-Dune Entertainment Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Homem-Formiga (2015)

Por André Dick

Homem-Formiga 7

A parceria dos estúdios Disney com a Marvel vem resultando numa sequência de filmes com os mais variados heróis: Thor, Homem de Ferro, Capitão América. Enquanto isso, paralelamente, a Fox tem feito franquias do Homem-Aranha continuamente, trocando o ator a cada cinco anos, quando não antes. No próximo ano, a DC Comics finalmente colocará em cena o duelo entre Batman e Superman, já visualizado nos quadrinhos de Frank Miller. No entanto, um dos heróis mais improváveis a sair dessa parceria da Marvel com Disney é outro. Enquanto Homem de Ferro, Thor e Capitão América, e ainda Hulk (que não possui ainda um filme solo com o ator atual, Mark Ruffalo), são bastante conhecidos, mesmo para quem não acompanha quadrinhos, o Homem-Formiga parecia, em primeiro lugar, não anunciar um projeto seguro. No início, foi chamado Edgar Wright para dirigi-lo. Wright é o responsável por filmes de grande humor, violência e ação, a exemplo de Chumbo grosso e Scott Pilgrim contra o mundo, principalmente em sua parceria com Simon Pegg, reproduzida também em Heróis de ressaca. É ainda Wright um dos responsáveis pelo roteiro de Homem-Formiga, ao lado de Jay Cornish, autor da história de As aventuras de Tintim, Adam McKay e Paul Rudd. No entanto, quem assumiu a direção foi o mais improvável ainda Peyton Reed. Enquanto ele possui um par de obras menos felizes (Abaixo o amor e Separados pelo casamento), também dirigiu Jim Carrey numa de suas melhores comédias pós-anos 90, o subestimado Sim, senhor, uma sátira também aos gurus da autoajuda.

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Homem-Formiga 18

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Esta influência de Reed e Wright, com humor, é a principal chamada de Homem-Formiga. Scott Lang (Paul Rudd) é um prisioneiro. Depois de liberado, quem o recebe de volta à vida é o amigo Luis (Michael Peña). Para infelicidade de Lang, ele tem planos de novos assaltos, com a ajuda dos amigos Kurt (David Dastmalchian), gênio da informática, e Dave (T.I.). Eles certamente formam algo que se assemelha a um trio pouco inclinado a invadir propriedades sem chamar a atenção. O personagem principal pretende rever a convivência com a  filha, Cassie (Abby Ryder Fortson), mas se depara com a antiga mulher, Maggie (Judy Greer, a mãe preocupada com os filhos dos filmes do verão norte-americano, a julgar também por Jurassic World), e o seu novo marido, o policial Paxton (Bobby Cannavale), que exigem dele um emprego e o pagamento da pensão. Ao mesmo tempo, Darren Cross (Corey Stoll) está fazendo experimentos, iniciados tempos atrás com Hank Pym (Michael Douglas), cuja filha Hope van Dyne (Evangeline Lilly) está à frente ainda da empresa que era dele e cujo desaparecimento da mulher ainda é um mistério. Cross não é alguém certamente confiável, pois está tentando reproduzir um experimento iniciado por Pym com partículas, a fim de criar o Yellowjacket, e o destino colocará Lang no rumo desses acontecimentos.
Diferente dos demais heróis da Marvel, o passado de Lang e o interesse que provoca é justamente por sua habilidade em roubos, em burlar sistemas a princípio invioláveis. Ao contrário dos demais, como o de Stark em revolucionar a tecnologia, ou Thor com seu entorno de disputa pelo poder de Asgard, ele pretende, por meio da possibilidade de ser o Homem-Formiga, em conseguir novamente ver a filha. Também não se transforma como esses heróis com um poder externo ou interno a ele, nem é picado por um inseto antes de adquirir poderes, nem é um cientista como Banner ou Stark. Ele simplesmente aceita usar o uniforme de Homem-Formiga e aprender a lidar com uma tropa de insetos, que ficam gigantes perto dele.

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Não estamos diante de Tropas estelares, de Paul Verhoeven, com sua compulsão por bílis de monstros; Homem-Formiga é para um público infantojuvenil. Ele tem diálogos maiores com Querida, encolhi as crianças – e os efeitos da Industrial Light & Magic se expandiram realmente 25 anos depois, embora o lado artesanal do filme de Johnston em 1989, ano em que inicia Homem-Formiga, tem seus méritos – na maneira como mostra, por exemplo, o herói em meio aos insetos num jardim caseiro. Ainda assim, a produção de Reed não se sente descartável, como muitos blockbsusters. Particularmente, mesmo que se considere Capitão América 2 uma grande conquista da Marvel, acompanhada por Guardiões da galáxia, Homem-formiga me pareceu o filme de herói solo mais interessante desta leva. Ele tem uma composição que parece acessível e pouco original, mas consegue lidar com a fórmula de maneira muito eficiente, não apenas em razão dos efeitos especiais excelentes, como também por causa do elenco e do design de produção situado entre o tecnológico e o caseiro (a moradia de Pym ou da filha de Lang, com um trem que trará uma das cenas-chave da produção, como já se vê no trailer). Do mesmo modo, o humor leve não soa forçado, nem mesmo em seus flashbacks, certamente um acréscimo de Edgar Wright, cujas histórias trazem certamente esse elemento, principalmente em Chumbo grosso e Scott Pilgrim. E há as referências à S..H.I.E.L.D. e à Hydra, assim como a participação de um dos personagens já vistos anteriormente em Capitão América e Os vingadores.
Talvez seja a simplicidade de Reed em lidar com elementos pouco originais e ainda contar com um elenco tão interessante que torna Homem-Formiga numa diversão superior ao que se espera. O ator Paul Rudd é, de longe, um dos comediantes mais subestimados de sua geração, com boas participações em O virgem de 40 anosA razão do meu afeto e As patricinhas de Beverly Hills. No início desta década, ele participou de Como você sabe, uma tentativa de James L. Brooks reproduzir Melhor é impossível, sem efetivamente conseguir, e depois o professor de As vantagens de ser invisível.

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Como o Homem-Formiga, ele consegue lidar com um aspecto bem humorado, no entanto sem querer repetir Robert Downey Jr. Ao seu lado, Michael Douglas consegue um bom papel, sem chamar atenção demais, equivalendo a Stanley Tucci em Capitão América na esperança de ter escolhido a pessoa certa para efetuar o que precisa, enquanto Evangeline Lilly tem uma composição agradável. Stoll é um vilão também plausível e há uma cena de ameaça num banheiro masculino que remete àquela do RoboCop dos anos 80. Além disso, o trio de amigos de Lang consegue ser interessante para o fluxo da narrativa.
Impressiona como Reed consegue utilizar todos esses elementos, junto com o elenco, na realização de um filme que coloca uma ideia a princípio apenas curiosa em um triunfo de técnica e bom humor. Não são poucas as vezes em que é surpreendente como ele coloca Lang entre o mundo das formigas e o mundo dos homens de maneira que a fantasia nunca soe excessiva, sobretudo nas sequências de confronto e mesmo quando ele precisa contar com a ajuda dos insetos para entrar nos lugares mais imprevistos, com o auxílio da fotografia excepcional de Rusell Carpenter, que recebeu um Oscar por Titanic, lembrado num determinado momento da trama. Do mesmo modo, Reed desenha essas sequências com uma agilidade grande, ao colocar o humor como válvula de escape. Neste sentido, Homem-formiga chega àquele limite muito difícil de ser traçado, entre um filme apenas meramente divertido e realmente bem feito; ele se inclina com êxito para a segunda característica.

Ant-man, EUA, 2015 Diretot: Peyton Reed Elenco: Paul Rudd, Michael Douglas, Corey Stoll, Evangeline Lilly, Michael Peña, Bobby Cannavale, Judy Greer Roteiro: Adam McKay, Edgar Wright, Joe Cornish, Paul Rudd Fotografia: Russell Carpenter Trilha Sonora: Christophe Beck Produção: Kevin Feige Duração: 117 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Big Talk Productions / Marvel Enterprises / Marvel Studios

Cotação 4 estrelas

Jurassic World – O mundo dos dinossauros (2015)

Por André Dick

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Em 1993, no mesmo ano em que lançou A lista de Schindler, pelo qual recebeu o Oscar de melhor filme e direção, Spielberg voltou ao antigo ingrediente que o consagrou na série Indiana Jones num dos maiores blockbusters já feitos, Jurassic Park. Baseada num excelente romance de Michael Crichton (também autor do roteiro, com David Koepp), a narrativa se concentra na jornada de um paleontólogo (Sam Neill) e sua mulher, uma paleobotânica (Laura Dern), até a Ilha Nublar, próxima à Costa Rica, onde se localiza um recém-criado parque dos dinossauros administrado por um magnata (o também diretor Richard Attenborough). As criaturas pré-históricas voltaram a existir por causa de um experimento genético e mosquitos congelados em rochas, assustando tanto a dupla de doutores quanto um matemático (Jeff Goldblum), que estão na ilha para inspecionar o parque. As cenas a partir daí são um marco para o cinema de ação.
Apesar da lição de moral previsível, Jurassic Park tem uma qualidade inegável: empolga o espectador, que acaba gostando, diante de um roteiro bem solucionado e um elenco talentoso. Além disso, o capricho na parte técnica (sobretudo nos efeitos especiais espetaculares, que continuam os melhores nessa área) tornam o filme uma obra única na história, capaz de suscitar imitações e manter a originalidade.
Também deu origem a duas continuações, a primeira novamente dirigida por Steven Spielberg (com Julianne Moore à frente do elenco) e a segunda, de Joe Johnston, embora o maior filme com dinossauros depois do primeiro Jurassic Park possivelmente seja King Kong, de Peter Jackson. E, se a primeira continuação, O mundo perdido, ainda consegue render uma boa sessão, Johnston não consegue trazer inovação. Já fazem 14 anos desde este último experimento, e desde lá os dinossauros parecem um tanto adormecidos nas grandes telas.

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A expectativa é de que Jurassic World – O mundo dos dinossauros, a nova continuação, não mais dirigida por Spielberg (que apenas produz) e sim por Colin Trevorrow, fosse trazer uma certa magia poucas vezes reencontrada. Deve-se lembrar que Spielberg, afastado dos blockbusters, conseguiu transformar Jurassic World na maior bilheteria de abertura da história. Esta grandeza é acompanhada novamente pelas criaturas. Lá estão elas novamente, junto com um novo casal – embora sempre em briga – formado por Owen Grady (Chris Pratt) e Claire Dearing (Bryce Dallas Howard) . Ela é uma executiva responsável pelo funcionamento do parque, enquanto ele treina investiga o comportamento dos velociraptors. Em torno deles, a pesquisa do geneticista Dr. Henry Wu (B.D. Wong) produziu o Indominus rex, um híbrido de vários dinossauros, mas que lembra substancialmente um Tiranossaurus Rex. O objetivo: atrair mais pessoas para o parque, pois sua visitação tem diminuído e o público pede por novidades.
Depois de sua irmã Karen Mitchell (Judy Greer) enviar os dois sobrinhos para o parque, Zach (Nick Robinson) e Gray (Ty Simpkins), a fim de que se divirtam, Claire consegue se desvencilhar deles, que ficam uma cuidadora. Esses personagens formam as mesmas características do primeiro Jurassic Park e as crianças novamente estão interessadas em se envolver com o que está escondido na mata. Temos ainda o dono do Jurassic World, Simon Masrani (Irrfan Khan), com as mesmas dúvidas do dono original.
Indefinido entre ser uma continuação ou um remake, Jurassic World infelizmente não funciona, de modo geral, nessas duas concepções. Neste ano, tivemos o altamente subestimado remake de Poltergeist, mesmo com todas suas falhas. Não seria Trevorrow que conseguiria emular Spielberg: ele procura os meios iguais, e a mesma tendência não só ao uso do clássico sinfônico de John Williams, mesmo com a trilha nova de Michael Giacchino, os mesmos temas (a separação dos pais para os filhos), a mesma manipulação emocional e a mania de os personagens se transformarem subitamente pela força de vontade, no entanto ele não é Spielberg e tudo parece soar um pouco desconjuntado.

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Claire passa de uma executiva de terno a uma espécie de Ripley quando apresenta sua regata e diz que nunca mais abandonará os sobrinhos, dos quais queria distância, enquanto Owen tem um domínio insuspeito sobre os velociraptors (eles parecem querer conversar). Não só Owen parece querer conversar com as criaturas, como também Vic Hoskins (Vincent D’Onofrio), o chefe da segurança do lugar, aquele que trocaria todas as milhares de pessoas em visita ao parque por uma tentativa de estabelecer contato com dinossauros geneticamente alterados. Quando ele age, o saco de risos está preparado. As crianças ouvem avisos de perigo, para abandonar o bote, mas é inevitável que elas devem seguir o mesmo caminho do primeiro Jurassic Park. O complicado aqui é que os dinossauros parecem acompanhar até mesmo as placas de trânsito e Owen, além de conversar mentalmente com os velociraptors, tem o ímpeto de correr de moto entre os dinossauros, à noite, numa mata fechada.
Tudo é grandioso como o primeiro Jurassic Park, sem, contudo, o mesmo ritmo e a mesma vida. Os cortes oferecidos pelo diretor são pouco elegantes e quando não pretende mostrar uma cena violenta faz o sangue respingar como numa produção B, além do design de produção francamente decepcionante, uma réplica daquele que vemos nos três anteriores.
Pratt é subutilizado, pois tem uma boa veia para o humor (praticamente ausente da narrativa), já mostrada em Guardiões da galáxia, e Dallas Howard não tem oportunidade de revelar sua porção dramática, usada com intensidade em A vila e Histórias cruzadas, por exemplo, para dar à sua presença mais do que uma conversão repentina. Neill e Laura Dern, do primeiro, neste caso, realmente agiam como seres envolvidos com este universo: em Jurassic World, o casal é apenas uma lembrança de que pode haver romance num filme de verão. E, também por causa do roteiro, Nick Robinson e Ty Simpkins não conseguem se destacar.

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Não sem tentativa. Assim como a refilmagem de Godzilla, do ano passado, este Jurassic World procura abordar temas científicos, sobre a criação híbrida de dinossauros, podendo chegar a uma inteligência inesperada. O personagem de Owen é justamente contra isso, e algumas vezes ele entra em discordância com Claire e Vic sobre como tratar as criaturas pré-históricas. No entanto, esta faceta realmente apenas tenta dialogar com a do primeiro filme, melhor desenhada pelo personagem de Sam Neill. A partir daí, Trevorrow parece homenagear algumas peças de que gosta, como Tubarão e Os pássaros (este talvez na melhor sequência). O roteiro, mesmo escrito a oito mãos, pelo diretor, mais Derek Connolly, Rick Jaffa e Amanda Silver, não mostra uma única vez algo que não pareça já programado antes da primeira escrita. Nesse sentido, é cada vez mais comum se justificar que um filme de ação não precisa de desenvolvimento de roteiro nem de personagens minimamente interessantes. Se esta é sua expectativa, Jurassic World é um parque de diversões. Mas é, ao mesmo tempo, uma grande falha, ao não transpor a nostalgia de vinte anos atrás para algo que ressoe uma emoção verdadeira, não apenas conduzida pelas bilheterias.

Jurassic World, EUA, 2015 Diretor: Colin Trevorrow Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Vincent D’Onofrio, Ty Simpkins, Nick Robinson, Omar Sy, B.D. Wong, Irrfan Khan, Jake Johnson, Brian Tee, Lauren Lapkus, Katie McGrath, Judy Greer, Andy Buckley Roteiro: Colin Trevorrow, Derek Connolly, Rick Jaffa e Amanda Silver Fotografia: John Schwartzman Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Frank Marshall, Patrick Crowley, Thomas Tull Duração: 126 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Amblin Entertainment / Universal Pictures

Cotação 2 estrelas

 

Homens, mulheres e filhos (2014)

Por André Dick

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O universo da tecnologia está cada vez mais presente no cotidiano desde o início deste século, com sua febre de produtos cada vez maior e em maior proporção. Para enfocar essa mudança, o diretor Jason Reitman fez o que David Fincher já havia feito em A rede social no sentido de crítica a este universo, embora nunca deixando de considerá-lo fascinante – e Fincher ainda extraía conflitos verdadeiramente humanos ao redor da criação do Facebook. Em seu filme Homens, mulheres e filhos, Reitman conserva o estilo já demonstrado em outros projetos, como Amor sem escalas e Jovens adultos, no sentido de destacar o elenco, conservando uma simplicidade na narrativa que se confunde às vezes com esquecimento de uma maior densidade no trato de personagens e situações.
Embora tenha sido recebido de outra maneira pelos filmes que realizou (exceto por Refém da paixão), Reitman não havia experimentado o fracasso financeiro e de crítica: Homens, mulheres e filhos não conseguiu arrecadar praticamente nenhum valor nos cinemas dos Estados Unidos e sofreu a mesma perseguição que os personagens desse filme sofrem dos pais com a indicação de que o filme seria uma condenação da internet, do uso de celulares, de tablets, smarthphones, vendo perigo em tudo o que a tecnologia nos apresenta. O mais interessante quando se vê de fato o filme e não se lê suas críticas partindo desse pressuposto de lições de moral disparadas na velocidade de um tweet, é o quanto Homens, mulheres e filhos parece tratar disso, mas na verdade trata do seu pano de fundo.

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Reitman, também autor da adaptação do romance de Chad Kultgen, com Erin Cressida Wilson, esquece um pouco os filmes de histórias necessariamente interligadas, a exemplo de Crash e Short Cuts, para enfocar as ruas de um subúrbio nos Estados Unidos, depois de passar pelo espaço sideral e pela narração de Emma Thompson. Essa mudança do espaço para os subúrbios fornece uma ideia de que esses seres humanos também são vistos a distância, como se olham entre si. Don Truby (Adam Sandler) é casado com Rachel (Rosemarie DeWitt), e utiliza o computador do filho, Chris (Travis Tope), para buscar aventuras que o casamento parece não permitir mais. O filho tem interesse em Hannah (Olivia Crocicchia), uma moça que vive sendo seguida pela mãe, Donna Clint (Judy Greer), que tira fotografias dela para seu website comprometedor. No bairro onde moram, eles têm a liderança de Patricia Beltmeyer (Jennifer Garner), que reúne os pais para demonstrar os males da tecnologia, mas consegue impedir sua filha Brandy (Kaitlyn Dever) de utilizá-la. Brandy usa o Tumblr como fuga e ao mesmo tempo atrai a atenção de Tim Mooney (Ansel Elgort), um jovem decidido a encerrar sua carreira como jogador de futebol do seu colégio e filho de Kent (Dean Norris), ainda sem se recuperar da partida da mulher. Há também uma menina, Allison (Elena Kampouris), filha do Sr. Doss (J.K. Simmons), e que atua como animadora de torcida ao lado de Hannah, com problemas de anorexia. Esses personagens são colocados por Reitman de maneira descompromissada, enquanto ele vai costurando suas relações seja ao vivo, seja por meio de redes sociais ou por celulares e muitos tweets.
Este ano, Jon Favreau lidou com o tema no interessante, mas superficial, Chef, e o jovem que ingressava na banda do interessantíssimo Frank também queria conquistar as redes sociais, mas Reitman tem outro objetivo: por meio de uma fala de Tim sobre Carl Sagan, ele faz a ligação entre as pessoas com dificuldade de se conectarem com a dificuldade de estabelecer qualquer ligação com a própria origem (ideia implicita no discurso de Mason em determinado momento de Boyhood). Reitman analisa, misturando uma trilha sonora criativa, essas relações sem incorrer em alívios cômicos excessivos ou excessos dramáticos, mas simplesmente procurando o enfoque direto dos personagens, no entanto sem reduzi-los.

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O filme apresenta temas seculares (sobre o casamento, a amizade, a melancolia, a descoberta sexual, a pressão de seguir um determinado rumo dependente de aprovação dos pais) e Reitman mostra como os meios tecnológicos podem potencializar algumas sensações de solidão e desamparo, como vemos principalmente nos personagens de Tim e Brandy, pelo paradoxo de tentar ouvir justamente a todos – longe ou perto. E Reitman comprova como palavras digitadas no teclado ecoam mais na reação de outra pessoa do que um simples encontro ao vivo, assim como sensações deixam de ser compartilhadas no âmbito privado para serem compartilhadas no público, do mesmo modo como o destino da mãe de Tim. São ideias, a princípio, bastante óbvias, mas Homens, mulheres e filhos talvez seja o primeiro filme a mostrar isso de maneira mais clara e elucidativa, não coberto por uma superfície de moralidade, e sim com a tentativa de mostrar como se comporta um grupo que vive no subúrbio dos Estados Unidos – que pode ou não dialogar com o restante da humanidade, no entanto certamente têm elementos em comum.
Reitman registra com sensibilidade as relações entre o casal Don e Rachel e o casal de jovens Tim e Brandy. De alguma maneira, ambos acabam agindo de maneira parecida no sentido de esconderem o que na verdade querem, independente da idade. Tudo isso talvez não fosse possível sem o elenco, tendo à frente o jovem Elgort, como Tim, com o talento já mostrado em A culpa é das estrelas, enquanto sua parceira Kaitlyn Dever mostra-se excelente, sobretudo em seus duelos verbais com a mãe, feita por uma Jennifer Garner concentrada. Junto com eles, Olivia Crocicchia e Elena Kampouris conseguem dar uma dimensão maior a papéis que poderiam ser esquecíveis. Esse elenco se junta com Greer, Norris e Sandler, todos excelentes em seus papéis, principalmente Greer – e na parcela de entendimento de certa juventude contemporâneo Reitman é mais interessante aqui do que em Juno, filme que conseguiu fazer grande sucesso em cima de temas tão cotidianos quanto esses.

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Homens, mulheres e filhos

Nesse sentido, Homens, mulheres e filhos ainda tem um dos melhores elencos do ano, e quando vemos lamentos em razão de Marion Cotillard (uma grande atriz) não estar recebendo tanto destaque nas premiações por sua atuação limitada pela direção no épico vastamente falho e com um revisionismo autossatisfeito Era uma vez em Nova York, pergunta-se se o elenco do filme de Reitman deveria ser esquecido. Evitando seguir o conceito de clássico seguro e sem riscos, uma uma das qualidades de Homens, mulheres e filhos, Reitman apresenta de maneira consistente cada um dos núcleos, mesmo que em determinados momentos a montagem às vezes seja atropelada, pois tudo é registrado de forma veloz e o interesse se concentra sobretudo nos momentos em que esses personagens se afastam da tecnologia para se dedicarem diretamente uns aos outros. Parece precipitado classificar um filme que nos lembra das relações também fora desse universo como algo escapista, sob o ponto de vista de predominância da tecnologia, principalmente quando sua qualidade é maior do que está sendo apontada e seus temas são permanentes. Há elementos de afeto e de aproximação em cada personagem e, ao mesmo tempo, uma ideia de que a solidão é apenas aparente quando vista diante de um universo em expansão, podendo ser revertida por uma simples visita à janela de casa. É isso que torna Homens, mulheres e filhos um filme a ser revalorizado mesmo que tenha sido lançado há tão pouco tempo.

Men, women & children, EUA, 2014 Diretor: Jason Reitman Elenco: Kaitlyn Dever, Ansel Elgort, Adam Sandler, Rosemarie DeWitt, Jennifer Garner, Emma Thompson, Judy Greer, Dean Norris, Travis Tope, Olivia Crocicchia, Elena Kampouris  Roteiro: Chad Kultgen, Erin Cressida Wilson, Jason Reitman Fotografia: Eric Steelberg Produção: Helen Estabrook, Jason Reitman Duração: 119 min. Distribuidora: Paramount Pictures Estúdio: Paramount Pictures / Right of Way Films

Cotação 5 estrelas