Joias brutas (2019)

Por André Dick

Os irmãos Josh e Benny Safdie ficaram mais conhecidos há dois anos por Bom comportamento, no qual Robert Pattinson tinha uma atuação de destaque, interpretando um assaltante que vagava pela cidade de Nova York preocupado com o seu irmão problemático. Agora, em Joias brutas, eles procuram abordar novamente a vida cotidiana insana de Nova York pela figura de Howard Ratner (Adam Sandler), dono de  uma joalheria. Apesar de casado com Dinah (Idina Menzel) e com filhos, ele tem mais atenções para a amante Julia (Julia Fox), sua funcionária, para a qual paga um apartamento.
Em 2012, ele recebe uma correspondência cobiçada: uma opala encontrada por etíopes judeus na mina de Webo, na África. Demany (Lakeith Stanfield), que ajuda Howard a conseguir clientes, leva à joalheria o jogador de basquete Kevin Garnett (interpretando a si mesmo). Este pede para ficar um tempo com a opala – a qual parece lhe transmitir uma energia diferente. Para que o filme funcione, o espectador precisa aceitar essa premissa às vezes um pouco forçada  numa narrativa que se pretende realista, pois o interesse de Garrett é muito instantâneo, sem a devida contextualização.

A partir daí, Howard tem de lidar com o fato de ficar sem sua joia, com dois homens em seu encalço, Phil (Keith Williams Richards) e Nico (Tommy Kominik), a mando de um agiota, Arno (Eric Bogosian),,  que querem que ele pague uma dúvida. O início do filme se passa basicamente dentro dessa joalheria, criando um clima claustrofóbico por causa do gabinete de segurança existente antes de entrar nela e das sucessivas tentativas de abri-la por causa de um problema técnico. Isso é acentuado pela trilha sonora de Daniel Lopatin, que parece mais afeita a uma narrativa que se passa num quarto do pânico.
Joias brutas tem como seus méritos centrais a atuação de Adam Sandler, tão eficiente quanto irritante (falta pouco para a sua voz ser igual àquela que usa em Sandy Wexler), e a edição, que transforma a narrativa numa espécie de montanha-russa, na qual se alternam sonhos, cobiça, amor, interesse e complicações inesperadas. A fotografia do excelente Darius Khondji oferece o que o roteiro precisa, dando ao filme dos Safdie uma interessante imersão numa cidade perturbadora. Nela, o homem se sente ao mesmo tempo esperançoso e acuado, o que já acontecia, sem a mesma eficiência, em Bom comportamento.

O elenco coadjuvante, começando por Stanfield e Fox, é muito bom, servindo como sustentação ao personagem instável de Sandler. Este, depois de muitas comédias superficiais, desenvolve o que já conseguia mostrar em Embriagado de amor, Espanglês, Homens, mulheres e filhos e Os Meyerowitz. É uma atuação feita no limite, com muita correspondência e vontade de tornar este momento diferente do restante de sua carreira (embora ela tenha peças divertidas, a exemplo de Terapia de choque). O ator desenvolve um personagem confuso e, ao mesmo tempo, com empatia, fazendo com que o espectador torça por ele, embora não seja uma referência determinada. Howard mistura ganância e ingenuidade e mesmo bondade em alguns momentos, o vislumbre de certo romantismo desastrado, mesmo com todas as falhas que comete e os atalhos que tenta tomar sem a devida preocupação em ser assertivo.
Em termos de temática, se os irmãos Safdie empreendiam uma saga noturna em Bom comportamento, aqui eles preferem conciliar a noite com a luz solar. Não há diferença entre os dois tempos quando se trata de confusões do personagem central. À noite, em sua casa, ele tenta se conciliar com a esposa e aproveitar o tempo com os filhos, mas a sensibilidade não se manifesta para ele se não no universo do jogo, literalmente. De algum modo também, mesmo com uma vida financeiramente conturbada, ele transparece em casa suas apostas, embora pareça nunca se inserir no mundo como gostaria, principalmente relativo a festas e fama. Ele corre o dia inteiro e faz planos para jogos de forma incessante, no entanto nunca consegue compartilhar de verdade sua agonia e deslocamentos provocados, o que torna tudo irreversível, por ele mesmo.

Joias brutas, essencialmente, é um retrato dele e de como é seu posicionamento diante do mundo – com o qual o espectador dificilmente vai compartilhar. A maneira como ele gostaria de pertencer ao universo no qual aposta (do basquetebol), diante de sua posição apertada num escritório e visando apenas à venda, sem ter como bônus a consagração diante da torcida, revela a dramaticidade de seus passos, principalmente a partir do momento em que vai ao colégio assistir a uma apresentação de sua filha. É um contraponto ao fato de a joia ter sido encontrada por negros na Etiópia: ela representa não apenas o lucro financeiro, como uma tentativa de ela produzir mais ganhos por meio de uma grande personalidade. Isso se esclarece na maneira como os Safdie parecem filmar a essência da joia, ligando personagens distintos por meio dela. É neste elemento que o filme ganha força especial.

Uncut gems, EUA, 2019 Diretores: Josh Safdie e Benny Safdie Elenco: Adam Sandler, Lakeith Stanfield, Julia Fox, Kevin Garnett, Idina Menzel, Eric Bogosian Roteiro: Ronald Bronstein, Josh Safdie, Benny Safdie Fotografia: Darius Khondji Trilha Sonora: Daniel Lopatin Produção: Scott Rudin, Eli Bush, Sebastian Bear-McClard Duração: 135 min. Estúdio: Elara Pictures, IAC Films, Sikelia Productions Distribuidora: A24 (Estados Unidos), Netflix (Internacional)

 

Bom comportamento (2017)

Por André Dick

Desde sua estreia no Festival de Cannes, Bom comportamento gerava grande expectativa, principalmente pela atuação de Robert Pattinson, cotado ao prêmio de melhor ator antes de serem revelados os vencedores. Ele interpreta Constantine Nikas, que tenta tirar seu irmão Connie (Ben Safdie, um dos diretores do filme, ao lado de Joshua Safdie) da terapia para conduzi-lo a um assalto a banco no Queens. Sua namorada, Corrie (Jennifer Jason Leigh), é chamada a tentar ajudá-lo numa situação que se configura arriscada. Seu interesse em ajudar o irmão é genuíno, mesmo que desperte um conflito com a avó, lembrando, num outro escopo, a relação dos irmãos de Rain Man.
Depois de uma passagem angustiante por um hospital, ele precisa em determinado momento da ajuda de uma senhora, Annie (Gladys Mathon), que mora com sua neta Chrystal (Taliah Webster), quando a história se desenrola de maneira decisiva, e as imagens acabam lembrando, mesmo de forma involuntária, Enter the void, de Gaspar Noé, sobretudo na maneira como são filmados os televisores.

Há filmes que têm um conceito interessante, e este é um. Sua primeira meia hora é muito bem solucionada: a montagem trepidante não dá quase espaço ao espectador recuperar o fôlego, e tudo se interliga de modo eficiente. No entanto, aos poucos, parece que algo na narrativa vai se perdendo. Apesar de elogiada, a trilha sonora de Daniel Lopatin é muito intrusiva, querendo dar uma dimensão especial a cada cena, o que tira o realismo que elas possuem e não está à altura do compositor que lhe serve de inspiração, Cliff Martinez. Perde-se o número de vezes em que a tensão é diluída por sua presença de fundo, extraindo mesmo a energia dos atores, parecendo um filme policial lado B dos anos 90. Ao mesmo tempo, uma certa história paralela se superpõe à principal, e um dos personagens principais se torna coadjuvante. Os close-ups vão tentar emprestar dramaticidade às sequências e algumas vezes conseguem, no entanto eles tentam imprimir muitas vezes expressões faciais que não acrescentam à narrativa.

Os ambientes sujos ou com neons tentam captar um universo em ebulição; faltam, contudo, diálogos e situações mais interessantes. Não raras vezes, a escrita soa forçada, ao contrário do que acontece num filme de Tarantino, a exemplo de Cães de aluguel, uma referência aqui. A atuação de Pattinson é boa, mas não chega perto da competência demonstrada em Cosmópolis, The Rover, Mapas para as estrelas e Z – A cidade perdida, ou mesmo Lembranças, passado na mesma Nova York. Os diretores não conseguem desenvolver um personagem que poderia ser fascinante, assim como desperdiçam Jennifer Jason Leigh, e a própria cidade onde a ação se passa. Uma metrópole sempre é um ótimo cenário para colocar personagens em movimento, guiados por uma perturbação interna ou externa, pois o diálogo é estabelecido de imediato. Em Bom comportamento, isso acontece mais ao início, mas, à medida que a trama progride, vai se sentindo um certo vazio, e não é apenas dos lugares imensos e caóticos que enfoca, sempre com uma câmera acelerada, tentando acompanhar a ação desses personagens.

A impressão que se tem é que, mais do que um drama, é um filme de ação disfarçado de indie. O melhor personagem, mais humano, acaba sendo Connie, numa boa atuação de Ben Safdie, e a revelação Taliah Webster representa bem a solidão e opressão de uma adolescente nesse universo enfocado. Ao mesmo tempo, por ser filmada com uma cor rosa, ela representa um resquício de inocência em meio a um universo marginal. Imagina-se um outro filme dirigido por Scorsese, dos anos 70 e 80, ou mesmo verdadeiramente influenciado pelo ótimo Vivendo no limite, com mais urgência e acerto. Por exemplo, Taxi Driver, uma referência visível, criava um atrito entre o mundo de Bickle, o taxista, e a trilha sonora calma: em Bom comportamento, tudo deve sugerir um mundo de perdição, e isso acaba sendo levado ao exagero. Uma boa aproximação seria com Baby Driver, com tom mais comercial e fotografia mais leve, muito superior em sua despretensão de mostrar o mundo do crime. Enquanto o filme de Wright acelera, o dos irmãos Safdie é de um vazio e pretensão capaz de agradar a quem imagina estar diante de um cinema antimainstream, quando, sem saber muito bem, está mergulhado naquilo que visa aos mesmos prêmios do cinema mainstream.

Good time, EUA, 2017 Diretores: Ben Safdie e Josh Safdie Elenco: Robert Pattinson, Jennifer Jason Leigh, Ben Safdie, Barkhad Abdi, Buddy Duress Roteiro: Josh Safdie, Ronald Bronstein Fotografia: Sean Price Williams Trilha Sonora: Daniel Lopatin Produção: Sebastian Bear-McClard, Oscar Boyson, Terry Dougas, Paris Kasidokostas Latsis Duração: 99 min. Estúdio: Elara Pictures, Rhea Films Distribuidora: A24