Toy Story 4 (2019)

Por André Dick

Desde 1995, quando Toy Stoy se tornou uma das grandes animações da história, criado pela Pixar, ligada em seu início a Steve Jobs, ele vem se tornando uma referência cultural, o que se intensificou no segundo episódio de poucos anos depois e uma década depois no fechamento da trilogia, indicado, de forma surpreendente (não pela qualidade, e sim pelo pouco espaço dado a animações em prêmios), ao Oscar de melhor filme. Se o primeiro tinha roteiro de, entre outros, Joss Whedon, que fez Os vingadores, e Andrew Stanton, diretor de John Carter e Procurando Nemo, também um dos responsáveis pela história do segundo, este quarto foi criado por Stephany Folsom e novamente Stanton, depois de se ausentar do terceiro.
O cowboy Woody (Tom Hanks) agora vive ao lado de seus amigos com Bonnie (Madeleine McGraw), que os ganhou de presente do antigo dono deles, Andy. Ela se encontra em seus primeiros dias de colégio, no jardim de infância, e cria, com restos de objeto, Forky (Tony Hale), não à toa fascinado por latas de lixo.

Como líder dos brinquedos, capaz de conciliar as opiniões contrárias em prol de um mesmo caminho, Woody é o único que percebe a importância desse objeto para sua dona, enquanto se cerca da vaqueira Jessie (Joan Cusack) e, claro, do astronauta Buzz Lightyear (Tim Allen), novamente deixados em segundo plano na hora do lazer. A premissa lembra muito a do terceiro, quando Andy estava indo para a faculdade e era cobrado pela mãe a jogar os antigos companheiros fora ou guardá-los no sótão – Andy queria levar apenas Woody junto. Em uma espécie de fuga imaginando um lugar melhor, onde seriam bem aceitos, a luta deles passava a ser contra um ursinho rosa temível e dominador, que havia sido abandonado por sua dona (num dos flashbacks mais interessantes para se mostrar que o brinquedo tem (ou não) sentimento e está ligado a seu dono de maneira inabalável). Além do tom agridoce, o terceiro episódio tinha, com isso, momentos de intensidade e mesmo sustos no confronto com essa figura a princípio ingênua e que passa a oferecer perigo. Havia no terceiro ato momentos especialmente assustadores, com a tentativa de o grupo liderado por Woody escapar de uma situação capaz de levá-los ao desaparecimento.

Em Toy Story 4, durante uma viagem da família, Forky vai desaparecer e Woody vai empreender um resgate numa loja de antiguidades, na qual se encontram brinquedos que gostariam de ter, mas não têm, dono. Woody também reencontra Bo Peep (Annie Potts), que lhe oferece ajuda. Temos o surgimento de Gabby Gabby (Christina Hendricks), uma boneca com problema na caixa de voz, fazendo com que nenhuma criança se interesse em tê-la por perto, e Duke Caboom (Keanu Reeves), além de dos temíveis Bensons, estranhamente lembrando a figura de Nixon, de Giggles McDimples (Ally Maki) e de Ducky (Keegan Michael-Key) e Bunny (Jordan Peele, diretor de Corra! e Nós), dois ursos de pelúcia. Os demais personagens que apareciam na franquia Toy Story, como Rex (Wallace Shawn) e Hamm (John Ratzenberger), voltam a aparecer esporadicamente, embora aqui não tenham o mesmo espaço, sendo a narrativa mais sintética e concentrada em poucos lugares, embora ainda assim instigante.
A diferença deste Toy Story para os anteriores não é a emoção, sobretudo quando se lembra do terceiro, e sim uma certa maturidade no tratamento de alguns temas. São personagens que cresceram com seu público e não é difícil entender que muito dele é dedicado aos responsáveis por transformar Toy Story, há quase 25 anos, num clássico do gênero. É interessante, também, como a Pixar vem acertando muito em suas sequências, como Universidade Monstros, Os invencíveis 2 Carros 3.

Mesmo que não apresente sobretudo o humor corrosivo do anterior (nas passagens de Ken e Barbie, por exemplo), Toy Stoy 4 apresenta um ritmo interessante desde o início, quando parece lembrar Divertida mente, e se apresenta como uma espécie de sonho americano dos brinquedos, quando eles encontram sua essência numa viagem familiar, em meio a parques de diversões e estradas extensas. E Woody, como o cowboy solitário em busca de ajudar Forky e Gabby Gabby, desta vez parece vislumbrar na loja de antiguidades um pouco do labirinto em que tem vivido, cheio de imprevistos. Por meio de expressões exatas e da voz de Tom Hanks adquire uma profundidade pouco abordada em animações. O diretor Josh Cooley, exatamente um dos roteiristas de Divertida mente, consegue articular uma boa combinação entre as personagens centrais, principalmente a amizade de Woody com Bo Peep, e isso cresce em relevo pelas interpretações de voz de Hanks e Potts, conhecida por ser a secretária de Os caça-fantasmas e a avó de Shedon na série televisiva. Essa é uma dupla muito boa, e recebe a contribuição não apenas de Allen, como de Hendricks e Reeves. A interação entre eles, não apenas por meio da animação irretocável, torna o resultado final um novo salto de qualidade da Pixar, e isso não significa pouco.

Toy Story 4, EUA, 2019 Diretor: Josh Cooley Elenco: Tom Hanks, Tim Allen, Annie Potts, Tony Hale, Keegan-Michael Key, Jordan Peele, Madeleine McGraw, Christina Hendricks, Keanu Reeves, Ally Maki, Jay Hernandez, Lori Alan, Joan Cusack Roteiro: Stephany Folsom, Andrew Stanton Fotografia: Patrick Lin Trilha Sonora: Randy Newman Produção: Jonas Rivera, Mark Nielsen Duração: 100 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Pixar Animation Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

 

Nós (2019)

Por André Dick

O mais difícil para um cineasta talvez não seja sua primeira obra e sim a continuidade que dá à sua carreira. Por meio de Corra!, Jordan Peele conseguiu um feito: além de uma realização original e assustadora, ele teve uma bilheteria extraordinária e chegou a ser indicado ao Oscar de melhor filme, inclusive recebendo a estatueta de melhor roteiro original. Era uma conquista bastante valiosa, principalmente em razão de o gênero de terror não ser levado a sério em premiações.
Estava lançado, também, o grande desafio: Peele, em seu segundo filme, precisaria ao menos manter a qualidade do primeiro. Estamos, agora, diante de Nós. Ele inicia em 1986, quando a menina Adelaide Thomas (Madison Curry) está com seus pais num parque de diversões da praia de Santa Cruz, na Califórnia. Ela se afasta do pai, passa por um homem estranho que traz um aviso bíblico num cartaz que segura (Jeremias 11:11) e acaba chegando, diante de uma praia com trovões perturbadores no horizonte, a uma espécie de casa assombrada, constituída por salões de espelhos. Ali, ela vê algo que a assusta e a deixa até a vida adulta traumatizada. Por motivos explicáveis típicos de um filme de terror, ela volta à mesma praia (interpretada por Lupita Nyong’o), desta vez com seu marido Gabe Wilson (Winston Duke) e seus filhos, Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex).

A visita que eles fazem à praia têm elementos de Tubarão (o filho Jason, inclusive, usa uma camiseta do filme de Spielberg), Os pássaros, Os garotos perdidos (passado na praia de Santa Carla, Califórnia) e ali a família encontra um casal de amigos, Kitty Tyler (Elizabeth Moss) e Josh (Tim Heidecker), que possui filhas gêmeas, Becca (Cali Sheldon) e Lindsey (Noelle Sheldon). À noite, pela janela da casa onde se hospedam, eles veem quatro pessoas paradas na calçada em frente, vestidas com macacões vermelhos. A partir daí, temos a trama central de Nós.
Lupita Nyong’o é a grande estrela da narrativa. Depois de receber o Oscar de melhor atriz coadjuvante por 12 anos de escravidão, ela não teve a mesma oportunidade de mostrar seu talento, sendo, com exceção de Rainha de Katwe, mais utilizada em papéis digitais ou em dublagens de animações. Sua atuação é o melhor que tem a oferecer Nós, verdadeiramente dedicada.
Jordan Peele, inclinado a usar o mesmo humor bem dosado em Corra!, no entanto, não consegue entregar uma atmosfera e um roteiro equilibrados. A fotografia de Mike Gioulakis, que apresentou um trabalho irretocável em Corrente do mal, se sente deslocada do que Peele quer tratar, com tomadas aéreas que querem contrastar com o terror implícito das imagens. Tudo no roteiro se sente, de certo modo, apressado, pouco elaborado e simbolicamente decepcionante. Os primeiros minutos, mostrando Adelaide na infância, não se repetirão mais; figuram como um triunfo à parte, recordando o melhor que o diretor poderia oferecer, trazendo muito do clima exatamente de Corrente do mal.

As referências que Peele tenta fazer à sociedade, bem como em Corra!, são comprometidas por gags fora de hora (aquela que remete a Esqueceram de mim é especialmente assustadora, se é que me faço entender) e uma necessidade de ser profundo, de elaborar temas específicos que não dialogam diretamente com os personagens unidimensionais e sim com uma tentativa de tornar diversos discursos expositivos em algo metafórico, colocando atores de qualidade em segundo plano (Moss é tão subaproveitada quanto em The Square). Há uma necessidade do diretor em fazer de suas imagens um subtexto para algo mais importante, como a máscara de Jason remetendo a Halloween, mas que nunca o roteiro trabalha de maneira adequada, por desinteresse.
Em Corra!, Peele conseguia lidar de maneira exitosa com o humor em um contexto no qual ele pareceria deslocado, por meio da atuação primorosa de LilRel Howery (lembrando Anthony Anderson, de Todo mundo em pânico), que parecia saído de outro filme, e em algumas falas engraçadas, como uma que remetia a De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick. Peele dava a impressão de aproveitar elementos do cinema mais previsível com um contexto bem mais delineado do que se espera; ele simplesmente esquece esses elementos em Nós, e torna uma trama que por si soa previsível num encadeamento de cenas sem nenhum elo claro entre si, a não ser sua premissa de parecer assustador – sem nunca de fato ser, lembrando mais um pastiche.

Se Corra! era uma mescla entre uma obra de terror dos anos 80 e a série Histórias maravilhosas, produzida por Spielberg, além de possuir alguns elementos da obra de Richard Kelly, Nós se direciona mais a uma tentativa de replicar Creepshow e A noite dos mortos-vivos, de George A. Romero com referências a M. Night Shyamalan (o figurino vermelho remete ao ótimo A vila) e a algo de O homem de palha.
O resultado é nunca menos do que ineficiente, um verdadeiro indicativo do que não se deve fazer numa peça de terror, com exceção para a parte dramática que Lupita tenta impor mesmo com um roteiro cansativo. Que Peele esteja sendo elogiado por esta falha de ignição mostra que sua carreira pode ser comprometida pelos mesmos que criaram outros diretores que aparentavam ser autorais e apenas replicavam filmes desgastados. Compará-lo a mestres do terror e do suspense pode soar muito bonito no papel – porém não é tão proveitoso para uma carreira que se mostrava talentosa e encontra aqui seu primeiro percalço. Espera-se que sua terceira tentativa volte à qualidade de Corra!, ou seja, que ele perceba o quanto este filme não possui as mesmas qualidades de sua estreia. Não há nada em Nós que constitua sequer um novo campo de ideias para que Peele desenvolva.

Us, EUA, 2019 Diretor: Jordan Peele Elenco: Lupita Nyong’o, Winston Duke, Elisabeth Moss, Tim Heidecker, Shahadi Wright Joseph, Evan Alex, Cali Sheldon, Noelle Sheldon Roteiro: Jordan Peele Fotografia: Mike Gioulakis Trilha Sonora: Michael Abels Produção: Jason Blum, Ian Cooper, Sean McKittrick, Jordan Peele Duração: 116 min. Estúdio: Monkeypaw Productions Distribuidora: Universal Pictures

Corra! (2017)

Por André Dick

Esta estreia na direção de Jordan Peele tem tido uma recepção que lembra a de A bruxa ou The invitation, no ano passado. No entanto, ao contrário desses dois filmes, ele tenta um diálogo interessante com questões envolvendo uma sociedade fundada sobre um preconceito prévio, mesmo que, no caso dos Estados Unidos, Barack Obama tenha sido eleito presidente duas vezes (e afirma-se isso principalmente porque sua figura é lembrada textualmente durante a narrativa). Corra! parece o resultado de um encontro entre um filme de terror dos anos 80 e a série Histórias maravilhosas, produzida por Spielberg.
O fotógrafo afromericano Chris Washington (Daniel Kaluuya) viaja com a namorada branca Rose Armitage (Allison Williams) para conhecer os pais dela, o neurocirurgião Dean (Bradley Whitford) e a psiquiatra que trabalha com hipnose Missy (Catherine Keener), assim como o irmão Jeremy (Caleb Landry Jones). Eles moram numa casa de campo, com a criada Georgina (Betty Gabriel) e um ajudante braçal, Walter (Marcus Henderson). Chris está inseguro que os pais dela não saibam que ele é um afroamericano e tem como melhor amigo Rodney Williams (LilRel Howery); Rose, por sua vez, não dá importância, pois acredita que seus pais não terão nenhum preconceito.

Depois do primeiro encontro, em que tudo se passa bem, apesar de algumas conversas enviesadas, Missy (numa brilhante atuação de Keener) se oferece, à noite, para hipnotizar Chris, a fim de que ele consiga parar de fumar; o jovem acorda no dia seguinte como se tudo não tivesse passado de um sonho, envolvendo também sua mãe. Este é o ponto de partida para uma história bastante original. Chris não entende, sobretudo, por que os personagens com que se depara agem de maneira estranha. No entanto, a sua namorada é uma figura que mantém sua posição de não desconfiar do que está ocorrendo, e ela, sem dúvida, é muito bem desenhada pelo roteiro, pois indica toda a sensibilidade que parece faltar às demais pessoas, a começar por uma festa na casa de campo.
Corra! foi lançado no Festival de Sundance e, a partir de um orçamento irrisório de 4,5 milhões, já arrecadou 214. O sucesso se deve certamente à sua mescla entre suspense, terror, crítica social e toques de comédia que parecem deslocados, mas que no conjunto fortalecem o resultado. É um filme que prende a atenção do início ao fim, no entanto o espectador necessita de uma certa suspensão da narrativa mais comum do gênero, pois Corra! trabalha num campo em que Richard Kelly, de A caixa sobretudo, é um referencial. Desde a década de 70, o terror normalmente esteve personificado em ameaças indestrutíveis, como Freddy Krueger, Michael Myers e Jason, além de outros derivados; em Corra! esse medo parece se basear no comportamento da humanidade e de como a vítima reage a ele.

Kelly se revela a principal influência de Peele, seguido por John Carpenter, Nicolas Winding Refn e David Cronenberg, aquele de Videodrome, pelo indie atmosférico de Ryan Gosling, Rio perdido, e pelo suspense Corrente do mal. Desse último, é extraída a qualidade do que se mostra como ponto de movimento ao fundo e sobretudo alguns sustos provocados por situações corriqueiras, que não representam ameaça alguma. Peele consegue lidar de maneira exitosa com o humor em um contexto no qual ele pareceria deslocado, por meio da atuação primorosa de LilRel Howery (lembrando Anthony Anderson, de Todo mundo em pânico), que parece saído de outro filme, e em algumas falas engraçadas, como uma que remete a De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick. Peele dá a impressão de aproveitar elementos do cinema mais previsível com um contexto bem mais delineado do que se espera, e será lamentável se quiserem transformar esta peça no início de uma nova franquia.
Ele possui, além de tudo, um senso de estética muito forte, com auxílio da bela fotografia de Toby Oliver, trabalhando o jogo de luzes e sombras de maneira afiada, além de um jogo elaborado de plasticidade que lembra Sob a pele. Todo o elenco está em grande momento, com destaque para Kaluuya e uma convincente Williams, mostrando que Peele tem um domínio sobre o elenco. E há os sustos: Corra! rivaliza, até agora, com Vida como um dos filmes deste ano que realmente mais amedrontam o espectador e o colocam em uma posição permanente de insegurança, na maneira com que é filmado e nas situações verossímeis que vão se configurando.

Há certas referências a Tarantino e Amargo pesadelo, porém Peele conduz tudo como uma obra realmente original. Ele, inclusive, não se sente tão pretensioso como seu marketing sugere, querendo indicá-lo como uma obra-prima. Sob um ponto de vista mais metafórico, no qual trabalha em muitos momentos, pode-se indicar que ele está representando um certo domínio de uns em relação aos outros, mesmo por meio de seus ambientes (a sala de estar, depois um quarto no piso inferior), além de uma comunidade toda reunida com o objetivo talvez de manter as coisas como estão, ou, na opinião dela, sempre esteve. Em certos momentos, Corra! pode até ser visto como uma sátira, no entanto Peele parece saber exatamente que é neste limite que seu trabalho se dá do melhor modo: não está levando tão a sério o que mostra e isso concede a seu trabalho um insuspeito talento de concretizar uma ideia que normalmente estaria equivocada desde o início.

Get out, EUA, 2017 Direção: Jordan Peele Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Catherine Keener, Bradley Whitford, LilRel Howery, Caleb Landry Jones, Marcus Henderson, Betty Gabriel, Lakeith Stanfield, Stephen Root Roteiro: Jordan Peele Fotografia: Toby Oliver Trilha Sonora: Michael Abels Produção: Edward H. Hamm Jr., Jason Blum, Jordan Peele, Sean McKittrick Duração: 104 min. Estúdio: Blumhouse Productions / QC Entertainment