Tubarão (1975)

Por André Dick

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Um dos principais filmes a mesclar suspense e diversão, sob o talento de Steven Spielberg, Tubarão é precursor de uma série de obras, como Orca e Piranha (de Joe Dante, a quem Spielberg entregaria Gremlins), embora seja uma homenagem clara a Hitchcock. Já inicia com um grupo de jovens acampando na beira da praia de Amity, no clima hippie dos anos 70, ao redor de fogueira. Um casal de jovens se dirige ao mar, mas apenas a menina entra, e o tubarão, representado pela câmera, se aproxima. Não há nenhum bote salva-vidas que possa tirá-la de lá, enquanto o parceiro se estira na areia e no dia seguinte acorda sem saber exatamente o que aconteceu. Dias depois, o corpo dela aparece trazido pela maré. Spielberg tem entre as suas pretensões está justamente compor uma espécie de sinfonia do suspense, baseado na trilha antológica de John Williams. Todos os medos da década de 70, de certo modo, estão concentrados em Tubarão, que consegue, ao mesmo tempo, assustar e fazer pensar, o que não é pouco para a tradição que o antecedia.
O xerife, Martin Brody (Roy Scheider) quer fechar a praia, para impedir que os turistas entrem na água, mas o prefeito, Larry Vaughn (Murray Hamilton) não deseja o mesmo, pois a cidade perderia turismo. Trata-se de um personagem-símbolo da carreira de Spielberg: o homem ético que deseja a segurança das pessoas ao invés de ganhos materiais. É um xerife que antecipa, por exemplo, o de Super 8, que, na tentativa de afastar seu filho e seus amigos de uma ameaça, deseja descobrir o que se passa, afinal, quando existe a presença da Nasa em uma cidade pacata. Spielberg mostra sua relação com a família, a esposa Ellen (Lorraine Gary), e os filhos Michael (Chris Rebello) e Sean (Jay Mello), e o faz de modo a tornar o espectador envolvido com aquele ambiente. Estamos mais próximos, aqui, da familiaridade de E.T. do que a de desejo de fuga do pai atormentado em Contatos imediatos do terceiro grau.

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No entanto, o tubarão continua a atacar e é chamado um biólogo especialista, Matt Hooper (Richard Dreyfuss). Ao mesmo tempo, surge um pescador, Quint (Robert Shaw), uma espécie de Ahab de Moby Dick, a fim de capturar e matar a ameaça por um bom dinheiro. Quint é um contador de casos do alto-mar, o protótipo da valentia colocada à prova, desde que seja por algum viés financeiro. De qualquer modo, com a partida dos personagens num barco precário, intitulado Orca, Spielberg não visualiza nenhum especial heroísmo neles, apenas o medo de serem mortos em alto-mar. Nem por isso o diretor foge ao elemento do interior norte-americano, em que há um vazio a ser preenchido. Isso fica claro quando homens, mesmo com a ameaça, insistem em pescar, sendo afugentados com a presença do tubarão. Ou quando um grupo de pessoas comemora que ele teria sido pego, depois de ser oferecido um prêmio vantajoso, fotografando-o para espalhar a notícia – e o tamanho do peixe não se aproxima daquele que realmente traz ameaças.
Spielberg, em cada frame, é devedor de Alfred Hitchcock, sobretudo de Os pássaros. de como compor um ambiente de tensão com um roteiro simples. No filme de Hitchcock, quando uma mulher chega a uma cidade, Bodega Bay, para entregar uma encomenda de passarinhos do amor, acaba gostando do morador a quem os entrega. Ela resolve ficar um fim de semana na pacata cidadezinha e começam a aparecer ataques de pássaros, enfurecidos com a visitante.

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Vemos, claro, apenas o medo humano e não sabemos da motivação do peixe feroz contra os banhistas. Há, junto com a referência de Hitchcock, na maneira de conduzir a narrativa e provocar o suspense das situações mais tranquilas, um resquício de perseguição do melhor momento de Spielberg anterior a Tubarão, Encurralado, premiado no Festival Fantástico de Avoriaz, que tem cenas de grande tensão. Nele, Dennis Weaver interpreta um homem que viaja pelas estrada principal no interior dos Estados Unidos e começa a ser perseguido por um caminhão gigantesco, que passa a lhe cortar a frente e persegui-lo. Spielberg mexe com o espectador, nunca revelando a face do motorista, num Davi e Golias automobilístico, precedendo o embate em alto-mar de Tubarão, em que a fisionomia do peixe só é mostrada quase ao final, quando, na verdade, o suspense chega a seu limite de composição.

Tubarão é um evento cultural com a mesma proporção de suas qualidades. Temos, aqui, um pedaço do comportamento da América. Os momentos em que Brody está na praia, com sua mulher Ellen, observando a movimentação dos banhistas, conseguem criar uma atmosfera claustrofóbica, sobretudo quando surgem os gritos de que a ameaça ronda a área – e o delegado visualiza a barbatana. Baseado num romance de Peter Benchley, adaptado com muito custo – inclusive com a ajuda de Spielberg, que não assinou a versão final do roteiro, o que o descontentou, fazendo com que quisesse assumir sozinho a autoria de Contatos imediatos do terceiro grau, feito a muitas mãos –, o filme não se ressente nunca de uma montagem ágil. A perseguição final ao tubarão reserva uma sucessão de surpresas, desde o momento em que Quinn conta histórias da Guerra do Vietnã, até o balanço do barco provocado pela proximidade do peixe. Também memorável o momento em que Hooper é colocado numa gaiola, descida até o fundo do mar, a fim de que ele tente apanhar o animal com um arpão. Já aqui Spielberg demonstra sua eficiência características em contrapor o desespero no fundo do mar e a expectativa de quem está no barco, à espera de algum movimento inesperado. Esta sequência se liga àquela em que descobre um navio que naufragou, provocado pelo tubarão. E, de modo geral, as cenas em que esse aparece continuam atuais (o fato de ele aparecer pouco também se deve ao fato de não haver um orçamento adequado quando iniciaram as filmagens). Nesse sentido, lida com os medos primitivos do espectador, e a cada vez que mostra o fundo da água parece que vemos o ponto de vista de um ser que pode trazer à tona o perigo, acentuando o que é aterrador.

Jaws, EUA, 1975 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Roy Scheider, Robert Shaw, Richard Dreyfuss, Lorraine Gary, Murray Hamilton, Carl Gottlieb, Jeffrey Kramer, Susan Backlinie, Jonathan Filley, Ted Grossman, Chris Rebello, Jay Mello, Lee Fierro, Jeffrey Voorhees, Craig Kingsbury, Robert Nevin, Peter Benchley Roteiro: Peter Benchley, Carl Gottlieb Fotografia: Bill Butler Trilha Sonora: John Williams Produção: David Brown, Richard D. Zanuck Duração: 123 min. Estúdio: Universal Pictures / Zanuck/Brown Productions Distribuidora: Paramount Pictures