O rei leão (2019)

Por André Dick

A sucessão de live actions lançada pelos estúdios Disney vem proporcionando uma onda de nostalgia para quem gosta de animações clássicas, do mesmo modo que bilheterias bilionárias. Neste ano, tivemos Dumbo, que desapontou financeiramente, e Aladdin, que está quase repetindo o feito financeiro de Mogli – O menino lobo, embora fique um pouco atrás de A bela e a fera. Apenas live actions menos comerciais (Christopher Robin, Meu amigo, o dragão) realmente não têm encontrado seu público. Dirigido pelo mesmo Jon Favreau da versão mais recente de Mogli, O rei leão é uma nova adaptação da história já levada às telas em 1994, que foi um grande sucesso, assim como venceu os Oscars de melhor trilha sonora (Hans Zimmer) e canção (“Can You Feel the Love Tonight”, de Tim Rice e Elton John).

A história mostra o nascimento de Simba (quando filhote JD McCrary e na vida adulta Donald Glover), filhote do leão Mufasa (James Earl Jones, também do original), que lidera uma determinada região da África do Sul, e da rainha Sarabi (Alfre Woodard). Ele é apresentado aos animais por um madril, Rafiki (John Kani), ao som de “The circle of life”, de Elton John, construindo um diálogo direto com o obra dos anos 90 e de maneira impactante. O trono de Mufasa, no entanto, é cobiçado por Scar (Chiwetel Ejiofor), um leão mais velho e amargurado, que procura um grupo de hienas, tendo à frente Shenzi (Florence Kasumba), para colocar um plano em ação. A melhor amiga de Simba é Nala (primeiro Shahadi Wright Joseph e depois Beyoncé Knowles-Carter) e o pássaro Zazu (John Oliver), ajudante de Mufasa, ajuda a vigiá-lo. Quando fica curioso com uma determinada indicação do seu tio, Simba irá se envolver numa complicação determinada, que o leva a conhecer o suricato Timon (Billy Eichner) e o javali Pumba (Seth Rogen). O roteiro de Jeff Nathanson, responsável pela escrita de alguns trabalhos de Spielberg (Prenda-me se for capaz, O terminal, Indiana Jones e o reino da caveira de cristal), é absolutamente fiel ao filme dos anos 90, com uma diferença na abordagem.

A dificuldade de fazer uma nova versão desse clássico era clara para Favreau. Responsável também pelos dois primeiros Homem de Ferro e por Cowboys e aliens, uma curiosa mescla entre ficção científica e faroeste, Favreau não tem a originalidade como uma de suas características. No entanto, no plano visual, ele consegue produzir peças diferenciadas, mesmo sem possuir as cores notáveis da obra que o inspirou. Este O rei leão talvez seja o maior filme live action já realizado, com uma aproximação da realidade tão grande que fica difícil separar o que é a própria natureza e o que é computação gráfica, acompanhado de uma direção de fotografia de Caleb Deschanel espetacular. É um trabalho irrepreensível, melhor, inclusive, do que Mogli e um antecipado vencedor do Oscar de efeitos visuais se não houver outro trabalho assim de destaque no ano. Os detalhes visuais de cada animal é impressionante, incluindo girafas, insetos, pássaros e antílopes: destaque-se a sequência em que Pumba e Timon encontram pela primeira vez Simba, num deserto inalcançável, lembrando a imensidão de Lawrence da Arábia, e cada detalhe facial é bem exprimido.
Favreau não segue exatamente os passos do diretor da animação, Rob Minkoff e Roger Allers, preferindo adotar um tom mais soturno para tratar dos passos da dinastia proclamada por Mufasa. A relação de amizade com seu pequeno filhote é muito interessante, com ensinamentos, mas aqui Favreau se atém a um tom menos infantil, mesmo com a clássica “Hakuna Matata”. O vasto cenário amplia, muitas vezes, a solidão do personagem central a partir de determinado momento, incorrendo em instantes sensíveis.

Ou seja, em certos momentos, este O rei leão é realmente mais para adultos e confere certamente seu diálogo com a peça Hamlet, de Shakespeare, mais do que o original. Há muitas sequências passadas à noite ou em cavernas escuras, além de uma homenagem evidente a trabalhos como Os dez mandamentos, dos anos 50, em determinadas passagens nas quais anteriormente já buscava seguir esse caminho – e os personagens só têm algum alívio quando estão seguindo o roteiro de canções já esperado. As hienas, as vilãs, soam muito mais ameaçadoras e filmadas com rara sagacidade. E, mesmo que suas expressões não sejam de uma animação, a movimentação deles é irretocável, um verdadeiro primor na transposição da realidade para a fantasia, acentuada pela trilha sonora emocionante de Hans Zimmer.
Como não especial admirador da animação, tendo a considerar este O rei leão uma peça mais bem acabada e, apesar de menos colorida, mais eficiente em sua mescla de drama e humor. Ainda existe, na metade, uma lacuna de roteiro que pode soar estranha já no original, além do final excessivamente apressado, elementos não resolvidos por Favreau, porém este consegue imagens mesmo mais poéticas do que o de 1994, lembrando um pouco o filme O elo perdido, dos anos 80, com uma recriação da savana africana tão milimétrica quanto expansiva. Há blockbusters de grande qualidade e este O rei leão é um deles. Que ele vai encontrar seu público é certo – e desta vez com grande justiça.

The lion king, EUA, 2019 Diretor: Jon Favreau Elenco: Donald Glover, Seth Rogen, Chiwetel Ejiofor, Alfre Woodard, Billy Eichner, John Kani, John Oliver, Beyoncé Knowles-Carter, James Earl Jones, Florence Kasumba Roteiro: Jeff Nathanson Fotografia: Caleb Deschanel Trilha Sonora: Hans Zimmer Produção: Jon Favreau, Jeffrey Silver, Karen Gilchrist Duração: 118 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Fairview Entertainment Distribuidora: Walt Disney Studios

Homem-Aranha – Longe do lar (2019)

Por André Dick

O personagem da Marvel com mais adaptações neste século sem dúvida é o Homem-Aranha. Desde a trilogia exitosa assinada por Sam Raimi, principalmente seus dois primeiros episódios, com Tobey Maguire no papel central, o super-herói conquistou uma legião maior de fãs, que já compreendia aquela dos quadrinhos. Logo depois da terceira parte assinada por Raimi, ele voltou interpretado por Andrew Garfield. Se as duas composições tinham talento, ainda com as presenças de Kirsten Dunst e Emma Stone, pareceu pouco natural que já em 2017 a Marvel trouxesse o reinício da franquia. Sobretudo porque O espetacular Homem-Aranha 2 havia sido um desastre e talvez um sinal de que o personagem mereceria um tempo de espera. Não foi o que aconteceu e Jon Watts dirigiu a nova versão, desta vez com Tom Holland à frente do elenco. Conhecido por sua atuação anterior em O impossível, Holland trazia a faceta mais juvenil, envolvido com problemas de adolescência, que os demais não destacavam com tanta ênfase.

Homem-Aranha – De volta ao lar foi um dos melhores filmes do universo MCU. Não por acaso, havia expectativa para esta segunda parte. Ela inicia com Nick Fury (Samuel L. Jackson) e Maria Hill (Cobie Smulders) no México, investigando uma estranha situação e sendo resgatados pelo misterioso Quentin Beck (Jake Gyllenhaal). Logo a narrativa se transporta para Nova York, na qual alunos da Midtown School of Science and Technology se preparam para viajar à  Europa, sob o comando dos professores Dell (JB Smoove) Roger Harrington (Martin Starr).
Ainda sob o impacto de uma reviravolta em sua vida, Peter Parker continua amigo de Ned (Jacob Batalon) enquanto tem a rivalidade de Flash (Tony Revolori). Ele pretende se declarar à colega Michelle “MJ” Jones (Zendaya). No entanto, fica preocupado com um possível interesse de Happy Hogan (Jon Favreau), colaborador de Tony Stark, por sua tia May (Marisa Tomei, mais presente do que no primeiro).
A primeira estadia é em Veneza, na Itália, numa lembrança de Indiana Jones e a última cruzada, onde Parker e seus amigos terão de enfrentar uma nova situação inesperada e ele vem a conhecer Mysterio (Gyleenhaal), a partir do qual vão se suceder novas reviravoltas. De fundo, a tentativa de Parker de conciliar sua vida com uma pretensão amorosa, cortejada por Brad (Remy Hii), ao mesmo tempo que seu amigo Ned passa a namorar Betty Brant (Angourie Rice).

Talvez o principal peso para o filme seja suceder o excelente Vingadores – Ultimato, em que o universo MCU conseguia o equilíbrio adequado entre drama, comédia e ação. O novo Homem-Aranha se sente como um regresso aos episódios anteriores, mais acessíveis e sem uma certa profundidade na composição de suas imagens. Se o primeiro tinha uma aura juvenil bem desenvolvida, com cores trabalhadas e pouco CGI, este segundo já tenta se adequar a uma certa grandiosidade que víamos nos episódios de Capitão América e Thor, embora com um tratamento descompromissado quando trata de Parker e seus amigos. O humor, no início, é orgânico, como no primeiro, desenhando um universo próximo daquele das peças de John Hughes, mas Watts vai tendo de fazer certas escolhas que não acrescentam muito ao tom da história. É um pouco difícil entender a escolha em situar todos numa viagem, senão por uma fraqueza de roteiro. Ou seja, como esses personagens não se encaixariam num cenário europeu, justifica-se a reunião deles numa viagem com Parker, e por vezes lembra até o raso Eurotrip – Passaporte para a confusão. Nesse sentido, os personagens bem-humorados têm à frente Hogan, numa boa atuação de Favreau, e Revolori, com pouco espaço, e ainda assim bem aproveitado.

O filme trabalha bem as diferentes paisagens – temos ainda Holanda e Inglaterra, por exemplo, ainda que fotografadas de maneira não tão expressiva quanto poderia – e orquestra bem suas cenas de ação, porém parece faltar um certo desenvolvimento em personagens basilares, a exemplo da própria Michelle Jones, apesar de Zendaya atuar bem. Também não parece um acerto o esquecimento de figuras vitais da primeira parte, em roteiro assinado apenas por Chris McKenna e Erik Sommers, fazendo certamente falta Jonathan Goldstein e John Francis Daley, que ajudaram a escrever o anterior e dirigiram A noite do jogo. Num conjunto, Homem-Aranha – Longe do lar funciona bem menos do que a primeira empreitada de Watts. Ele se mantém ainda com momentos destacáveis antes não pelo roteiro e sim pela presença carismática de Holland. Gyllenhaal poderia entregar um personagem mais interessante, embora seja acompanhado por uma cortina de efeitos visuais notáveis (principalmente uma perto do ato final, que dialoga, numa escala maior, com Doutor Estranho). Levando-se em conta a dificuldade de dar continuidade a um universo que atingiu seu filme-chave no fechamento de Vingadores – Ultimato, pode ser que esta é a principal explicação. Sem nunca atingir o desenvolvimento conseguido, por exemplo, no segundo exemplar assinado por Raimi, de 2004, a nova obra dedicada ao super-herói invoca uma nova tentativa de revitalização, com esses atores, contudo com outro direcionamento.

Spiderman – Far from home, EUA, 2019 Diretor: Jon Watts Elenco: Tom Holland, Samuel L. Jackson, Zendaya, Cobie Smulders, Jon Favreau, Martin Starr, J. B. Smoove, Jacob Batalon, Martin Starr, Marisa Tomei, Jake Gyllenhaal, Remy Hii, Angourie Rice Roteiro: Chris McKenna e Erik Sommers Fotografia: Matthew J. Lloyd Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Kevin Feige e Amy Pascal Duração: 129 min. Estúdio: Columbia Pictures, Marvel Studios, Pascal Pictures Distribuidora: Sony Pictures Releasing

Han Solo – Uma história Star Wars (2018)

Por André Dick

O diretor Ron Howard tem mantido uma sólida filmografia desde os anos 80, quando foi responsável por algumas referências de seus respectivos gêneros, a exemplo de SplashCocoonWillow – Na terra da magia e O tiro que não saiu pela culatra. Nos anos 90, trouxe o melhor filme sobre bombeiros já feito (Cortina de fogo), além de uma história interessante sobre o universo jornalístico (O jornal), outra sobre os primeiros desbravadores nos Estados Unidos (Um sonho distante) e uma ficção indicada ao Oscar (Apollo 13). Nos anos 2000, ele recebeu seu primeiro Oscar com Uma mente brilhante e encadeou ótimos filmes (A luta pela esperança e Frost/Nixon) com outros de menos interesse (O Código Da VinciO Grinch). Em 2013, Howard inaugurou uma nova parceria com o astro Chris Hemsworth, por meio do belo filme sobre Fórmula 1, Rush, parceria que ele repetiu em No coração do mar, sobre a origem do romance Moby Dick, de Herman Melville.

Também ator e cujo trabalho de direção recebeu apoio do mentor George Lucas, para quem trabalhou em American grafitti,  Howard foi chamado a ocupar o posto de diretor de Han Solo – Uma história Star Wars quando a dupla Cristopher Miller e Phil Lord, dos dois Anjos da lei e de Uma aventura LEGO, foi demitida pela produtora Kathleen Kennedy por divergências de concepção – e quando, ao que se sabe, já havia sido rodada boa parte do filme.
A narrativa começa com Han Solo (Alden Ehrenreich) e sua amante Qi’ra (Emilia Clarke) em Corellia, um centro de construção naval da galáxia, tentando escapar de uma gangue local. No despiste de tropas imperiais, acaba acontecendo uma separação, o que vai levar Han, três anos depois, a uma batalha num planeta chamado Mimban. Ele conhece um grupo de criminosos que têm à frente Tobias Beckett (Woody Harrelson), que age com a esposa Val (Thandie Newton) e o alienígena Rio Daurant (voz de Jon Favreau). No meio do caminho, isso vai levar o personagem central a uma cela onde conhecerá seu amigo Chewbacca (Joonas Suotamo). Han tem a sorte de falar a língua do companheiro, Shyriiwook. A partir daí, a história envereda por um roubo de carga liderado pelo mesmo Beckett, a serviço de Dryden Vos (Paul Bettany, usando uma camisa social), líder do clã criminoso Crimson Dawn. Claro que, depois de algumas peripécias, Solo se encontrará com Lando Calrissian (Donald Glover), afinal esta é uma prequela das aventuras localizadas na trilogia de George Lucas.

Howard é um diretor talentoso e sabe lidar, a maior parte do tempo, com os atrasos impostos pela primeira filmagem de Miller e Lord. Ele tem um talento para a técnica de efeitos especiais, o que já mostrou em outras obras. No entanto, é certo que o roteiro de Jonathan e Lawrence Kasdan não é o mais interessante. Lawrence é autor de Os caçadores da arca perdida e O império contra-ataca, clássicos dos anos 80, e, a partir da década passada, quando dirigiu O apanhador de sonhos, não teve mais acertos. Sua parceria com J.J. Abrams em O despertar da força rendeu novos personagens até certo ponto sólidos, porém nunca instigantes como os da trilogia original.
A tarefa de dar vida à juventude de Solo esbarraria em duas coisas: o ator obviamente não seria Harrison Ford e este personagem tinha mais justificativa com Luke Skywalker e Princesa Leia a seu lado. Seu início de amizade com Chewbacca é uma coleção de momentos previsíveis, sem nenhum traço do humor que constituiria a dupla na trilogia de Lucas – e talvez este pudesse ter sido melhor explorado por Lord e Miller, que teriam entendido o filme como uma comédia, ao contrário da Disney.

Por mais que consigamos vê-lo de maneira autônoma, Han Solo não é um personagem suficientemente complexo para receber uma história à parte, ao menos não com um roteiro disperso. Talvez se imaginasse que ele, se Ford fosse mais jovem, rendesse um novo Indiana Jones. Sua participação não foge ao esquema de um personagem apaixonado que conhece novos amigos e precisa antecipar várias referências do que aparece na trilogia de Lucas principalmente.  Ehrenreich tem boa vontade e certo talento, demonstrado antes em Ave, César! e Regras nãos e aplicam, mas não supre a ausência de mais carisma, independente do fato de acertadamente não tentar uma imitação de Ford.
Também se percebe que a atenção visual dada ao restante da série não comparece aqui, pelo menos não depois da satisfatória primeira meia hora. O filme de Howard, além de se basear numa fotografia inadequada de Bradford Young – responsável pelo trabalho primoroso de O ano mais violento –, centrada demais na cor marrom (a mesma do uniforme de Han e do pêlo de Chewbacca), variando com o cinza e um azul esmaecido, não tem assessoria de um figurino e direção de arte ricos (uma sala em que ocorrem alguns dos momentos-chave é particularmente desinteressante). No segundo ato, é visível a falta de criatividade para a criação de lugares múltiplos para esse mundo estendido, numa configuração eterna de paisagens desérticas e rochosas sem o mínimo de atrativo. A falta de criatividade parece repercutir nas atuações pouco inspiradas do habitualmente ótimo Harrelson e de Glover, levando-se ainda em conta que Emilia Clarke não tem carisma o suficiente para sustentar sua personagem, embora pareça a mais centrada no que está acontecendo a seu redor. Do mesmo modo, os personagens – mesmo Chewbacca – se sentem apenas componentes de um universo forçadamente estendido. Esse não era um traço de Rogue One, um semiépico espacial despretensioso e muito eficaz em sua construção de novos personagens capazes de anteceder a obra de 1977 sob um viés até mesmo trágico.

A trilha sonora de John Powell tem o incômodo de ser uma mescla de acordes novos com outros extraídos do trabalho icônico de John Williams: nos momentos de ação, surge a trilha de Williams em meio aos estilhaços de tentativa de fazer uma nova. É uma tentativa de se aproveitar da nostalgia do espectador em todos os momentos, principalmente numa sequência praticamente semelhante a uma que acontece em O império contra-ataca. Isso faz crer que não apenas a nova trilogia Star Wars se baseia demais na antiga, como Han Solo se nutre das aventuras do personagem já vistas anteriormente em outra companhia. Esse caminho causa um incômodo eficaz para que o espectador nunca se desvencilhe do fato de que essa é apenas uma introdução a algo mais importante – e talvez quem se contente com o que se convencionou chamar de fan service saia mais satisfeito da sessão. Nem mesmo algumas referências ao gênero do faroeste, na parte final, sustentam o fato de que todas as sequências de ação soam por demais genéricas, embora muito bem feitas e com uma parte técnica praticamente irreparável. Sob esse ponto de vista, é lamentável que Howard nunca consiga inserir seu ritmo de ação em meio ao drama, já comprovado em Willow, Rush e No coração do mar, por exemplo. Ele sempre parece aqui apenas um nome para conduzir uma obra iniciada por outros diretores e que tentou consertar ao máximo o estrago, como profissional competente. Do mesmo modo, o elenco visivelmente sentiu o peso das refilmagens. Se a Millennium Falcon sempre atinge um poder de recuperação, Howard, infelizmente, não conseguiu o mesmo.

Solo – A Star Wars history, EUA, 2018 Diretor: Ron Howard Elenco: Alden Ehrenreich, Joonas Suotamo, Woody Harrelson, Emilia Clarke, Donald Glover, Thandie Newton, Phoebe Waller-Bridge, Paul Bettany, Jon Favreau, Linda Hunt, Ian Kenny, John Tui, Warwick Davis Roteiro: Jonathan Kasdan, Lawrence Kasdan Fotografia: Bradford Young Trilha Sonora: John Powell e John Williams Produção: Kathleen Kennedy, Allison Shearmur, Simon Emanuel Duração: 135 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Walt Disney Studios

Homem-Aranha – De volta ao lar (2017)

Por André Dick

Depois de o Homem-Aranha ser vivido por Tobey Maguire entre 2002 e 2007, na trilogia de Sam Raimi, ainda referencial, e por Andrew Garfield em dois filmes, um de 2012 e outro de 2014, a partir de Capitão América – Guerra Civil temos seu novo intérprete, Tom Holland. Revelado em O impossível, no qual fazia o filho de Naomi Watts num desastre da natureza, e integrante do elenco do ótimo Z – A cidade perdida, Holland reprisa o papel no seu primeiro filme solo, Homem Aranha – De volta ao lar.
A história tem início logo após a Batalha dos Vingadores contra Loki em Nova York, quando a empresa de Adrian Toomes (Michael Keaton), que ajuda a limpar a cidade, é barrada pelo Department of Damage Control (DODC), que constitui uma parceria entre o governo norte-americano e Tony Stark (Robert Downey Jr.). Toomes decide roubar algumas peças de tecnologia das naves alienígenas para fazer seus próprios artefatos. Esse início é um boa retomada da cena de combate da obra de Joss Whedon, quase esquecida em filmes posteriores da Marvel, com exceção de Homem de Ferro 3.

Oito anos depois, Parker é chamado por Stark para participar da luta contra o Capitão América –  e vemos algumas cenas de Guerra Civil filmadas com um celular, parecendo um making of. Pode-se dizer que, a partir daí, o diretor Jon Watts já esclarece seu caminho: este Homem-Aranha é muito mais bem-humorado do que os anteriores. O de Maguire era um tanto melancólico, e funcionava bem, com momentos pontuais de diversão, enquanto o de Garfield se fazia mais próximo deste, com uma certa adolescência em jogo e interesse por esporte (ele andava de skate, por exemplo). Peter Parker estuda na Midtown School of Science and Technology, à espera de um novo chamado para outra missão.
Ele é muito amigo de Ned (Jacob Batalon) e apaixonado por Liz (Laura Harrier), com quem participa do Decathlon acadêmico do Sr. Harrington (Martin Starr, conhecido por suas participações em Freaks and geeks e Adventureland), apesar de incomodado por um colega, Flash (Tony Revolori, de O grande hotel Budapeste). Sua tia, May (Marisa Tomei), nem desconfia que ele usa um uniforme secreto para combater o crime. Nas suas peregrinações atrás de criminosos, o Homem-Aranha se depara com alguns homens de Toomes, usando máscaras dos Vingadores, numa sátira a Caçadores de emoções, de Kathryn Bigelow. Como se trata do sexto filme do super-herói em 15 anos, Watts resolveu não contar novamente sua origem, ou seja, não temos a figura do tio do personagem, mesmo porque esta versão já aparecia na peça dos irmãos Russo.

O diretor encadeia as ligações de maneira muito ágil e descompromissada, tornando o humor orgânico, sem exageros, assemelhando-se, em proposta, a Homem-Formiga, um dos mais bem resolvidos do universo, por misturar naturalmente ação, drama e humor. Há uma influência visível no timing cômico e de ação dos filmes de Edgar Wright, e a impaciência adolescente de Parker é bem dosada por Holland. Sua participação em Guerra Civil se estendia como uma espécie de trailer antecipado para este filme, e havia um certo nervosismo do ator: aqui o nervosismo se converte, em determinado momento, em apelo dramático, e o ator funciona bem, principalmente no embate com um ótimo – embora subaproveitado – Michael Keaton, brincando com Birdman. Perto do semidesastre que foi o segundo filme com Garfield, com seu excesso de vilões e camadas irresolvidas, este se sente uma realização ainda que sem novidades na estrutura bastante eficiente. Ele se encaixa com o restante do universo sem parecer forçado e a participação de Stark não se sente intrusiva, como poderia antecipar o trailer (Downey Jr., aliás, está bem, assim como Jon Favreau, na pele de seu assessor Happy Hogan).

Os quarenta primeiros minutos têm um diálogo com filmes de adolescente recentes, a exemplo de Cidades de papel, com uma participação exitosa de Batalon, como o amigo de Parker, As vantagens de ser invisível e uma brincadeira com O clube dos cinco, de John Hughes – com o Capitão América servindo como uma espécie de guia dos bons valores escolares. Há uma boa solução de romantismo em relação a Liz, embora a atriz, Harrier, não tenha a mesma participação permitida a Kirsten Dunst e Emma Stone, das versões anteriores. Quando o Homem-Aranha procura criminosos, há um misto entre humor e ação bem dosados que faz lembrar o primeiro filme da franquia de Raimi, principalmente na conversa entre habitantes de um bairro (entre eles, Stan Lee). Watts também sabe criar uma boa ambientação, principalmente nas cenas noturnas, com um belo visual destacado pela fotografia de Salvatore Totino. Talvez Homem-Aranha – De volta ao lar comece a parecer repetitivo justamente quando ingresse nas cenas de ação inevitáveis (por vezes exageradas), o que é um problema. Não chega a haver tanta mudança de tom neste Homem-Aranha, mesmo com seis roteiristas, mas principalmente a sequência de embate conclusiva se sente um tanto apressada e sem vibração. Como praticamente o filme se sustenta num diálogo, bem feito, com o humor, a exemplo de Homem-Formiga, ele nunca se sente pesado o suficiente para entendermos que o super-herói está passando por ameaças vigorosas. Isso não prejudica o resultado, certamente um dos mais exitosos do gênero nos últimos anos.

Spider-man – Homecoming, EUA, 2017 Diretor: Jon Watts Elenco: Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Marisa Tomei, Jon Favreau, Gwyneth Paltrow, Zendaya, Donald Glover, Jacob Batalon, Laura Harrier, Tony Revolori, Bokeem Woodbine, Tyne Daly, Abraham Attah, Hannibal Buress, Kenneth Choi, Martin Starr, Selenis Leyva Roteiro: Jonathan Goldstein, John Francis Daley, Jon Watts, Christopher Ford, Chris McKenna, Erik Sommers Fotografia: Salvatore Totino Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Amy Pascal, Kevin Feige Duração: 133 min. Estúdio: Columbia Pictures, Marvel Studios, Pascal Pictures Distribuidora: Sony Pictures

Mogli – O menino lobo (2016)

Por André Dick

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Depois de realizar os dois primeiros Homem de ferro, o diretor e ator Jon Favreau se viu num momento difícil ao ser contestado de forma vigorosa por seu trabalho em Cowboys e aliens, com Daniel Craig e Harrison Ford em boas atuações. Segundo ele, para fugir aos grandes estúdios e grandes projetos, ele fez Chef, em que atuou também como um cozinheiro que se vê às voltas com uma nova maneira de atrair seus clientes, depois de estar à frente de um restaurante.
No entanto, não levaram três anos para que Favreau se voltasse novamente a um grande projeto, ligado aos estúdios Disney: a refilmagem de Mogli – O menino lobo, cuja versão mais conhecida era a de 1967, dirigida pelo alemão Wolfgang Reitherman e o último supervisionado por Walt Disney, antes de sua morte. Apesar de apreciar muitas animações, acredito que o desenho animado original é um dos melhores já feitos, uma mescla de humor e musical, cuja simpatia é destacada – e, ao assisti-lo pela primeira vez, com a minha esposa, que o tinha como referência de filmes na infância, já havia ficado admirado com a maneira que o diretor Reitherman conseguiu transformar a história original de Rudyard Kipling em algo realmente universal.
Ao contrário da versão de 67, Favreau prefere atenuar a parte do humor e os números musicais (mantendo alguns, é verdade) para fazer uma espécie de épico, em que a animação muitas vezes se parece com cenários reais mais do que vemos em filmes – e a sensação é a de estarmos vendo uma mistura entre As aventuras de Tintim, As aventuras de Pi e Avatar. Embora não tenha assistido a e ele em 3D (optamos por uma versão em 2D, legendada), fica difícil negar o quanto Favreau e sua equipe se esmeraram em criar uma atmosfera realmente de selva para o filme – mais real do que aquela que vi no trailer do próximo Tarzan. Os seus detalhes são, nesse sentido, espetaculares e, apesar de a animação de 1967 ter um trabalho de cores belíssimo, é a versão de Favreau que dá a sensação de estarmos mesmo em meio aos perigos de uma floresta.

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A história segue inicialmente os mesmos passos da versão original: Mogli (Neel Sethi, único ator real) é um menino criado numa matilha de lobos, adotado por Raksha (Lupita Nyong’o) e Akela (Giancarlo Esposito).  Ele vive ao lado de seus irmãos lobos quando surge o ameaçador tigre Shere Khan (Edris Elba, com trabalho de voz temível). A partir daí, já se sabe o que acontecerá: Mogli terá a ajuda de Bagheera (Ben Kingsley, ótimo) – uma pantera que o salvou quando era criança – para chegar à aldeia onde vivem os humanos.
No entanto, há percalços pelo caminho, e a figura mais inusitada surge: o urso Baloo. É a interação entre o urso (cuja voz é de Bill Murray, num grande momento) e Mogli que rende os melhores momentos da versão dos anos 60 e desta: há uma união no sentido de que o menino lobo o ajudará a encontrar mel o suficiente para que possa hibernar com tranquilidade. Favreau lida com humor, assim como Reitherman, com essa situação inusitada e daí para a frente a obra se sucede numa sequência grande de ação, modificando alguns elementos do original – e falar aqui seria redundar em spoilers.
Alguns falam o quanto o original torna estereotipada a imagem da Índia no sentido cultural. Embora estivesse a 17 anos de Indiana Jones e o templo da perdição, o verdadeiro estereótipo dessa cultura (com o humor de Spielberg e Lucas), Mogli talvez não tivesse o intuito de defini-la, como este filme também não possui. Há um jogo de personagens universal aqui e Favreau lida mesmo com violência e um sentido de realidade que o de 67 não possui (pelo menos, nem todas as cenas são para crianças). É um traço do diretor, que em Cowboys e aliens afastou parte do público a que se destinava pelas cenas de violência (principalmente a inicial, quando o personagem de Craig é abordado por alguns forasteiros).

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Do mesmo modo, este Mogli trabalha num plano às vezes de uma escuridão, e personagens que pareciam apenas bem-humorados no primeiro se transformam em ameaçadores aqui, e nem mesmo a volta das canções “Wan’na Be Like You” e “The Bear Necessities” atenua este traço. Scarlett Johansson faz de forma destacada a voz de Kaa – e é um de seus melhores trabalhos, ao lado de Ela, em que também aparecia apenas por meio da voz –, com uma cena no mínimo assustadora. No entanto, talvez o destaque fique por conta de Cristopher Walken, como Louie. Interessante perceber como a maneira de olhar dos personagens de Murray e Walken se parece com a dos atores; percebe-se que Favreau lidou com ela na criação da imagem animada.
A questão mais intrigante desse universo (breve spoiler) é realmente a maneira como o menino se insere entre os animais e a questão da “flor vermelha”, que seria o fogo ameaçador para o tigre Shere Khan, que ficou cego de um olho por causa de uma tocha. Favreau parece imaginar esses personagens também como figuras solitárias de uma selva gigantesca e o menino como uma ameaça de que pode crescer e acabar com tudo por meio do fogo. (fim de spoiler) Não apenas há um diálogo interessante com o universo de Tarzan como se sente a ameaça desse universo em cada ponto. O filme inicia quase como uma sequência a uma das passagens do Apocalypto, de Mel Gibson, e em determinado momento evoca, de forma ainda mais curiosa, Apocalypse now.  O trabalho de imagens que lida com essa simbologia é destacado ainda mais em razão da fotografia de Bill Pope, cujo trabalho em Matrix, Homem-Aranha 2 e Scott Pilgrim contra o mundo mostra o mesmo vigor para cenas de ação e um poder quanto aos detalhes que poderiam passar despercebidos, dando real movimento às sequências nas quais Mogli parece correr um real risco. E Neel Sethi se mostra um ator versátil para levar a história adiante, embora eu considere que o humor de Mogli na versão de 67 era um destaque, assim como a mais próxima ligação entre Baloo e Bagheera, aqui deixada um pouco de lado.

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Mas o maior sentido do trabalho de fotografia se dá no sentido épico que Favreau empresta a esta adaptação: não são poucas as paisagens que são espetaculares e definitivamente reais, como na sequência em que Mogli precisa escapar de um determinado confronto e se vê no meio de um estouro de búfalos – é a cena talvez mais impressionante do filme por sua escala grandiosa, lembrando um pouco a cena dos dinossauros de King Kong (2005). Há uma reverência de Favreau em relação à natureza, não apenas neste trecho como naqueles em que aparecem os elefantes – e a ligação que o menino lobo tem com todos, mesmo não sendo, de fato, um animal. Todos os temas universais envolvendo a família são ressaltados no roteiro, e mesmo a passagem do menino por uma espécie de paraíso (em que pode haver a serpente) antes de conhecer a dor real de um acontecimento ligado à sua origem, torna esta obra de Favreau em algo mais do que uma produção para agradar ao grande público. Ele abrange a integração do homem e natureza como raras vezes se revela num filme.

The jungle book, EUA, 2016 Diretor: Jon Favreau Elenco: Neel Sethi, Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Lupita Nyong’o, Scarlett Johansson, Giancarlo Esposito, Christopher Walken, Garry Shandling, Brighton Rose Roteiro: Justin Marks Fotografia: Bill Pope Trilha Sonora: John Debney Produção: Jon Favreau e Brigham Taylor Distribuidora: Walt Disney Studios

Cotação 4 estrelas

O lobo de Wall Street (2013)

Por André Dick

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O início de O lobo de Wall Street consegue defini-lo quase por completo. Há uma sucessão de imagens do milionário Jordan Belfort, feito por Leonardo DiCaprio, saindo de casa e jogando uma taça no gramado de seu pátio, indo para o emprego com uma mulher em posição indiscreta e finalmente sua chegada ao escritório, onde as drogas são usadas na mesma proporção com que se utiliza o telefone para negociar. Para quem viu no ano passado o filme Sem dor, sem ganho, de Michael Bay, não há novidades. Mas Martin Scorsese é um dos maiores diretores da história, criador de um estilo próprio e capaz de dominar os mais variados gêneros, como pôde ser visto em A invenção de Hugo Cabret, no qual realmente saiu de sua zona de conforto. Ele consegue encontrar uma síntese dos mais variados desequilíbrios do indivíduo, seja em O touro indomávelOs bons companheirosCassino ou em Depois de horas, o filme que é, em sua essência, a peça-chave para entender O lobo de Wall Street. Um dos mais subestimados da trajetória do diretor, e pequeno em termos de orçamento, surgido logo depois da recepção fracassada à sua obra-prima O rei da comédiaDepois de horas mostrava movimentos de câmera constantes, que se expandiram em Os bons companheiros e Os infiltrados. O cenário do escritório também é o mesmo. São quase 30 anos de distância, mas há diferenças: antes Scorsese empregava um humor nas entrelinhas, agora ele é cáustico.
Ao mostrar a chegada de um jovem Jordan Belfort à Bolsa de Wall Street em meados dos anos 80, quando conheceu Mark Hanna (Matthew McConaughey), com o intuito de enriquecer e fazer uma família com Teresa Petrillo (Cristin Milioti), Scorsese parece ingressar numa época de ingenuidade, porém já ameaçada pela escala crescente do uso de drogas. Depois da criação de sua empresa, Stratton Oakmont, composta por um grupo de enganadores, e tendo como braço direito Donnie Azoff (Jonah Hill), por meio da figura de Belfort, Scorsese aproveita alguns elementos já extraídos por Spielberg de DiCaprio em Prenda-me se for capaz. Mas consegue, de certo modo, ainda mais.

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O essencial em O lobo de Wall Street é como Scorsese, um diretor essencial de atores, capaz de tirar as melhores atuações de De Niro, consegue obter de DiCaprio uma atuação superior àquelas apresentadas em O grande Gatsby e Django livre. Embora a cada movimento de câmera e a cada grito ou distorção grave, DiCaprio parece incorrer numa vontade de ser premiado, ele tem uma desenvoltura notável, mesmo quando encadeia uma espécie de ego trip. O roteiro tenta criar uma série de episódios em que Belfort tem o ponto de destaque, também quando contracena com outros personagens, como a sequência na qual encontra o agente do FBI Patrick Denham (um Kyle Chandler irônico). Na maior parte do tempo, a sátira nada discreta de Scorsese coloca os atores em uma posição de chamarem a atenção para si próprios (Matthew McConaughey mexendo as mãos e batendo no peito numa reunião como DiCaprio, e ainda assim divertido; os dentes postiços de Jonah Hill), mas eles nunca soam simples estereótipos, embora também, em parte, o sejam. O ponto principal é o de Belfort. Em meio às tentações pela trapaça financeira, ele tem um certo idealismo romântico embaixo da depravação e uma certa reserva em explicar para seu pai, “Mad” Max Belfort (um Rob Reiner, o diretor de Conta comigo e Questão de honra, não menos do que excepcional), os seus negócios. Ou seja, DiCaprio não esvazia Belfort a ponto de torná-lo uma simples caricatura. Sua relação com a primeira mulher e com aquela que o conquista de forma nem tão definitiva, Naomi LaPaglia (Margot Robbie, uma revelação), tem uma velocidade destemperada e, em meio a conflitos exagerados, verdadeiramente mordaz. O grupo escalado por Belfort para a Stratton Oakmont também é uma reunião de estereótipos, assim como o banqueiro Jean-Jacques Saurel (Jean Dujardin), mas em algum ponto isso realmente funciona.

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De todos os filmes de Scorsese, O lobo de Wall Street parece o filme mais acelerado em todos os sentidos – e quem ingressa na proposta dificilmente sentirá as três horas de duração. É como se ele tivesse assistido vários filmes que satirizam a sociedade nos últimos anos, também em razão de seus filmes, resolvesse tornar a crítica hiperbólica para a plateia. Ele é obviamente um diretor com talento gráfico para as cenas e nada do que se assiste é improvisado, embora às vezes pareça. Também a montagem de Thelma Schoonmaker é a de uma especialista em dar a ideia de que algo está acontecendo, mesmo quando não está, e isso marca presença algumas vezes em O lobo de Wall Street. Por exemplo, o Donnie de Jonah Hill puxa brigas porque em algum momento Scorsese considerou que ele fosse um novo Joe Pesci, principalmente o de Os bons companheiros. Mas muitas delas são genuinamente engraçadas, e há pelo menos três sequências notavelmente cômicas, com uma agilidade própria dos melhores momentos de Depois de horas, e a última hora particularmente devastadora (a cena do iate é antológica, pelo ritmo que Scorsese emprega, quando não se sabe se estamos vendo um drama ou uma comédia, e o emprego impagável da canção “Gloria”, juntando-se a uma trilha bem selecionada), além de alguns achados da narração (quando Belfort compara um determinado personagem a Mozart ou já no início quando não se revela um guia confiável, por mudar a cor de seu carro).
A sensação é que Scorsese queria realmente contemporâneo e moderno – em Cabo do medo, ele reinventa o suspense nos anos 90, por exemplo – e torna os travellings numa técnica para mostrar a vida apressada e superficial. Em sua carreira, isso às vezes não deu certo, mas em O lobo de Wall Street preenche todos os requisitos. Em grande parte, a necessidade de Scorsese querer soar contemporâneo o deixa quase sempre próximo dos personagens, buscando algum resquício de humanidade em meio à amoralidade. O melhor de Bling Ring, outra sátira recente, embora pouco engraçada, é uma possível amizade entre a líder das contravenções e o rapaz recém-chegado ao colégio, que Sofia Coppola, mesmo com seu sentimento solitário a respeito dos jovens, não soube identificar. Temerários, de alguns anos para cá, os filmes que congelam imagens de pessoas em festas, seja estourando champanhes, usando drogas ou mostrando mulheres nuas – parecem o mesmo filme, e sem a dose exata de elaboração (todos, em algum ponto, também devem ao Scarface de De Palma). Não é porque são usados esses elementos que o filme se torna provocador, mas surpreende-se que Scorsese siga esse caminho, desta vez em uma festa ininterrupta de três horas, focando uma fúria emocional contra a ganância financeira que mescla Cosmópolis, Gremlins II e o trabalho do grupo Monty Python.

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O lobo de Wall Street 15O escritório de Jordan Belfort traz algumas sequências de humor inabalável feitas por DiCaprio e Jonah Hill, pois tudo, antes de mais nada, é de um exagero interminável: em determinado momento, um dos vendedores da equipe de Belfort segura uma cobra em volta do pescoço, falando ao telefone, em meio a uma bagunça desproporcional. Em outro momento, entra uma banda lembrando o grupo de mulheres ao redor da mesa de reunião de Cidadão Kane. Mas Scorsese não homenageia essas figuras: ele as leva ao ponto máximo da sátira, esvaziando qualquer normalidade em suas ações, e nos dá a oportunidade de rir delas, que parecem existir apenas para rir de quem está do outro lado do telefone. Embora não seja uma vingança completa, O lobo de Wall Street não deixa de fazer um estrago.
Para Scorsese, não há nada em O lobo de Wall Street que não esteja preconcebido pela própria mitologia acerca do universo de Wall Street. Todos lá invocam uma certa sátira – e Scorsese, como David Cronenberg em Cosmópolis, é corrosivo na medida certa. Para ele, o que deve se sobrepor é o deboche, simples e direto. Isso pode ser, além de grande cinema – nem todos o receberam assim –, o primeiro real acerto na parceria do diretor com DiCaprio. Na verdade, seus encontros nunca haviam dado realmente certo, sempre cercados por uma necessidade de provarem a si mesmos que podem conquistar o mundo. Quase como Jordan Belfort. E aqui estamos: O lobo de Wall Street, embora não possa ser enquadrado num gênero definido, é também, por causa dos dois, uma das melhores tragicomédias dos últimos tempos.

The Wolf of Wall Street, EUA, 2013 Diretor: Martin Scorsese Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Cristin Milioti, Jean Dujardin, Margot Robbie, Justin Wheelon, Kenneth Choi, Kyle Chandler, P.J. Byrne, Rob Reiner, Jake Hoffman, Jon Favreau, Spike Jonze Roteiro: Terence Winter, baseado em livro de Jordan Belfort Fotografia: Rodrigo Prieto Trilha Sonora: Howard Shore Produção: Emma Tillinger Koskoff, Joey McFarland, Leonardo DiCaprio, Martin Scorsese, Riza Aziz Duração: 179 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Appian Way / EMJAG Productions / Red Granite Pictures / Sikelia Productions

Cotação 5 estrelas

Homem de ferro 3 (2013)

Por André Dick

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Em 2008, Robert Downey Jr., como o Homem de Ferro, enfrentou um grande vilão, Obadiah Stane (Jeff Bridges). Em 2010, novamente sob a direção de Jon Favreau, ele regressou ao papel de herói, tendo como rivais dois vilões interessantes, Ivan Vanko (Mickey Rourke) e Justin Hammer (Sam Rockwell). Ainda assim, o que se destacava, ainda mais do que o primeiro, era o bom humor de Downey Jr., além da aparição de Samuel L. Jackson e da cena de boxe com a personagem de Scarlett Johansson.
Se este segundo filme subestimado já começava no tribunal, com o Homem de Ferro sendo pressionado a dividir os segredos de sua invenção com o Estado, aqui o herói, já estabelecido e fazendo novos experimentos com sua armadura, começa se lembrando de um episódio ocorrido em 1999 (daqui em diante, spoilers) quando dormiu com uma bióloga, Maya Hansen (Rebecca Hall), na virada do ano em Berna, depois de ser abordado por um homem estranho, Aldrich Killian (Guy Pearce), a fim de tratar de negócios.
Com coadjuvantes de luxo, Favreau se saiu bem nos dois filmes que dirigiu, aliando técnica nos efeitos visuais e uma montagem eficiente, enquanto neste terceiro Shane Black tem uma dificuldade especial de dosar o ritmo. Com essa questão episódica demais – o passado que retorna com todos os seus problemas –, ele parece não conseguir, como Favreau, inserir os personagens em conjunto, apesar de a primeira meia hora ser agradável, e afasta alguns deles da trama durante muito tempo. A relação entre o Homem de Ferro e Pepper Potts (Gwyneth Paltrow, eficiente como nos outros filmes) parece ter congelado no final do segundo filme. Ela está à frente, nas empresas, enquanto ele está em sua mansão, trabalhando no porão, escondido. Ele também não conversa pessoalmente uma vez sequer com aquele que, em determinado momento, de modo irônico, vai provocar nele um espírito de revanche (nem conversará no fim, o que parece indicar problemas no roteiro).

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Desta vez, ele guarda pesadelos da batalha de Nova York de Os vingadores, mas o afastamento continua o mesmo, e não há exatamente um aprofundamento em sua psicologia, o que havia antes do clímax do segundo. Ou seja, se antes Stark e Pepper estavam quase sempre juntos, aqui parece que eles não têm vínculo estabelecido, apenas uma necessidade de dividir diversas piadas na sala de estar e no quarto. Nesse sentido, o filme não deixa a desejar.
A vida do Homem de Ferro começa a ser ameaçada quando surge um terrorista, Mandarim (Ben Kingsley, que parece saído diretamente do set de O ditador), que remete sobretudo a Bin Laden, e ele consegue invadir, com seus vídeos, todas as redes de televisão, depois de atentados em que não se consegue descobrir a origem das bombas. Embora aqui não estejamos tratando de A hora mais escura, e sua polêmica com as cenas de tortura, há cenas de humor um tanto estranhas (sobretudo aquelas que acontecem no Paquistão), pois trata-se de um filme de diversão que evoca diretamente um contexto muito mais sério. O aspecto cômico do filme acaba abalado por sua tentativa de estabelecer um contato com acontecimentos reais, que não são divertidos. Em algumas dessas sequências, entra em cena aquele que se denomina Patriota de Ferro, que na verdade é Jim Rhodes (Don Cheadle, menos efetivo do que no segundo filme).
Depois de uma catarse sonora e de efeitos especiais, é preciso, para Black, dar vazão ao filme e cultivar seus elementos externos, colocando o Homem de Ferro como amigo de um menino, Harley (Ty Simpkins, bom ator), o que, apesar de soar simpático e render momentos divertidos (sobretudo um diálogo que deve ter sido feito de forma improvisada por Downey Jr.), acaba extraindo boa parte do núcleo do filme e parece querer agradar, de forma apressada, o público infantil. O herói precisa recuperar-se para enfrentar o vilão: porém, o que ele faz é decorar uma garagem como laboratório. Claro que não se deseja achar que filmes que almejam o divertimento têm necessariamente uma faceta dramática, mas pode haver uma pausa para recuperar as ações. Quando acontece a catarse com sua mansão – e ela aparece no trailer –, tratando-se de uma sequência impressionante, com a ótima fotografia de John Toll (Cloud Atlas), onde ele, afinal, abrigava seus projetos, parece não haver a justa medida de sofrimento.

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Num filme de ação, é preciso temer os vilões e se torcer para o herói superar suas dificuldades. Quando o herói parece não sentir dificuldades nem tem desejo de reparar a realidade em que vivia, a tensão, em boa parte, se perde (evidente no fato de que muitas vezes ele não está diretamente envolvido na ação e na conversa final, depois dos créditos). E quando o vilão, Mandarim, revela sua verdadeira faceta, vemos um lado de Kingsley constrangido (o extraordinário ator não escapa ileso da brincadeira).
Black, que fez o roteiro de todos os filmes da série Máquina mortífera (os dois primeiros são especialmente bons), mas também dos fracos O último boy scout e O último grande herói, e antes fez apenas um filme, justamente com Downey Jr., Beijos e tiros, que brincava com o cinema noir e tinha um estilo interessante, demonstra mais competência do que o esperado para cenas de ação grandiosas (e há pelo menos três no filme que parecem superar qualquer outra da série), mas acaba destoando justamente onde se esperava mais: no roteiro bem delineado e com diálogos eficientes. O que se vê é uma sucessão de gags, de todos os estilos, algumas delas divertidas, sobretudo pela atuação de Downey Jr. E, vendo de forma distanciada, um diretor que fez apenas um filme e não dirigia há oito anos não seria a melhor alternativa para imprimir ritmo.
O Homem de Ferro de Downey Jr. não pode ser levado totalmente a sério, mas tampouco soa sem elementos dramáticos ou sem uma relação paterna que o acompanha na criação da própria empresa. Aqui, a porção dramática diminui consideravelmente em passagens com maior tendência à autossátira, quase como o que fez Richard Lester em Superman III, e a crise de ansiedade inventada para Stark parece aleatória. Existe, inclusive, uma sequência que lembra a do personagem de Tom Cruise em Encontro explosivo, satirizando ele próprio em Missão impossível. Pelos trailers, parecia, inclusive, que haveria uma espécie de influência do terceiro Batman pela escuridão das imagens. Não é o que acontece (nem deveria), mas trailers certamente ajudam a estabelecer uma concepção visual prévia para o que irá se assistir. Não se espere, portanto, nenhum traço sombrio. Mas, particularmente, o que tira a energia que deveria haver no duelo entre Homem de Ferro e o empresário Killian é justamente Guy Pearce, ator que tem dificuldade de estebelecer uma ligação com a plateia e parece soar em muitos momentos exagerado. Sua atuação é, particularmente, equivocada, ainda mais por causa do roteiro e quando comparada às de Jeff Bridges, no primeiro, e de Rourke e Rockwell no segundo.
Existe emoção em Homem de ferro 3 quando Downey Jr. consegue mesclar o elemento do bom humor com o drama, quando ele está numa situação delicada e percebe que Pepper pode correr um perigo indesejado. É justamente quando estabelece ligações humanas que Homem de ferro 3 cresce. Quando ele soa com elementos de sátira a outros filmes, inclusive aos da série, ele acaba por não conseguir fazer o que mais quer: divertir.

Iron man 3, EUA, 2013 Diretor: Shane Black Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Guy Pearce, Ben Kingsley, Paul Bettany, Rebecca Hall, Jon Favreau, Don Cheadle, James Badge Dale, Ashley Hamilton, Yvonne Zima, William Sadler, Ty Simpkins, Miguel Ferrer Produção: Kevin Feige Roteiro: Shane Black, Drew Pearce Fotografia: John Toll Trilha Sonora: Brian Tyler Duração: 130 min. Distribuidora: Disney Estúdio: DMG Entertainment / Marvel Studios / Paramount Pictures

Cotação 2 estrelas e meia