Três anúncios para um crime (2017)

Por André Dick

Visto como um dos grandes favoritos ao Oscar depois de ser escolhido como melhor filme no Festival de Toronto, Três anúncios para um crime estende aos Estados Unidos a trajetória de seu diretor britânico, Martin McDonagh, mais conhecido por Na mira do chefe e Sete psicopatas e um shih tzu. McDonagh tem um certo estilo situado entre o humor corrosivo e o policial, fazendo de certos artifícios previsíveis uma possibilidade de rever certa tradição dentro de gênero. Em seu novo filme, ele mostra uma mãe divorciada, Mildred Hayes (Frances McDormand), que, descontente com o fato de que nunca descobriram o responsável pelo assassinato de sua filha adolescente, Angela (Kathryn Newton), decide alugar três outdoors com Red Welby (Caleb Landry Jones), com um recado para a polícia de Ebbie, Missouri, onde mora. Ela vive com o filho Robbie (Lucas Hedges) e se desentende constantemente com o ex-marido, Charlie (John Hawkes). Sua melhor amiga é Denise (Amanda Warren). Todos parecem entendê-la; ela também entende a todos, mesmo que não queira deixar isso claro. Ao mesmo tempo, joga sinuca às vezes com James (Peter Dinklage, ótimo). Sua maior qualidade não é exatamente a simpatia, e McDormand parece não mostrar aqui as qualidades que lhe deram o Oscar de melhor atriz em Fargo e sim os sentimentos de secura encontrados em sua personagem, por exemplo, de Moonrise Kingdom.

Por meio do protesto, o principal alvo é o xerife Bill Willoughby (Woody Harrelson, entre o ingênuo e o patético, com grande eficácia), sempre acompanhado pelo oficial Jason Dixon (Sam Rockwell). Este é acusado de castigar afrodescentes na delegacia, no entanto McDonagh não chega a mostrá-lo fazendo isso, tentando capturar uma ambiguidade que certamente leva a muitas reclamações em relação ao roteiro. Enquanto Bill vive com a mulher, Anne (Abbie Cornish), e as duas filhas, numa fazenda com estábulos e muitos cavalos, Jason vive com sua mãe (Sandy Martin), com problemas visíveis de saúde, embora tão problemática quanto seu filho.
Se os dois primeiros atos mesclam drama e humor de maneira adequada – e o personagem de Dixon é o principal motivo para sustentar a combinação –, parece que o grande momento do filme é a partir da meia hora final, e ela acaba oferecendo mais sentido a toda a narrativa de McDonagh. Visivelmente influenciado pelos irmãos Coen, a personagem Mildred é desagradável, graças a uma performance fria de McDormand, mas tem um clímax bem desenvolvido. E, pelo menos antes, há uma sequência magnífica em que ela avista um cervo perto de um dos outdoors, que parece mesclar exatamente o passado e o presente. Harrelson e Rockwell não chegam a ter um roteiro em conjunto, mas, separados, conseguem render bons momentos, sobretudo na leitura de uma determinada carta, condicionando o espectador a uma cena típica dos irmãos Coen e realizada com grande êxito em termos de timing. Há algumas gags envolvendo o personagem de Dinklage que funcionam por exatamente não aplicar o politicamente correto, embora em nenhum momento sigam um caminho de desconsideração a certos comportamentos. A nova namorada de Charlie, Penelope (Samara Weaving), representa bem isso.

O mais interessante é como McDonagh mostra a reação dos personagens ao protesto de Mildred. O xerife tem um certo problema de saúde e faz chantagem emocional com ela, no que não tem êxito, e sua relação com a mulher tem uma emoção calibrada (Cornish também atua bem). Uma determinada sequência passada no estábulo de sua fazenda é cortante, tanto pela atuação de Harrelson quanto pela atmosfera campestre de afastamento de tudo. Já Dixon tem uma reação exasperada ao ver os cartazes e completamente descontrolado e desligado de qualquer racionalidade. Por isso, o que acontece a ele revela não a tentativa de transformá-lo em outra figura e sim numa espécie de símbolo de certo desconhecimento de si mesmo. McDonagh, de maneira bem-humorada, inclui tanto uma carta quanto uma briga de pub convincente para acordá-lo.
Desse modo, o roteiro de McDonagh trata da raiva internalizada e a passividade de personagens. Em meio a um cenário perdido no meio do nada, destacado pela trilha sonora de Carter Burwell, parece um faroeste fora de época e possui cenas de violência bem inseridas no contexto. As feridas dos personagens, antes nunca expostas, começam a se avolumar com uma contundência fora de série. Quem com ferro fere, com ferro será ferido, parece estar inscrito nas iniciais desses personagens.

Nisso, Mildred é a representação da mudança que deseja inserir movimento numa paragem quase em forma de natureza morta, destacando-se nisso a atuação de Rockwell, no final de contas talvez a mais expressiva depois de um começo mais caricato. Para isso, a fotografia de Ben Davis colabora de maneira decisiva. Ebbing é vista como uma cidade idílica; por baixo, ela esconde problemas que caracterizam muitas cidades grandes. A violência gera violência nesse lugar afastado de tudo, porém pode apaziguar a transmissão dessa violência para outros lugares. No entanto, ao mesmo tempo, para McDonagh, não há reais mudanças, o que não equivale a dizer que elas não devem ser procuradas. A boa impressão em relação a Três anúncios é de que ele é absolutamente estranho, no mínimo original, e, apesar de não parecer a aclamada obra-prima como foi recebido, é um dos melhores momentos do cinema norte-americano nos últimos anos.

Three billboards outside Ebbing, Missouri, EUA/ING, 2017 Diretor: Martin McDonagh Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, John Hawkes, Peter Dinklage, Caleb Landry Jones, Lucas Hedges, Abbie Cornish, Amanda Warren, Sandy Martin, Samara Weaving, Kathryn Newton Roteiro: Martin McDonagh Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Graham Broadbent, Pete Czernin, Martin McDonagh Duração: 115 min. Estúdio: Blueprint Pictures, Fox Searchlight Pictures, Film4 Productions, Cutting Edge Group Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

As sessões (2012)

Por André Dick

As sessões

Mark O’Brien (John Hawkes) adquiriu poliomielite aos 6 anos de idade e desde então precisa respirar com um pulmão de ferro e ser cuidado por diferentes pessoas em diferentes horários. Além disso, ele é jornalista e poeta e, quando procurado para fazer uma reportagem, que se chamaria “On Seeing a Sex Surrogate”, sobre o sexo de pessoas com alguma deficiência física, logo se interessa em experimentá-lo, o que não chegou ainda a fazer, com 38 anos de idade.
O mote de As sessões, que inicia com uma narração ao estilo de documentário, poderia indicar uma espécie de drama piegas, com todas as notas correntes em outros filmes desse gênero, com raras exceções. Não é o que se vê. Por meio de uma direção competente do polonês Ben Lewin, o filme traz uma notável visão sobre como o corpo pode despertar, para O’Brien, sensações que possam preencher lacunas da própria existência, assim como trazer a sensação de pecado. As sessões implica na tentativa de O’Brien, com a ajuda do Padre Brendan (William H. Macy), que em certo momento parece saído de um filme de Wes Anderson, em tentar lidar com sua criação católica e compreender que pode ter uma experiência sexual sem a necessidade do compromisso, com a ajuda de Cheryl Cohen Greene (Helen Hunt). Ela é uma substituta sexual de Berkley, que o ensinará a ter prazer com o próprio corpo que lhe traz, a princípio, apenas dor física, na dificuldade de movimentos, além da respiração dificultosa. O interessante é a maneira como esse encontro se dá e a sensibilidade que surge dele. Cheryl é casada, mãe de um adolescente, e relata a experiência dia a dia num gravador, para pesquisas posteriores. O’Brien precisa enfrentar sua restrição e seu medo religioso diante do sexo e, para isso, Cheryl passa a também servir de confidente.

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O diretor, que também teve de enfrentar a poliomielite, evita, a todo custo, tornar os cenários de As sessões como uma extensão das dificuldades físicas de O’Brien. Ou seja, todas as cores se intensificam (dos abajures, das flores, das portas) e mesmo as camisetas que o personagem veste, e não lembro de outro filme se passar em dias tão ensolarados e de céu azul semelhante, além dos ambientes serem, com poucas exceções, luminosos. Mesmo a igreja, que costuma ser retratada como um lugar de cores discretas, resulta com grandes luminosidades e um amarelo intenso e um azul celeste nas imagens e nos símbolos.
Trata-se, na verdade, de uma escolha estética de Lewin, e pode soar como um despiste para um cotidiano ainda mais duro, mais nebuloso, sendo a representação do próprio bom humor com que O’Brien relata sua trajetória, ao mesmo tempo em que não tira do filme sua autencidade elaborada em mínimos detalhes. Não acompanhamos a vida dele, que já foi tema de um curta documentário, em 1997, vencedor do Oscar, Breathing Lessons: The Life and Work of Mark O’Brien, ou seja, As sessões recorta uma experiência específica de sua vida.
Isso dá ao filme, inicialmente, uma lacuna, pois não conhecemos sua família, seu passado (a não ser por algumas imagens), atenuando um sentido de falta de amplitude pessoal. No entanto, por este recorte, Lewin consegue elaborar o personagem da maneira mais humana possível, seja com seu olhar noturno para o gato durante a noite, seus passeios no parque, as idas à igreja e à casa onde se encontra com Cheryl. Sua relação com Amanda (Annika Marks) e Vera (Moon Bloodgood) possui também uma espécie de distanciamento e aproximação calculados, nunca inserindo As sessões numa espécie de análise psicológica definitiva sobre os personagens e nunca colocando as pessoas como necessariamente culpadas ou perfeitas por ajudarem ou não na situação de O’Brien, sobretudo quando o tema são os encontros dele com Cheryl.

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A amizade com o Padre se desenha rapidamente, por meio do relato de O’Brien sobre mulheres por quem se apaixona, sobretudo aquelas que cuidam dele. Esses relatos contribuem com uma espécie de sentimento agridoce, capaz de o espectador se aproximar do personagem, vendo-o não especificamente sob o ponto de vista dramático nem complacente.  Os sentimentos do personagem central se colocam entre um diálogo e outro e, nesse meio tempo, a narrativa se costura de modo inteligente, parecendo haver uma superficialidade, mas nunca deslizando para o lugar-comuml. O fato de O’Brien querer estender o espaço de suas sessções ao cotidiano, como condição de uma normalidade que deseja, amplia esta sensação de que estamos diante de um drama que consegue costurar os desejos do personagem com a leitura que faz o espectador deles. Apesar de incorrer em alguns clichês e diálogos não elaborados como se esperaria, As sessões detalha como se dá a amizade, a admiração e o amor por meio de um desejo corporal, oferecendo, por meio de elementos a princípio insignificantes, um maior significado tanto à vida quanto aos sentimentos que a governam.
A medida dada ao personagem do padre por William H. Macy é notável. Ator que teve seu auge no período entre Fargo e Magnólia, apresenta quase sempre, como aqui, um desempenho acertado, e o diretor Ben Lewin evita dar a ele um espaço que possa encobrir o de O’Brien, no entanto sem deixar de elaborá-lo satisfatoriamente. Já John Hawkes (que nesta temporada também aparece em Lincoln), foi, de longe, o ator mais injustiçado do ano, esquecido pelo Oscar. Sua atuação é de excelente nível, e temos um sentido dos movimentos de O’Brien e de sua fala pausada de maneira esplêndida. Com o complemento de Helen Hunt, em seu melhor papel desde Melhor é impossível, desde o momento em que se autoriza a fazer uma interpretação sem nenhum receio de como será vista, As sessões segue um caminho raro no cinema norte-americano: o de utilizar um tema que permanece como tabu de uma maneira discreta (não se entenda como um passo atrás do filme em relação à realidade) e afetivamente comovente.

The sessions, EUA, 2012 Diretor: Ben Lewin Elenco: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Moon Bloodgood, Annika Marks, W. Earl Brown, Blake Lindsley, Adam Arkin, Ming Lo, Jennifer Kumiyama, Robin Weigert, Jarrod Bailey, Rusty Schwimmer, James Martinez, Tobias Forrest, J. Teddy Garces, B.J. Clinkscales, Jason Jack Edwards, Rhea Perlman, Daniel Quinn, Jonathan Hanrahan, Gina-Raye Carter, Amanda Jane Fleming, Stephane Nicoli Produção: Judi Levine, Ben Lewin, Stephen Nemeth Roteiro: Ben Lewin Fotografia: Geoffrey Simpson Trilha Sonora: Marco Beltrami Duração: 97 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Rhino Films / Such Much Films

Cotação 4 estrelas