Alfa (2018)

Por André Dick

A pré-história, curiosamente, nunca chegou a ser tema de muitos filmes, apesar de seus atrativos. Dirigido por Albert Hughes, o mesmo de O livro de Eli, Alfa tenta romper esse pouco empenho em trazer histórias nesse período. Certamente o mais conhecido do gênero é A guerra do fogo, do diretor de O nome da rosa e O urso, o francês Jean-Jacques Annaud, com excelente nível de produção, ótimas fotografia, direção de arte e maquiagem (premiada justamente pelo Oscar), uma espécie de extensão da primeira parte de 2001. Além disso, o filme ganhou o César (o Oscar francês) de melhor filme.
O filme de Annaud traz um grupo de homens pré-histórico que desconhece o fogo, já descoberto pela tribo inimiga. O que mais importa é o comportamento do homem nessa época, com cenas envolvendo uma mulher (Rae Dwan Chong, de A cor púrpura), e a tentativa de amizade com os mamutes (o que seria imitado em 10.000 a.C., de Roland Emmerich). No todo, é um filme interessante, mas irregular.

Alfa se passa na Europa, em 20.000 a.C., quando tribos de homens caçadores se preparam para a caça a fim de encontrar alimentos suficientes para enfrentar o inverno. O líder dessa tribo, Tau (Jóhannes Haukur Jóhannesson), treina seu filho adolescente Keda (Kodi Smit-McPhee), apesar da negativa de sua esposa Rho (Natassia Malthe). Durante o combate a bisões da estepe, o menino acaba sofrendo um acidente e seu pai imagina que ele acabou morrendo. Isso, no entanto, não aconteceu e a partir daí surge uma luta pela sobrevivência. O ponto mais alto é justamente quando Keda precisa enfrentar uma matilha de lobos, dos quais um fica ferido e a ele se afeiçoa, sendo chamado Alpha. Ele o chama desta maneira certamente porque seu pai é o líder de sua tribo, e ele enxerga no animal uma extensão da liderança e do conhecimento em relação ao território de perigo que o cerca.

É interessante como Hughes faz uma boa mescla entre elementos de A guerra do fogo com a série de animação A era do gelo, mas sob um ponto de vista histórico, sem bom humor. Alfa também parece reproduzir, em alguns momentos, por causa também da paleta de cores, algumas imagens históricas, como aquela, em câmera lenta, do bisão no confronto com Keda, pausando suas imagens em slow motion, com toques ainda de Dança com lobos, mais exatamente de uma cena marcante da obra de Kevin Costner. A partir da imagem que se estabelece entre Keda e o lobo, pode-se identificar uma aproximação não apenas de Dança com lobos como de Caninos brancos, o filme com Ethan Hawke do início dos anos 90. Se Kodi Smit-McPhee fosse um ator mais completo, a narrativa certamente renderia mais. Trata-se de um jovem ator, talvez promissor, mas sem ainda a estrutura para sustentar praticamente sozinho um filme todo. Não que ele não se esforce: quando a narrativa não tem o ímpeto necessário, é por causa das escolhas do roteiro.

Se a primeira parte é levemente previsível, o filme ingressa em seguida numa tentativa de sobrevivência do personagem diante de várias situações, algumas mais plausíveis do que outras. Hughes concilia elementos de filmes de fantasia com a tentativa de reproduzir um período inóspito na vida na Terra. Ele acerta mais quando usa as imagens no sentido poético, com tomadas aéreas que remetem ao documentário Voyage of time, de Terrence Malick, do que explorando a parte técnica de ação. Ou seja, quando ele insere as imagens de maneira mais emocional ele ganha pontos, lembrando, inclusive, o recente Corpo e alma, indicado ao Oscar de filme estrangeiro. A fotografia de Martin Gschlacht não tem a competência de Lubezki, porém consegue oferecer um enquadramento que ressoa junto ao espectador, sobretudo na sequência em que Keda luta contra um lago congelado. De modo geral, Alpha não estabelece da melhor maneira a ligação entre a ideia de família do jovem sobrevivente com sua família e seu clã, e ainda assim Hughes extrai certo crédito das premissas oferecidas.

Alpha, EUA, 2018 Diretor: Albert Hughes Elenco: Kodi Smit-McPhee, Jóhannes Haukur Jóhannesson, Natassia Malthe Roteiro: Daniele Sebastian Wiedenhaupt Fotografia: Martin Gschlacht Trilha Sonora: Joseph S. DeBeasi Produção: Albert Hughes, Andrew Rona Duração: 96 min. Estúdio: Columbia Pictures, Studio 8, The Picture Company Distribuidora: Sony Pictures