Shaft (2019)

Por André Dick

O personagem do detetive particular Shaft teve, além de uma breve série de TV, três filmes, o mais conhecido de 1971 com Richard Roundtree, dirigido por Gordon Parks, e o mais contemporâneo de 2000, estrelado por Samuel L. Jackson e tendo atrás das câmeras John Singleton, falecido lamentavelmente de forma precoce. Este novo filme com o personagem surge como uma espécie de sequência dos outros, mostrando John Shaft II (Samuel L. Jackson), que se separou da Maya Babanikos (Regina Hall), deixando-a com o filho John “JJ” Shaft Jr. (Jessie Usher), depois que um traficante, Pierro “Gordito” Carrera (Isaach de Bankolé), tentou matá-los.
A esposa não aceita o estilo de vida de Shaft e, duas décadas depois, o seu filho trabalha na área de segurança cibernética do MIT do FBI. Determinado dia, seu amigo desde criança, Karim (Avan Jogia), aparece morto por causa de uma overdose de heroína. Isso é motivo para Shaft Jr. começar a perseguir quem pode estar envolvido na morte, o que o leva a um grupo de traficantes.

Namorado de Sasha (Alexandra Shipp), o jovem integrante do FBI recorre a seu pai, que tem um escritório no Harlem, para ajudá-lo a encontrar os responsáveis pela morte do amigo, o que vai levá-lo a uma trama intrincada de suspeitos, incluindo Bennie Rodriguez (Luna Lauren Vélez). No entanto, ele desconfia que seu pai aceita colaborar com ele para, na verdade, encontrar outro criminoso que ele persegue há décadas. É interessante como Tim Story, o diretor do novo Shaft, tenha em seu currículo obras um descartáveis, como o decepcionante Quarteto fantástico de 2005, embora algumas divertidas dentro do que se propõe, como os dois Policial em apuros. Desta vez, ele consegue, de certo modo, se inspirar no estilo de Dois caras legais, que emulava o cinema dos anos 70, inclusive com a trilha sonora típica. Mesmo a química entre Jackson, saindo aqui do universo Marvel, e Usher, é bastante parecida, com trocas de ofensas e desentendimento risíveis.
O filme mais funciona nesse plano do humor do que propriamente em seus elementos de narrativa policial. E, como na obra de Shane Black com Crowe e Gosling, a fotografia de Larry Blanford é muito elegante, proporcionando imagens da cidade de Nova York de maneira rebuscada e dialogando com a excelência da recente série John Wick. As cenas de ação, com isso, acontecem em lugares de rotina, mas embelezadas por um visual detalhado, o que não era característica das obras anteriores de Story, significando um amadurecimento em sua carreira.

Um dos elementos mais adequados à obra é de que ela não se leva a sério. Há um determinado momento que o próprio Jackson faz uma brincadeira com a roupa que veste e com ator de outra série, bastante parecido com ele. Do mesmo modo, as conversas familiares entre os Shaft não têm nenhuma preocupação em ter um senso de responsabilidade, pelo contrário acabam usando uma linguagem imprópria para obras mais comedidas – o que é melhor: parece não ligar nem um pouco para qualquer polêmica que seja despertada O roteiro é assinado por Kenya Barris (Viagem das garotas e Black-ish) e de Alex Barnow (Uma família da pesada), trazendo as características dos seus trabalhos anteriores em outro contexto. As conversas podem ser vistas com certa desconfiança, de tom vulgar, no entanto nunca se sentem ofensivas porque exatamente o elenco não as conduz de maneira imprópria. Nisso, atrizes como Regina Hall, recentemente um destaque em Support the girls, apesar de não terem o melhor roteiro, acabam se destacando pela eficiência com que empregam seus diálogos.

Ainda assim, nesta falta de pretensão evidente, Story consegue introduzir questões familiares e o conflito entre os pais separados do jovem Shaft se situam num espaço difícil de ser percorrido sem cair no lugar-comum. Hall e Jackson formam uma boa dupla, trazendo envolvimento a este laço nunca desfeito com o passado, enquanto o filho tenta se adequar a uma nova maneira de ação. Se o original dos anos 70 continua uma referência para seu gênero e o de 2000 possuía um vilão mais elaborado, graças à atuação de Christian Bale, este novo Shaft, apesar de recebido com descrédito, é um acerto. Não se duvide que, caso tenha um bom número de visualizações na Netflix e uma boa bilheteria nos Estados Unidos, ganhe uma sequência, e seria muito interessante rever esses atores em seus personagens.

Shaft, EUA, 2019 Diretor: Tim Story Elenco: Samuel L. Jackson, Jessie Usher, Regina Hall, Alexandra Shipp, Richard Roundtree,Luna Lauren Vélez Roteiro: Kenya Barris e Alex Barnow Fotografia: Larry Blanford Trilha Sonora: Christopher Lennertz Produção: John Davis Duração: 111 min. Estúdio: New Line Cinema, Davis Entertainment, Khalabo Ink Society, Warner Bros. Pictures Distribuidora: Warner Bros. Pictures (Estados Unidos), Netflix (Internacional)