Café Society (2016)

Por André Dick

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Escolhido para abrir o Festival de Cannes em 2016, Café Society traz mais uma vez a marca de Woody Allen, que vem fazendo um filme a cada ano, em grande regularidade. Nesta década, especialmente, ele tem colhido elogios, por obras como Meia-noite em Paris, Blue Jasmine, Magia ao luar e Homem irracional. Em Café Society, Allen parece assumir algumas características não tão visíveis. Ele sempre procura mostrar pares românticos em suas histórias, em que a mulher normalmente costuma prender o homem a uma expectativa, e aqui não é tão diferente. Allen, ainda assim, consegue inovar dentro de seu roteiro padrão.
Jesse Eisenberg faz Bobby Dorfman, que sai de Nova York, nos anos 1930, para Los Angeles, a fim de trabalhar com o tio Phil Stern (Steve Carell), casado com Karen (Sheryl Lee, com pouca chance), um agente de talentos cada vez mais reconhecido. Ele segue para lá por indicação de sua tia, Rose (Jeannie Berlin), deixando para trás sua irmã Evelyn (Sari Lennick), casada com um professor de colégio, Walt (Richard Portnow), seu pai joalheiro, Marty (Ken Stott), e sua mãe, Rose (Jeannie Berlin). Phil pede que sua secretaria Veronica/Vonnie (Kristen Stewart) apresente Los Angeles a Bobby. Ela é o contrário de todos que conhece na cidade, uma jovem que está em busca de uma vida simples.

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No entanto, quando ele demonstra interesse, ela diz que tem um namorado jornalista, Doug. Bobby continua fazendo trabalhos para o tio, frequentando festas com estrelas, enquanto tem os olhos voltados apenas para Vonnie. As conversas incluem Judy Garland, Billy Wilder, DW Griffiths, Barbara Stanwyck e James Cagney, entre outros, bastante ágeis, graças à competência habitual de Allen em mesclar fantasia e realidade, o humor judaico e referências artísticas diversas.
A partir daí, há uma surpresa na narrativa e Allen mostra as desilusões e conquistas desse casal. Também surgem com mais definição na trama um irmão gângster de Bobby, Ben (Corey Stoll), que lembra exatamente um determinado personagem de Tiros na Broadway, e Veronica Hayes (Blake Lively, a revelação de Águas rasas).
As referências do diretor ao cinema dos anos 30 são apaixonadas, com uma trilha sonora embalada pelo jazz e um trabalho espetacular de fotografia de Vittorio Storaro, que remete aos melhores momentos de O conformista, dos anos 70 (quando mostra clubes noturnos e pistas de dança), e O fundo do coração (quando algumas situações ganham colorações diferentes), um desenho de produção belíssimo de Santo Loquasto, além do figurino brilhante e minucioso de Suzy Bezinger. Várias sequências lembram igualmente New York, New York, de Scorsese, dos anos 70. Storaro ilumina as passagens filmadas em Los Angeles, com uma alegria antes captada apenas em Barton Fink (em sua porção fora do hotel), enquanto Nova York se torna mais cinza e azulada, fora de um determinado clube noturno onde a história guarda seus momentos. Se pudesse haver um correspondente direto deste filme é Era uma vez em Nova York, com a diferença de a obra de Allen ser mais despretensiosa e bem construída.

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A impressão que se tem é que, depois de sua passagem pela Europa, principalmente após Meia-noite em Paris, Allen se sente mais cuidadoso com sua parte técnica. Nos anos 70, ele fazia comédias realistas, nos anos 80 alternou obras entre o drama bergmaniano e o humor, no entanto tendo sempre Nova York como ponto de encontro, e nos anos 2000, ao filmar O escorpião de Jade e Vicky Cristina Barcelona, ou 2010, quando esteve na ensolarada Itália (em Para Roma com amor), ele se transformou num autor com toque mais europeu do que antes já se entrevia nele e o qual satirizava em Dirigindo no escuro. Claro que já aparecia um certo cuidado nas ambientações, como em Tiros na Broadway e Poucas e boas, mas nunca com a maturidade de agora e com a beleza plástica de Café Society (em diálogo direto com Meia-noite em Paris).
Com um custo de 30 milhões, alto para os padrões de Allen, é lamentável que ele não tenha retornado em boa bilheteria (arrecadou apenas 20 até agora), mesmo trazendo uma dupla (Eisenberg e Stewart) que já deu certo em outros filmes, a exemplo de Adventureland e American Ultra. Outra vez a química do casal é excelente, e Café Society deve alguns de seus melhores momentos a essa interação.
Talvez esta bilheteria também se deva ao fato de Café Society não apresentar a mesma melancolia alegre do diretor e ator, nem exatamente seu melhor bom humor. Apesar de Eisenberg se esforçar em ser um Woody Allen na tela, e ele é realmente um grande ator, e Stewart oferecer certa graciosidade à sua personagem (sendo filmada por Allen e Storaro como uma diva dos anos 30), além de estar cada vez mais desenvolta (comprovando o talento que já exibe desde O silêncio de Melinda, em 2004), o filme se mantém num plano quase decepcionado diante da vida e dos possíveis sonhos de Los Angeles.

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Neste ponto, ele parece dialogar com um universo de sonhos não concretizados, e igualmente pouco amargo e sim otimista, mais no sentido de Blue Jasmine do que de Magia ao luar, por exemplo. Lively e Carell trazem boas atuações complementares, embora o segundo se sinta um pouco deslocado (ele substituiu Bruce Willis um pouco antes do início das filmagens) e sua ligação com o contexto nunca fique devidamente trabalhada, em razão da pressa narrativa com seu personagem. Eisenberg, sob esse ponto de vista menos afeito à carreira do diretor (que aqui atua como narrador também), mostra uma insuspeita melancolia, que faz com que tudo a seu redor se transforme em algo menos previsto do que ele gostaria, exibindo a versatilidade já exibida este ano ao interpretar o vilão de Batman vs Superman, Lex Luthor. Ele lida com um personagem que simplesmente vai amadurecendo, com a companhia de amigos como o casal Rad (Parker Posey) e Steve Taylor (Paul Schneider), sem exatamente mudar, e Allen, por meio de uma montagem ágil em todos os aspectos, emprega sua presença como aquela que imagina ser a de um jovem em plena época da depressão, com sua vontade de se transformar em alguém. Entre sonhos na capital do cinema e dedicação ao universo gângster, Café Society mostra que todos os personagens estão à procura de si mesmos. Não é algo novo na filmografia de Allen, contudo é mais denso do que poderia ser um retrato apenas bem-humorado dos anos 30.

Café Society, EUA, 2016 Diretor: Woody Alllen Elenco: Jesse Eisenberg, Steve Carell, Kristen Stewart, Corey Stoll, Blake Lively, Paul Schneider, Parker Posey, Ken Stott, Jeannie Berlin, Paul Schackman, Sheryl Lee Roteiro: Woody Allen Fotografia: Vittorio Storaro Produção: Edward Walson, Letty Aronson, Stephen Tenenbaum Duração: 96 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Gravier Productions

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Batman vs Superman – A origem da justiça – Edição definitiva (2016)

Por André Dick

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Este texto apresenta descrições de algumas cenas incluídas

Passados alguns meses depois do lançamento no cinema, a versão estendida, anunciada desde antes da estreia, de Batman vs Superman – A origem da justiça começa a ganhar os primeiros espectadores. A Warner Bros sofreu críticas de quem queria assisti-la na tela grande, mesmo porque a versão original desagradou a muitos fãs e críticos. A metragem agora é de 182 minutos, enquanto a versão dos cinemas é de 151 minutos (Snyder já havia feito duas versões estendidas para Watchmen, sendo que a segunda tem 215 minutos). Batman vs Superman poderia ser um filme polarizador se não tivesse sido lançado numa época estranhamente desigual também no cinema, em que alguns filmes sem tanta qualidade adquirem status de clássicos instantâneos, enquanto outros, como ele, são considerados fracassos de realização.

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De fato, não criou uma polarização: enquanto há admiradores do filme, grande parte do público (pelo menos a maior parte de quem se manifesta) o rejeitou, embora a média do IMBb seja razoável: 7/10. Em termos de crítica, no Rotten Tomatoes, ele recebeu 27% de aprovação. Esta marca é um pouco superior à de Batman e Robin e Superman IV – dois filmes bastante fracos com esses super-heróis. No Letterboxd, impressiona a quantidade de cotações de meia estrela até duas estrelas, como se fosse um dos piores do ano, até antes da estreia da versão definitiva – e, desde então, a média passou para três a quatro estrelas. Antes mesmo de o filme não chegar à marca respeitável – embora inferior às expectativas – de 900 milhões de dólares nas bilheterias, houve pedidos pela saída de Zack Snyder dos projetos da DC Comics. A Warner subentende que, nos bastidores, haverá mudanças para A Liga da Justiça.
Mas Batman vs Superman é merecedor desse status de filme problemático? Merece que elogios a ele se tornem raros e quase proibitivos? Minha crítica feita à época do lançamento está aqui. Continuo, desde lá, achando que depende do ponto de vista – que, para mim, é claro e talvez não agrade. Se o espectador não está disposto a ver mudanças da linguagem dos quadrinhos para o cinema e escolhas artísticas de Snyder, ele passa a ser incômodo. Se ele não aceita o roteiro menos linear do filme, também. E, se não concordar que o universo de Snyder para esses personagens é realmente mais soturno, não haverá uma boa recepção. E é muito difícil imaginar se um espectador que desgostou do original irá aproveitar mais este. A questão é que Batman vs Superman não precisaria de uma versão estendida para ser de fato um grande filme, um dos melhores do ano. Mas, se esta versão já estava anunciada, o correto é realmente lançá-la e vê-la como a ultimate edition (no Brasil, edição definitiva).

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Muitos reclamaram de lacunas na trama de Batman vs Superman e que a versão estendida tenta resolvê-las. Não acredito que haja tantas lacunas, nem que houvesse a montagem caótica. Tenho em mente uma dúzia de filmes com montagem realmente confusa que foram ganhadores de prêmios importantes e elogiados por espectadores e público. Mas qualquer acréscimo a um grande filme é bem-vindo. Batman vs Superman dá destaque, principalmente, à narrativa de Lois Lane (Amy Adams) no país africano de Nairomi, que agora passa com mais agilidade – e estabelece uma relação clara com Lex Luthor (Jesse Eisenberg), além de enfocar um cenário de guerra que remete a A hora mais escura, com a presença destacada de um personagem chamado Jimmy Olsen (Michael Cassidy) e cenas de destruição de drones. São passagens que ajudam a aprofundar detalhes que desembocam na política, um dos temas da obra. Do mesmo modo, temos mais cenas de momentos de reflexão do Superman. Esta é uma reclamação comum: que o Superman (Henry Cavill) de Snyder não possui muitas falas. Pelo filme, percebe-se que não se sente nem humano nem alienígena; sente-se, de fato, deslocado. Há uma cena muito bem feita nesta versão estendida, quando ele sai do Capitólio com uma das vítimas da explosão e observa os feridos à sua volta. Ela revela o quanto Snyder não possui visão apenas para cenas de fantasia, como trabalha com o choque diante de uma realidade incontornável. Também vemos um prólogo ao encontro de Clark Kent com seu pai no alto de uma montanha.

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O vilão, Lex Luthor, recebe algumas cenas a mais, inclusive ao final, quando tem um encontro um pouco mais prolongado com Batman, e uma de suas subtramas se sente mais resolvida, embora no original não seja especialmente necessária, envolvendo a figura de uma mulher, Kahina Ziri (Wumni Nosaku), que recorre à senadora Finch (Holly Hunter). E também temos breves detalhes interessantes, como Alfred (Jeremy Irons) cortando lenha do lado de fora da mansão, numa contradição com o universo de tecnologia que habita.
De maneira geral, a versão estendida de Batman vs Superman se concentra mais na investigação inicial de Lois sobre o que aconteceu em Nairomi e também a de Clark Kent atrás de informações de Batman (Ben Affleck) – quando encontra um homem que lhe mostra uma raspadinha com o contorno do símbolo do morcego –, investigando um prisioneiro, Cesar Santos (Sebastian Sozzi), que foi marcado pelo símbolo do justiceiro de Gotham City na pele e isso significa morrer na prisão. Esses dois acréscimos tornam o filme mais interessante no sentido de que há uma explicação mais bem conduzida para Superman se contrapor a Batman, principalmente. Também há um acréscimo nas consequências da explosão do Capitólio, com a técnica de laboratório Jenet Klyburn (Jena Malone) trazendo uma explicação-chave. A versão estendida possui, como se previa, mais cenas de violência, alguns detalhes, como no assassinato dos pais de Wayne ou no confronto entre os super-heróis – nada, no entanto, que lembre a violência, por exemplo, de Watchmen. Snyder, ao final, reserva algumas cenas do luto público pela morte de Superman, assim como de seu funeral, criando uma atmosfera ainda mais melancólica, e assinalada com beleza.

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Esta versão se mostra ainda mais soturna e com temas raros para algo que as pessoas desejariam que fossem apenas de super-heróis. É ainda menos infantil, certamente desagradando a um público dessa idade. E, ao contrário da trilogia de Nolan, este Batman vs Superman se sente ainda mais num universo em que os super-heróis parecem não ter certeza para onde devem se dirigir. Isso parece o principal incômodo para certo público: Snyder realmente arriscou fazer um filme em que duas figuras que representam a salvação não parecem saber indicar um caminho. Bastante revelador quando, depois da morte de Superman, aparece uma capa de jornal sobre o assassinato de Kennedy, como se ele representasse um sinal de esperança. As ruas de Metrópolis estão vazias: todos lamentam a morte daquele que trazia segurança. É complexo e humano, muitas vezes, além de denso. A versão estendida, diga-se, melhora ainda mais um filme que já era excelente. Não é simplesmente para um público mais adulto, como já foi a trilogia de Nolan. Ao mesmo tempo que ele homenageia alguns quadrinhos, ele apresenta um traço novo. Poucas vezes se tem certeza de que uma obra foi injustiçada, e Batman vs Superman é um desses casos.

Batman v Superman – Dawn of justice – Ultimate Edition, EUA, 2016 Diretor: Zack Snyder Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Holly Hunter, Gal Gadot, Scoot McNairy, Jena Malone, Michael Cassidy, Wumni Nosaku, Sebastian Sozzi Roteiro: Chris Terrio e David S. Goyer Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Hans Zimmer, Junkie XL Produção: Charles Roven, Deborah Snyder Duração: 182 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: DC Entertainment / Dune Entertainment / Syncopy  

Cotação 5 estrelas

 

Mais forte que bombas (2015)

Por André Dick

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Logo depois de surgir com Reprise e Oslo, 31 de agosto, cada um com características autorais e uma forte presença da solidão e do sentimento de luto, o cineasta norueguês Joachim Trier chega a um filme de língua inglesa com este drama, Mais forte que bombas, inicialmente lançado no Festival de Cannes do ano passado e desde então aguardado pelo público. O lançamento de filmes arthouse é cada vez mais dificultado pelas grandes produções, no entanto é possível descobrir cada vez mais um espaço para que possam se destacar, independentemente da recepção. Trier é um jovem diretor em que muitos veem reais possibilidades de constituir uma longa trajetória, depois de iniciar como publicitário, e se percebe principalmente em suas obras um estilo muito definido, no tratamento de personagens e na composição de situações inseridas num cotidiano comum.
O roteiro inicia com um jovem pai, Jonah Reed (Jesse Eisenberg), vendo o seu primeiro filho com a mulher, Amy (Megan Ketch). No mesmo hospital, encontra a ex-namorada, Erin (Rachel Brosnahan), cuja mãe veio a falecer, o que reacende lembranças escondidas em Jonah. Corte a cena e já estamos com Gene Reed (Gabriel Byrne). Ele vai ajudar David (David Strathairn) a escrever uma matéria para o New York Times sobre sua mulher falecida há alguns anos, Isabelle Reed (Isabelle Huppert), fotógrafa de cenários de guerra, sobretudo no Oriente Médio.

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Gene tem problemas de relacionamento com o filho menor, Conrad (Devin Druid), e quando recebe novamente a visita do mais velho, exatamente, há uma porção de sentimentos de culpa reunidos na mesma casa onde a mãe está ausente. Junta-se a isso a paixão não correspondida de Conrad por uma colega de aula, Melanie (Rubi Jerins), fazendo com que ele dedique tempo a jogos no computador, principalmente em cenários de guerra, e de ele não saber de fato por que sua mãe morreu (dando espaço a uma cena impressionantemente bem filmada por Trier, com a ajuda de seu habitual fotógrafo, Jakob Ihre). Esta explicação é escondida tanto pelo pai quanto pelo irmão que querem protegê-lo de uma verdade que nem eles gostariam de assumir. David lembra da esposa lhe contando sobre um sonho, que parece dizer mais do cenário de guerra do que seu cotidiano, enquanto o filho menor sonha encontrar o corpo da jovem que diz gostar ao relento, como se estivesse também morta. É o peso do luto que domina essa família, dominada também pelo enquadramento da imagem, seja aquele das fotografias deixadas pela mãe ou dos jogos e escritos do irmão mais novo no computador.
As lembranças da mãe Isabelle, entretanto, se mantêm, em família ou em relações próximas, e Trier acompanha, em flashbacks, a maneira como ela enxergava seu trabalho de fotografia, como algo importante e, ao mesmo tempo, elemento de uma página a ser virada no jornal, sem que se dê importância. Ela é a representação mais próxima do personagem central de Oslo, 31 de agosto, que está querendo sempre voltar para um cenário caseiro sem que isso lhe dê a mesma segurança que poderia ter antes.

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O roteiro, escrito por Joachim Trier e Eskil Vogt, tem uma influência clara dos filmes que mostram a juventude norte-americana, com certa música dos anos 80 (o título original é o mesmo de um álbum da banda The Smiths), e dialoga principalmente com o recente e contestado Homens, mulheres e filhos. Onde Jason Reitman mostra mais humor, Trier é mais comedido e, por meio de Conrad, pretende enfocar a solidão dessa juventude. Sua relação com o irmão é terna, assim como os conflitos com o pai demarcados por uma base real, especialidade de Trier. O momento em que o irmão Jonah lê um relato do cotidiano do irmão, levando o filme a um flashback revelador, se transforma no maior requisito para uma peça dramática que se anuncia em cada linha de roteiro. Mais ainda sua interação depois com um aparelho que configura uma realidade virtual, para onde certamente eles gostariam de ir. Mas nada diz mais do personagem de Jonah, doutor em Sociologia e prestes a se tornar professor, do que tentar ensinar ao irmão como, de fato, funciona a hierarquia no colégio – o que contradiz qualquer teoria do que seria uma verdadeira socialização, ou seja, assim como seu casamento, ele se mantém apenas pela base teórica, nunca enfrentando de fato a realidade. E Trier nunca esteve tão à vontade para mostrar seus elementos autorais, embora continue bastante pessimista no que diz respeito ao comportamento humano, ainda que não tanto quanto em Oslo, 31 de agosto, e consiga, por meio de uma montagem não linear em alguns momentos, fazer com que o espectador confronte diferentes momentos dos mesmos personagens, abrindo um leque de opções para que identifiquemos (ou não) os sentimentos deles.

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Estamos diante da antiga dificuldade de um pai solitário lidar com o filho adolescente, enquanto mantém um relacionamento secreto com sua professora, Hannah (Amy Ryan). Há uma sensação de nascimento, descoberta, autocontrole diante do outro e a morte ao fim de tudo que percorre cada imagem da obra de Trier, e aqui não é diferente. Mesmo momentos que poderiam ser leves (a visita dos irmãos a um campo de educação física escolar) se tornam introspectivos, ainda que nunca exagerados. Trier sabe extrair excelentes atuações de Eisenberg, Byrne e Druid, além de Huppert. Ela é a figura que simboliza um elo para o pai e os filhos, e todos eles querem ou se aproximar ou se afastar das mulheres – eles apenas não conseguem substituir o afeto materno. É exemplar a cena em que um dos irmãos se enxerga ao lado da mãe num espelho, e é possível ver nos braços dela as marcas de alguma bomba estilhaçada durante alguma cobertura jornalística. Jonah, principalmente, quer ser o esteio familiar que não consegue enxergar no pai, e seus diálogos com o irmão constituem esse momento particularmente interessante da obra de Trier. É sobre como os personagens parecem ser testemunhas de uma batalha quando, na verdade, estão inseridos numa, que é a própria compreensão de sua existência.

Louder than bombs, DIN/FRA/NOR, 2015 Diretor: Joachim Trier Elenco: Jesse Eisenberg, Devin Druid, Gabriel Byrne, Isabelle Huppert, Amy Ryan, Rachel Brosnahan, Megan Ketch, David Straitharn, Ruby Jerins Roteiro: Eskil Vogt, Joachim Trier Fotografia: Jakob Ihre Trilha Sonora: Ola Fløttum  Produção: Albert Berger, Alexandre Mallet-Guy, Marc Turtletaub, Ron Yerxa, Suzanne Savoy, Thomas Robsahm Duração: 109 min. Distribuidora: Vitrine Filmes Estúdio: Animal Kingdom / Arte France Cinéma / Beachside Films / Bona Fide Productions / Memento Films Production / Motlys / Nimbus Film Productions

 Cotação 4 estrelas e meia

Batman vs Superman – A origem da justiça (2016)

Por André Dick

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Se as lições no que diz respeito à ação foram aprendidas com a versão de Bryan Singer em 2006, e atores melhores foram colocados nos papéis principais, O homem de aço tentava contrabalançar toda sua expectativa com doses maciças de movimento, ao mesmo tempo com uma tentativa de humanizar o personagem que remete a filmes mais contidos. A primeira impressão visual indicava que a paleta de cores frias foi um risco – independente de os primeiros filmes serem dos anos 70 e 80, uma época considerada mais ingênua, e o atual existir em meio a acontecimentos deste século. O primeiro Superman teve a fotografia de Geoffrey Unsworth (2001), e O homem de aço possuía o trabalho de Amir Mokri, que criou uma amplitude especial para os cenários, destacando as cores cinza e azul, com um tempo quase sempre chuvoso, úmido, sobretudo quando mostra a infância de Superman, com imagens que lembram A árvore da vida, mas que não chegam a contrastar com o restante, além de luzes em ambientes escuros.
Havia por trás dessa nova visão do super-herói um diretor autoral. Ter sido escolhido para realizar O homem de aço trouxe a Zack Snyder a responsabilidade de renovar uma franquia que iniciou com uma das melhores obras já feitas a partir de quadrinhos, exatamente o original de Richard Donner.

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Anos antes ele já havia realizado Watchmen – O filme, uma espécie de prévia de seus projetos atuais, um passo à frente de 300. Snyder certamente não contém o mesmo trejeito para a mistura entre ação e comicidade de Donner, não o impedindo de ser, por outro lado, um cineasta com um toque autoral delirante, principalmente quando tem liberdade. Essa característica voltaria no menosprezado Sucker Punch, no sentido de este também mostrar os efeitos da guerra sobre personagens delimitados, embora pareça mais uma mistura de filmes de heróis com Cabaret de Bob Fosse. E regressa novamente neste Batman vs Superman – A origem da justiça.
Como na obra de 2013 e Watchmen, Snyder poderia ter realizado algo mais próximo ao estilizado, como Sin City, mas escolhe um tom mais próximo da fantasia, auxiliado pelo design de produção irretocável e pela fotografia de Larry Fong, novamente com uma paleta de cores soturna, fazendo uma boa combinação com o primeiro filme, além de oferecer o tom granulado já existente em Super 8. Este Batman vs Superman é uma espécie de extensão dos toques sombrios de Watchmen com uma ação de incalculável poderio, tentando trazer o melhor de dois super-heróis que se tornam referência para contar o início da Liga da Justiça. São personagens de destaque que Frank Miller colocou em campos opostos num dos quadrinhos mais memoráveis já feitos. É costume se falar que este tipo de filme é para um público específico, assim como O senhor dos anéis e O hobbit são para admiradores das obras de J.R.R. Tolkien, mas, sob esse ponto de vista, pode-se perder algo que independe de se conhecer ou não os seus personagens.
Com um início bastante interessante, estabelecendo ligação com o primeiro O homem de aço, Snyder coloca Bruce Wayne correndo de caminhonete em meio à destruição nas ruas de Metrópolis. Ele logo se torna um potencial adversário para deter o que entende como ameaça de Superman de trazer uma batalha que não é da Terra para o planeta, ameaçando destruí-lo.

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Enquanto combate o crime em Gotham com requintes ainda não vistos nos filmes de Burton e Nolan, tornando-o tranquilo em se considerar um fora da lei, Superman é visto como um potencial risco para o governo, na figura da senadora Fich (Holly Hunter, muito bem), assim como instiga o jovem Lex Luthor (Jesse Eisenberg, melhor do que possa aparentar e construindo um vilão interessante) a querer combatê-lo. Snyder, no início, apresenta uma montagem muito rápida das cenas, conduzindo o espectador ao centro da ação, trazendo ainda o personagem Wallace Keefe (Scoot McNairy, ótimo), um ex-funcionário de Wayne.
Se, por um lado, Clark Kent tenta se manter no Daily Planet, sob a direção de Perry White (Laurence Fishburne), e namorar a colega de trabalho Lois Lane (Amy Adams), não sabe mais o que pode fazer para não ser visto como um chamado à destruição de Metrópolis. No que corresponde às relações, Wayne prefere as efêmeras, a não ser, ao que parece, quando se depara com uma misteriosa mulher, Diana Prince (Gal Gadot) – e Snyder coloca o encontro dos dois ao som da “Waltz nº 2”, de Dmitri Shostakovich, a mesma utilizada por Stanley Kubrick em De olhos bem fechados. Como no filme de Kubrick, os personagens se disfarçam por trás das máscaras, e mesmo quando estão sem elas não se mostram como verdadeiramente são. Interessante também como Snyder consegue mesclar os sonhos de Bruce Wayne a seu comportamento: ele em nenhum momento se mostra como alguém com certeza do que pretende construir em Gotham City. São visões perturbadas, manifestando como o próprio personagem se sente, e a casa que dá para um lago cercado de sereno parece ser o contrário dele: não se pode enxergá-lo de fato. Trata-se de um dos acertos do roteiro de Goyer e Terrio (este o mesmo de Argo, mostrando a influência de Affleck sobre o projeto).

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A primeira hora de Batman vs Superman remete muito a Watchmen, em que havia a investigação de Rorschach, com relatos num diário que remetem aos narradores de filmes antigos policiais, e sua ida para a cadeia. O tom empregado é mais soturno do que na trilogia de Nolan, e dá espaço para Bruce Wayne ser um interessante contraste para a imagem de Batman. O mordomo Alfred (um ótimo Jeremy Irons) ajuda o patrão a desenvolver equipamentos de combate – conduzindo também à cena as características o personagem de Morgan Freeman na trilogia de Nolan – e lamenta a sua inclinação para a bebida. Ben Affleck, nesse sentido, compõe um super-herói menos esperançoso do que o de Bale, além de mais introspectivo. Nunca ficam muito claras suas intenções, e isso contribui para a sua dualidade. Surpreendentemente, Affleck consegue se apossar do personagem, oferecendo uma de suas melhores atuações. Além disso, a caverna onde esconde seus equipamentos dialoga com a de Nite Owl, de Watchmen, e mostra a capacidade de Snyder de lidar com um imaginário enriquecedor de adaptação dos quadrinhos.  No lado oposto, Cavill novamente entrega um Superman mais humano e suscetível ao que se espera dele.
É, aliás, surpreendente como Snyder coloca Batman como um personagem mais aliado ao fantástico do que o próprio Superman, que gostaria de ter uma vida sem incidentes e sem a consciência de ser um estrangeiro, como Clark Kent, mas precisa sempre retomar sua imagem de justiceiro da humanidade. Ambos, de qualquer modo, estão intrinsecamente ligados aos pais: Bruce teve a fatalidade de ter seus pais mortos na saída de um cinema (cena já mostrada no de Burton), e aqui o filme se chama Excalibur, como se Wayne se transformasse numa espécie de Rei Arthur, enquanto se visualiza um cartaz de A máscara do Zorro. Clark Kent, por sua vez, tem Jonathan Kent (Kevin Costner), em seus sonhos, e Martha (Diane Lane), desde o primeiro, sob ameaça de Zod, a sua fuga da realidade de Metrópolis para o Kansas. As armaduras escondem apenas a infância: a de Bruce numa mansão solitária e a de Clark numa fazenda que anoitece em meio às estrelas (numa das belas imagens que Snyder oferece aqui).

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Snyder desenha essa aproximação dos heróis de seus pais de maneira discreta e ainda assim enfática: estamos diante de dois heróis que lutam contra si mesmos para tentarem ser normais diante da incapacidade de atingir isso. E, embora esta obra pareça mais uma continuação de O homem de aço, sua narrativa pertence mais à figura do homem-morcego.
Não apenas por essa faceta simbólica, e sim por encadear uma sequência de cenas muito bem pensadas e arquitetadas, principalmente em sua meia hora final, Snyder se mostra mais uma vez um diretor capaz de mesclar ação e emoção. Seus personagens, apesar de parecerem indestrutíveis, não são robóticos ou unidimensionais e, mesmo com cenas de ação que parecem sempre sobressair aos caracteres, Snyder dá uma razão ao movimento ininterrupto por meio de simbologias, principalmente aquelas familiares, a fim de que cada ação pareça ter um sentido, com uma trilha sonora destacada de Hans Zimmer e Junkie XL. Este é um dos filmes do gênero melhor montados, com pouco mais de 2 horas e meia que passam sem que se perceba, com uma coleção de imagens realmente significativas. Ele consegue mesclar os melhores elementos do Batman de Nolan e do primeiro O homem de aço, sem diluir nenhum dos dois, e ainda apresentar novos personagens sem perder o fio da meada. Ao contrário do que diz quase a maioria esmagadora da crítica, Batman vs Superman não é uma possível falha de ignição: é um dos melhores filmes de super-heróis já realizados.

Batman vs Superman – Dawn of justice, EUA, 2016 Diretor: Zack Snyder Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Holly Hunter, Gal Gadot, Scoot McNairy Roteiro: Chris Terrio e David S. Goyer Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Hans Zimmer, Junkie XL Produção: Charles Roven, Deborah Snyder Duração: 153 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: DC Entertainment / Dune Entertainment / Syncopy  

Cotação 5 estrelas

American Ultra – Armados e perigosos (2015)

Por André Dick

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A parceria entre Jesse Eisenberg e Kristen Stewart já proporcionou um filme referencial sobre adolescência chamado Adventureland (lamentavelmente traduzido no Brasil como Férias frustradas de verão, como se fosse uma continuação da série da família Griswold). Em American Ultra – Armados e perigosos, eles retomam essa parceria fazendo um casal apaixonado, Mike Howell e Phoebe Larson. No entanto,  como o Truman de Jim Carrey, Mike não consegue nunca sair de sua cidadezinha, Liman, onde trabalha numa loja de conveniência, pois sempre acaba tendo uma surto de pânico, e tem receio de pedir a mão da namorada em casamento. Determinado dia, surge Victoria Lasseter (Connie Britton), que pretende avisá-lo sobre algo que está para acontecer em sua vida e utiliza para isso uma série de códigos, a fim de que ele possa relembrar seus talentos escondidos.
Embora o trailer anunciasse mais uma comédia, com o casal em ritmo de Doc Sportello, de Vício inerente, o filme se destaca por ser um thriller de perseguição, American Ultra tem boa direção de Nima Nourizadeh (Project X) e um punhado de boas ideias, mesmo que elaboradas com uma pressa narrativa. Há algumas comparações com A identidade Bourne, e realmente tem pontos de semelhança. Muito violento, ele dialoga também com Kingsman, usando as brigas como ponto de comicidade, e com Hanna (e particularmente me parece superior a ambos). A pergunta é quem seria exatamente Mike, ou seja, qual o seu passado e o que ele esconde.

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À primeira vista, ele parece apenas parte de uma van saindo de Seattle para alguma turnê na época do grunge, mas seu estilo parece mais comedido e romântico, sempre interessado em agradar à sua namorada. Para responder a parte dessas respostas, podemos ter como referências Adrian Yates (Topher Grace), Raymond Krueger (Bill Pullman) e um programa de governo que treinava homens especializados em combate, intitulado Ultra. Em meio à sucessão de conflitos que se estabelece a partir dessa premissa, temos ainda Rose (John Leguizamo), o traficante de drogas de Mike, que junto com o amigo se vê envolvido nas mesmas questões. E são colocados no encalço de Mike Laugher (Walton Goggins) e Crane (Monique Ganderton). O problema é que Mike está mais interessado em se dedicar a seu projeto Apollo Ape, de quadrinhos, linguagem na qual o filme vai buscar seu caminho, principalmente em muitas sequências rodadas com um grande fluxo e uma passagem pelo lugar onde mora Rose, com seus grafites iluminados à noite. A pressa narrativa, no entanto, não tira desses personagens um acentuado sentido de abandono e isolamento de um mundo à parte, àquele ao qual pareciam pertencer e, diante dos novos fatos, não parece tão acessível de ser entendido.
É uma característica que está presente em A identidade Bourne, mas não exatamente no filme recente que mais se aproxima deste em sua concepção de mescla entre humor e ação: Kingsman. Além de tudo, o roteiro de Max Landis consegue agregar algumas outras referências, especialmente ao primeiro O exterminador do futuro na sequência de uma delegacia e alguns lances que poderiam ser pensados por Edgar Wright sobretudo em seu Hot Fuzz – Chumbo quente, em um supermercado. Nesse sentido, o acentuado humor ligado à tensão de algumas cenas poderia, sem dúvida, ter sido pensada pelo criador de Scott Pilgrim.

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Infelizmente colocado na lista de falhas na bilheteria do ano, a nova parceria de Eisenberg e Stewart é no mínimo curiosa e inteligente, fazendo jus ao seu marketing antecipado. Eisenberg oferece uma ótima atuação como de praxe, enquanto Stewart não deixa a parte dramática diminuir. Lamenta-se apenas que ela continue sendo colocada em segundo plano, quando já apresentou tantas atuações convincentes, como em O silêncio de Melinda e Runaways. Impressiona como o casal possui uma química interessante, não apenas neste como no anterior Adventureland (e não por acaso estará junto novamente no próximo filme Woody Allen). Há, junto com um roteiro que busca algumas surpresas em meio a clichês habituais, um cuidado visual muito interessante, principalmente na fotografia de Michael Bonvillain (de outro filme com Eisenberg, Zumbilância). Entre os coadjuvantes, Leguizamo e Topher Grace se destacam – mesmo que Grace repita os seus trejeitos já vistos principalmente na série em homenagem aos anos 70 pela qual é tão conhecido. No geral, é uma diversão descompromissada, visualmente interessante e bem feita, na qual se lamenta apenas que os personagens não sejam tão desenvolvidos, em razão do elenco talentoso. Do tipo de filme a que se assiste novamente sem reclamações.

American Ultra, EUA, 2015 Diretor: Nima Nourizadeh Elenco: Kristen Stewart, Jesse Eisenberg, Topher Grace, Monique Ganderton, Walton Goggins, Connie Britton, John Leguizamo, Bill Pullman, Nash Edgerton, Tony Hale Roteiro: Max Landis Fotografia: Michael Bonvillain Trilha Sonora: Marcelo Zarvos Produção: Anthony Bregman, Britton Rizzio, David Alpert, Kevin Scott Frakes, Raj Brinder Singh Duração: 95 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Bridge Finance Company, The / Circle of Confusion / FilmNation Entertainment / Likely Story / Merced Media Partners / PalmStar Entertainment / PalmStar Media

Cotação 3 estrelas e meia

O duplo (2013)

Por André Dick

O duplo 9A questão dos duplos no cinema, assim como na literatura, é utilizada por algumas obras, não apenas fisicamente (como víamos, ano passado, em O homem duplicado, com Jake Gyllenhaal, embora haja outras teorias para ele) como psicologicamente: o vencedor do Oscar de melhor filme deste ano apresenta Riggan Thomson, artista de Hollywood que tenta adaptar peça teatral na Broadway e ouve vozes do super-herói que havia interpretado décadas antes, Birdman. Em Cisne negro, que inspirou Birdman, uma dançarina vê surgir uma dupla personalidade a partir dos reflexos e ensaios noturnos, além de serem destacados seus conflitos com a mãe e sua colega de ensaio. É uma questão que abre para a interpretação extrema dos conflitos do sujeito, que, de algum modo, nunca parece único.
O cineasta Richard Ayoade, depois de Submarine, uma versão inglesa da adolescência com ambientação certamente amargurada, parte para a adaptação livre da obra O duplo, de Dostoiévski. Trata-se de um passo arriscado em sua trajetória, do qual poderia se sair com certa dificuldade. Primeiro porque a obra original é, sem dúvida, uma referência psicanalítica. O filme apresenta um dos melhores atores jovens, Jesse Eisenberg, no papel de Simon James, que trabalha num escritório semelhante ao de Brazil – O filme, de Terry Gilliam. É uma repartição com homens trabalhando em salas apertadas e uma constante cor amarela. Ao chegar ao trabalho, ele sempre precisa mostrar sua identificação, a fim de que possa ingressar numa espécie de sistema repetitivo. Mas, se Brazil ainda era um filme repleto de humor e nervosismo estridente, características de Gilliam, o mesmo não se pode falar de O duplo, mais próximo de uma melancolia gélida em alguns pontos. Os gracejos que Ayoade apresenta em Submarine e constituem um elemento para que o filme não cumpra todo seu potencial são bastante atenuados em razão de uma busca de Simon por sua verdadeira personalidade – ou apenas outra, dependendo do olhar. Isso não traz apenas um sentido de descoberta, mas, sobretudo, de incômodo e de explicação para suas camadas individuais.

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O personagem de Simon, ao visualizar de seu apartamento, por um telecóspio, sua vizinha do prédio em frente, vê também uma pessoa pendurada no parapeito e tudo se torna, a partir daí, tão estilizado quanto interessante, pois o espectador realmente não sabe se a narrativa se situa num plano minimante em diálogo com a realidade ou um universo à parte. Nem mesmo quando, em seu local de trabalho, Simon se interessa por uma colega de trabalho, Hannah (Mia Wasikowska), exatamente a mesma vizinha que observa do seu apartamento e que convidará para sair, o espectador se permite a achar que ele não se encontra em algum plano de idealização, uma fuga desse ambiente opressor de trabalho – que mais parece lembrar uma sala de máquinas – para um café da cidade cuja luz externa parece reservar mais uma vez um clima subterrâneo. Mais preocupante é o modo como Simon nunca é reconhecido pelos colegas de trabalho que vê todo o dia e tem na figura do gerente maníaco gerente, o Sr. Papadopoulos (Wallace Shawn, excelente), um possível apoio para seu crescimento na empresa.
A fotografia de Erik Wilson é primorosa, assim como a ambientação. Há influências de um clima noir, com referências a Janela indiscreta, Batman de Tim Burton, à literatura também de Kafka e, apesar de não sabermos em que época o filme se passa, nos sentimos tanto durante a Revolução Industrial quanto num passado futurista com toques dos anos 80 (a programação na televisão lembra claramente a MTV), assim como em meio a um clima no ar de perseguição paralela à Segunda Guerra Mundial. Ainda assim, o que mais perturba no trabalho de Ayoade é que, sem tentar ser um drama efetivamente ou uma comédia de humor trágico, O duplo mostra uma melancolia associada ao seu personagem e seu desconforto diante do mundo que o cerca muito próximo daquilo que víamos em outro filme de Aronofsky, Pi, em que um homem que vivia solitário num apartamento era perseguido por homens que viam nele a possibilidade de desvendar o universo.

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Com certa sobriedade onírica, em sua maior parte, mesmo quando tem elementos de humor, ao mesmo tempo possui uma profundidade que não havia em Submarine e um personagem central bem delineado, em razão de Eisenberg, em seu melhor papel desde A lula e a baleia ou A rede social. Mas ele não conseguiria atuar com competência sozinho: Wasikowska está em um de seus melhores momentos, mostrando a sua maturidade, que também se mostra um destaque em Mapas para as estrelas, deixando de lado sua persona de Alice no país das maravilhas. De maneira geral, O duplo surpreende por sua tentativa de não reduzir tudo a um enigma. Sim, em determinado momento Simon encontra seu duplo como um rival em seu local de trabalho – e o espectador se pergunta a partir daí o que seria verdade ou sonho. Oscilando entre esses dois espaços, a trilha sonora com influências orientais e de thrillers, assinada por Andrew Hewitt, é tão requintada quanto a abordagem de Ayoade para a questão da duplicidade. Ela lida com seu jogo de espelhos, reflexos e versões diferentes para um mesmo ponto de vista, transformando o filme num panorama psicológico amplo e uma espécie de tratado sobre a culpa de não se conseguir atender ou entender a todos, nem a si mesmo. Há elementos evidentes, nisso, também do esquecido (e excelente) Kafka, de Steven Soderbergh, em que o escritor (Jeremy Irons) ia descobrindo várias histórias relacionadas a seu local de trabalho. O ambiente de casa se torna tão estranho quanto o de trabalho, e Simon não sabe mais em quem pode se apoiar: se no que vê ou na sua paixão por Hannah, ou nas suas referências familiares, que já parecem distantes a fim de que possa alcançá-las. A atmosfera noturna de O duplo guarda, além da influência noir, a vontade permanente de se afastar do que acontecerá no dia seguinte, o local do trabalho para o qual Simon deve regressar. E, apesar de apresentar toques do Eraserhead de David Lynch, esse caminho não atrapalha o traço autoral de Ayoade neste filme que parece até modesto em suas dimensões, se não apresentasse um tema de maneira tão instigante. Nitidamente de orçamento reduzido, em que a imaginação de todos é colocada a prova, O duplo se torna, ao mesmo tempo, um outro lado do diretor ainda não mostrado: o daquele que consegue, por meio de uma história aparentemente descompromissada, procurar o mistério de entendimento que pertence a cada um, sem artifícios e ambiguidades reconhecidas de antemão.

The double, ING, 2013 Diretor: Richard Ayoade Elenco: Jesse Eisenberg, Mia Wasikowska, Wallace Shawn, Gemma Chan, James Fox, Paddy Considine Roteiro: Avi Korine, Richard Ayoade Fotografia: Erik Wilson Trilha Sonora: Andrew Hewitt Produção: Amina Dasmal, Robin C. Fox Duração: 93 min. Distribuidora: Europa Filmes Estúdio: Alcove Entertainment

Cotação 4 estrelas

Para Roma com amor (2012)

Por André Dick

Foi nos anos 70 que Allen consagrou seu estilo, com Noivo neurótico, noiva nervosa (Annie Hall) e Manhattan, à frente dos demais. Nos anos 80, fez filmes mais nostálgicos, como A era do rádio, A rosa púrpura do Cairo e Hannah e suas irmãs, um pouco mais dramáticos do que o habitual. Nos anos 90, teve o que se considera seu declínio, mas ainda assim vemos títulos entre os melhores de sua trajetória, a começar por Maridos e esposas, Tiros na Broadway e Poucas e boas. Quando no início dos anos 2000, realizou filmes como O escorpião de Jade, Dirigindo no escuro e Igual a tudo na vida, comentava-se sobre sua distância dos melhores momentos. Era um exagero. Mesmo as comédias menos expressivas de Allen são melhores do que aquelas habituais, e um filme como Igual a tudo na vida, uma espécie de Annie Hall de jovens, é um dos melhores. Com  produções em que experimenta paisagens fora de sua habitual Nova York, Woody Allen vem fazendo uma espécie de cinema turístico. Foi assim em Vicky Cristina Barcelona, Meia-noite em Paris e agora em Para roma com amor. Todos filmes com qualidade, elencos de destaque e diálogos que fluem.
Allen se divide entre reinventar o que já fez nos anos 70 e a nostalgia de sua fase oitentista. Meia-noite em Paris mesclava ambos os momentos de maneira superior a tudo o que andávamos assistindo, e Owen Wilson era um alter ego de peso para o diretor, repetindo seus maneirismos. Havia nele um peso turístico grande – o início, sobretudo, podia fazer parte de cartões postais –, mas não havia nenhuma grande influência específica do cinema francês. É como se Allen tivesse transportado seus tipos amargurados de Nova York, intelectuais arrependidos por fazer sucesso, para Paris. Ele também não estava interessado em mostrar exatamente a cultura francesa, e sim artistas de diferentes lugares que estavam em Paris na década de 1920.
O que não acontece em Para Roma com amor, que é uma espécie de reedição das comédias italianas dos anos 60 e 70, com uma certa leveza, sobretudo na trilha sonora (com alguns clássicos), que não víamos há muito tempo e um senso equilibrado de farsa. Se Allen agora divide-se em quatro histórias, é porque Roma e a Itália evocam muito mais um cinema do qual tenta se aproximar do que o francês. E se sai muito melhor do que, por exemplo, um Robert Altman em Prêt-à-porter, no qual gostaria de ter feito um filme como este.
Ele se sente mais à vontade com os tipos italianos, e começa apresentando o filme por meio de um agente de trâfego – que logo, no entanto, desaparece. Em seguida, vemos um casal se conhecendo: a americana de Nova York, Hayley (Alison Phill), fazendo turismo, e o rapaz italiano, Michelangelo (Flavio Parenti). O seu pai é justamente um senhor nova-iorquino, da indústria de música, Jerry (Allen, divertido), casado com uma psicóloga, Phyllis (Judy Davis) – “Se está falando em nome de Freud, peça meu dinheiro de volta”, diz ele. Chegando à Itália, logo tem um atrito com o noivo da filha, sobretudo quando põe na cabeça que o pai dele, Giancarlo, poderia ser um tenor (este personagem é interpretado por um tenor real, Fabio Armiliato), depois de ouvi-lo cantando no chuveiro, o que rende uma das cenas mais divertidas do filme. Insistindo em tirá-lo do trabalho como agente funerário, ele tentará, por meio disso, provar que não deveria estar aposentado e, como ele diz, próximo da morte.

A segunda história mostra um jovem arquiteto, Jack (Jesse Eisenberg, um ator que, embora tenha trejeitos e cacoetes, é divertido), casado com Sally (Greta  Gerwig, sem oportunidade de aparecer), que recebe a visita não só de um arquiteto mais velho, John (Alec Baldwin, aprimorando seu estilo de comediante que rouba a cena nas poucas em que aparece), que depois identificamos como sendo uma espécie de alter ego experiente de sua vida (embora não pareça Baldwin ser sua versão mais velha, uma vez que ele pouco tem a ver com Eisenberg, a não ser que seja mais uma liberdade de Allen), como da melhor amiga da mulher, Monica (Ellen Page, inexpressiva em Juno e que aqui parece tentar imitar até mesmo os trejeitos da Amanda de Christina Ricci de Igual a tudo na vida, que, ao mesmo tempo, tinha os mesmos elementos pseudoculturais na sua fala), completamente liberal. O seu alter ego tenta alertá-lo de suas possíveis traições e de sua pseudocultura. Em certo momento, ela encadeia citações de Yeats, Rilke e Pound – John salta atrás de Jack, dizendo que ela decorou um verso de cada. Esta é a história mais parecida com a dos tradicionais filmes de Allen.
A outra história envolve um casal que chega a Roma, Milly (Alessandra Mastronardi) e Antonio (Alessandro Tiberi). Ele vem em busca de negócios e para apresentar a mulher à família. Por uma série de questões pouco convicentes, mesmo para uma comédia como essa, ele acaba tendo de apresentar a prostituta Anna (Penélope Cruz) como sendo a mulher, que, por sua vez, está perdida em Roma, encontrando-se com o seu astro preferido. Esta parte lembra as comédias descompromissadas italianas dos anos 70, mas perece por ser excessivamente teatral. Especialmente porque Tiberi não é um bom ator, o que dá a todas as sequências em que aparece um ar de teatro precário. Penelope, ao contrário do papel que recebeu em Vicky Cristina Barcelona – bastante divertido, o que lhe rendeu um Oscar de atriz coadjuvante – parece aqui completamente deslocada, como se tivesse sido chamada para o papel às pressas para complementar o filme em que estivesse faltando um pedaço (quando não estava; era a parte excessiva). Na verdade, curiosamente, esta parte, que mais lembra as comédias italianas, dos anos 60 e 70, é a que menos rende frutos a Allen.
Finalmente, temos a parte do filme que apresenta Leopoldo Pisanello (Roberto Benigni, que aqui parece encontrar seu tom certo). De um dia para outro, ele começa a ser perseguido por repórteres e vai para a TV, transformando-se numa personalidade pública, mesmo não tendo absolutamente nada a dizer. Esta é a parte, digamos, mais surreal e farsesca do filme – embora todas as outras tenham uma dose desses elementos – e, a princípio, pela interpretação de Benigni, uma das mais divertidas. No entanto, a piada, pela repetição, acaba cansando, e Allen não sabe, ao contrário do que acontece em Meia-noite em Paris, cortar o filme em pelo menos 20 minutos, fazendo os personagens repetirem situações num tempo muito extenso de metragem (em alguns momentos, com a estranheza de vermos continuamente microfones pendurados acima dos atores; seria algo precário mesmo ou tudo não seria mais do que teatro filmado? Ao final, não sabemos). O que, obviamente, não impede de o espectador se divertir com cada tipo que ele apresenta, com a colaboração da fotografia de cenários tipicamente italianos de Darius Khondji (que já havia trabalhado com Allen em Meia-noite em Paris, e fez trabalhos de destaque, como em Seven, Delicatessen e O quarto do pânico).
A obsessão de Allen por mulheres que adoram citar referências literárias para tentar conquistar quem desejam está cada vez mais presente, assim como sua crítica à fama – mesmo que de modo, muitas vezes, moralista – e à tentativa de transformação da juventude. O seu genro no filme é o exemplo acabado desta tentativa: preocupado em transformar o mundo, não aceita, em momento algum, que o pai seja mais do que agente funerário, debochando de sua tentativa de ser um tenor. Do mesmo modo, os personagens estão querendo eliminar suas frustrações sexuais de modo enviesado: o personagem do arquiteto é muito parecido com o de Jerry Falks (Jason Biggs), de Igual a tudo na vida, e ambos são divertidos – com a diferença de que aquele queria ser escritor, aconselhado por um escritor mais velho (o próprio Allen) e paranoico. Por sua vez, Antonio idolatra a mulher, que não parece tão interessada nele quanto em atores e assaltantes. Todos os personagens estão perdidos em becos e ruelas, como se quisessem se prender ao labirinto de paisagens que Roma apresenta – ao lado daquelas turísticas, grandiosas, sendo o cenário, muito mais do que em Meia-noite em Paris, representativo desses personagens, que perambulam sem saber ao certo para onde ir e cujo movimento é variado (as histórias se passam em tempos diferentes). E Allen não repete o papel de um humorista que escreve piadas para pessoas mais jovens, mas varia um pouco, indo para o universo musical, do qual pelo menos entende que tirar o artista de sua zona de conforto pode propiciar problemas na plateia. Já Benigni, com seu tipo indefinido entre o espanto e a pretensão, faz de tudo com o papel limitado que recebe, cercado por dezenas de figurantes a cada cinco minutos que aparece na tela – e seu personagem, ao mesmo tempo, previsível, parece definir tudo o que se passa nos holofotes ou bastidores de Roma. Sim, completamente farsesco, embora não por isso menos divertido.

To Rome with love, EUA/ESP/ITA, 2012 Diretor: Woody Allen Elenco: Ellen Page, Woody Allen, Jesse Eisenberg, Penélope Cruz, Alec Baldwin, Alison Pill, Greta Gerwig, Roberto Benigni, Ornella Muti, Judy Davis Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum  Roteiro: Woody Allen Fotografia: Darius Khondji Duração: 107 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Gravier Productions / Mediapro / Medusa Film

Cotação 3 estrelas e meia