mãe! (2017)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

O diretor Darren Aronofsky nunca foi conhecido exatamente pela discrição à frente de seus projetos. Desde Réquiem para um sonho, com Jared Leto e Ellen Burstyn, ele flertava com imagens de alucinação, que se intensificariam não em O lutador, com uma das melhores atuações de Mickey Rourke, mas em Fonte da vida, uma tentativa de compreensão do universo, e Cisne negro, com a personagem central inserida num ambiente de dança. Noé, sua maior produção até o momento, com gastos milionários, tem esse efeito quase surreal das imagens do cineasta, que iniciou a carreira com Pi, mesmo que se possa entender que é seu filme menos autoral.
Quando se fala em autoria, certamente lembra-se do fato de que Aronofsky é um diretor e roteirista que tem alguns temas prediletos. A religião estava subentendida em cada momento de Pi Fonte da vida, mas nunca chegou a ser preponderante – e talvez não o seja também em Noé, que, pela escala de movimentação, pode lembrar mais um filme fantástico baseado num relato bíblico a que todos temos acesso. Pertencente ao Gênesis, a história da Arca de Noé sintetiza a ideia de como o mundo pode ter passado por um acontecimento divisor. Desta vez, em mãe!, considera-se que ele faz uma releitura bíblica novamente, mas seu diálogo parece ser mais com o processo de criação de um artista, como em Cisne negro.

Neste filme, o diretor da adaptação da peça musical de Tchaikovsky deseja extrair o que não vê em Nina: exatamente o cisne negro. Seu poder de sedução é obscuro e Aronofsky procura essa amplitude por meio de reflexos de espelhos, e na imaginação dela luzes são desligadas antes de se terminar o ensaio para prejudicar seu ensaio. Esses reflexos podem estar presentes em frente ao espelho de uma festa, ou no metrô, ou mesmo na passagem, por uma passarela, ao lado de alguém que parece uma réplica. Ao mesmo tempo, a fotografia de Matthew Libatique mostra uma Nova York tenebrosa, sempre acompanhando os passos de Nina, seja à sua frente, seja pelas costas, revelando a opressão do mundo no qual ela se insere (difícil imaginar outro desconforto maior do que a escolha de Thomas de suas bailarinas, como se elas precisassem ser tocadas para ganhar o reconhecimento da existência). Nina não conhece sua sexualidade e por isso não consegue desenvolver seu lado mais obscuro. É uma jovem entrando na vida adulta, o que, para alguns, significa a morte – e o sexo, o prazer, está sempre associado a algo mórbido ou que pode afastar da visão idílica que se tenta ter das coisas. Não se trata exatamente de uma abordagem sutil, e Aronofsky não a tem como objetivo. Sua meta é, por meio da figura da bailarina, suscitar uma coleção de metáforas. Há quem não goste, certamente. Aronofksy não parece muito preocupado com isso.

Em mãe! não é diferente (e a interpretação daqui em diante é tão livre como para outros filmes também ousados em sua temática, a exemplo de O homem duplicado, de Villeneuve). Por meio da figura de uma mulher, referida como mãe (Jennifer Lawrence), que vive com um poeta, referido como ele (Javier Bardem), numa casa de campo, isolados de tudo, Aronofsky desenha novamente uma mulher que tem problemas com o companheiro. Ela não consegue convencê-lo a ter filhos com ela, enquanto ele, como poeta, só pensa em escrever a grande obra. A casa passou por um incêndio e está sendo reconstruída. Enquanto isso, ele começa a receber pessoas em sua casa, sem a autorização da esposa: o casal feito por Ed Harris e Michelle Pfeiffer, um mais assustador do que o outro sem fazer força para isso. Esse casal representa exatamente o que ele não deseja: repartir sua vida com os filhos. Por isso, pode-se entender, o homem feito por Harris é doente, e seus filhos buscam a mútua destruição. Muito se fala que haveria um fundo religioso nessa cena construída por Aronofsky, e compreende-se isso apenas sob o ponto de vista de que, se o poeta for Deus, ele justamente não quis o pecado no Éden, representado por esse casal. Porém, não há a queda nem o castigo, nesse sentido: o poeta aceita muito bem a escolha do casal (o que me leva a acreditar que, se há um deus por trás de tudo, não é ele). Como em Cisne negro, mais literal do que se imagina, Aronofksy deseja esconder a leitura mais discreta. A mulher é a musa do poeta, e quando ela pode criar algo que rivalize com a obra dele – ou seja, a maior criação, dando vida a um ser –, a reação dele é necessariamente colocá-la em segundo plano. O fato de se comportar como um deus faz parte da atitude desse poeta, considerando-se acima de tudo. Sem interesse não é no jantar preparado pela esposa, mas nos seguidores e em sua editora (Kristen Wiig). Para ele, o objetivo é ter um séquito, composto pelas pessoas que invadem a casa e a tornam seu lar, para tirar fotografias e lhe pedir autógrafos.

O poeta, para Platão, a partir de Sócrates, no qual Aronofsky se baseia, lidava com mentiras e deveria ser expulso da cidade, pois nunca seria de fato um criador: um poeta não constrói uma mesa, por exemplo, e sim busca metáforas para descrevê-la. É exatamente o que acontece ao personagem de Bardem aqui. Ele vive isolado e mente para a mulher o tempo todo, buscando artifícios para não assumir sua relação e colocando as pessoas de fora como a verdadeira vida. Seu intuito é estar nos braços do povo – da cidade que o expulsou. Por sua vez, ela toma um água misturada com pó dourado que pode ser, independente de leituras externas (a cargo de cada espectador), uma espécie de remédio para suas crises de alucinação ou para se manter em meio a todas as dificuldades. Quando ela lida com a casa, ainda em construção, parece senti-la em sua pulsação (em momentos capazes de lembrar Videodrome, de Cronenberg, principalmente quando uma fenda na madeira do chão lembra o ato sexual, sendo o porão o símbolo do inconsciente, e a personagem de Pfeiffer encena uma espécie de luxúria que falta à de Lawrence). A mulher tenta manter essa casa; o poeta só quer lidar com ela de maneira metafórica – é uma caixa de Pandora, como a caixa do final de Cidade dos sonhos. Nesse sentido, a casa é a criação do artista, como sua musa, mas ele não precisa tê-la para sempre: o que importa é a sua obra, não a que a musa lhe oferece por meio do filho, no terceiro ato. Ele se compara a Deus – como Sócrates acusava os poetas –, mas não é Deus. O ciclo, para o poeta, se repete: de criação em criação, o importante é sua obra. Como pode ela ousar uma criação que chegue à altura dele?

Com uma fotografia do parceiro Libatique apoiada em close-ups e movimentação constante, o que dá instabilidade ao cenário único da casa, Aronofksy constrói um sistema de inter-relações em seu filme que deixaria Buñuel satisfeito, não aquele de O anjo exterminador, e sim o de O discreto charme da burguesia e O fantasma da liberdade, além de dialogar com o assustador O inquilino, de Polanski, e autores como Julio Cortázar (ver o conto “Casa tomada”) e Carlos Fuentes (ver especialmente a obra Aura), ligados ao realismo mágico: as cenas surreais no ato final, misturando tudo o que comporia a obra de um poeta – a guerra, a destruição de seu lugar, o porão como uma extensão dos círculos de Dante, a casa sendo invadida por festas depois do reconhecimento do poema escrito, e aqui surge uma assustadora Kristen Wiig –, em nome da grande criação, que é a Dele, o poeta, não dela, a Mãe. “Eu sou a mãe!”, diz ela, para indiferença do escritor, depois de dar à luz, quando o barulho até então cessa e ouvimos o choro do bebê, numa representação extraordinária da solidão humana e do verdadeiro recomeço, da verdadeira obra. Aronofosky filma de maneira brilhante o nascimento do ser humano em contraponto ao tumulto da humanidade. O diretor destrói o conceito literário de autor e de si mesmo – à medida que escreve o roteiro. A metáfora de mãe! é uma sátira ao próprio Aronofsky: importa, para ele, não a personagem, e sim Jennifer Lawrence, que está, por sinal, excelente, no melhor momento de sua carreira depois de Joy, lembrando muito a performance de Laura Dern em Império dos sonhos. Sem a musa não há obra, não há vida. Mas, no final, pode-se trocá-la: é preciso um novo escrito. Sim, o terceiro ato é difícil de ser visto, especialmente uma cena desagradável, contudo é ele que sintetiza a estranheza.
Diante disso, estamos também lançados num filme sem gênero demarcado. O que mãe!, além de uma adaptação de ideias de A república de Platão, poderia ser? Um drama? Um suspense? Um terror? Certamente, um híbrido de todos esses gêneros. E mãe!, mesmo com seu psicologismo por vezes nada discreto, mas ainda interessante, ainda consegue ser um filme pop, ou seja, acessível, exercendo um magnetismo próprio e fascinante de um acabado cult movie. Poucos diretores conseguiriam isso, e Aronofsky é um deles.

mother!, EUA, 2017 Diretor: Darren Aronofsky Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson, Domhnall Gleeson Roteiro: Darren Aronofsky Fotografia: Matthew Libatique Produção: Ari Handel, Darren Aronofsky, Scott Franklin Duração: 121 min. Estúdio: Protozoa Pictures Distribuidora: Paramount Pictures Brasil

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Passageiros (2016)

Por André Dick

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Há dois anos, o cineasta Morter Tyldum foi recebido com grande ânimo por causa de O jogo da imitação, com Benedict Cumberbatch atuando como Alan Turing, gênio que encontrou uma maneira de enfrentar o grave problema da Segunda Guerra Mundial. Lá, Keira Knightey fazia o par do personagem de Cumberbatch, numa relação conflituosa e abalada pela época em que transcorreu. Agora ele regressa em outro gênero, mais delicado do que o drama, neste Passageiros, tendo uma recepção contrária: poucas vezes se viu tantas críticas negativas. Com uma bilheteria razoável, ele pode, no entanto, se transformar naquilo que mais pretende: uma sessão descompromissada.
Na narrativa, a nave Avalon transporta mais de 5 mil colonos para o planeta Homestead II, um novo habitat, numa viagem que deverá durar 120 anos. No entanto, o engenheiro mecânico Jim “Peter Quill” Preston (Chris Pratt) acorda 90 anos mais cedo. Ele fica desesperado, pois está sozinho, pelo menos se contarmos os humanos. A sua única companhia é o androide Arthur (Michael Sheen), não tão discreto quanto os da série Alien, que atende num bar da nave espacial que remete, claro, a O iluminado.

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Não apenas o bar remete ao filme de Kubrick, como o enorme refeitório dos passageiros (desacordados), embora o design de produção deva bastante a Prometheus, de Ridley Scott, principalmente na sua iluminação. A sua dúvida existencial é justamente se ficará sozinho para o resto de sua vida, uma vez que não consegue mais localizar como poderia hibernar novamente. Esta dúvida não é cercada por alguma angústia, assemelhando-se mais à alegria do personagem de Matt Damon isolado no planeta vermelho em Perdido em Marte. Certo dia, ele, de qualquer modo, parecendo o personagem da série de TV O último cara da terra, decide despertar uma nova passageira, Aurora Lane (Jennifer Lawrence), sem avisá-la sobre isso. Antes, claro, ele fica sabendo de sua história, do fato de que é uma escritora e acaba, antes de tudo, se apaixonando por ela. O drama dessa paixão poderia se equivaler àquele do casal de Solaris, no entanto Tyldum não tem essa pretensão, e temos até uma cena de Aurora subindo pouco discretamente na mesa do refeitório. O roteiro de Jon Spaihts, que colaborou em Prometheus e Doutor Estranho, prefere as características românticas de um encontro improvável do que os dilemas existenciais desses personagens, que certamente renderiam bons conflitos na superfície do filme.

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Tyldum tem em Pratt e Lawrence seus apoios para contar esta história e inicia fazendo com que Preston lembre Quill, o contrabandista dançarino de Guardiões da galáxia. Ele deve ter gostado também de O lado bom da vida, e coloca Lawrence como uma maneira de descobrir uma companheira ao invés de enfrentar a solidão do espaço sideral e para dar também um novo sentido aos passos de dança de um jogo. O mais curioso em relação a Passageiros é o quanto seu roteiro autenticamente fraco possui alguns temas interessantes sobre a solidão humana. Não poucas vezes ele parece remeter a traços da história de Adão e Eva, sobre um casal que pode constituir por si só uma humanidade, quando são ameaçados por uma revelação que pode colocar o relacionamento em prova, e não parece por acaso que a personagem de Lawrence se chame Aurora. Já tivemos clássicos sobre seres humanos com sentimento de solidão no espaço, a começar pelo clássico Corrida silenciosa – sobretudo na amizade entre Preston e os robôs que trabalhavam na nave – e mais recentemente Gravidade. Uma saída dos personagens para um passeio fora da nave lembra imediatamente a de Spock em Star Trek – O filme, no qual se ressalta a beleza visual e certa poeticidade, logo quebrada por um humor desajeitado, que permeia toda a obra, indecisa entre a faceta dramática e a comédia mais facilitada.

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Também há um grande impacto quando a nave passa por uma estrela, lembrando Sunshine – Alerta solar, de Danny Boyle. Há referências também bastante evidentes a 2001 (quando Aurora corre pela espaçonave), e a  fotografia de Rodrigo Prieto é eficaz, principalmente quando mostra a parte externa da nave, assim como a trilha sonora de Thomas Newman oferece ritmo a cada bloco – um ritmo que não havia, particularmente, em O jogo da imitação, um filme com padrão clássico que se demorava excessivamente em cada sequência.
Ainda assim, falta a Passageiros um toque de complexidade pelo roteiro fraco e pela atuação de Pratt, mesmo que em determinados momentos ele até convença, embora Lawrence também não esteja em seus melhores dias. Nesse sentido, temos um exemplar de ficção científica interessante e divertido dentro de alguns aspectos, com bela direção de arte e efeitos visuais de qualidade. Havia uma obra de maior potencial aqui, mas nada que a transforme num desperdício.

Passengers, EUA, 2016 Diretor: Morter Tyldum Elenco: Chris Pratt, Jennifer Lawrence, Michael Sheen Roteiro: Jon Spaihts Fotografia: Rodrigo Prieto Trilha Sonora: Thomas Newman Produção: Michael Maher, Neal H. Moritz, Ori Marmur, Stephen Hamel Duração: 118 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Columbia Pictures / Original Film / Start Motion Pictures

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X-Men: Apocalipse (2016)

Por André Dick

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O terceiro filme que mostra os personagens em sua faceta mais jovem da série X-Men volta a ser dirigido por Bryan Singer, responsável pelos dois primeiros do início dos anos 2000 e pelo anterior a este, com o subtítulo Dias de um futuro esquecido, depois da reinicialização por Matthew Vaughn, em Primeira classe. Singer é um diretor bastante eclético, começando por Os suspeitos, passando por O aprendiz, ambos dos anos 90, até chegar à versão bastante criticada para o homem de aço, Superman – O retorno, e àquele que parece ainda seu maior acerto, Operação Valquíria, uma aventura de guerra com Tom Cruise em meio a nazistas. Recentemente, ele também fez o subestimado Jack e o caçador de gigantes (com o mesmo Hoult que trabalha como um dos X-Men), e seus próximos projetos incluem Broadway 4D (dirigido com Gary Goddard, de Mestres do universo) e uma nova versão de 20.000 léguas submarinas.
A nova história (a partir daqui, possíveis spoilers) começa mostrando En Sabah Nur, ou Apocalipse (um ótimo Oscar Isaac), como o mutante original, que fica por centenas de anos preso numa câmara embaixo da terra, no Cairo, até que é desenterrado. Possuindo poderes cada vez maiores, ele ressurge exatamente em 1983, e conhece uma jovem, Ororoe Munroe (Alexandra Shipp), que se torna sua discípula e, investida de poderes, em Tempestade.

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Por sua vez, na Berlim Oriental, Raven/Mística (Jennifer Lawrence) encontra Kurt Wagner/Noturno (Kodi Smit-McPhee) lutando com Anjo (Ben Hardy), pois seu papel agora parece ser o de libertar mutantes, e não por acaso ela surge como uma referência feminina na parede de Ororoe, que diz querer ser como ela. Ela não consegue impedir que Apocalipse venha atrás não apenas do Anjo, mas de Magneto (Michael Fassbender) e Psylocke (Olivia Munn). No encalço da criatura ressuscitada, está a agente Moira MacTaggert (Rose Byrne), que apareceu pela primeira vez no primeiro X-Men nesta nova franquia.
Por sua vez, o professor Charles Xavier (James McAvoy), para tentar lidar melhor com o passado, procura constituir uma nova família e recebe novos alunos em sua escola em Westchester County, New York, entre os quais Jean Grey (Sophie Turner), que está com problemas para se adaptar a seus superpoderes. Já Scott Summers/Ciclope (Tye Sheridan) é levado por seu irmão, Havok (Alex Summers), assim que começa a ter problemas em manter seus olhos abertos, logo depois de uma sequência escolar que lembra o recente Homem de aço, de Snyder. Ele se aproxima de Jean, em razão dessa falta de adaptação. Na escola, também reaparecem Hank McCoy/Fera (Nicholas Hoult) e Peter Maximoff/Mercúrio (Evan Peters), para tentar impedir o vilão de aumentar os seus poderes sobre os mutantes, sem antes encontrar o Coronel William Stryker (Josh Helman).

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Em X-Men: Apocalipse, como na segunda parcela desta nova franquia esclarece, as décadas passam e com elas se vê a participação dos mutantes em fatos históricos – e o diálogo se estende a Watchmen. Aqui, nos anos 80, o pano de fundo é a Guerra Fria entre os Estados Unidos e União Soviética, e Apocalipse está interessado na desintegração da humanidade e na necessidade de mostrar que há “falsos deuses” entre os heróis. Tudo inicia no que poderia se chamar de uma parte extraída diretamente de A caçada ao outubro vermelho.
Em X-Men, as batalhas históricas se tornam parte de uma grande fantasia e um dos momentos mais dramáticos deste episódio mostra Magneto/Erik Lehnsherr vivendo como um operário numa fábrica de metais da Polônia, país natal, feliz ao lado de esposa, Magda (Carolina Bartczak), e sua jovem filha, Nina (T.J. McGibbon). Procurado pelo mutante original, ele é levado a Auschwitz, onde teria começado a manifestar seus poderes depois da morte de sua família. Não por acaso, é a parte que parece mais interessar a Singer em seus projetos mais pessoais, como O aprendiz e Operação Valquíria: para ele, o peso da Segunda Guerra Mundial marca para sempre Magneto, indefinido entre seguir seus companheiros ou de se vingar pelas situações em que se envolve e são trágicas para sua vida pessoal. Para Fassbender, presente em outro filme referencial sobre a Segunda Guerra, Bastardos inglórios, a essência do personagem é estar, de fato, preso a um passado que se repete a cada dia e cuja família não pode encobrir. Se ele é buscado por um homem que se autodenomina Apocalipse, como não lembrar de Hitler?

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Por sua vez, o Prof. Xavier, na tentativa de dar uma certa tranquilidade aos novos mutantes, é uma espécie de figura que complementa a de Magneto: se este não deseja revelar seus poderes, o professor pretende que os mutantes sejam, afinal, considerados como parte do mundo. Um dos problemas, porém, é que os personagens quase não possuem cenas em conjunto, o que proporcionaria uma maior aproximação deles no sentido de que são figuras complementares, à medida que também lida com a tentativa de Xavier em convencer Magneto a ficar novamente de seu lado.
Por isso, às vezes, a sensação é de que o roteiro de Singer e Simon Kinberg, cujo maior acerto é Sherlock Holmes, de Guy Ritchie, com o apoio ainda de Dan Harris e Michael Dougherty, tem inúmeros personagens à mão e é difícil solucionar a narrativa de cada um, mesmo em quase duas horas e meia, facilitando as transições e diminuindo, no terceiro ato, o peso do vilão, feito com perícia com Isaac. O filme flutua entre uma leveza de Xavier tentar uma aposta romântica e a descoberta de dois jovens de seus poderes, além de referências claras ao ano de 1983, como no figurino do Noturno, ainda mais parecido com aquele utilizado por Michael Jackson no videoclipe “Thriller”. Ele segue os capítulos anteriores com uma sequência de cenas que vão se conectando sem muito esforço para o espectador, com a fotografia de Newton Thomas Sigel, habitual colaborador de Singer, dedicada a uma mescla interessante de cores, principalmente quando o Prof. Xavier acessa o monumental cérebro.

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O roteiro às vezes é tão leve quanto a piada que faz consigo mesmo, quando os jovens saem do cinema e lamentam que O retorno de Jedi é a parte mais fraca de Guerra nas estrelas – Singer não se refere a X-Men – O confronto final, de Brett Ratner, o qual não dirigiu, e sim ao que espera que a crítica falará de seu filme, como de fato ocorreu.
A primeira parcela desta nova geração foi muito bem feita por Vaughn e esta terceira não fica nada a dever em termos de ação e efeitos visuais, embora haja um pouco de CGI carregado demais na sequência da batalha final. Muito boa a participação também do elenco: de McAvoy, Fassbender, Turner, Hoult e Peters, principalmente, servindo como alívio cômico, talvez na melhor sequência do filme, sonorizado por “Sweet Dreams (Are Made of This)”, de Eurythmics. Não fica muito clara qual a participação de Lawrence, mas ela sempre é uma presença eficiente em cena, e Byrne poderia ser melhor aproveitada. Por outro lado, aprecio mais esse elenco do que o da primeira trilogia e o saldo final deste X-Men: Apocalipse é agradavelmente positivo.

X-Men: Apocalypse, EUA, 2016 Diretor: Bryan Singer Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Oscar Isaac, Rose Byrne, Evan Peters, Josh Helman, Sophie Turner, Tye Sheridan, Lucas Till, Kodi Smit-McPhee, Ben Hardy, Alexandra Shipp, Lana Condor, Olivia Munn, Warren Scherer, Rochelle Okoye, Monique Ganderton, Fraser Aitcheson Roteiro: Bryan Singer, Dan Harris, Michael Dougherty, Simon Kinberg Fotografia: Newton Thomas Sigel Trilha Sonora: John Ottman Produção: Lauren Shuler-Donner, Simon Kinberg Duração: 144 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Dune Entertainment / Marvel Entertainment / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 3 estrelas e meia

 

Joy – O nome do sucesso (2015)

Por André Dick

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Nos últimos anos, o diretor David O. Russell se tornou uma aposta praticamente certa para o Oscar. Ele conseguiu que três filmes seguidos seus – O vencedor, O lado bom da vida e Trapaça – fossem indicados ao Oscar de melhor filme e de melhores atuações principais, pouco lembrando o início de sua carreira, quando fez projetos mais independentes – embora com elencos estelares – como Três reis, uma sátira de guerra, e Huckabees – A vida é uma comédia. Tudo indicava que com sua estrela favorita, Jennifer Lawrence, e seu ator favorito, Bradley Cooper, com Robert De Niro de coadjuvante, também presente em seus filmes mais recentes, Joy – O nome do sucesso se tornasse novamente um candidato para a Academia de Hollywood.
Não foi o que aconteceu. Lawrence foi indicada ao Oscar de atriz, mas nas categorias restantes há uma ausência absoluta de seu novo filme. Por um lado, é explicável: Joy é talvez a peça mais incomum, e menos propensa à Academia de Hollywood, desde Huckabees, com uma narrativa, desde o início, bastante estranha e mesmo confusa, mesmo partindo de personagens reais. Parece que O. Russell estava indefinido com o gênero do filme, e também com a ordem em que montaria sua narrativa.

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Nesse sentido, Joy se sente inicialmente como uma peça inacabada. Ele mostra a história de Joy Mangano (Jennifer Lawrence), mãe de dois filhos, que mora com os pais, Rudy (Robert De Niro) e Terri (Virginia Madsen), e o marido, um músico de pouco sucesso, Tony Miranne (Édgar Ramírez). À sua volta, circulam também a avó, sua melhor amiga, Jackie (Dascha Polanco) e a nova mulher do pai, Trudy (Isabella Rossellini), uma viúva italiana bastante envolvida com negócios. Joy também possui uma meia-irmã, Peggy (Elisabeth Röhm). Se Rossellini e Diane Ladd são presenças de Coração selvagem no filme de O. Russell, pode-se dizer que Joy é uma das obras mais distintas do ano que passou, não apenas pela temática como pela disposição de cenários.
A história contada por O. Russell em parceria com Annie Mumolo mostra que Joy, depois de tentar limpar uma sujeira em casa, acaba desenhando o que seria um esfregão mais acessível para uso e pretende vendê-lo em larga escala. Ela acaba conseguindo contato com o executivo da QVC Neil Walker (Bradley Cooper), com poder também dentro de uma emissora de televisão capaz de ajudar na venda de produtos.
Joy é, de certo modo, tão otimista quanto os dois últimos filmes de O. Russell, mais especificamente O lado bom da vida – que cresce a cada nova visualização –, mas com a mesma aura de melancolia e nostalgia do interessante Trapaça. O. Russell é um bom diretor de atores, tem inegável domínio sobre as propriedades narrativas, é ousado o bastante para apresentar uma narrativa diferente, e ainda parece sempre faltar algo em suas histórias. Trapaça, por exemplo, tentava mesclar o estilo de Scorsese com o de séries televisivas dos anos 70 e esbarrava, por vezes, no excesso de diálogos. Joy parece mais acabado nesse sentido, embora o elenco pareça ter participado dele em momentos de folga na agenda, apesar de todos se mostrarem excelentes.

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Nenhum personagem, a não ser Joy, é muito trabalhado, e lamenta-se a pouca participação de Walker, uma bela criação de Cooper (ausente da temporada de premiações justamente por um papel de pouca extensão). O. Russell, no entanto, simboliza a personagem central pelos cenários: sua casa está sempre repleta de gente, com pouco espaço, e quando ela vai para a televisão parece que há uma ampliação e se abre uma paisagem invernal com muitos anúncios e neons chamativos. A família diante da TV esperando o aparecimento do produto é um registro quase de Frank Capra. Também a admiração de sua mãe por novelas. Há algo de uma reconstituição de época que remete a Grandes olhos, de Tim Burton, no sentido de que Joy faz parte daquele sonho tão pronunciado na América de independência – e o encontro no qual mostra a funcionalidade do esfregão para Walker é numa sala asséptica, totalmente iluminada, um ambiente onírico, como transparece ao longo do filme. Os personagens parecem vagar entre a realidade e o sonho, a exemplo da mãe de Joy, totalmente desconectada, e o pai e Trudy, a nova namorada, parecem mais propensos a reuniões que lembra um clã, uma máfia – mesmo porque De Niro é visto sempre assim, e Rossellini também se mostre assustadora, embora sem esse objetivo. Todas as imagens que remetem a Joy acabam tendo esse aspecto, seja seu encontro com Tony ou quando caem flocos de gelo sobre seu cabelo diante de uma vitrine. O. Russell torna o personagem quase sempre uma pose de algo interno.

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Há, igualmente e em maior ou menos intensidade, algo dos irmãos Coen aqui, mais especificamente de Gosto de sangue, Arizona nunca mais e Onde os fracos não têm vez, uma espécie de procura pela presença da mulher num universo puramente masculinizado – embora todas estejam ao redor de Joy e ela seja a grande figura a ser seguida – e mais ao final há ecos de Estrela solitária, de Wenders. Muito curioso é um momento (talvez spoiler para alguns) em que Joy sai do seu trabalho e chega até um vizinho que lhe entrega uma arma e ela passa a atirar, como se precisasse incorporar a violência associada ao homem para ter sucesso. É um conto bastante simples de superação – superação mais empreendedora do que psiquiátrica, como vimos em O lado bom da vida – e que recorre quase sempre aos atores para ter um motivo maior.
Joy, de certo modo, é o filme menos pretensioso de O. Russell desde Huckabees, e por isso sua importância. Inicialmente cotado para premiações, ele não mostra em nenhum momento as características para ser lembrado, ou seja, sua temática parece absurdamente comum, quando, na verdade, conta parte da história que possui a mulher na construção da América. Lawrence, como em outros papéis, está excelente, e dispensa-se de comentar sua química habitual com Cooper e De Niro. Além disso, os quesitos de produção são, do mesmo modo que em outros filmes do diretor, ótimos, principalmente o figurino e a fotografia. Chama mais atenção realmente por que O. Russell deixa algumas pontas soltas em seu filme e não o encerra da maneira mais apropriada com o material que tinha às mãos. O que se diria é que Joy merece uma visão, apesar de todas as críticas negativas pelas quais foi cercado desde seu lançamento.

Joy, EUA, 2015 Diretor: David O. Russell Elenco: Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Bradley Cooper, Elisabeth Röhm, Édgar Ramírez, Virginia Madsen, Dascha Polanco, Isabella Rossellini, Diane Ladd, Jimmy Jean-Louis Roteiro: Annie Mumolo, David O. Russell Fotografia: Linus Sandgren  Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: John Davis, John Fox, Jonathan Gordon, Ken Mok, Megan Ellison Duração: 124 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Annapurna Pictures / Davis Entertainment

Cotação 3 estrelas e meia

Jogos vorazes: A esperança – O final (2015)

Por André Dick

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Os que reclamam que um livro é dividido em filmes de duas partes costumam ser críticos à indústria de querer lucrar várias vezes com a mesma história. O diretor que mais enfrentou esse percalço nos últimos anos foi Peter Jackson, com seu bastante criticado (pelo menos em sua primeira e terceira partes imerecidamente) O hobbit. Embora Jogos vorazes tenha tido apenas seu último livro dividido em duas partes, pode-se dizer que a opção rendeu uma primeira parte muito boa. Quem a viu em Blu-ray, mesmo sem ser fã da série, é capaz de reconhecer a sua qualidade: muito bem montado (os dois primeiros eram excessivos) e se serve apenas para anunciar uma segunda parte que então a série começasse nela.
Embora não seja fã da série, apesar de reconhecer qualidades nos dois primeiros filmes, não foi sem tempo:  Jogos vorazes: A esperança – Parte 1 parecia ser o melhor dos três primeiros, e  não parecia apenas motivo para antecipar a segunda parte do último capítulo. Falavam o mesmo de Harry Potter e as relíquias da morte, cuja primeira parte ainda me parece a melhor de toda a série.

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Agora em Jogos vorazes: A esperança – O final, o mesmo diretor Francis Lawrence traz de volta a personagem de Katniss Everdeen, escolhida para enfrentar o vilão Coriolanus Snow (Donald Sutherland) e trazer a paz, sob a liderança de Alma Coin (Julianne Moore), assessorada por Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman). Ela embarca numa missão com seus amigos Gale (Liam Hemsworth), Finnick (Sam Claflin), Cressida (Natalie Dormer), Pollux (Elden Henson) e a companhia de um instável Peeta (Josh Hutcherson) – que no episódio anterior (e isso passa a ser um spoiler para quem não viu) já havia se tornado numa espécie de ameaça para a segurança – sob a liderança de Boggs (Marhersala Ali) e a tenente Jackson (Michelle Forbes). Esse grupo parte para tentar salvar os cidadãos de Panem. A história de Jogos vorazes, baseada nos romances de Suzanne Collins, parece à primeira vista apenas uma composição de ideias que mesclam a dúvida diante de uma promessa de liberdade em um novo sistema política por meio de um grupo de jovens que idealizam um futuro diferente. No entanto, é apenas uma impressão ligeira, uma vez que Jogos vorazes é realmente uma série que, com virtudes e falhas, ainda diz algo que foge ao que poderia ser mais raso, diferente de outras séries que iniciam agora com promessa de longa duração, a exemplo de Maze Runner.

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Mais uma vez, Jennifer Lawrence entrega um grande desempenho como Katniss, assim como Julianne Moore e Philip Seymour Hoffman. Woody Harrelson é o toque divertido, e continua assim, apesar de aparecer pouco. E Donald Sutherland, como o presidente Snow, é terrível: ele sabe como lançar um vilão. O filme, além disso, tem uma qualidade acima de média de design de produção: visualmente é muito atraente. Com uma dose de ação e apelo emocional em medidas iguais, a série justifica sua existência por esses dois filmes finais, especialmente esta quarta parte, sem sobrecarregar a parte expositiva (um problema do segundo, por exemplo, talvez uma réplica do primeiro). Nada parece forçado como costumam ser os blockbusters, há um tom sombrio e assustador em algumas passagens (que cercam um hospital, no segundo, ou a segunda parte toda deste, por exemplo). Em razão de uma quase ausência de Stanley Tucci, a série passa a ter muito menos um foco no divertimento do que na tensão. Se a primeira parte parecia fazer, em alguns momentos, uma homenagem a A hora mais escura, nesta segunda são claras novamente as referências: Batman – O cavaleiro das trevas ressurge, principalmente nos cenários urbanos, quando a equipe precisa atravessar uma cidade com centenas de armadilhas, na composição das naves e nos cenários invernais, e Aliens – O resgate, de James Cameron, com sua colocação de personagens em túneis. É especialmente bem feita a composição de cenários e a fotografia de Jo Willems para que os personagens se cruzem em cenas de ação muito bem filmadas e com alta vibração sonora e interativa.

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Por meio de uma direção eficiente de Francis Lawrence, os  núcleos dramáticos funcionam devido à presença de Lawrence e até a Josh Hutcherson. Embora os personagens não sejam tão desenvolvidos – e as presenças de Haymitch Abernathy (Woody Harrelson) e Effie Trinket (Elizabeth Banks) sejam menores, além daquela, infelizmente pelo pior motivo, de Seymour Hoffman –, Jogos vorazes se sustenta como poucas séries de ação, muito por causa do roteiro bem estruturado de Peter Craig e Danny Strong. Apesar de sua indefinição inicial, quando os personagens parecem se ajustar ainda ao que aconteceu na primeira parte, quase fazendo uma recapitulação dos acontecimentos, trata-se de um roteiro bastante efetivo no momento em que encadeia sua ação. Não há exageros dramáticos nem um torneio de vozes para que cada personagem chame atenção para si, e sim tudo é disposto de maneira a ser um desenrolar efetivo.
E há o que mais instiga na série: seus conflitos políticos. Os personagens são bons ou manipuladores? Há uma real vontade de liberdade ou apenas de escolher outro modo de dominação? A líder feita por Julianne Moore é boa ou está interessada apenas em se aproveitar da imagem de Katniss? Será que todas as histórias servem apenas para ser sintetizadas, imediatamente, pelo primeiro programa de notícias a ir para o ar? A última cena do primeiro filme deste capítulo final já parecia dizer muito: no reflexo pode estar o inesperado de cada indivíduo.

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Impressiona como esta segunda parte do capítulo final de Jogos vorazes ainda flerta com passagens temporais mais do que os outros da série e do que outros filmes ditos mais complexos e profundos. Se a sua primeira parte mostra uma obscuridade capaz de remeter à Revolução Industrial, com fumaça, tempo cinza e cenários apresentados como espaços de fábricas, sua segunda parte é acometida por uma urbanidade opressiva, enquanto o palácio de Snow lembra mais o século XVIII e um casamento apresenta uma trilha sonora que remete a O portal do paraíso, assim como a sua dança. Não à toa, a personagem de Katniss, a partir de determinado momento (e já transparecia no primeiro filme), parece habitar uma arena romana, para delírio do público, e avance mais tarde para espaços bucólicos capazes de dialogar com Barry Lindon, de Kubrick, na composição de imagens antigas, contra qualquer presença de um ambiente futurista e opressivo. Em determinado momento, é preciso dar luz ao que antes era nublado e escuro, mas Lawrence não vê isso de maneira idealizada: há sempre uma espécie de ameaça e melancolia nas imagens desses personagens buscando a sua mudança pessoal. Isso torna esse desfecho da série uma realização no mínimo original e de grande impacto.

The hunger games: Mockingjay – Part 2, EUA, 2015 Diretor: Francis Lawrence Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Julianne Moore, Donald Sutherland, Philip Seymour Hoffman, Jeffrey Wright, Jena Malone, Sam Claflin, Stanley Tucci Roteiro: Danny Strong, Peter Craig Fotografia: Jo Willems Trilha Sonora: James Newton Howard Produção: Jon Kilik, Nina Jacobson Duração: 137 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Color Force / Lionsgate

Cotação 4 estrelas

Trapaça (2013)

Por André Dick

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No ano passado, o diretor David O. Russell reuniu Bradley Cooper e Jennifer Lawrence em O lado bom da vida como isca para premiações, mesma tentativa feita dois anos antes em O vencedor, com Christian Bale e Amy Adams. Em seu novo filme, Trapaça (um título levemente deslocado para o setentista American Hustle), ele reúne os dois casais e procura novamente o reconhecimento principalmente da Academia de Hollywood, desta vez se inspirando, mais ainda do que em seus outros filmes, no Martin Scorsese de Os bons companheiros, a partir do uso da câmera hipnótica de Linus Sandgren. No entanto, não existe em Trapaça o objetivo de retratar a máfia ou fazer as reviravoltas dialogarem com Os infiltrados, a incursão de Scorsese que lhe deu, afinal, o Oscar, quando deveria ter recebido por outros filmes, também pelos recursos de flashbacks. Há mais uma tentativa de incorporar o imaginário dos anos 70 e brincar exatamente com os cenários e situações que podem surgir nele. Tudo isto fica demonstrado pelo próprio figurino e pelos penteados exagerados, partindo daquele exibido por Bradley Cooper, e do físico exibido por Christian Bale. Se formos assistir Trapaça como um retrato de época, talvez não sejamos tão efetivos quanto se ele for visto como uma comédia em que os personagens atuam como se estivessem entrando em cena e ficassem surpresos por isso: é um filme de performances, não exatamente de narrativa.
Bale e Amy Adams formam um casal, Irving Rosenfeld e Sydney Prosser, que se conhece numa festa cujo cenário evoca as vidraças e a piscina ao fundo de Boogie Nights e se juntam imediatamente para aplicar golpes. Prosser se apresenta às vítimas como uma aristocrata chamada Lady Edith Greensly, enquanto Irving segue o roteiro perfeito para limpar os bolsos do alvo. Irving é uma figura completamente deslocada do cenário, pois parece, ao mesmo tempo, ingênuo. Bale lhe oferece características de grande ator que é, tornando o que poderia ser apenas um tanto patético – pelo seu início, quando se prepara para entrar em cena – em uma figura humana, em meio aos diálogos acelerado de Russell, com receio de fazer qualquer interrupção e se perder o fio da meada.

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Enquanto Prosser tem um passado misterioso, Irving é casado com Rosalyn (Jennifer Lawrence) e pai de um menino. Descobertos por Richie DiMaso (Cooper), eles acabam servindo para o encontro com um político, Carmine Polito, dedicado à esposa Dolly (Elizabeth Röhm) e prefeito de Camden, em uma ponte com o mundo do crime, por meio de uma revitalização dos cassinos. O filme é levemente baseado numa operação montada pelo FBI em 1978, chamada Abscam, mas é visível que Russell espalha para todos os lados as suas improvisações, com a ajuda decisiva de seu elenco. Para isso, os personagens acabam se envolvendo com pseudoárabes e mafiosos dos Estados Unidos na história, enquanto tentam conseguir um dinheiro considerável para armar uma transação pouco real de negócios. Nesta relação, DiMaso acaba se apaixonando por Prosser e abre-se um triângulo amoroso que certamente resultará em uma complicação. Isso quando Rosalyn não surge, longe de sua cozinha, interessada em ingressar nas possíveis reviravoltas do caso. DiMaso, especialmente, tem um interesse em fazer sua carreira em cima de grandes casos, capazes de chamar a atenção da mídia.
Todos os personagens de Trapaça querem ter seu grande momento, seja para a mídia ou para encher os bolsos de dinheiro, mas há, acima de tudo, nesse final dos anos 70, adentrando quase nos anos 80, ainda um resquício de amizade e das relações que não devem terminar pelas tradições familiares (como quando Rosalyn diz a Irving que as mulheres de sua família não se separam). Há um falso glamour nos cenários e o penteado dos personagens sempre parece escondê-los de sua verdadeira personalidade: eles encenam tanto para o espectador quanto uns em relação aos outros. E, inevitavelmente, todos os rompantes possivelmente verdadeiros soam ligeiramente forçados – desde alguém saindo pela porta diante de uma decepção de amizade até quando o FBI pensa ter agido de maneira perfeita em determinada circunstância.
Russell nunca chegou a ser respeitado pela crítica e pelo público como o é pela Academia, mas não se pode dizer que seus filmes sejam dispensáveis; pelo contrário. Há neles uma espécie de movimentação que aprimora alguns lugares-comuns e visualiza sobretudo as comédias clássicas, com boa atmosfera, com a ajuda decisiva da fotografia, e um elenco dedicado. Dois dos maiores acertos de Russell, por exemplo, são Três reis e I heart Huckabees. Se os dois casais estavam ótimos nos filmes anteriores, em Trapaça, mostram a revelar boa parceria, com o acréscimo indispensável de Jeremy Renner e Louis C.K. Este, em particular, como Stoddard Thorsen, oferece algumas linhas de diálogo que sustentam a narrativa, e Renner também consegue compor um Polito interessante e volúvel aos momentos de amizade.

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Há pelo menos alguns grandes momentos em Trapaça no que corresponde a essa interação de elenco, e eles se dividem entre uma discoteca no estilo anos 70 (podendo surgir um Tony Manero) e um restaurante onde Rosalyn vai expor o estilo de suas unhas. São nesses pequenos detalhes, inacabados e imperfeitos, que Trapaça acaba desenhando o painel de uma época. E não sem a colaboração do elenco. De Bale e Cooper, pode-se falar que conseguem inovar dentro de seu repertório, sobretudo Bale, mas é Adams a responsável pela atuação mais efetiva do filme, tão bem a ponto de Trapaça perder um pouco seu vigor quando não está em cena. E Jennifer Lawrence consegue, depois de Inverno da alma e O lado bom da vida, entregar uma atuação finalmente livre de alguns maneirismos. Em Trapaça, ela, por meio do exagero, torna sua personagem humana, graças à decisão de Russell em mantê-la como uma peça-chave de acréscimo para outros momentos imprevisíveis. Sua presença em Trapaça consegue sintetizar essa ambientação setentista, ao mesmo tempo em que nos coloca uma máquina de recordações direcionada ao futuro. De modo que se ele tem pelo menos 20 minutos a mais de duração do que deveria deve-se valorizar aquilo que Russell conseguiu fazer com seu elenco, de forma mais bem solucionada do que em O lado bom da vida, uma história romântica, com méritos, vendida como drama capaz de modificar a vida do espectador e como peça cult. Talvez não tenha a agilidade do anterior, contudo não deixa de fazer Trapaça um filme bem mais do que interessante.

American Hustle, EUA, 2013 Direção: David O. Russell Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jeremy Renner, Michael Pena, Louis C.K., Jack Huston Roteiro: David O. Russell e Eric Singer Fotografia: Linus Sandgren Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Charles Roven, Richard Suckle, Megan Ellison Duração: 129 min. Distribuidora: Columbia

Cotação 3 estrelas e meia

O lado bom da vida (2012)

Por André Dick

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A comédia indicada ao Oscar de melhor filme este ano foi O lado bom da vida, baseado em romance de Mattew Quick. Na verdade, trata-se de uma comédia com elementos dramáticos, ao gosto da Academia de Hollywood, com um elenco de atores que mescla o anteriormente desacreditado Bradley Cooper (mais conhecido pela série Se beber, não case) e a promessa Jennifer Lawrence, além de um belo elenco de apoio.
Com um talento insuspeito em outros papéis, Cooper interpreta Pat Solitano Jr., um professor de História que, depois de flagrar a esposa com um colega de trabalho no chuveiro, é internado para tratamento. Depois de oito meses, diagnosticado com transtorno bipolar, e ainda sem estar totalmente bem, sua mãe, Dolores (Jacki Weaver), vai apanhá-lo, a fim de que consiga, aos poucos, voltar à sua vida. Mas Pat não consegue esquecer da esposa que o traiu, Nikki, enquanto seu pai (De Niro), só deseja assistir futebol norte-americano, obcecado pelo Philadelphia Eagles, e realizar apostas, além de ter manias supersticiosas com a mão no controle remoto.
Desde o momento inicial, quando a mãe reencontra Pat, o filme não esclarece totalmente esta ligação dele com os pais, mas o diretor David O. Russell, que escreveu e dirigiu filmes interessantes (como Três reis e O vencedor), consegue fazer o espectador adentrar na bipolaridade de Pat, acompanhando-o numa visita a pessoas do bairro, depois numa noite movimentada de Halloween e a seu terapeuta, o Dr. Patel (Anupam Kher), que deverá frequentar como parte da reabilitação, além de ter uma ordem de restrição em relação à esposa.

O lado bom da vida

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Quando ele conhece Tiffany (Lawrence), irmã de Veronica (Julia Stiles), casada com seu amigo Ronnie (John Ortiz), uma jovem que acabou de perder o marido, um policial, é como se pudesse também haver uma reabilitação amorosa. Cada momento é bem compassado, os diálogos correm num fluxo e Russell permite que nos aproximemos rapidamente dos personagens, por meio de uma conversa sobre comprimidos antidepressivos, o que oferece a eles não exatamente intimismo, mas provocação mútua. Se Pat é o sujeito que ficou perturbado – mas com atenuantes –, e para o filme isso não resulta em nenhum momento de grande melancolia, nem mesmo nos conflitos familiares ou na suposição de que o personagem foi deixado de lado em prol do irmão, Tiffany não pode ser também a mulher perfeita: ela precisa estar em conflito e pode ter tido problemas por depressão em razão da morte do marido. E sabemos que ela pode recuperá-lo do estado em que se encontra, no primeiro encontro. A química dá certo. Há um enlace interessante quando o par protagoniza diálogos mais extensos e Lawrence tem carisma, além de uma tristeza permanente no olhar, embora, no geral, seja ainda uma atriz sendo lapidada (é notável que ela seja apontada como favorita ao Oscar de atriz, à frente das excelentes Emmanuelle Riva e Jessica Chastain).
Basicamente, depois desse encontro, tudo se constrói a partir de uma carta que Pat deseja mandar à ex-esposa por meio de Tiffany, afinal existe a ordem de restrição. É, então, que o filme sofre uma espécie de ruptura, e o personagem Pat, que se desenhava de maneira irônica e mordaz, com sua bipolaridade, atenuada pelo visual e trilha de qualidade, que o filme transpira – e dificilmente um bairro pareceu tão vivo quanto aqui – acaba se inserindo naquele ideal do início, anti-Hemingway, ao ritmo de Cantando na chuva.
Por exemplo, a conturbada relação com o pai, com a boa interpretação de De Niro, revela, em meio a correrias, muita gente discutindo dentro da sala dos Solitano, e as coisas complicam quando o filho é tratado como uma espécie de amuleto para as vitórias do time. Em alguns momentos, parece haver mais agitação do que algo a dizer. Mas Russell, aqui, é ainda anti-Hemingway, embora seus personagens sejam, como o escritor, igualmente atraídos por uma briga: uma sequência mais ao final do filme criará um enlace com o clímax, em que surge uma série de exemplos baseados em jogos para que a loucura de Pat não tenha nada a ver com sua nova paixão.

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Surge daí uma tentativa de convencimento, de que tudo o que foge à conveniência é comum, e não é preciso ir muito longe para que percebamos que a estranheza é habitual a todos, mesmo para o terapeuta. No mesmo sentido, temos a presença de Danny (Chris Tucker), que aparece e desaparece sem que seja melhor elaborado, além de participar de um momento previsível, mas com uma comicidade agradável. Pat acaba sendo sempre perseguido por uma torrente de falas dos outros, como se ele não fosse a pessoa mais problemática (naquele bairro do filme, certamente ele não é). Russell enfatiza a necessidade de apresentá-lo como ameaçador aos outros vizinhos, como se ele, ao se revoltar, criasse uma espécie de sistema que não pode ser entendido por ninguém, apenas pela pessoa que pode se apaixonar também por sua bipolaridade. Ou melhor, como se todos no bairro fossem pessoas contrárias a Pat, que nunca tivessem tido nenhum problema, nem com eles, nem com sua família. No entanto, e isso transparece em muitos diálogos, a conveniência não é uma fuga simples à ruptura; pode ser apenas uma restrição.
É interessante perceber como O lado bom da vida tem elementos diferenciados guardados em sua premissa, e como se apresenta, ao contrário de muitas comédias, muito bem cuidado esteticamente, com uma fotografia que remete, em seu jogo de lâmpadas natalinos, a De olhos bem fechados, de Kubrick, e de câmera, a Scorsese. Tudo isso faz ainda mais com que se crie um ânimo quando Russell alça as atuações do elenco – e não há dúvida de que elas alcançam ótimos momentos – a uma escala capaz de sustentar uma história que desperte o interesse, mesmo recorrendo a alguns artifícios previsíveis, sem ser exatamente uma comédia original. Deve-se considerar, afinal, que Russell não desejava criar nenhuma ruptura com o gênero em que o filme se insere, e sim tornar uma história a princípio mais dramática com tons mais acessíveis para enfrentar a realidade, sem o objetivo de prescrever receituários científicos sobre um determinado problema, como costuma ser acusado, nem escondê-los. Mesmo porque Pat não depende apenas do seu alto astral e da própria autoajuda que se concede para visualizar a revitalização de seu pensamento. A vida dele recomeça justamente quando passa a ter consciência sobre as pessoas à sua volta. Depois disso, não há mais retorno. Nisso, O lado bom da vida consegue atrair o espectador para dentro de sua narrativa e do seu fundo prateado.

Silver Linings Playbook, EUA, 2012 Diretor: David O. Russell Elenco: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Julia Stiles, Chris Tucker, John Ortiz, Jacki Weaver, Montana Marks, Anupam Kher, Brea Bee Produção: Bruce Cohen, Donna Gigliott, Jonathan Gordon Roteiro: David O. Russell, baseado na obra de Matthew Quick Fotografia: Masanobu Takayanagi Trilha Sonora: Danny Elfman Duração: 122 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Mirage Enterprises / The Weinstein Company

Cotação 4 estrelas