Ilha dos cachorros (2018)

Por André Dick

Lançado no Festival de Berlim deste ano, Ilha dos cachorros, embora possa se parecer com O fantástico Sr. Raposo, tem muito mais de Moonrise Kingdom do que qualquer outra obra de Wes Anderson, assim como remete, em vários momentos, ao restante de sua filmografia, com um humor agridoce e afetivo. A maneira como a cultura japonesa é apresentada pode soar, em alguns momentos, provocadora, mas poucos criadores do Ocidente conseguiram mostrá-la com tantos detalhes nos últimos anos, principalmente no uso de ambientações típicas.
A história mostra a decisão do prefeito de Megasaki, Kobayashi (Kunichi Nomura), que decide mandar todos os cães de seu país, por motivos de saúde, para uma ilha erguida por detritos. Ele é representante de uma dinastia que lutou contra a presença de cachorros na sociedade, preferindo os gatos – e o início do filme poderia lembrar Kagemusha. O menino que apadrinha, Atari (Koyu Rankin), deseja rever seu cão Spots (Liev Schreiber), indo de avião resgatá-lo na ilha.

O filme se passa vinte anos no futuro, e Anderson, junto com a história elaborada em parceria com Roman Coppola, Jason Schwartzman (com os quais escreveu Viagem a Darjeeling) e Kunichi Nomura, mostra uma sensibilidade insuspeita quando Atari encontra um grupo de cães: Chief (Bryan Cranston), Rex (Edward Norton), King (Bob Balaban), Boss (Bill Murray) e Duke (Jeff Goldblum). Há também uma estudante, Tracy Walker (Greta Gerwig), que deseja salvar esses cães. E há ainda Nutmeg (Scarlett Johansson), que cria interesse imediato em Chief, e dois cães que parecem guias misteriosos, Jupiter (F. Murray Abraham) e Oracle (Tilda Swinton).
Anderson mostra os cães como em seu cartaz: constantemente olhando para a câmera, numa quebra da quarta parede, concedendo uma humanidade imprevista. Do mesmo modo, ele trabalha com os espaços da ilha quase do mesmo modo que faz em Moonrise Kingdom, ampliando o olhar para detalhes no horizonte e em certa melancolia. Ele lida com sentimentos dos seres humanos pelos animais, mas de modo introspectivo, bem diferente do grande sucesso comercial (e divertido) Pets e dos clássicos 101 dálmatas e Todos os cães merecem o céu. Isso não o afasta de algumas gags efetivas (“Parem de lamber suas feridas”, diz o líder, enquanto um dos parceiros exatamente as lambe).

Desde o início, Ilha dos cachorros se mostra um filme de Wes Anderson, principalmente pela movimentação de câmera. É estranho que os diálogos em japonês não sejam legendados, apenas traduzidos em conferências (com a voz de Frances McDormand), talvez para criar mais um desvio narrativo. O uso da trilha sonora de Alexandre Desplat, assim como de canções no estilo indie típicas na filmografia de Anderson (com exceção feita a seu filme anterior, O grande Hotel Budapeste), se mostra mais uma vez acertada.
Estruturado nesses elementos, Anderson expande seus temas já mostrados antes: a figura da família é essencial para entender Atari. Ele é um menino órfão, assim como o de Moonrise Kingdom, do mesmo modo que tem uma relação conflituosa com seu padrinho, a exemplo do que vemos em outros momentos da carreira de Wes Anderson. Atari não é expansivo como outras crianças da filmografia do cineasta: suas reações são mais distantes. Ao contrário de O fantástico Sr. Raposo, também há um certo afastamento dos que podem ser considerados humanos, baseado na figura de Kobayashi, inspirado no ator Toshiro Mifune, que apareceu em diversos filmes de Akira Kurosawa e aqui parece ecoar aquela atuação de O barba ruiva.

O uso das cores, assim como no stop-motion anterior de Anderson, O fantástico Sr. Raposo, é espetacular, realçando o cenário como poucos cineastas, mesmo orientais, conseguiriam. É uma qualidade conhecida do cineasta, porém poucas vezes depurada como neste trabalho exemplar. Premiado como melhor diretor em Berlim, Anderson parece mais interessado em deixar seus sentimentos mais contidos do que revelados, o que já mostrou ao longo de sua trajetória, nunca de modo tão presente quanto aqui. Ele parece, ao mesmo tempo intensificar sua assinatura e fazê-la menos particular, inclusive no tom baixo das músicas e na quase falta de transição clara entre as cenas. De qualquer modo, há sempre ainda, por baixo de tudo, o sentimento familiar de seus primeiros filmes, a começar por Os excêntricos Tenenbaums e Viagem a Darjeeling, na maneira como os cães interagem, a princípio desconfiados uns dos outros, em seguida unidos pelo mesmo objetivo. A construção de ideia de família transita entre o mundo humano e o animal, no entanto nunca de maneira tão óbvia quanto aparenta nesta obra de verdadeiro comunicado sobre o comportamento da natureza, solícito ou não, preparado para o embate contra o que pode prejudicá-la.

Isle of dogs, EUA, 2018 Diretor: Wes Anderson Elenco: Bryan Cranston, Edward Norton, Bill Murray, Jeff Goldblum, Bob Balaban, Kunichi Nomura, Ken Watanabe, Greta Gerwig, Frances McDormand, Fisher Stevens, Nijiro Murakami, Harvey Keitel, Koyu Rankin, Liev Schreiber, Scarlett Johansson, Tilda Swinton, Akira Ito, Akira Takayama, F. Murray Abraham Roteiro: Wes Anderson História: Wes Anderson, Roman Coppola, Jason Schwartzman, Kunichi Nomura Narração: Courtney B. Vance Fotografia: Tristan Oliver Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Wes Anderson, Scott Rudin, Steven Rales, Jeremy Dawson Duração: 101 min. Estúdio: Indian Paintbrush, American Empirical Pictures Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

Jurassic World – Reino ameaçado (2018)

Por André Dick

Em 1993, no mesmo ano em que lançou A lista de Schindler, pelo qual recebeu os Oscars de melhor filme e direção, Spielberg voltou ao antigo ingrediente que o consagrou na série Indiana Jones num dos maiores blockbusters já feitos, Jurassic Park. Baseada num excelente romance de Michael Crichton (também autor do roteiro, com David Koepp), a narrativa se concentra na jornada de um paleontólogo (Sam Neill) e sua mulher, uma paleobotânica (Laura Dern), até a Ilha Nublar, próxima à Costa Rica, onde se localiza um recém-criado parque dos dinossauros administrado por um magnata (o também diretor Richard Attenborough). As criaturas pré-históricas voltaram a existir por causa de um experimento genético e mosquitos congelados em rochas, assustando tanto a dupla de doutores quanto um matemático (Jeff Goldblum), que estão na ilha para inspecionar o parque. As cenas a partir daí são um marco para o cinema de ação.

Apesar da lição de moral previsível, Jurassic Park tem uma qualidade inegável: empolga o espectador, que acaba gostando, diante de um roteiro bem solucionado e um elenco talentoso. Além disso, o capricho na parte técnica (sobretudo nos efeitos especiais espetaculares, que continuam os melhores nessa área) tornam o filme uma obra única na história, capaz de suscitar imitações e manter a originalidade.
Também deu origem a duas continuações, a primeira novamente dirigida por Steven Spielberg (com Julianne Moore à frente do elenco) e a segunda, de Joe Johnston, embora a maior peça com dinossauros depois do primeiro Jurassic Park possivelmente seja King Kong, de Peter Jackson. E, se a primeira continuação, O mundo perdido, ainda consegue render uma boa sessão, Johnston não consegue trazer inovação. Quando as criaturas pré-históricas retornaram em Jurassic World, o diretor Colin Trevorrow não conseguiu elaborar do melhor modo a história, fazendo quase uma refilmagem do primeiro, sem o mesmo vigor.

Três anos depois estamos de volta à Ilha Nublar, em Jurassic World – Reino ameaçado, desta vez com Trevorrow como um dos roteiristas. O filme inicia com  o casal do filme anterior, formado por Owen Grady (Chris Pratt) e Claire Dearing (Bryce Dallas Howard), se reencontrando depois de algum tempo. Ela não é mais uma executiva responsável pelo funcionamento do parque, mas sim alguém que tenta ajudar na preservação dos dinossauros, com a ajuda de Franklin (Justice Smith) e da veterinária Zia Rodriguez (Daniella Pineda), enquanto ele mora afastado, no campo. O problema é que há mercenários querendo o DNA de um dos híbridos das criaturas existentes no parque abandonado. Ao mesmo tempo, o Senado norte-americano interroga o Dr. Ian Malcolm (novamente Goldblum) sobre se os dinossauros devem ser tirados da ilha, que sofrerá uma erupção vulcânica capaz de dizimá-los. Claire é contratada por Benjamin Lockwood (James Cromwell), ex-parceiro de John Hammond (Attenborough, no filme de 1993) na clonagem de dinossauros. Ela conhece seu assessor Eli Mills (Rafe Spalls) e a neta de Benjamin, Maisie (Isabella Sermon), esta sob os cuidados da governanta, Iris (Geraldine Chaplin). O maior interesse é pelo velociraptor Blue, que tem uma ligação com Owen, pois foi criado por ele.

A volta do grupo à ilha lembra muito Jurassic Park III, com a presença do chefe dos mercenários Ken Wheatley (Ted Levine). Trata-se de um início pouco original. No entanto, depois de uma sequência fantástica de ação, que sobrepuja a decepção de Jurassic World de Trevorrow, o diretor espanhol J.A. Bayona emprega seu maior talento: a junção entre espetáculo, com efeitos especiais de ponta (e os dinossauros aqui lembram mais aqueles dos filmes de Spielberg, sem tanta computação gráfica), o que já mostrara em O impossível e Sete minutos depois da meia-noite, com um toque por vezes poético. Se há momentos que remetem a O segredo do abismo e mesmo um especificamente aos momentos sobre a criação do mundo na obra de Terrence Malick, Bayona deixa de lado a ligação entre o casal e foca no desejo do ser humano se aproveitar dos dinossauros para romper a barreira do limite. Trata-se de um tema já subentendido no final de O mundo perdido, de Spielberg, sob certo ponto de vista subvalorizado (que conta com uma ótima Julianne Moore), e que aqui recebe o espaço acertado. Além disso, Bayona faz um núcleo interessante do casal com a atriz Sermon, esta especialmente ótima.

As figuras adversárias, representadas por leiloeiro Gunnar Eversol (Toby Jones), ganham um momento à parte que dialoga com o original de Spielberg do melhor modo, numa sucessão de perseguições e um sentimento de claustrofobia. Bayona revela a admiração da criança pelo universo de criaturas ameaçadoras, o que já fizera em seu experimento anterior, Sete minutos depois da meia-noite, mas avança em relação a um prazer de elaborar imagens que ficam na mente do espectador, como aquele em que a sombra de um dinossauro se projeta na parede dentro de um quarto infantil, lembrando os contos de fada ameaçadores. Mais do que isso, em certos instantes este Jurassic World é um filme de terror, com uma referência insuspeita, por exemplo, a O silêncio dos inocentes. Se ele não consegue se elevar como poderia a mais do que um filme de ação bastante eficiente, existe aqui um diretor e uma visão.

Jurassic World – Fallen kingdom, EUA, 2018 Diretor: J.A. Bayona Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Rafe Spall, Justice Smith, Daniella Pineda, James Cromwell, Toby Jones, Ted Levine, B.D. Wong, Isabella Sermon, Geraldine Chaplin, Jeff Goldblum Roteiro: Colin Trevorrow e Derek Connolly Fotografia: Óscar Faura Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Frank Marshall, Patrick Crowley, Belén Atienza Duração: 128 min. Estúdio: Universal Picture, Amblin Entertainment, The Kennedy/Marshall Company, Legendary Pictures Distribuidora: Universal Pictures

Thor: Ragnarok (2017)

Por André Dick

O terceiro filme da Marvel/Disney este ano, depois de Guardiões da galáxia Vol. 2 e Homem-Aranha – De volta ao lar, traz de volta o personagem Thor, o Deus do Trovão, tendo atrás das câmeras Taika Waititi. Se o humor e a ação funcionavam realmente nesses dois filmes, a expectativa era que funcionasse ainda mais no principal (pelo menos em termos de chamariz) deles. O diretor se tornou mais conhecido com O que fazemos nas sombras, um filme divertido sobre um grupo de vampiros que se unia numa cidadezinha para suportar junto a eternidade. Em seguida, ele fez Hunt for the wilderpeople, conhecido no Brasil como A incrível aventura de Rick Baker ou Fuga para a liberdade. Se O que fazemos nas sombras tinha uma produção modesta, o segundo possuía uma fotografia extraordinária, com uma sucessão de gags interessante em meio a um drama familiar, influenciado por Wes Anderson, a mesma referência em Loucos por nada, filme de Waititi de uma década atrás.

Thor: Ragnarok, pelos prognósticos, se tornaria aquilo que impediram Homem-Formiga de ser: um filme autoral, por causa justamente de Waititi. Ele mostra Thor (Chris Hemsworth) precisando salvar Asgard de uma nova e terrível ameaça, Hela (Cate Blanchett). Ao lado do irmão, Loki (Tom Hiddleston), ele tem um breve encontro com outro personagem conhecido da Marvel, antes de se depararem com o pai, Odin (Anthony Hopkins). Thor vai parar no planeta de Sakaar, onde vira prisioneiro de Valquíria (Tessa Thompson), sempre uma dose etílica acima do esperado, que o entrega ao Grão-Mestre (Jeff Goldblum). Esta parte do filme é a que melhor funciona, com Taika Waititi apresentando diálogos ágeis e situações cômicas no ponto exato, brincando com a cultura nórdica e a mitologia de Asgard (além da participação especialíssima, e engraçada, de um ator conhecido na reprodução de uma peça teatral), e tanto Hemsworth quanto Goldblum se destacam, além de Thompson valer cada cena em que aparece.
Em 2011, Thor teve uma transposição assinada por Kenneth Branagh, mais conhecido por suas adaptações para o cinema de obras de Shakespeare. Era este justamente o diferencial dessa produção: o herói dos quadrinhos tem, em grande parte, uma profusão de diálogos que lembram uma peça de teatro, mas sem cair no forçado ou pretensioso. Branagh mesclava a comédia com drama nos pontos certos, principalmente quando o herói cai numa cidade do deserto do Novo México, encontrando um grupo de cientistas, liderado por Jane Foster (Natalie Portman), ajudada por Darcy Lewis (Kat Dennings) e pelo Dr. Erik Selvig (Stellan Skarsgård), ausentes dessa continuação.

Havia sequências bastante divertidas, como a de Thor experimentando comida numa lanchonete ou as pessoas desconfiadas de seu figurino. A direção de arte de Bob Ringwood (o mesmo que fez os cenários de Batman – O retorno e Edward, mãos de tesoura, para Tim Burton) misturava o tom do deserto com a profusão de cores de Asgard, lembrando um pouco os anos 80, sobretudo na ponte multicolorida, com as galáxias ao fundo. Estranhamente, este filme de Branagh foi rechaçado em geral pelo público e recebido com certa indiferença pela crítica. Mais ainda: entende-se que ele não teria o bom humor agora utilizado.
Talvez porque Waititi esteja com mais nome do que Branagh se tenha criado o fato de que Thor: Ragnarok em algum momento está à altura de uma sátira à space opera como sua principal influência, Flash Gordon, dos anos 80, e que seu visual traga algo de espetacular. “Immigrant Song”, do Led Zeppelin, um diálogo com a trilha do Queen para a obra de Mike Hodges, funciona, assim como as cores são fiéis aos quadrinhos, com o auxílio da fotografia de Javier Aguirresarobe. Porém, não há comparação no resultado. Mesmo o segundo filme, Thor – O mundo sombrio, possuía um design de produção mais interessante, assim como um humor bem explorado no seu ato final. Aqui, Waititi se concentra muito em objetos com superfície real e amontoados de coisas que lembram restos de sucata, por causa do planeta que serve de locação principal. Para quem fez filmes com direção de arte irretocável como Hunt for the wilderpeole e Loucos por nada, poderia ser melhor. O figurino se sente criativo, mas leve demais e com pouca diversidade, assim como as batalhas de naves se assemelham em demasia às do segundo filme para ter uma real distinção e todo o arsenal de raios de luz se sente um pouco exagerado, mesmo sendo esta a finalidade, quando, na verdade, o roteiro funciona melhor em sua simplicidade: um dos personagens se comparar a Tony Stark é uma boa referência ao restante do universo e não se sente ultrajante, e uma torcida desfilando pelas ruas de Sakaar com cartazes de um determinado super-herói é suficientemente criativo.

Além disso, Waititi interrompe dois atos de comédia leve e calibrada, sua especialidade, e repassa suas cargas para um filme previsível de ação (com montagem confusa), tentando dar dramaticidade para a qual não havia despertado anteriormente. É difícil, mesmo que seja esta a pretensão, adentrar no drama depois de dois atos dedicados, de forma promissora, a uma sucessão de sequências divertidas e diálogos com duplo sentido (e a verve de Hemsworth já foi provada nas refilmagens de Férias frustradas e Caça-fantasmas). A graça da narrativa era justamente desconsiderar a pompa shakesperiana oferecida por Branagh, mesmo com bom humor em determinados trechos, e fazer uma sátira espacial. O roteiro de Eric Pearson, Craig Kyle e Cristopher Yost insere o personagem de Bruce Banner (Mark Ruffalo) e, consequentemente, de Hulk de forma desajeitada. Funciona num primeiro momento, mas no final se sente vazio, como se fosse apenas um espaço para um personagem que não aparecia desde Os vingadores – Era de Ultron. Cate Blanchett tem um ótimo início e seu papel dá a entender que teremos uma vilã inesquecível, junto com o comandado Skurge (Karl Urban). No entanto, algo se perde, e as cenas de ambos se tornam muito distantes do restante da história. Thor: Ragnarok sofre um conflito inevitável, que leva a um impasse capaz de transformá-lo no que não era em seus dois primeiros atos, pela tentativa de Waititi em explorar novas nuances desse universo: uma obra até determinado ponto comum.

Thor: Ragnarok, EUA, 2017 Diretor: Taika Waititi Elenco: Chris Hemsworth, Tom Hiddleston, Cate Blanchett, Idris Elba, Jeff Goldblum, Tessa Thompson, Karl Urban, Mark Ruffalo, Anthony Hopkins Roteiro: Eric Pearson, Craig Kyle, Cristopher Yost Fotografia: Javier Aguirresarobe Trilha Sonora: Mark Mothersbaugh Produção: Kevin Feige Duração: 130 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures

Um fim de semana em Paris (2013)

Por André Dick

Um fim de semana em Paris

Há alguns diretores que conseguem se especializar num determinado nicho de produções e acabam fazendo sua trajetória de uma maneira pouco pretensiosa. Este talvez seja o caso de Roger Michell, o diretor de Um fim de semana em Paris, uma espécie de mescla entre a trilogia de Richard Linklater com Julie Delpy e Ethan Hawke com Cópia fiel, a obra de Kiarostami que não deixa de dialogar com a obra do diretor norte-americano. Michell, no final da década de 90, realizou um dos romances mais interessantes (e descompromissados), mas com sensibilidade, que renderam várias imitações, Um lugar chamado Notting Hill. Aproveitando um dos melhores momentos de Julia Roberts e Hugh Grant, ele conseguia transportar o espectador para um universo em que uma atriz de Hollywood se apaixonava por um livreiro do bairro inglês, com bom humor e situações simpáticas. Mais de uma década depois, ele proporcionou um novo filme romântico, desta vez situado nos bastidores da TV, chamado Uma manhã gloriosa, com um trio de atores em grande momento, Rachel McAdams, Harrison Ford e Diane Keaton. Se Uma manhã gloriosa não tem nenhum fã declaradamente assíduo, pode-se dizer que é muito superior a comédias do gênero, guardando algumas proximidades com Notting Hill no formato pop, no entanto sem diluir tudo num simples projeto para bancar a carreira dos integrantes do elenco.
Este seu novo filme traz basicamente dois personagens, um casal, Nick (Jim Broadbent) e Meg Burrows (Lindsay Duncan), de Birmingham. Ambos são professores e, para comemorar o 30º aniversário de casamento, eles vão passar exatamente um fim de semana em Paris. Com o objetivo de aparar as arestas e fazer seu casamento ter alguns dias novamente de tranquilidade, eles acabam encontrando um escritor famoso, Morgan (Jeff Goldblum), que foi colega de Nick em início de trajetória, durante uma caminhada. Michell reserva esse encontro não exatamente como algo ameno, e sim como algo que pode deixar o casamento ainda mais complicado, sobretudo quando Morgan convida Nick e Meg para uma festa que dará em seu apartamento.

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O que Michell atesta em seu novo filme – que volta ao gênero que o consagrou, ao contrário do subestimado Fora do controle e do recente Um final de semana em Hyde Park, com Bill Murray – é que tem um domínio sobre a atmosfera. O hotel em que os Burrows ficam transpira Paris, no entanto também uma certa melancolia recolhida, que pode comprovar alguns passeios deslocados por lugares turísticos que não podem reparar o que ambos guardam – e isso se esclarece no hotel – e novamente a proximidade de um filho que costuma perturbá-los. Os Burrows são, até determinado ponto, figuras que remetem ao lugar-comum, no entanto é justamente o movimento que Michell lhes oferece, de humanidade, o ponto mais acertado do roteiro de Hanif Kureishi, parceiro do diretor em dois projetos anteriores, Recomeçar e Venus, e que iniciou a carreira de roteirista de cinema com duas obras bastante comentadas nos anos 80, Minha adorável lavanderia e Sammy e Rosie. Essas características diaologam com o casal da trilogia de Linklater: além disso, como Hawke e Delpy, Broadbent e Linday Duncan oferecem realmente atuações de uma sensibilidade diferenciada; se Broadbent tem feito grandes papéis (como em Cloud Atlas), Duncan apareceu recentemente como a crítica rígida de Birdman e é justamente num projeto dessa natureza, mais intimista, que suas nuances acabam se destacando. Enquanto Broadbent tem um comportamento quase sempre nervoso e deslocado, como convém a seu personagem, o receio de mostrar uma liberdade maior é a qualidade que Duncan extrai de seu personagem.
No entanto, quando eles são colocados diante da realidade – e ela pode se mostrar tanto em uma caminhada pelas ruas de Paris quanto na maneira de lidar com as realizações ou não de sua vida profissional – é que Um fim de semana em Paris atinge seu melhor momento e sua importância. São poucas as obras que mostram com essa autencidade do casal Burrows um casal passando da meia idade e entrando naquele momento da vida em que tudo pode soar definitivo se não avaliado a tempo para uma mudança ou não de direção e de comportamento. Esta avaliação diante da vida tem uma atmosfera quase teatral, o que é uma marca de seu roteirista, um dramaturgo: os diálogos afiados se reproduzem em larga escala, sem que se dê uma atenção demasiada a eles, como se esses personagens tivessem uma vida própria e acompanhássemos realmente sua ida e estadia na cidade das luzes.

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Os problemas particulares de Nick se revelam principalmente por uma questão que o prejudicou junto a seus alunos, capaz de conduzi-lo a uma aposentadoria antes do previsto, e na dificuldade especial de se aproximar da mulher que não seja por provocações. Esse casal está no limite da convivência, embora ainda respire uma necessidade de se encantar com pequenos detalhes ou, no caso de Nick, ouvir “Like a Rolling Stone”, de Bob Dylan. Tudo é sugerido por Michell em pequenos lances de humor amargo, reunidos sob a qualidade de uma relação desgastada pelo tempo e não menos complexa.
Nesse sentido, Michell acaba colocando o personagem de Morgan, numa criação bastante destacada de Goldblumm (que já havia feito com o diretor Uma manhã gloriosa), como a figura a ser entendida e combatida pelos Burrows. Em alguns momentos, os caminhos do diretor parecem ressoar uma produção mais simples, sobretudo ao final um pouco abrupto, no entanto não deixam de conferir ao filme uma delicadeza no olhar sobre a transição da vida e os períodos que ela abrange. Talvez haja aí novamente uma influência notável do projeto de Linklater, sobretudo de Antes do pôr do sol, passado nas ruas de Paris, e em que o personagem de Hawke tenta sair de seu universo literário para se voltar de vez ao olhar de Céline (Delpy). Michell, não sem a ajuda fundamental do elenco, como Linklater, lança sobre esses personagens um olhar melancólico e esperançoso no sentido de entender que a relação só pode ser renovada por meio de uma nostalgia correspondente às conquistas do momento.

Le week-end, Reino Unido, 2013 Direção: Roger Michell Elenco: Jim Broadbent, Lindsay Duncan, Jeff Goldblum, Olly Alexander, Xavier de Guillebon, Brice Beaugier Roteiro: Hanif Kureishi Fotografia: Nathalie Durand Trilha Sonora: Jeremy Sams Produção: Kevin Loader Duração: 93 min. Distribuidora: Pandora Filmes Estúdio: Film4 / Free Range Films / Le Bureau

Cotação 3 estrelas e meia

O grande Hotel Budapeste (2014)

Por André Dick

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Depois de um breve intervalo de dois anos em relação a Moonrise Kingdom, talvez o filme que mais tenha conciliado público e crítica de sua trajetória, Wes Anderson regressa, em O grande Hotel Budapeste, com seu elenco preferido em mais uma história que poderia ser lida pelos excêntricos Tenenbaums. No entanto, ao centralizar a narrativa numa república europeia fictícia, Zubrowka, nos Alpes, com toda a ambientação própria, ele não deixa de se voltar, esta vez sim, para elementos de violência da história. Se este filme abriu o Festival de Berlim, enquanto Moonrise Kingdom havia aberto o Festival de Cannes, e tudo pareça, mais uma vez, apenas mais um passo de Anderson em direção à predominância da forma e do estilo em detrimento do conteúdo, se olharmos mais perto, O grande Hotel Budapeste possui um clima singular de redescoberta do universo que nos cerca, mas consegue colocar este clima dentro de uma narrativa capaz de esconder algo menos superficial – como acontece desde o primeiro filme do cineasta. No entanto, não se trata de um movimento congelado por um estilo ou pelo que se costuma chamar hoje, em sua obra, de “simetria”. É claro, aos poucos, que em O grande Hotel Budapeste Anderson está sempre acrescentando novos traços em sua abordagem, embora pareça permanecer nela desde sempre. Percebe-se isso, por exemplo, pela parceria na realização do roteiro com o quadrinista Hugo Guinness. Anteriormente, Anderson havia escrito seus filmes com Owen Wilson, Noah Baumbach, Roman Coppola e Jason Schwartzman, diretores ou atores de cinema, e procura uma referência de escrita de outro campo.

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O concierge Monsieur Gustave H. (uma interpretação refinada de Ralph Fiennes) trabalha no Hotel Budapeste e deseja fugir da barbárie do período entre-guerras, na década de 1930, mas para isso precisa da ajuda de Moustafa (Tony Revolori), chamado de Zero. Apesar de a trama constituir numa lembrança de Moustafa mais velho (na pele de F. Murray Abraham), o que soa em certos momentos previsível, e como um relato concedido a um escritor (Jude Law na juventude e Tom Wilkinson mais velho), há neste filme um regresso a algum lugar ainda mais esquecido. Monsieur Gustave tem várias amantes, que se hospedam no hotel e recebem seu atendimento, entre as quais Madame D. (Tilda Swinton, quase irreconhecível). Por baixo do comportamento comedido do concierge, nunca se entende muito bem, como os principais personagens de Anderson, se há apenas uma ingenuidade ou se esta esconde um certo oportunismo – principalmente para não ter de enfrentar o mundo. Os rumos da trama irão levá-lo a uma pintura valiosa, a um conflito com determinada família capaz de acusá-lo de se aproveitar de uma situação – tendo à frente Dmitri (Adrien Brody) – e a uma amizade com Zero, seu fiel (e novo) braço direito, capaz de tentar salvá-lo das situações mais adversas, apaixonado por Agatha (Saoirse Ronan). E há o Hotel Budapeste, uma espécie de representação de um ambiente europeu que Anderson certamente compartilhou de alguma fábula de Roald Dahl, sua maior influência.
Dentro de seu reconhecido estilo, Anderson procura outros rumos. Não há, aqui, a câmera lenta que havia nos demais filmes, nem uma trilha sonora com várias canções, apesar da bela música de Alexandre Desplat. O cuidado com os cenários magníficos e os movimentos de câmera lembram sua filmografia, mas ganham o acréscimo de uma passagem à la Jim Jarmusch, de Daunbailó, na prisão, em que Harvey Keitel é um líder e possivelmente a mais acertada. Em meio a uma trama com pistas falsas e seus toques habituais de sátira, no que acaba colocando grandes atores como Bill Murray e Owen Wilson como figurantes (e existe aqui, pela primeira vez na trajetória de Anderson, em demonstrar que esse elenco está dedicado a ele, mesmo que apareça apenas como componente de um grande elenco) e a excelente Léa Seydoux com poucas falas, Anderson ingressa numa avaliação dos crimes contra a humanidade – naquele que é possivelmente o seu filme mais melancólico, dividindo um pouco o espaço com Rushmore, sob determinado ponto de vista sobre a saída da infância (tanto da criança quanto da humanidade).

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Assim como Monsieur Gustave, Anderson parece querer se guardar dentro do Hotel, com uma inter-relação restrita a seus funcionários ou clientes, do mesmo modo que apontam ser suas características autorais em relação ao espectador. Mas Anderson, como Monsieur Gustave, é chamado para a realidade, e esta é sombria, em certos momentos com leves toques de macabro de Tim Burton: os vilões de O grande Hotel Budapeste não parecem apenas pessoas boas desvirtuadas, mas pessoas realmente más, mesmo cercados por uma atmosfera fantasiosa. Mesmo a violência de Anderson, que sempre aparenta ser atenuada, como vemos, por exemplo, em Moonrise Kingdom, quando o grupo de escoteiros passa a ir atrás de Sam e se defronta com ele, partindo para a batalha, aqui, mesmo expondo sua faceta mais leve, também deixa os personagens abalados e mesmo estupefatos diante do que pode estar ocorrendo, e nem mesmo Monsieur Gustave, com sua gentileza, pode modificar essa sensação.
Embora isso pareça se perder numa visão a princípio fantasiosa, lá estão as imagens de um trem sendo parado num inverno rigoroso. Não há certamente mais a felicidade de Viagem a Darjeeling, embora um humor cáustico de Monsieur Gustave ao declinar de algumas pérolas de sabedoria que solta em determinado momento e com certeza Anderson está em movimento, temendo por aquilo em que pode se transformar o trem: por trás das cenas que remetem a uma animação ao vivo, pela agilidade, com referências às Olimpíadas, com um fluxo de Buster Keaton, Anderson, ao que parece, pela primeira vez não quer proporcionar apenas uma visão agridoce com elementos de humor; ele está, antes disso, ingressando num terreno em que sua obra tende a ser vista como falha, não sem sobressaltos, pois se trata de uma mudança feita em relação a seu conhecido estilo. Com soldados usando em seus uniformes um símbolo da Companhia Zig-Zag (ZZ), que claramente remete à SS nazista, Anderson está preocupado com a possibilidade de a violência do mundo ser trazida para dentro deste Hotel em que ele pode se fechar, fugindo da mesma guerra. E, segundo Anderson, o universo colorido e de paz (representado pela cor rosa do Hotel Budapeste), pode ser imediatamente revertido para uma sequência imprevista de enfrentamentos e estampidos.

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Não haveria espaço nesse mundo para autores como Stefan Zweig, escritor austríaco que inspirou o filme e foi perseguido pelo nazismo, como acontece com determinados personagens do filme de Anderson, nem para Monsieur Gustave e outros nomes – perseguidos e fichados. Num universo em que pessoas como o concierge e confeiteiras são colocadas como ameaças, pode-se entender, por outro lado, que um bolo, na chegada à prisão, pode não ser desmanchado pelo fiscal por causa de sua beleza – e se notícias problemáticas vêm à tona, pode-se enviar uma carta acompanhada de várias estrofes e versos. Os doces e o universo cor de rosa da confeitaria anunciam um período de trevas, em que apenas o ser humano e o respeito às obras de arte pode se sobressair. Mas, mesmo neste respeito às obras, Anderson deposita uma certa desconfiança: Monsieur Gustave, com sua sensibilidade e seu respeito em relação ao hotel, quer garantir seu futuro.
Nesse sentido, além de ser o filme mais melancólico de Anderson, também é aquele que consegue lidar ao mesmo tempo com um contexto histórico. O elenco compartilha disso, com Jeff Goldblum, Adrien Brody, Edward Norton, Abraham e Keitel como destaques (mas há outros, em participações especiais). Ao estilo de Anderson, o filme consegue tratar dos indivíduos sem pátria e sem família, mas com o desejo de se unirem e enfrentarem uma situação em que estas questões são colocadas de lado em nome da guerra. Daí possivelmente a pintura, como em Moonrise Kingdom, representar não apenas um escape da realidade, mas uma possibilidade de levar adiante uma ideia de tradição da amizade. Monsieur Gustave tem inúmeras amantes que sustenta ao longo de anos no Hotel Budapeste, mas também acredita em gentilezas e em servir uma tigela de cereais (aqui sem os tigres de Viagem a Darjeeling). Para Anderson, sempre pode haver no microscópio algo a ser transformado, atingindo tamanho desconhecido. Tudo é muito ordenado neste universo, desde a direção de arte que dialoga novamente com a de O iluminado, de Kubrick, e de filmes como A viagem do capitão Tornado, Nicholas e Alexandra e Arca russa, até a fotografia e seus movimentos sempre calculados ao extremo, mas Anderson reflete sobre a violência histórica que também pode atravessar e perturbar este universo a princípio intocado. Nisso, ele acaba se sentindo como um homem com família enviesada, do mesmo modo que Zero, sem apego a uma determinada tradição, a não ser aquela que ele mesmo constitui em seu pensamento. Parece ser esta a condição buscada por Monsieur Gustave e por Anderson neste filme cuja beleza se encontra na despedida da infância.

The grand Hotel Budapest, EUA/Reino Unido/ALE, 2014 Diretor: Wes Anderson Elenco: Ralph Fiennes, Tony Revolori, Saoirse Ronan, Edward Norton, Adrien Brody, Willem Dafoe, Mathieu Amalric, Jeff Goldblum, Tilda Swinton, Harvey Keitel, Jude Law, F . Murray Abraham, Tom Wilkinson, Bob Balaban, Jason Schwartzman, Léa Seydoux Roteiro: Hugo Guinness, Wes Anderson Fotografia: Robert D. Yeoman Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Jeremy Dawson, Scott Rudin, Steven M. Rales, Wes Anderson Duração: 100 min. Estúdio: American Empirical Pictures / Indian Paintbrush / Scott Rudin Productions

Cotação 4 estrelas e meia

A vida marinha com Steve Zissou (2004)

Por André Dick

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Mais uma comédia estranha do talentoso Wes Anderson, este filme acabou não tendo a mesma repercussão de Os excêntricos Tenenbaums, embora tenha uma trama interessante – centrada novamente num pai indefinido em assumir a família –, com assinatura do diretor em parceria com Noah Baumbach (que realizou os ótimos A lula e a baleia e Frances Ha), e alguns nomes daquele elenco (Owen Wilson, Anjelica Huston, Bill Murray). Parece até, por vezes, pelo cuidado com a fotografia de Robert D. Yeoman (seu colaborador), direção de arte de Stefano Maria Ortolani (de Gangues de Nova York) e os figurinos da oscarizada Milena Canonero (habitual colaboradora de Francis Coppola), uma continuação daquele filme, desta vez situada no universo de pesquisas marinhas, típicas de Jacques Costeau, muito popular nos anos 70 – a quem o filme é dedicado –, e que transporta determinada geração diretamente para a infância, o que não acontece tão facilmente com outras, embora não seja um filme inacessível ou para poucos.
alter ego de Anderson é o oceanógrafo Steve Zissou (interpretado por Bill Murray, bastante entediado, no que ganha sempre pontos) e este filme procura delinear seu universo, mostrando seu casamento conturbado com uma mulher, Eleanor (Anjelica Huston), que subsidia suas viagens – mas parece pouco interessada no que acontece ao seu redor –, seus companheiros de navegação, Klaus e o brasileiro Pele dos Santos (Willem Dafoe e Seu Jorge, que passa o filme cantando músicas de David Bowie em português), entre outros, e um rapaz, Kentucky Ned Plimpton(Owen Wilson), que aparece e se diz seu filho e no momento seguinte já estão abraçados – porque em Anderson os conflitos nunca duram muito, embora não sejam solucionados ou simplistas.

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O filme já inicia com Zissou num cinema, cercado por sua equipe, assistindo a seu novo documentário, em que o melhor amigo é devorado por um tubarão. Em seguida, há uma sucessão de gags rápidas e patéticas próprias do diretor – a melhor é quando um senhor pede ao explorador para autografar várias imagens dele –, até Zissou ir para sua ilha, a fim de se preparar para a nova expedição, com o objetivo de caçar o tubarão Jaguar que matou seu amigo. É para lá que leva o rapaz que diz ser seu filho – e que desde pequeno faz parte da Companhia Steve Zissou (guardou até uma carta que recebeu, com o típico toque de Anderson e que dialoga diretamente com aquelas de Moonrise Kingdom).
No entanto, ele recebe a visita de uma jornalista grávida, Jane Winslett-Richardson (Cate Blanchet), que não sabe ser simpática ou não à sua causa. Quando parte em navegação, encontra piratas pelo caminho (pois não poderiam faltar, ainda mais esses que se hospedam no hotel abandonado de uma ilha) e um adversário, Alistair (Jeff Goldblum), que foi casado com Eleanor. E Ned – o qual Steve Zissou quer rebatizar, sabe-se lá o motivo, como Kingsley – se envolve com a jornalista, que pretende contar a verdade sobre o modo de comportamento do seu possível pai. Ela, de algum modo, também como Ned, procura um pai para seu filho, e nesse inter-relacionamento percebemos que os personagens são bastante semelhantes. No entanto, toda esta trama en passant é apenas motivo para Anderson filmar personagens bastante cômicos, a começar por Zissou – que se fecha numa redoma sempre que não fazem o que deseja.

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O filme tem um clima e uma fotografia de filme europeu e nada de muito importante (diante de outros filmes mais lineares e comerciais) acontece, a não ser o desenrolar da rotina de uma tripulação em alto-mar, mas isso não é o importante: como em Os excêntricos Tenenbaums, Anderson quer as entrelinhas dos personagens, suas ironias e sua maneira incomum de agir que se baseia, paradoxalmente, em atitudes que sempre remetem a outras já conhecidas, como se desenhassem uma complacência com o nada. Em muitos momentos (quando Anderson filma os compartimentos abertos do barco como se apresentasse uma casa de brinquedo, como de fato o é), lembra uma peça de teatro. Porém, talvez lembre mais uma fábula (o que Anderson intensificaria em O fantástico Sr. Raposo), sobretudo no momento da invasão pirata ao navio de Steve Zissou: a fotografia é escura, e os personagens estão abatidos; de repente, tudo se ilumina e Zissou começa a enfrentar os invasores, como se fosse um herói de histórias. Nesse momento, Anderson torna sua câmera numa espécie de parceria para um documentário em alto-mar; e ainda registra um tiroteio como se filmasse uma espécie de peça escolar.
Zissou também é um explorador que, por vezes, não parece saber absolutamente nada sobre o assunto de que trata, além das recorrentes dificuldades financeiras, o que o faz invadir torres com equipamentos alheios. Quando ele está falando do seu tema de domínio, acaba sempre caindo na mais profunda melancolia: não consegue estabelecer nenhuma ligação sentimental com a esposa e se interessa pela jornalista, contudo, sem ser correspondido, quer tirá-la do navio. Este é absolutamente precário, com sua sala de edições para os filmes, a sauna onde sempre há algum integrante comendo sanduíche, as lâmpadas sempre estourando, fazendo por segundos o barco ficar sem luz, e o submarino, Belafonte, parece um pato de filmes infantis (mais próximo daquele de Batman – O retorno). Toda a tripulação, apesar de dedicada ao chefe, parece não saber onde está ou o que estuda – talvez nem mesmo o que significa um mapa ou o que represente um estudo sobre animais marinhos.

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E há ainda golfinhos que, para Zissou, precisam ser treinados. As imagens dos peixes ou crustáceos são animações em stop motion, como na cena em que a jornalista chega à ilha onde está a equipe de Zissou, ou aquela do cavalo-marinho, que ele utilizaria novamente em O fantástico Sr. Raposo, dando ainda mais clima de fantasia à obra de Anderson, pois o sonho de Zissou, na verdade, é fazer parte de um universo como 20.000 léguas submarinas, de Júlio Verne. Ele não pretende sair da infância que construiu, a muito custo, em torno de si mesmo, e Bill Murray é um ator notável para este tipo de movimento. Toda a sua tentativa – nas atitudes – é de congelar a infância, de preferência num lugar em que possa visitá-la, como ao tubarão no fundo do mar. E Anderson acaba sendo tão efetivo quanto o foi com a família Tenenbaum, com o mesmo cuidado fotográfico e com a direção de arte – preferindo adaptar uma certa ideia precária de cenários e situações setentistas –, estruturado num tom de fábula melancólico, de onde irrompe o seu cinema.

The life aquatic with Steve Zissou, EUA, 2004 Diretor: Wes Anderson Elenco: Bill Murray, Owen Wilson, Cate Blanchett, Anjelica Huston, Willem Dafoe, Jeff Goldblum, Seu Jorge, Noah Taylor Produção: Wes Anderson, Barry Mendel, Scott Rudin Roteiro: Wes Anderson, Noah Baumbach Fotografia: Robert D. Yeoman Trilha Sonora: Mark Mothersbaugh Duração: 118 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Touchstone Pictures / Scott Rudin Productions

Cotação 4 estrelas e meia

 

Publicado originalmente em 26 de setembro de 2012