O lobo de Wall Street (2013)

Por André Dick

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O início de O lobo de Wall Street consegue defini-lo quase por completo. Há uma sucessão de imagens do milionário Jordan Belfort, feito por Leonardo DiCaprio, saindo de casa e jogando uma taça no gramado de seu pátio, indo para o emprego com uma mulher em posição indiscreta e finalmente sua chegada ao escritório, onde as drogas são usadas na mesma proporção com que se utiliza o telefone para negociar. Para quem viu no ano passado o filme Sem dor, sem ganho, de Michael Bay, não há novidades. Mas Martin Scorsese é um dos maiores diretores da história, criador de um estilo próprio e capaz de dominar os mais variados gêneros, como pôde ser visto em A invenção de Hugo Cabret, no qual realmente saiu de sua zona de conforto. Ele consegue encontrar uma síntese dos mais variados desequilíbrios do indivíduo, seja em O touro indomávelOs bons companheirosCassino ou em Depois de horas, o filme que é, em sua essência, a peça-chave para entender O lobo de Wall Street. Um dos mais subestimados da trajetória do diretor, e pequeno em termos de orçamento, surgido logo depois da recepção fracassada à sua obra-prima O rei da comédiaDepois de horas mostrava movimentos de câmera constantes, que se expandiram em Os bons companheiros e Os infiltrados. O cenário do escritório também é o mesmo. São quase 30 anos de distância, mas há diferenças: antes Scorsese empregava um humor nas entrelinhas, agora ele é cáustico.
Ao mostrar a chegada de um jovem Jordan Belfort à Bolsa de Wall Street em meados dos anos 80, quando conheceu Mark Hanna (Matthew McConaughey), com o intuito de enriquecer e fazer uma família com Teresa Petrillo (Cristin Milioti), Scorsese parece ingressar numa época de ingenuidade, porém já ameaçada pela escala crescente do uso de drogas. Depois da criação de sua empresa, Stratton Oakmont, composta por um grupo de enganadores, e tendo como braço direito Donnie Azoff (Jonah Hill), por meio da figura de Belfort, Scorsese aproveita alguns elementos já extraídos por Spielberg de DiCaprio em Prenda-me se for capaz. Mas consegue, de certo modo, ainda mais.

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O essencial em O lobo de Wall Street é como Scorsese, um diretor essencial de atores, capaz de tirar as melhores atuações de De Niro, consegue obter de DiCaprio uma atuação superior àquelas apresentadas em O grande Gatsby e Django livre. Embora a cada movimento de câmera e a cada grito ou distorção grave, DiCaprio parece incorrer numa vontade de ser premiado, ele tem uma desenvoltura notável, mesmo quando encadeia uma espécie de ego trip. O roteiro tenta criar uma série de episódios em que Belfort tem o ponto de destaque, também quando contracena com outros personagens, como a sequência na qual encontra o agente do FBI Patrick Denham (um Kyle Chandler irônico). Na maior parte do tempo, a sátira nada discreta de Scorsese coloca os atores em uma posição de chamarem a atenção para si próprios (Matthew McConaughey mexendo as mãos e batendo no peito numa reunião como DiCaprio, e ainda assim divertido; os dentes postiços de Jonah Hill), mas eles nunca soam simples estereótipos, embora também, em parte, o sejam. O ponto principal é o de Belfort. Em meio às tentações pela trapaça financeira, ele tem um certo idealismo romântico embaixo da depravação e uma certa reserva em explicar para seu pai, “Mad” Max Belfort (um Rob Reiner, o diretor de Conta comigo e Questão de honra, não menos do que excepcional), os seus negócios. Ou seja, DiCaprio não esvazia Belfort a ponto de torná-lo uma simples caricatura. Sua relação com a primeira mulher e com aquela que o conquista de forma nem tão definitiva, Naomi LaPaglia (Margot Robbie, uma revelação), tem uma velocidade destemperada e, em meio a conflitos exagerados, verdadeiramente mordaz. O grupo escalado por Belfort para a Stratton Oakmont também é uma reunião de estereótipos, assim como o banqueiro Jean-Jacques Saurel (Jean Dujardin), mas em algum ponto isso realmente funciona.

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De todos os filmes de Scorsese, O lobo de Wall Street parece o filme mais acelerado em todos os sentidos – e quem ingressa na proposta dificilmente sentirá as três horas de duração. É como se ele tivesse assistido vários filmes que satirizam a sociedade nos últimos anos, também em razão de seus filmes, resolvesse tornar a crítica hiperbólica para a plateia. Ele é obviamente um diretor com talento gráfico para as cenas e nada do que se assiste é improvisado, embora às vezes pareça. Também a montagem de Thelma Schoonmaker é a de uma especialista em dar a ideia de que algo está acontecendo, mesmo quando não está, e isso marca presença algumas vezes em O lobo de Wall Street. Por exemplo, o Donnie de Jonah Hill puxa brigas porque em algum momento Scorsese considerou que ele fosse um novo Joe Pesci, principalmente o de Os bons companheiros. Mas muitas delas são genuinamente engraçadas, e há pelo menos três sequências notavelmente cômicas, com uma agilidade própria dos melhores momentos de Depois de horas, e a última hora particularmente devastadora (a cena do iate é antológica, pelo ritmo que Scorsese emprega, quando não se sabe se estamos vendo um drama ou uma comédia, e o emprego impagável da canção “Gloria”, juntando-se a uma trilha bem selecionada), além de alguns achados da narração (quando Belfort compara um determinado personagem a Mozart ou já no início quando não se revela um guia confiável, por mudar a cor de seu carro).
A sensação é que Scorsese queria realmente contemporâneo e moderno – em Cabo do medo, ele reinventa o suspense nos anos 90, por exemplo – e torna os travellings numa técnica para mostrar a vida apressada e superficial. Em sua carreira, isso às vezes não deu certo, mas em O lobo de Wall Street preenche todos os requisitos. Em grande parte, a necessidade de Scorsese querer soar contemporâneo o deixa quase sempre próximo dos personagens, buscando algum resquício de humanidade em meio à amoralidade. O melhor de Bling Ring, outra sátira recente, embora pouco engraçada, é uma possível amizade entre a líder das contravenções e o rapaz recém-chegado ao colégio, que Sofia Coppola, mesmo com seu sentimento solitário a respeito dos jovens, não soube identificar. Temerários, de alguns anos para cá, os filmes que congelam imagens de pessoas em festas, seja estourando champanhes, usando drogas ou mostrando mulheres nuas – parecem o mesmo filme, e sem a dose exata de elaboração (todos, em algum ponto, também devem ao Scarface de De Palma). Não é porque são usados esses elementos que o filme se torna provocador, mas surpreende-se que Scorsese siga esse caminho, desta vez em uma festa ininterrupta de três horas, focando uma fúria emocional contra a ganância financeira que mescla Cosmópolis, Gremlins II e o trabalho do grupo Monty Python.

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O lobo de Wall Street 15O escritório de Jordan Belfort traz algumas sequências de humor inabalável feitas por DiCaprio e Jonah Hill, pois tudo, antes de mais nada, é de um exagero interminável: em determinado momento, um dos vendedores da equipe de Belfort segura uma cobra em volta do pescoço, falando ao telefone, em meio a uma bagunça desproporcional. Em outro momento, entra uma banda lembrando o grupo de mulheres ao redor da mesa de reunião de Cidadão Kane. Mas Scorsese não homenageia essas figuras: ele as leva ao ponto máximo da sátira, esvaziando qualquer normalidade em suas ações, e nos dá a oportunidade de rir delas, que parecem existir apenas para rir de quem está do outro lado do telefone. Embora não seja uma vingança completa, O lobo de Wall Street não deixa de fazer um estrago.
Para Scorsese, não há nada em O lobo de Wall Street que não esteja preconcebido pela própria mitologia acerca do universo de Wall Street. Todos lá invocam uma certa sátira – e Scorsese, como David Cronenberg em Cosmópolis, é corrosivo na medida certa. Para ele, o que deve se sobrepor é o deboche, simples e direto. Isso pode ser, além de grande cinema – nem todos o receberam assim –, o primeiro real acerto na parceria do diretor com DiCaprio. Na verdade, seus encontros nunca haviam dado realmente certo, sempre cercados por uma necessidade de provarem a si mesmos que podem conquistar o mundo. Quase como Jordan Belfort. E aqui estamos: O lobo de Wall Street, embora não possa ser enquadrado num gênero definido, é também, por causa dos dois, uma das melhores tragicomédias dos últimos tempos.

The Wolf of Wall Street, EUA, 2013 Diretor: Martin Scorsese Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Cristin Milioti, Jean Dujardin, Margot Robbie, Justin Wheelon, Kenneth Choi, Kyle Chandler, P.J. Byrne, Rob Reiner, Jake Hoffman, Jon Favreau, Spike Jonze Roteiro: Terence Winter, baseado em livro de Jordan Belfort Fotografia: Rodrigo Prieto Trilha Sonora: Howard Shore Produção: Emma Tillinger Koskoff, Joey McFarland, Leonardo DiCaprio, Martin Scorsese, Riza Aziz Duração: 179 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Appian Way / EMJAG Productions / Red Granite Pictures / Sikelia Productions

Cotação 5 estrelas

O artista (2011)

Por André Dick

Concorrendo ao Oscar de melhor filme com obras marcantes como Os descendentes, A invenção de Hugo Cabret, Meia-noite em Paris e A árvore da vida, por exemplo, O artista atraiu a atenção sobretudo por se tratar de um filme mudo e em preto e branco, num momento de expansão dos filmes em 3D. Trata-se de uma homenagem à origem do cinema, assim como o foi Hugo Cabret, na recuperação da figura de George Méliès. Desde o início, quando o ator George Valentin está acompanhando a estreia de um de seus filmes, no backstage atrás da grande tela de cinema, vendo sua interpretação, e, ao final dela, aparece para a plateia, sapateando ao lado de seu cãozinho, tentando ignorar a presença de sua coparceira, também estrela do filme e incomodando o produtor, Al Zimmer (John Goodman), o filme tenta recuperar certa magia dos filmes de Chaplin, Harold Lloyd e Buster Keaton. Na saída do cinema, ele acaba sendo beijado por uma de suas fãs. Na capa da Variety, estampa-se a foto do casal com a pergunta: “Quem é essa garota”. No dia seguinte, ele a reencontra no estúdio em que trabalha e, separados pela tela de um céu segurada por assistentes, ensaiam passos de dança, e ele pede a contratação dela ao produtor para aparecer em uma ponta.
Essa garota, e Valentin ainda não sabe, acabará passando de coadjuvante para estrela de Hollywood, Peppy Miller (Bérénice Bejo), sobretudo quando o cinema mudo começa a desaparecer e ele é dispensado do seu estúdio, sendo considerado um ator do passado. Indiferente à tendência da sonoridade nos filmes, ele se torna astro e produtor de “Lágrimas de amor”. No final, acaba indo à bancarrota com a Depressão de 30, sendo abandonado pela mulher (Penelope Ann Miller), conservando apenas o fiel chofer, Clifton (James Cromwell, num papel discreto e essencial para a trama) e o cãozinho que participa de seus filmes.
O diretor Michel Hazanavicius tenta, por meio de uma sinopse muito simples, recriar o ambiente do cinema mudo e em preto e branco, explorando, sobretudo, a não colocação, na tela, do que os personagens estariam falando. Desse modo, em muitas situações, o espectador fica livre para criar seu próprio filme, ao passo que ele é linear, quase como se ordenasse pequenas esquetes e quadros dentro de uma metragem maior. Mantendo um certo ar original de cinema dos anos 20, o diretor consegue eliminar o que poderia ser excesso e torna seu personagem principal, Valentin, mais humano do que pode aparecer à primeira vista, sendo o retrato acabado do artista que fica sem lugar.
Assim, seu drama particular ganha mais relevo do que a parte bem-humorada do filme. Ganhador do Oscar de melhor ator, Jean Dujardin é mais talentoso do que aparenta e mesmo durante a divulgação do filme, em que aparecia com um sorriso sempre exagerado. Sua interpretação, pelo contrário, é, excetuando alguns momentos do início, bastante contida, mesmo quando abre uma porta ou atravessa uma rua solitário, ou quando para em frente a uma vitrine vendo um terno de seus momentos mais gloriosos – o personagem adora se ver, e não por acaso o seu cãozinho imita seu gestual. Ele realmente empresta alma ao filme.
O diretor, por sua vez, evita que seu filme se torna uma cópia ou simples homenagem ao cinema mudo. O artista procura, num momento em que a indústria se volta para o movimento ininterrupto, dar uma visão mais concentrada de elementos do roteiro, como se fossem quadros. Parece haver o objetivo de esclarecer que o cinema se faz de uma conjunção básica: direção, roteiro, atuação, montagem e som. Desse modo, a risada de Valentin, quando vê um exemplo de cinema sonoro, se transforma no prenúncio de sua própria queda. Orgulhoso, com seu retrato pintado numa enorme tela da qual se despede quando sai de sua casa, ao mesmo tempo, possui uma generosidade captada por personagens como o de seu chofer e do cãozinho. O momento em que sonha que está em seu estúdio e as coisas ao seu redor começam a ter som, fazendo-o ficar desesperado (como na tela “O grito”, de Edward Munch), é um dos melhores exemplos. O diretor consegue, por meio de poucos elementos, traduzir o personagem como aquele que não quer escutar o outro, mas quer apenas o reflexo de suas próprias ações na tela grande, sobretudo quando, na estreia de seu filme também como diretor, posiciona-se ao fundo do cinema quase vazio, tentando não identificar a recepção da plateia, mas se ele está perdendo vigor porque, junto de sua interpretação física, não há a fala.

A sua mansão deixa de ser um lugar iluminado, como no início, e passa a trazer sua desconfiança e respectiva penumbra. Os cartazes luminosos chamam atenção todos para a nova estrela, que ele ajudou em início de carreira, porém a quem não deseja recorrer exatamente porque ela vem terminar com o reflexo que via nas telas, baseado no gestual e na necessidade de não falar e, quando falar, dizer o mínimo. Não por acaso, num universo que não mais o aceita, ele passa a ver seus filmes em casa, tentando rever o que fazia e como se considera interessante – cada vez mais solitário.
Um dos momentos mais interessantes do personagem é quando ele vai finalmente assistir a um filme falado, com a estrela que ajudou a revelar, e se senta, com seu cãozinho, na plateia, como um espectador e não um artista. Valentin, fascinado por seu gestual, que não contaria tanto no cinema falado, parece concluir por que precisa não se vender ao cinema falado, e sim aceitar a mudança de sua plateia. Nesse sentido, se Valentin pode ser uma espécie de exemplo para produtores gananciosos (como aquele interpretado por John Goodman), o de que o artista deveria, no cinema, adaptar-se ao sistema, também é verdade que a entrada da sonoridade neste universo até então mudo transforma o comportamento e o modo com que se lê a história de um filme, e de como o artista pode se ver na tela.
Há momentos que parecem óbvios, contudo são realmente tocantes, como aquele em que o chofer de Valentin não aceita ir embora, ou quando o cãozinho precisa ajudar o personagem a sair de uma situação crítica, e mesmo quando Valentin descobre o que Peppy havia feito por ele. E O artista tem outra qualidade: a de não colocar um peso excessivo, dramático, sobre os personagens, como se a história deles representasse a história do cinema de sua época – sendo apenas uma referência em alguns pontos.
Portanto, o filme talvez seja melhor interpretado fora de seu universo de premiações (Oscars de melhor filme, diretor, ator…), e ser analisado a partir do que pretende expor, sem comparações com clássicos em que se inspira ou a que homenageia. Não parece haver nele – exceto o marketing criado em torno, que com o tempo se dissipa, logo que o filme sai das bilheterias – nenhuma pretensão exagerada de contar ou recontar alguma história, mas de pertencer, de algum modo, a esta narrativa cinematográfica não como inovação ou vanguarda, num movimento paradoxal, já que traz de volta o que não é mais usual (o filme mudo e em preto e branco), e sim como representação do que permanece.

The artist, FRA/BEL, 2011 Diretor: Michel Hazanavicius Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Lauter, Joel Murray, Bitsie Tulloch, Ken Davitian, Malcolm McDowell Produção: Thomas Langmann, Emmanuel Montamat Roteiro: Michel Hazanavicius Fotografia: Guillaume Schiffman Trilha Sonora: Ludovic Bource Duração: 100 min.  Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: La Petite Reine / uFilm / JD Productions

Cotação 3 estrelas e meia