Tully (2018)

Por André Dick

O universo da tecnologia está cada vez mais presente no cotidiano desde o início deste século, com sua febre de produtos cada vez maior e em maior proporção. Para enfocar essa mudança, o diretor Jason Reitman fez Homens, mulheres e filhos, Reitman conserva o estilo já demonstrado em outros projetos, como Amor sem escalas e Jovens adultos, no sentido de destacar o elenco, conservando uma simplicidade na narrativa que se confunde às vezes com esquecimento de uma maior densidade no trato de personagens e situações.
Embora tenha sido recebido de outra maneira pelos filmes que realizou (exceto por Refém da paixão), Reitman não havia experimentado o fracasso financeiro e de crítica: Homens, mulheres e filhos não conseguiu arrecadar praticamente nenhum valor nos cinemas dos Estados Unidos e sofreu a mesma perseguição que os personagens dessa obra sofrem dos pais com a indicação de que sua narrativa traria uma condenação da internet, do uso de celulares, de tabletssmarthphones, vendo perigo em tudo o que a tecnologia nos apresenta.

Em Tully, seu novo filme, o foco é a maternidade. Charlize Theron, que fez Jovens adultos com Reitman, interpreta Marlo, mãe de dois filhos e grávida do terceiro. Ela é casada com Drew (Ron Livingston) e, numa visita a seu irmão Craig (Mark Duplass) e sua cunhada, Elyse (Elaine Tan), ele sugere que ela chame uma babá que passe as noites com o nenê. Marlo dá à luz a Mia, e decide atender à sugestão, pelo cansaço de ficar várias noites acordada, e daí a narrativa ser pouco diurna. Não só isso: Drew parece um robô desligado, enquanto Marlo tenta criar sua filha mais velha, Sarah (Lia Frankland) e o filho Jonah (Asher Miles Fallica) com comportamento, segundo orientação escolar, “excêntrico”, A babá que surge é Tully (Mackenzie Davis), compenetrada e que passa a ajudar, inclusive, a arrumar a casa. O roteiro do filme, assinado por Diablo Cody, que escreveu Juno e Jovens adultos para Reitman, aborda uma visão curiosa sobre a maternidade.
No início da narrativa, Reitman parece ácido como na primeira parceria com Theron, em que ela fazia uma escritora pedante de best-sellers que voltava à sua cidadezinha para tentar reconquistar um namorado de juventude, tornando a visão da mãe moderna numa superação por vezes enlouquecedora. Aos poucos, o roteiro de Cody começa a facilitar as amarras, deixando os personagens mais livres de seus discursos preestabelecidos. O afeto começa a se dar por meio de conversas sobre um programa de TV estranho e cupcakes preparados por Tully para os filhos de Marlo. Reitman sempre teve uma perícia para mostrar a rotina e, embora Tully seja menos resolvido do que Homens, mulheres e filhos no desenvolvimento dos personagens e menos underground (no bom  sentido) que Jovens adultos, possui uma empatia maior do público com os personagens.

Se Theron continua sendo uma das melhores atrizes de sua geração, Mackenzie Davis mostra que não apenas em Blade Runner 2049 rouba a cena com pouca participação: em Tully, mais do que evocar Mary Poppins, ela traz uma sensação de juventude a um ambiente coberto não pelo tédio, mas pela sensação de que algo se perdeu. Para Reitman, isso não está de acordo; sempre é possível voltar à trilha oitentista de Cindy Lauper e ao bairro onde se nasceu.
Assim como no notável Amor sem escalas, Reitman utiliza, por baixo de uma narrativa curiosamente previsível, uma discussão filosófica sobre a solidão contemporânea e a tentativa permanente de o indivíduo cuidar dos outros quando não consegue cuidar de si mesmo. Isso constitui, para Reitman, a beleza do ser humano. Marlo tem um senso de superação diante das adversidades e do fato de se sentir solitária em sua casa, mesmo cercada pelos filhos e pelo marido. No entanto, este, assim como aquele feito por Adam Sandler em Homens, mulheres e filhos, está muito mais apegado a um mundo virtual do que à realidade.

Se lá isso se reproduzia numa necessidade de a sua esposa procurar outro parceiro, aqui Marlo representa uma espécie de segurança dentro da casa: ela está sofrendo, porém parece querer se manter assim, até que todos vejam a sua busca cotidiana pelo afeto entre os familiares. Reitman nunca foi um diretor distante dessas questões, desde seu popular Juno, em que um casal mais velho queria adotar o bebê de uma jovem, passando por Amor sem escalas, sobre um homem na crise de meia idade que não queria compromissos com as mulheres, uma versão masculina da personagem de Jovens adultos, até o interessante Refém da paixão, em que uma relação se estabelecia numa situação no mínimo imprevisível, e mesmo no sarcástico Obrigado por fumar, no qual um vendedor gostaria de ser exemplo para seu filho, mesmo desempenhando um papel bastante nocivo na sociedade. Os personagens de Reitman são sempre figuras à procura de uma identidade, mas Marlo, em Tully, já a possui: precisa apenas que alguém venha revelá-la de modo objetivo.
Daí a combinação empática entre Theron e Davis renda bons pontos às formas que a narrativa vai dando a cada solução ou não dos problemas. Percebe-se mais aqui e em Homens, mulheres e filhos uma necessidade de Reitman reiterar a ideia de que nos subúrbios se escondem verdadeiras emoções e figuras desejosas por um reconhecimento que Hollywood já não traz, com toda sua pompa em outras megaproduções. Tully soa, no bom sentido, um filme tão artesanal e minimalista que já se destaca como algo inesperado entre as obras lançadas hoje em dia, além de confirmar o talento do seu diretor. Talvez seja seu maior mérito, diante de todos os temas que desenvolve de maneira normal, sem nunca chamar a atenção para o fato de que decisivamente está mostrando uma boa parcela das mulheres diante do amor e do modo como ele deve ser visto, com mais ênfase, menos receio e todo o afeto possível.

Tully, EUA, 2018 Diretor: Jason Reitman Elenco: Charlize Theron, Mackenzie Davis, Mark Duplass, Ron Livingston, Elaine Tan, Lia Frankland, Asher Miles Fallica Roteiro: Diablo Cody Fotografia: Eric Steelberg Trilha Sonora: Rob Simonsen Produção: Aaron L. Gilbert, Jason Reitman, Helen Estabrook, Diablo Cody, Mason Novick, Charlize Theron, A.J. Dix, Beth Kono Duração: 96 min. Estúdio: Bron Studios, Right of Way Films, Denver and Delilah Productions Distribuidora: Focus Features

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Homens, mulheres e filhos (2014)

Por André Dick

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O universo da tecnologia está cada vez mais presente no cotidiano desde o início deste século, com sua febre de produtos cada vez maior e em maior proporção. Para enfocar essa mudança, o diretor Jason Reitman fez o que David Fincher já havia feito em A rede social no sentido de crítica a este universo, embora nunca deixando de considerá-lo fascinante – e Fincher ainda extraía conflitos verdadeiramente humanos ao redor da criação do Facebook. Em seu filme Homens, mulheres e filhos, Reitman conserva o estilo já demonstrado em outros projetos, como Amor sem escalas e Jovens adultos, no sentido de destacar o elenco, conservando uma simplicidade na narrativa que se confunde às vezes com esquecimento de uma maior densidade no trato de personagens e situações.
Embora tenha sido recebido de outra maneira pelos filmes que realizou (exceto por Refém da paixão), Reitman não havia experimentado o fracasso financeiro e de crítica: Homens, mulheres e filhos não conseguiu arrecadar praticamente nenhum valor nos cinemas dos Estados Unidos e sofreu a mesma perseguição que os personagens desse filme sofrem dos pais com a indicação de que o filme seria uma condenação da internet, do uso de celulares, de tablets, smarthphones, vendo perigo em tudo o que a tecnologia nos apresenta. O mais interessante quando se vê de fato o filme e não se lê suas críticas partindo desse pressuposto de lições de moral disparadas na velocidade de um tweet, é o quanto Homens, mulheres e filhos parece tratar disso, mas na verdade trata do seu pano de fundo.

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Reitman, também autor da adaptação do romance de Chad Kultgen, com Erin Cressida Wilson, esquece um pouco os filmes de histórias necessariamente interligadas, a exemplo de Crash e Short Cuts, para enfocar as ruas de um subúrbio nos Estados Unidos, depois de passar pelo espaço sideral e pela narração de Emma Thompson. Essa mudança do espaço para os subúrbios fornece uma ideia de que esses seres humanos também são vistos a distância, como se olham entre si. Don Truby (Adam Sandler) é casado com Rachel (Rosemarie DeWitt), e utiliza o computador do filho, Chris (Travis Tope), para buscar aventuras que o casamento parece não permitir mais. O filho tem interesse em Hannah (Olivia Crocicchia), uma moça que vive sendo seguida pela mãe, Donna Clint (Judy Greer), que tira fotografias dela para seu website comprometedor. No bairro onde moram, eles têm a liderança de Patricia Beltmeyer (Jennifer Garner), que reúne os pais para demonstrar os males da tecnologia, mas consegue impedir sua filha Brandy (Kaitlyn Dever) de utilizá-la. Brandy usa o Tumblr como fuga e ao mesmo tempo atrai a atenção de Tim Mooney (Ansel Elgort), um jovem decidido a encerrar sua carreira como jogador de futebol do seu colégio e filho de Kent (Dean Norris), ainda sem se recuperar da partida da mulher. Há também uma menina, Allison (Elena Kampouris), filha do Sr. Doss (J.K. Simmons), e que atua como animadora de torcida ao lado de Hannah, com problemas de anorexia. Esses personagens são colocados por Reitman de maneira descompromissada, enquanto ele vai costurando suas relações seja ao vivo, seja por meio de redes sociais ou por celulares e muitos tweets.
Este ano, Jon Favreau lidou com o tema no interessante, mas superficial, Chef, e o jovem que ingressava na banda do interessantíssimo Frank também queria conquistar as redes sociais, mas Reitman tem outro objetivo: por meio de uma fala de Tim sobre Carl Sagan, ele faz a ligação entre as pessoas com dificuldade de se conectarem com a dificuldade de estabelecer qualquer ligação com a própria origem (ideia implicita no discurso de Mason em determinado momento de Boyhood). Reitman analisa, misturando uma trilha sonora criativa, essas relações sem incorrer em alívios cômicos excessivos ou excessos dramáticos, mas simplesmente procurando o enfoque direto dos personagens, no entanto sem reduzi-los.

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O filme apresenta temas seculares (sobre o casamento, a amizade, a melancolia, a descoberta sexual, a pressão de seguir um determinado rumo dependente de aprovação dos pais) e Reitman mostra como os meios tecnológicos podem potencializar algumas sensações de solidão e desamparo, como vemos principalmente nos personagens de Tim e Brandy, pelo paradoxo de tentar ouvir justamente a todos – longe ou perto. E Reitman comprova como palavras digitadas no teclado ecoam mais na reação de outra pessoa do que um simples encontro ao vivo, assim como sensações deixam de ser compartilhadas no âmbito privado para serem compartilhadas no público, do mesmo modo como o destino da mãe de Tim. São ideias, a princípio, bastante óbvias, mas Homens, mulheres e filhos talvez seja o primeiro filme a mostrar isso de maneira mais clara e elucidativa, não coberto por uma superfície de moralidade, e sim com a tentativa de mostrar como se comporta um grupo que vive no subúrbio dos Estados Unidos – que pode ou não dialogar com o restante da humanidade, no entanto certamente têm elementos em comum.
Reitman registra com sensibilidade as relações entre o casal Don e Rachel e o casal de jovens Tim e Brandy. De alguma maneira, ambos acabam agindo de maneira parecida no sentido de esconderem o que na verdade querem, independente da idade. Tudo isso talvez não fosse possível sem o elenco, tendo à frente o jovem Elgort, como Tim, com o talento já mostrado em A culpa é das estrelas, enquanto sua parceira Kaitlyn Dever mostra-se excelente, sobretudo em seus duelos verbais com a mãe, feita por uma Jennifer Garner concentrada. Junto com eles, Olivia Crocicchia e Elena Kampouris conseguem dar uma dimensão maior a papéis que poderiam ser esquecíveis. Esse elenco se junta com Greer, Norris e Sandler, todos excelentes em seus papéis, principalmente Greer – e na parcela de entendimento de certa juventude contemporâneo Reitman é mais interessante aqui do que em Juno, filme que conseguiu fazer grande sucesso em cima de temas tão cotidianos quanto esses.

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Homens, mulheres e filhos

Nesse sentido, Homens, mulheres e filhos ainda tem um dos melhores elencos do ano, e quando vemos lamentos em razão de Marion Cotillard (uma grande atriz) não estar recebendo tanto destaque nas premiações por sua atuação limitada pela direção no épico vastamente falho e com um revisionismo autossatisfeito Era uma vez em Nova York, pergunta-se se o elenco do filme de Reitman deveria ser esquecido. Evitando seguir o conceito de clássico seguro e sem riscos, uma uma das qualidades de Homens, mulheres e filhos, Reitman apresenta de maneira consistente cada um dos núcleos, mesmo que em determinados momentos a montagem às vezes seja atropelada, pois tudo é registrado de forma veloz e o interesse se concentra sobretudo nos momentos em que esses personagens se afastam da tecnologia para se dedicarem diretamente uns aos outros. Parece precipitado classificar um filme que nos lembra das relações também fora desse universo como algo escapista, sob o ponto de vista de predominância da tecnologia, principalmente quando sua qualidade é maior do que está sendo apontada e seus temas são permanentes. Há elementos de afeto e de aproximação em cada personagem e, ao mesmo tempo, uma ideia de que a solidão é apenas aparente quando vista diante de um universo em expansão, podendo ser revertida por uma simples visita à janela de casa. É isso que torna Homens, mulheres e filhos um filme a ser revalorizado mesmo que tenha sido lançado há tão pouco tempo.

Men, women & children, EUA, 2014 Diretor: Jason Reitman Elenco: Kaitlyn Dever, Ansel Elgort, Adam Sandler, Rosemarie DeWitt, Jennifer Garner, Emma Thompson, Judy Greer, Dean Norris, Travis Tope, Olivia Crocicchia, Elena Kampouris  Roteiro: Chad Kultgen, Erin Cressida Wilson, Jason Reitman Fotografia: Eric Steelberg Produção: Helen Estabrook, Jason Reitman Duração: 119 min. Distribuidora: Paramount Pictures Estúdio: Paramount Pictures / Right of Way Films

Cotação 5 estrelas

Jovens adultos (2011)

Por André Dick

Jovens adultos 5

A parceria de Jason Reitman com Diablo Cody iniciada em Juno – um filme que não corresponde à sua repecussão – ganhou um segundo capítulo neste filme menos comentado, que passou rapidamente por nossos cinemas, mas é dramaticamente (com elementos de humor) muito superior: Jovens adultos. Não era de se esperar muito de uma história relativamente limitada, sobre uma escritora de livros juvenis (que publica numa coleção), Mavis Gary (Charlize Theron). Quando passa por um período sem conseguir criar e de rotina de troca de homens em sua vida, ela recebe a mensagem de um ex-namorado, que acabou de ter uma filha. Morando em Minneapolis, ela decide voltar para Mercury, Minnesota, sua cidadezinha de origem, a fim de reencontrá-lo. O antigo namorado se chama Buddy Slade (Patrick Wilson) e, além de ser pai, está muito bem casado com Beth (Elizabeth Reaser). Por sua vez, Mavis anda com um cachorrinho em sua pequena bolsa e destrata a todos que encontra à sua frente, pois se considera, acima de tudo, uma escritora best-seller.
No entanto, na coleção em que ela escreve, seu nome aparece quase num rodapé e ela, na verdade, está querendo um acerto de contas com o seu passado. O que poderia ser uma trama juvenil ou simplesmente bem-humorada transforma-se num drama agridoce, por meio do talento de Reitman em lidar com personagens fora do contexto, o que já mostrou tanto em Juno, de forma menos exemplar, quanto no interessante Obrigado por fumar (em que imperava o politicamente incorreto) e no excelente Amor sem escalas, seu melhor filme ao lado deste até o momento. Reitman está interessado numa espécie de retrato do americano que pensa ter obtido um sucesso descomunal quando precisa voltar às suas raízes para entender que não atingiu exatamente o que queria.

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É um movimento também trazido por Alexander Payne em filmes como Sideways. Neste, havia o escritor Miles Raymond (Paul Giamatti), que não conseguia publicar o que considerava sua obra joyciana e, não conseguindo, sai numa jornada por vinícolas com seu amigo que vai se casar. Ao contrário de Mavis, Miles era comedido de inseguro. O que não significa que Mavis também não o seja. Ao chegar na cidade, ela vai para um pub, onde encontra Matt Freehauf (Patton Oswalt), que foi agredido nos tempos de colégio porque ele seria gay – deixando-o com cicatrizes incuráveis e muletas. Sabendo do objetivo de Mavis de terminar com o casamento de Buddy, Matt se coloca como intermediário, mas apenas para mostrar seu entendimento da questão. Incapacitada de se resolver como adulta – a personagem central não consegue visitar os próprios pais na visita à cidadezinha –, ela encontra em Matt um diálogo baseado em bebidas e monstros pintados no quarto. É como se ele representasse o que ela não consegue ser: uma pessoa que conseguiu, enfim, se despir do posto de rainha da escola para, de fato, tornar-se um sucesso como autora – com o nome escondido – de livros infantojuvenis. Mas como se ela não consegue entender as mais simples relações?
Jovens adultos vai de encontros em bares a hotéis com garrafas de Coca-Cola jogadas no colchão, contudo é muito mais do que um pretenso aroma de cigarros ou cheiro de esmalte que a personagem usa a determinada altura, em determinados tons. Mavis, na verdade, parece ser o retrato da mulher que se aproxima dos 40 anos estando presa à juventude e às conquistas da escola, mas pode esconder mais do que isso. A personagem que Charlize interpreta com vigor – sendo seu melhor papel até hoje, pelo qual foi indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz – tem uma instabilidade muito bem trabalhada ao longo do filme, desde o momento em que acorda (com o pijama da Hello Kitty), liga a TV, para se abastecer um pouco de cultura fútil, até o momento em que busca alguma comida fast food para ouvir possíveis conversas capazes de inspirá-la a escrever. Quando pretende reconquistar o namorado, passa por um salão de beleza, faz aplique nos cabelos e tenta recuperar o ar juvenil, entretanto apenas ela acredita que não está mais velha e estranha; para ela, todos os outros estão estendendo o tapete como se ela ainda fosse a rainha do colégio, e ainda a invejam por isso, já que conseguiu sair e fazer sucesso na cidade grande.

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Não parece sem sentido que Reitman a coloque sempre num ponto de vista juvenil, como as fitas cassete que carrega, remetendo também a uma fuga para a adolescência eterna. Reitman consegue mesclar a faceta patética da sua personagem com uma espécie de ressentimento que ela deixa claro, como na apresentação da banda da mulher do antigo namorado,  a quem tenta convencer a beijá-la mais tarde, e na meia hora final, certamente num tour de fource de Charlize, capaz, ao mesmo tempo, de fazer o espectador rever o seu comportamento ao longo do filme e, mesmo diante de sua incapacidade para o enfrentamento, tentar vê-la numa condição melhor, o que não é, porém, o objetivo de Reitman, pois o filme está longe de ser previsível.
Não se trata de nenhum retrato superficial de uma determinada idade, mas um retrato bastante considerável da natureza de Mavis, capaz de se ampliar em boas doses de ironia e vontade de esquecer o que aconteceu. Estamos diante de vários temas, mas o mais subentendido é, sem dúvida, o alcoolismo, e a maneira como a personagem precisa enfrentá-lo para tentar entender a cidade de onde veio. Trata-se de uma personagem que adentra uma loja de roupas para bebê com a mesma falta de vigor com que ergue a garrafa de Coca-Cola quando acorda com os cabelos desgrenhados, mas, ao tentar mudar diante do espelho, imagina recuperar o que perdeu. Trata-se, portanto, de um papel que deve ser desempenhado de dentro para fora, e as expressões que Theron coleciona ao longo da narrativa, assim como sua inesperada amizade com Matt, cada um tentando recuar no tempo para tentar fazer com que caia no esquecimento, transformam o que poderia ser um roteiro superficial em algo mais humano e próximo do verdadeiro afeto.

Young Adult, EUA, 2011 Diretor: Jason Reitman Elenco: Charlize Theron, Patton Oswalt, Patrick Wilson, Elizabeth Reaser Produção: Diablo Cody, Lianne Halfon, Mason Novick, Jason Reitman, Russell Smith, Charlize Theron Roteiro: Diablo Cody Fotografia: Eric Steelberg Trilha Sonora: Rolfe Kent Duração: 94 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Denver and Delilah Productions / Indian Paintbrush / Mandate Pictures / Mr. Mudd / Right of Way Films

Cotação 4 estrelas