A noite do jogo (2018)

Por André Dick

As comédias sobre casais do subúrbio nos Estados Unidos envolvidos com problemas têm o seu principal referencial em Meus vizinhos são um terror, de Joe Dante, dos anos 80. Recentemente, tivemos Vizinhos nada secretos, um bom momento para a parceria entre Galifianakis e Gal Gadot, embora com muitos problemas de roteiro. Os diretores John Francis Daley e Jonathan Goldstein, responsáveis pela nova versão de Férias frustradas, bastante subestimada, fizeram o roteiro de Homem-Aranha – De volta ao lar e dos dois Quero matar meu chefe.
A noite do jogo tem, de certo modo, elementos de todos seus filmes anteriores, mas principalmente dos dois Quero matar meu chefe, por se passar quase totalmente à noite, o que ajuda a construir um clima específico. Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams) adoram jogos e se conhecem num deles. Acabam se envolvendo e no momento atual pensam em ter um filho. Eles gostam de se reunir com os amigos Ryan (Billy Magnussen), Sarah (Sharon Horgan) e o casal Kevin (Lamorne Morris) e Michelle (Kylie Bunbury). No entanto, seu vizinho, Gary Kingsbury (Jesse Plemmons), não é mais convidado aos jogos depois de ter se separado da mulher, talvez pelo seu jeito curiosamente estranho. E Max também tem conflitos de rivalidade com o irmão Brooks (Kyle Chandler).

A partir de uma noite de jogo, Max os convida para que a próxima seja em sua casa. É quando ele explica que planejou um jogo diferente: um dos integrantes será sequestrado e os demais terão de encontrá-lo. Trata-se de uma premissa um pouco absurda, mas como nos demais filmes de Daley e Goldstein há uma preocupação principalmente com fazê-la funcionar, a cabo de muitas situações de humor absurdas e diálogos ultra-rápidos. Para isso, a colaboração dos atores é notável. Bateman é um dos atores mais subestimados de Hollywood: ele não tem nenhum talento interpretativo notável, mas é eficaz quando está em cena quase sempre, assim como em Quero matar meu chefe, além de ser um diretor competente (a julgar por Palavrões, por exemplo). Sua mania de nunca sorrir ou exagerar é justamente o que lhe oferece diversão. E McAdams, depois de uma sucessão de obras dramáticas, volta aqui ao que fez tão bem em Uma manhã gloriosa, no qual interpretava a produtora principal de um programa matinal nos Estados Unidos e precisava lidar com uma dupla de apresentadores egocêntrica interpretada por Harrison Ford e Diane Keaton.

O que chama a atenção no trabalho de John Francis Daley, o Sam Weir, personagem principal da exitosa série de TV Freaks and geeks (que aparece no início de A noite do jogo), e Jonathan Goldstein é justamente a habilidade em lidar com situações paralelas, a rapidez das cenas sem cair numa narrativa descartável e um espantoso maneirismo de colocar uma simples movimentação de câmera como algo essencial para se entender um filme (movimentação que se dá numa festa com referências a Django livre e Clube da luta). Eles trabalham com um roteiro de Mark Perez que parece ter sido feito por eles. De maneira geral, ambos sempre homenageiam lances do cinema, e há uma quantidade de gags nesse sentido em Quero matar meu chefe, mas também marcava presença no mais recente Homem-Aranha, com suas referências à filmografia de John Hughes, sobretudo Curtindo a vida adoidado e O clube dos cinco. Uma homenagem em forma de sátira a Denzel Washington é uma das melhores, no clima mais intensificado de Saturday Night Live. O cinema se torna uma metalinguagem, mas sem cair na obviedade, sendo ajudado pela trilha sonora eficiente do habitual colaborador de Nicolas Winding Refn, Cliff Martinez, o mesmo de Drive (e as cenas de perseguição de carro aqui são muito boas).

O personagem feito por Jesse Plemmons é significativo justamente por isso: ele é como se fosse o espectador que não está exatamente inteirado do que está acontecendo. O roteiro investe em reviravoltas que soam plausíveis dentro do contexto sem nunca apelar a uma necessidade de chamar a atenção para o fato de que o roteiro nunca explica devidamente seus pontos-chave, embora os personagens sejam pouco desenvolvidos e algumas soluções caiam planas. A história tem como principal base uma determinada obra de David Fincher, à qual não me refiro para evitar spoiler, e o diálogo é criativo e intenso na maior parte do tempo. Por outro lado, o filme com o qual A noite do jogo mais dialoga é Uma noite fora de série, com Steve Carell e Tina Fey, dirigido por Shawn Lewy, uma diversão descompromissada e arrasada pela crítica no início da década. A elaboração minuciosa de cada cenário noturno e a rota ente humor e ação é típica da obra de Lewy, hoje consagrado como um dos diretores e produtores de Stranger things. A química entre Bateman e McAdams funciona como a do casal dessa comédia de 2010, nos melhores momentos de uma comédia norte-americana dos últimos anos. Embora certamente dissociado de pretensões e uma elaboração hermética, A noite do jogo é um daqueles filmes agradabilíssimos aos quais se irá rever em reprises na TV.

P.S.: Tem uma cena pós-crédito.

Game night, EUA, 2018 Diretores: John Francis Daley e Jonathan Goldstein Elenco: Jason Bateman, Rachel McAdams, Billy Magnussen, Sharon Horgan, Lamorne Morris, Kylie Bunbury, Jesse Plemons, Michael C. Hall, Kyle Chandler Roteiro: Mark Perez Fotografia: Barry Peterson Trilha Sonora: Cliff Martinez Produção: John Davis, Jason Bateman, John Fox, James Garavente Duração: 100 min. Estúdio: New Line Cinema, Davis Entertainment, Aggregate Films, Access Entertainment Distribuidora: Warner Bros.

Zootopia (2016)

Por André Dick

Zootopia

Este novo desenho da Walt Disney foi incensado pela crítica e pelo público (que deixou mais de 1 bilhão de dólares nas bilheterias!) e pode-se achar, antes de assisti-lo, que é mais um produto de marketing superestimado. Nos últimos anos, há uma sequência de animações que se caracterizam por um grande apoio da crítica especializada, vendo nelas, sobretudo, temas que agradam mais a adultos do que a crianças. Passam a ser animações inteligentes, paradoxalmente consideradas “não infantis”, como se este público não as entendesse de fato. Esses temas não raramente são inseridos em meio ao que se considera politicamente correto, tendo como mensagem exatamente lições que podem ser interpretadas sob o ponto de vista de manifestações vistas com mais respeito. Estamos aqui diante de uma animação que pode lidar com tais temas, mas parte do pressuposto de que é dirigida realmente a todas as idades, sem facilitar ou complicar para um determinado público.
Zootopia (que tem um dispensável subtítulo em português, Essa cidade é o bicho) inicia mostrando a infância de Judy Hopss (Ginnifer Goodwin), filha de Stu (Don Lake) e Bonnie (Bonnie Hunt), da zona rural de Bunnyburrow, cujo sonho é se transformar na primeira coelha a ser policial e se dedica a uma peça teatral, numa breve homenagem a Rushmore, de Wes Anderson. Em seguida, ela é confrontada por uma raposa, Gideon Gray (Phil Johnston), deixando-a traumatizada. Os pais, obviamente, não querem que ela siga este caminho, pois pretendem que ela se transforme, como eles e seus irmãos, numa fazendeira.

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Quando cresce, ela vai parar exatamente no departamento de polícia da cidade vizinha, Zootopia. Excluída pelo chefe, Bogo (Idris Elba), da tarefa de investigar crimes – a princípio, pelo seu pequeno porte –, ela passa a ser controladora de trânsito. No meio do serviço, ela conhece Nick Wilde (Jason Bateman), exatamente outra raposa, e Finnick (Tommy ‘Tiny’ Lister), que aprontam fazendo trabalhos suspeitos. Num deles, Nick pretende comprar um picolé num estabelecimento que vende apenas para elefantes para o que seria seu filho, até que a coelha descobre que tudo não passa de uma grande invenção. Ainda incansável com a ideia de que deve também ser uma investigadora, ela recebe o apoio da vice-prefeita, Dawn Bellwether (Jenny Slate), maltratada pelo prefeito Lionheart (J.K. Simmons), ao querer ajudar a Sra. Otterton (Octavia Spencer).
Tudo é início de uma aventura que transformará Zootopia, onde todos os animais deveriam conviver em harmonia, o que lembra um pouco Uma cilada para Roger Rabbit. No filme de Zemeckis, havia Toontown, a cidade onde os desenhos viviam em comunidade. Em Zootopia, também convivem diferentes épocas: há cenários futuristas com outros que lembram os de dias atuais e até aqueles que lembram um passado mais imediato.

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Byron Howard, Rich Moore e Jared Bush, diretores do filme, conseguem compor uma personagem central muito interessante e mesmo original no universo da animação, e coloca como parceiro dela uma figura das mais empáticas do universo animado recente, graças, também, à voz do ótimo Bateman. Ambos têm ligações também pelo passado em comum, mesmo um sendo associado à tranquilidade e outro à vilania. Em razão do talento dos diretores em compor um design visual atrativo, com uma cidade que lembra, em diferentes momentos, a de Tomorrowland e De volta para o futuro 2, junto com influências visíveis de O fantástico Sr. Raposo, de Wes Anderson, e uma homenagem bem-humorada a O poderoso chefão, Zootopia demarca uma atmosfera realmente original. Poucos desenhos recentes conseguem demarcar um cenário amplo, a partir do qual o espectador pode visualizar os personagens, e a sua cidade se caracteriza, além de pela diversidade, por uma ideia realmente consistente de cotidiano, não apenas de um meio urbano, como também do meio rural.
Além disso, o filme traz como temas a identidade, o estereótipo, a discussão de gêneros e liberdade entre diferentes, no entanto sem se basear nisso o sucesso. Nesse sentido, ele me parece desenvolver melhor tais temas do que outros desenhos animações, mesmo o recente Detona Ralph, dirigido por Moore, um dos codiretores deste, e atua num plano em que Universidade Monstros, lamentavelmente desvalorizado, se arrisca: o de que a infância possui medos que devem ser colocados à prova, não exatamente original, mas poucas vezes tão bem trabalhado quanto aqui.

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É difícil dizer se, em alguns momentos, Zootopia não aplica uma certa vontade de rotular o que exatamente critica – mesmo que haja ótimas gags, como a do elefante na sala. Os pequenos animais são vistos sempre sob o ponto de vista de que são bons ou inofensivos (os coelhos, as ovelhas), em relação aos maiores, e os diretores brincam com essa ideia. Sob outro ângulo, eles colocam um tigre atendendo no departamento de polícia que está mais interessado em acompanhar a trajetória de uma cantora de Zootopia, Gazelle, que parece uma homenagem a Adele, mesmo tendo a voz de Shakira. Além de tudo, há uma sequência de cenas de ações bem feitas e bem-humoradas (como o encontro com os funcionários de trânsito, que são bichos-preguiça) e uma transição natural, nada forçada, entre as cenas. É muito raro encontrar uma animação que ainda invista numa trama policial e não se perca pelo meio do caminho, capaz de desenhar uma amizade entre figuras diferentes de maneira tão crível. As comparações feitas, por exemplo, com o clássico Chinatown são realmente verossímeis e bem solucionadas pelo roteiro escrito por um dos diretores, Jared Bush, e Phillip Johnston, colaborador em Detona Ralph. Em certos momentos, arrisca-se até mesmo um clima noir, em meio a uma perseguição numa floresta seguida de um amanhecer do sol radiante. Ele não soa excessivamente infantil nem apresenta temas mais adultos de maneira pretensiosa, ficando num meio-termo agradável. De maneira mais ampla, este desenho me parece o maior acerto do selo da Disney (não contando o departamento da Pixar) desde Aladdin, de 1992, muito superior a sucessos recentes da companhia.

Zootopia, EUA, 2016 Direção: Byron Howard, Jared Bush, Rich Moore Elenco: Ginnifer Goodwin, Jason Bateman, Idris Elba, Jenny Slate, Nate Torrence, JK Simmons Roteiro: Jared Bush, Phillip Johnston Trilha Sonora: John Powell Produção: Clark Spencer Duração: 108 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Walt Disney Animation Studios / Walt Disney Pictures

Cotação 4 estrelas e meia