Blade Runner 2049 (2017)

Por André Dick

Lançado em 1982, Blade Runner – O caçador de androides, de Ridley Scott, teve uma recepção tímida por parte da crítica e do público, mas acabou se transformando num grande cult, uma obra-prima da ficção científica. Visto como um filme intocável, foi estranho à primeira vista imaginar uma continuação, e sem a direção de Scott. Foi ele, como produtor executivo, quem convidou Denis Villeuneuve para estar à frente da sequência. O diretor canadense se notabilizou nos últimos anos por transitar entre gêneros diferentes, em filmes como Polytechnique, Incêndios, Os suspeitos, O homem duplicado e Sicario – Terra de ninguém. No ano passado, ele fez a elogiada ficção científica A chegada, sobre a tentativa de contato humano com extraterrestres.
Por toda a carga de expectativa, ele parecia cada vez o melhor nome para dirigir Blade Runner 2049. Tendo como base o roteiro de Hampton Fancher (que colaborou no primeiro) e Michael Green, baseado nos personagens de Philip K. Dick, o filme mostra um novo caçador, K (Ryan Gosling), um replicante, que trabalha para a tenente Joshi (Robin Wright), da LAPD, e, quando vai atrás de um replicante mais datado, Sapper Morton (Dave Bautista), numa sequência que lembra a de Leon (Brion James) no original, descobre uma árvore com uma ossada escondida embaixo dela.

Levando os dados para sua equipe em Los Angeles, tão chuvosa quanto no clássico de Scott (spoiler até o fim deste parágrafo), descobre-se que seria da replicante Rachael (Sean Young), desaparecida com Rick Deckard (Harrison Ford) muitos anos antes. K, certamente uma homenagem ao segundo nome do autor que criou esse universo (Kindred), vai atrás de dados dela na corporação comandada por Niander Wallace (Jared Leto), assessorado por Luv (Sylvia Hoeks), que segue a linha da Tyrell original. Nisso, um pequeno cavalo de madeira é a pista para lembranças decisivas, em paralelo com o unicórnio da obra de Scott. Há uma analogia desse símbolo com a árvore sustentada por cordas e uma pequena flor que K recolhe perto dela como se precisasse dela para uma pesquisa científica, tamanha a raridade.
Além disso, K tem uma relação cibernética com Joi (Ana de Armas), um programa de computador que reproduz uma imagem feminina, nos moldes de Ela, mas, como os replicantes do primeiro filme, que então só podiam viver em colônias da Terra, deseja, de forma angustiada, ser humano. Para quem gosta do estilo de atuação de Ryan Gosling (o meu caso), Blade Runner 2049 certamente funcionará melhor. Gosling, como nos filmes de Refn (Drive e Apenas Deus perdoa), usa o mínimo de expressões, mas de maneira relevante e sua busca pelo lado humano que pode existir nele é o mote do roteiro e da direção sensível de Villeuneuve. Suas memórias, mesmo implantadas, são o guia desta viagem. A todo instante, a história pergunta se as sensações são reais ou imaginárias.

O diretor canadense nunca apresentou personagens extremamente simpáticos, e sim conflituosos, e aqui não é diferente. K é um Deckard ainda mais frio, mais concentrado na investigação de por que Rachael morreu e quem seria seu elo de ligação – e sua busca por si mesmo dialoga com a do personagem de Scarlett Johansson em Ghost in the shell este ano. Do lado contrário, Luv faz as vezes de Roy Batty, personagem de Rutger Hauer, com um sentido implacável de abreviar a vida de quem pretende descobrir um determinado mistério decisivo para a trama. Eles são opostos que se complementam. K não deixa de ser um Batty às avessas, com sua paixão real não pela própria existência, mas para compartilhar com os outros sua experiência de vida. O afeto que tem por Joi é real, mesmo romântico (numa cena embaixo da chuva, muito bem filmada por Villeneuve), não o que tem Niander por suas criações – o beijo nelas, depois de deslizarem por uma espécie de placenta plastificada, é um sinal de abandono. O corpo é sempre o símbolo de um prazer proibido (spoiler: K vai ver sua musa desnuda apenas num holograma ao final do filme e sua relação com ela, por meio de Mariette (Mackenzie Davis), é quase impessoal).
Seria talvez desnecessário elogiar a parte técnica, que certamente reproduziria a competência mostrada em Blade Runner. No entanto, é obrigatório: o trabalho de Roger Deakins na fotografia e Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch na trilha sonora (captando as sensações daquela clássica de Vangelis) são exemplos notáveis de como ajudar a contar uma história e tornar este um blockbuster sem elementos de blockbuster (talvez por isso como o primeiro tenha estreado mal nas bilheterias). Além disso, os efeitos visuais trazem um realismo poucas vezes visto em tempos de CGI exagerado: as naves espaciais têm uma movimentação verossímil e Villeneuve, como em Sicario, aproveita para fazer tomadas áreas sobre o deserto de maneira particular. E, na parte de efeitos sonoros, há ecos de A chegada, principalmente, embora aqui sejam mais impactantes.

O filme anterior era mais uma perseguição incessante e atmosférica; este é mais uma investigação, e com todas as minúcias do gênero. Menos noir que o anterior, ele sai de Los Angeles e vai para outros lugares, mostrando mais a amplidão de 2049 do que a opressão da metrópole na vida desses personagens. Isso fica claro desde o início, quando K está atrás de Morton numa espécie de fazenda na Califórnia. Como em Sicario, Villeuneuve está interessado em mostrar cenários imensos, em que o horizonte se perde, e nunca deixa de inserir o espectador num universo futurista incontestável. Se no primeiro Los Angeles parecia Tóquio, com uma profusão infinita de neons, em seu retrato cyberpunk, este lembra mais o deserto… de Las Vegas. No apartamento de K, as luzes do lado de fora remetem mais ao filme de 1982, mas Villeneuve não tenta copiar o estilo de Scott, preferindo os ambientes mais assépticos e menos coloridos, sem também as luzes entrando pelas janelas, uma característica das narrativas noir e dos anos 80. A corporação de Niander lembra muito a do original, mas, ainda assim, parece mais labiríntica, como se a identidade das pessoas se perdesse em corredores e salas frias. Villeneuve sempre foi cuidadoso com o design, mas ele se supera em Blade Runner 2049, levando o espectador realmente para outro universo, com certa influência ainda de Inteligência artificial, na maneira como torna os ambientes desolados e, sobretudo, na sequência passada em Las Vegas, quando há também referências musicais por meio de hologramas e aos duelos de faroeste, que, se resolvidos, só poderiam terminar na mesa de um bar. Em determinado momento, também há uma referência pertinente à exploração do trabalho infantil, porém sem nenhum traço facilitador ou piegas, numa ilha de sucata remetendo a Eraserhead, de Lynch, contrastando com uma reunião de crianças imaginária ao redor de um bolo de aniversário.

Embora Leto e Hoeks tenham participações breves, ambos estão muito bem, assim como Ana de Armas e Robin Wright. Já Harrison Ford, voltando como Deckard, é particularmente emocionante, mais do que sua retomada como Han Solo em Star Wars. Este elenco conserva uma particularidade pessoal, tornando Blade Runner 2049 numa obra bastante independente da primeira, apesar dos óbvios diálogos visuais e temáticos. Se o de Scott tinha uma atmosfera mais pessimista, o novo é mais esperançoso, mas não no sentido do lugar-comum e sim na maneira como visualiza principalmente o trajetória de K. Este é um personagem que amplia a solidão anunciada no clássico de 1982 e, mais ainda, sinaliza para um futuro real. A longa duração (quase 50 minutos a mais que o original) não prejudica; pelo contrário, torna as sequências mais definidas e compostas com um cuidado extremo, fazendo com que cada uma ressoe junto ao espectador. São belas principalmente as que trazem simbologias, como o fogo (nas lembranças de K) e a água (representando a morte e a vida), encontrando na neve (imaginária ou não) o meio-termo para as lágrimas na chuva, da mensagem de Batty, que tanto comovia minha mãe, admiradora do primeiro filme e que, imagino, apreciaria muito também esta nova obra-prima. É um filme que, à medida que é assistido, cresce na imaginação: nunca um replicante do primeiro, mas uma obra grandiosa.

Blade Runner 2049, EUA, 2017 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Ana de Armas, Sylvia Hoeks, Jared Leto, Dave Bautista, Edward James Olmos, Wood Harris, Mackenzie Davis, Hiam Abbass, David Dastmalchian, Tómas Lemarquis Roteiro: Hampton Fancher e Michael Green Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch, Hans Zimmer Produção: Andrew A. Kosove, Broderick Johnson, Bud Yorkin, Cynthia Yorkin Duração: 163 min. Estúdio: Warner Bros. Distribuidora: Sony Pictures

Esquadrão suicida (2016)

Por André Dick

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Não é preciso fazer um prólogo para concluir que hoje as adaptações de HQs se transformaram num grande duelo entre duas companhias, acarretando fãs de um lado ou de outro, ou de admiradores de ambos os trabalhos. A sucessão de lançamentos de filmes do gênero não deixa mais órfãos admiradores de inúmeros personagens, que antes só possuíam os quadrinhos de fato ou as animações televisivas para apreciá-los em movimento. E, cada vez mais, se espera que um filme consiga superar o outro, não tanto em termos de qualidade, mas de bilheteria. Aguardado e divulgado há muitos meses, Esquadrão suicida se transformou na obra que poderia salvar a Warner/DC de novas críticas obtidas em larga escala por Batman vs Superman – o que, pela recepção em geral, acabou não acontecendo. O chamariz principal era a participação de Jared Leto, vencedor do Oscar de coadjuvante por Clube de compras Dallas, como Coringa, embora estejam no elenco nomes como Will Smith, Viola Davis e Margot Robbie.

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O roteiro de David Ayer, diretor de Corações de ferro, coloca Amanda Waller (Viola Davis) como aquela que irá reunir, com o apoio do presidente – isso em razão do destino de um dos personagens de Batman vs Superman –, uma equipe de criminosos: Pistoleiro (Will Smithy), o ex-gângster El Diabo (Jay Hernandez), o monstruoso Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), o mercenário Amarra (Adam Beach), e Arlequina (Margot Robbie), ex-psiquiatra do Asilo Arkham. Eles estão na penitenciária de Belle Reve, onde são reunidos por Rick Flag (Joel Kinnaman). Uma das figuras que Waller também seleciona é a Dra. June Moone (Cara Delevingne), que é possuída por uma bruxa, “Magia”, capaz de colocar Midway City em polvorosa com um grupo enorme de monstros. O grupo, Esquadrão Suicida, é vigiado por Katana (Karen Fukuhara), com uma espada, e, enquanto o Pistoleiro se lembra do passado com sua filha, sua real ponte com a humanidade, Arlequina só tem a se lamentar que não viu mais seu amado Coringa (Jared Leto) depois que foi presa. Curioso como um grupo de ameaças à sociedade acaba constituindo um filme, sinal de tempos em que Norman Bates é mostrado ainda adolescente ou Hannibal se transforma em peça-chave de uma série. No entanto, pode-se dizer que nenhum do Esquadrão suicida é tão ameaçador quanto foi Lex Luthor, interpretado por Jesse Eisenberg em Batman vs Superman.

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Ayer, que escreveu o roteiro de um dos melhores filmes policiais deste século, Dia de treinamento, com Ethan Hawke e Denzel Washington, imprime uma sequência caótica de imagens nos primeiros 40 minutos eletrizantes de Esquadrão suicida. Nessa introdução, há direito a chamadas de personagens que parecem dialogar com a pop art, entregando o mínimo de diálogos a cada um, mas com um sentido muito grande para a ação que remete a quadrinhos – e (spoiler) as participações de Batman são as melhores – e uma influência clara de Watchmen, de Snyder nas transições de cena e mesmo no uso de câmera lenta para dar dramaticidade, além de um uso impactante de flashbacks para demarcar a condição de cada um. E, mais do que a trilha pop que reúne, por exemplo, “Bohemian Rhapsody”, do Queen, mais tensa é a trilha de Steven Price, o mesmo de Gravidade.
Quando o grupo se reúne, Ayer parte para uma homenagem evidente a Fuga de Nova York, de John Carpenter, com o uso do cenário urbano de forma incontestavelmente bem situado e um sentido de ameaça à espreita com os monstros que devem ser combatidos pelo esquadrão. O interessante do roteiro de Ayer é que os personagens não se sentem obviamente fazendo um favor à humanidade, apenas a si mesmos, e nisso não perdem, de qualquer modo, a referência que os une, principalmente nos casos do Pistoleiro e de Arlequina. Tanto por causa da atuação de Smith quanto pela de Robbie – uma parceria já exitosa em Golpe duplo –, eles entregam o que há de melhor em Esquadrão suicida, junto com Viola Davis, com o talento habitual, e mesmo Kinnaman (o novo RoboCop).

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E a tão falada atuação de Leto é visivelmente prejudicada pela montagem. Sua presença em cena é quase divida em vinhetas, mas Leto não entrega um Coringa óbvio: com seu ar de gângster, correntes e tatuagens, ele é ameaçador dentro do tempo que lhe permitiram, afastando-se tanto de Jack Nicholson quanto de Heath Ledger (que praticamente eram os personagens principais dos filmes em que apareciam) e fazendo algo mais estilizado e influenciado pelos quadrinhos. Pelo desinteresse de Ayer em desenhar uma violência explícita, o Coringa se sente às vezes excessivamente contido e sem ser agraciado por falas bem-humoradas, certamente um equívoco do roteiro. Há uma cena num clube que ele posa de Scarface, servindo praticamente de cafetão de Arlequina. De qualquer modo, a cena que melhor o representa é quando salta num caldeirão das indústrias Acme (onde se dá sua criação no Batman de Tim Burton), junto com Arlequina e as cores de ambos, diluídas, vão se misturando – enquanto em outra cena, de helicóptero, ele também homenageia o Coringa de Nicholson. O que se pode dizer é que Cara Delevingne prejudica terrivelmente Magia, com sua falta de senso interpretativo, disfarçada em Cidades de papel pela atuação excelente de seu parceiro de cena.
Porém, há um certo desvio de Ayer no terceiro ato, um problema de vários filmes de super-heróis e, aqui, de anti-heróis: a violência é incessante e caótica, sem um direcionamento definido, e se perde a tensão que havia até a sequência anterior, que acontece num lugar mais calmo, mesmo que a qualidade da fotografia de Roman Vasyanov seja preservada e o design de produção continue elaborado.

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Não há nenhuma influência, como vem se considerando talvez por se tratar de personagens à margem da lei, de Guardiões da galáxia: tudo é muito soturno, como na maior parte das vezes acontece em filmes da DC Comics (é difícil saber em que momento pode ter havido alguma refilmagem, como se comentou depois do lançamento, pois o filme tem o mesmo tom desde o início), e o gráfico de algumas cenas é às vezes mesmo desagradável para crianças. Dos anti-heróis, o mais assustador é Crocodilo, no entanto é El Diablo que coloca uma horda de inimigos em estado de combustão impressionante, remetendo a David Cronenberg. A Arlequina serve como um alívio cômico, embora mais trágico – e sua prisão é uma referência a Hannibal Lecter de O silêncio dos inocentes –, enquanto o Pistoleiro é realmente aquele que tenta sobreviver no cárcere guardando uma ideia de família, sustentada pela atuação de Smith, melhor do que no recente Um homem entre gigantes, prestando no início uma breve homenagem ao papel que interpretou em Ali. É interessante como ele visualiza em Arlequina apenas uma vítima, tão solitária como a sua filha, embora escondida por uma máscara de resistência e entregue feliz à psicopatia de Coringa. Se Esquadrão suicida não se equivale ao acerto Batman vs Superman, também por seu objetivo ser outro, ele consegue, de maneira ágil, apresentar esses personagens sem recorrer a diluir a essência deles na tentativa de agradar de maneira fácil. Dentro do que se propõe, é convincente e vigoroso.

Suicide squad, EUA, 2016 Diretor: David Ayer Elenco: Will Smith, Margot Robbie, Jared Leto, Joel Kinnaman, Viola Davis, Jai Courtney, Jay Hernandez, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Ike Barinholtz, Cara Delevingne Roteiro: David Ayer Fotografia: Roman Vasyanov  Trilha Sonora: Steven Price Produção: Charles Roven, Richard Suckle Duração: 123 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Atlas Entertainment / DC Entertainment / Lin Pictures

Cotação 4 estrelas

Clube de compras Dallas (2013)

Por André Dick

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Ainda que tenha surgido na década de 80, como uma doença devastadora e ocasionando pouco tempo de vida para seus portadores, a Aids nunca chegou a ser abordada com grande interesse em filmes. Ainda hoje, o filme mais conhecido a tratar dela é Filadélfia, de duas décadas atrás, com a atuação oscarizada de Tom Hanks e que não chega a ser considerado uma referência, apesar da qualidade de seu elenco e da trilha musical com canções de Bruce Springsteen. Em As horas, importante lembrar, também temos o personagem do escritor interpretado por Ed Harris num diálogo com o passado de um dos personagens, enquanto tenta conviver com a doença. No ano passado, quando Clube de compras Dallas foi lançado, surgiram as inevitáveis comparações e a certeza de estarmos diante de um drama sobre a vida ameaçada pela Aids com condições de trazer um amplo debate. Apesar de seu diretor,  o canadense Jean-Marc Vallée (A jovem rainha Vitória), ser pouco conhecido, o filme foi reunindo admiradores, por seu tom independente, com a atuação de Matthew McConaughey como Ron Woodroof, que participa de rodeios, trabalha como eletricicista e determinado dia, ao se ver colocado numa cama de hospital, descobre, depois de fazerem exame de sangue, que contraiu a doença. Com a atitude de um caubói, no entanto, ele irrompe pela porta do quarto na certeza de que não será derrotado – e McConaughey desenha os movimentos do personagem com propriedade, entre o nervoso e o tranquilo, como faz desde seus passeios noturnos em Jovens, loucos e rebeldes.

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Este é o início do filme e contempla boa parte do que veremos ao longo da narrativa, com a ligação de Ron com uma médica deste hospital, Eve Saks (Jennifer Garner, em uma interpretação convincente), que não pode distribuir remédios capazes de ajudar no combate à Aids, ainda não liberados, à época, nos Estados Unidos. Ron precisa tomar uma série de decisões para aquilo que o médico, Dr. Sevard (Denis O’Hare), lhe determina: seu prazo de vida é de 30 dias. Esta contagem inicial dos dias dados pelo médico oferece ao espectador uma espécie de luta contra o tempo, no que o diretor tem uma eficiente saída, intercalando imagens de Ron sendo excluído de determinados convívios sociais, um peso dado ao filme de forma certamente contida, mas ainda assim interessante, além da sua dependência de drogas. Além disso, acostumado ao uso dessas, o personagem principalmente se vê na condição da procura de drogas químicas para impedir a concretização do prognóstico hospitalar, e entra em contato com o AZT. Quando Ron encontra um transexual, Rayon (Jared Leto), a sua vida ingressará numa corrida contra o tempo não apenas para ele, mas para diversas pessoas.
Para quem não acompanhou o início da carreira de McConaughey, talvez tenha sido William Friedkin que o transformou em grande ator com Killer Joe. Mas quem realmente conseguiu aproveitar o ator em seu melhor momento foram Jeff Nichols em Amor bandido e Jean-Marc Vallée em Clube de compras Dallas. Aqui McConaughey tem o papel de sua trajetória, iniciada ainda nos anos 90, quando foi comparado a Paul Newman, em papéis de Contato e Tempo de matar, inclusive com um figurino e o chapéu de caubói que remetem – e Vallée não estava desatento a isso – à figura de Killer Joe, assim como à sua participação em Lone Star – A estrela solitária. Depois de participar de várias comédias românticas, nos últimos anos ele passou a se tornar um ator de papéis mais restritos. Embora McConaughey já inicie o filme bastante magro, sua transformação ao longo dele é bastante plausível, oferecendo ao espectador mais uma condição do que uma atuação modesta. Como este personagem, ele consegue uma empatia com o espectador, mesmo com suas atitudes voltadas a uma certa prepotência e displicência do trato pessoal.
Em nenhum momento, e nisto podem se basear algumas críticas, Clube de compras Dallas se torna pesado a ponto do que seria os efeitos da Aids. Jean-Marc Vallée tem isso como um ponto claro. Isto, na verdade, evita que o filme se transforme em uma exploração gratuita dos danos que ela ocasionou nos anos 80, e continua ocasionando. O filme prefere explorar como uma pessoa pode estar à beira da morte, num contexto sobretudo de a doença ser recente, e não poder se medicar de forma conveniente em razão da indústria farmacêutica vagarosa ao tentar lidar com, senão a cura, paliativos para a doença. Nesse caso, a presença da AFA é vital para se entender este monopólio da indústria e a figura do Dr. Vass (Griffin Dunne, excelente) uma presença interessante.

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Por outro lado, não se eleva o personagem de Ron a um pedestal inalcançável de ajuda humana – o objetivo dele é enfocar como a ajuda pode também estar ligada a um contexto equivocado, mas quando se lida com a morte os limites perdem sua localização. Clube de compras Dallas também lida com o fato de que no início da doença os homossexuais eram vistos como aqueles mais suscetíveis à doença, e o preconceito desencadeado por isso. É interessante, por exemplo, no início do filme Ron satirizar o fato de Rock Hudson, astro de Hollywood, ter morrido por causa da doença, logo revelando a inaceitação, e, ao longo do filme, ter de lidar com o próprio preconceito.
Deste modo, se por um lado o filme trata da história de Ron, a partir de determinado ponto, ficamos diante daquilo que dificilmente pode mudar e atinge diretamente a liberdade e as escolhas do indivíduo, a sua inserção na sociedade e como ela pode excluir o indivíduo quando a vida passa a valer apenas um pote de comprimidos. Todos os personagens acabam precisando atuar dentro de um contexto dito fora da lei para manter a condição diante da vida, e são destacados os trechos em que se busca a saída para o problema. A relação de Ron com o transexual Rayon, no entanto, poderia ter sido mais explorada por Vallée. Jared Leto impressiona no papel, entregando sua melhor atuação depois de Requiém para um sonho, mas lhe falta uma presença maior no filme, como um real acréscimo à narrativa central. Talvez seja este o maior impasse de Clube de compras Dallas, um filme que consegue apresentar uma proposta interessante em seu roteiro, com diálogos verossímeis e ágeis: a presença de Rayon acaba ficando, de certo modo, dispersa depois de um início muito vigoroso e sensível. Em paralelo a isso, o embate entre Ron e a AFA acaba também ficando deslocado, quase que um resquício no roteiro competente de Craig Borten e Melisa Wallack.
No entanto, as qualidades de Clube de compras Dallas são maiores do que seus problemas. Vallée tem um grande talento na montagem do filme (sua primeira hora, especialmente, é muito ágil, com movimentos de câmera interessantes) e consegue compor uma interessante similaridade entre a condição de Ron e o tempo que o caubói de rodeio precisa ficar em cima do touro, como se a vida estivesse por um fio e a exigência pessoal fosse enfrentar a independência da natureza. Se Clube de compras Dallas não tem um êxito completo, pelo menos não deixa de lidar com os conflitos internos e externos de um personagem a ser conhecido e não explora o tema de forma gratuita, beneficiado também pelo excelente elenco.

Dallas buyers club, EUA, 2013 Diretor: Jean-Marc Vallée Elenco: Matthew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner, Steve Zahn, Griffin Dunne, Denis O’Hare Roteiro: Craig Borten, Melisa Wallack Fotografia: Yves Bélanger Produção: Rachel Rothman, Robbie Brenner Duração: 117 min. Estúdio: Truth Entertainment

Cotação 3 estrelas e meia

Além da linha vermelha (1998)

Por André Dick

Além da linha vermelha.Filme

Filme de Terrence Malick com fotografia perfeita de John Toll (responsável pelo design visual de Cloud Atlas) e elenco grandioso, Além da linha vermelha, baseado em obra de James Jones, é o retrato de um momento da Segunda Guerra Mundial, desta vez do avanço de uma tropa – Companhia C – à Batalha de Guadalcanal, em 1942, para atacar os japoneses, mas aqui sob o ponto de vista existencial, ou seja, o personagem principal, Witt (Jim Caviezel) está longe, mas não tira seu pensamento do éden da Melanésia. O interessante é como num filme de guerra Malick consegue fotografar mínimos detalhes da natureza com tanta atenção. Para ele, mais ainda do que em seus filmes iniciais, dos anos 1970, a natureza é uma metáfora da própria existência humana.
Se Malick fez um drama de guerra filosófico, retomando uma trajetória de direção interrompida vinte anos antes, com Dias de paraíso, no mesmo ano Steven Spielberg empregou a meia hora mais impactante de sua carreira no início de O resgate do soldado Ryan, que inicia com a chegada de tropas americanas à praia francesa de Omaha, defendida por alemães, com imagens espetaculares e realistas, em que Tom Hanks interpreta o líder do pelotão. Depois dessa carnificina, ele é incumbido, com alguns de seus homens, a encontrar o último filho sobrevivente da família Ryan, para que não se abata uma tragédia completa sobre ela.
Basicamente, o filme relata essa busca. Mas Spielberg, com seu habitual talento para o manejo das câmeras e a fotografia cuidada, transforma este num dos filmes de guerra mais impressionantes, graças, também, à interpretação de todo o elenco, a começar pela de Hanks, que constrói um coronel com problemas físicos na mão e quer esconder isso da tropa. Ao final, quando chegam a uma cidadezinha em ruínas, preparam uma ofensiva contra nazistas que estão para invadi-la. É aí que Spielberg melhor mostra seu talento, num verdadeiro tour de force de som e efeitos especiais.

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Além da linha vermelha.Cena 4

O resgate do soldado Ryan constitui-se num filme de guerra com peso nostálgico e histórico (a cena inicial se completa na parte final), com uma certa dureza no que se refere à composição dos personagens – afinal, lida com um cenário de guerra –, mas que acaba preenchendo algumas lacunas com uma emoção calculada, rara em Spielberg, mais propenso a extravasar, o que ele faz com todos os tons permitidos a um diretor conhecido pelo olhar que tem sobre a ação. Diferente de Malick, que consegue, em Além da linha vermelha, por meio da guerra, retratar, de maneira mais densa e menos nebulosa, o que dela não faz parte. Os filmes, em sua abertura, se parecem, mas cada diretor toma suas escolhas diante das próprias características.
Malick é um cineasta que emprega os diálogos e os mínimos detalhes como o centro da ação. Desse modo, a preocupação do primeiro sargento Welsh (Sean Penn) em tirar Witt do Pacífico, da Melanésia, para reintegrá-lo no exército e guiá-lo para a ilha onde se dará o combate derradeiro, na Colina 210, peça-chave da artilharia japonesa, não passa de uma tentativa de convencer a si mesmo de que a guerra vale a pena (e certamente, ele sabe, não vale). O olhar do sargento interpretado por Hanks se direciona para a morte, e é dela que os personagens querem escapar em Além da linha vermelha, sem necessariamente conseguir.

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A percepção de Malick atravessa não apenas as paisagens, como o elenco, com uma série de astros em pontas (ficaram conhecidos os cortes que Malick impôs a atores consagrados naquele período, como Billy Bob Thornton). De maneira geral, a amplitude do cinema de Malick converge para um lugar filosófica, em que o amor e o vínculo entre as pessoas e seres humanos se desenham a distância ou em situações-limite. Embora haja sequências inteiras que remetem Além da linha vermelha a um gênero de guerra, parece que mais ainda Malick deseja uma filosofia das relações. O Tenente-Coronel Tall (Nick Nolte) fala com o general Quintard (John Travolta) – em momentos nos quais Anderson certamente se inspirou para compor O mestre –, mas a atenção de Malick está voltada para a paisagem. Do mesmo modo, Jack Bell (Ben Chaplin), está interessado mais em lembrar de sua mulher, Marty (Miranda Otto), num balanço e paisagens que seriam intensificadas em A árvore da vida e To the wonder. Temos ainda o capitão James Staros (Elias Koteas), o cabo Fife (Adrien Brody), o soldado Jack Bell (Ben Chaplin), o capitão Charles Bosche (George Clooney), o capitão John Gaff (John Cusack), o sargento Keck (Woody Harrelson), o sargento Maynard Storm (John C. Reilly) e o sargento McCron (John Savage), entre outros.
Todos os personagens têm em algum momento ligação entre si, mas Malick está certamente mais interessado no retrato que faz de imagens idílicas, do capim alto em que os soldados rastejam para atingir a colina inimiga, o cenário paradisíaco, com crocodilos, galhos em rios, ilhas minúsculas perdidas no meio do mar e árvores altas, que, no entanto, reservam uma sequência de tiros incalculável. A morte está sempre à espreita, mas, para esses personagens, a morte não significa exatamente o afastamento da natureza idílica? Para Malick, há uma presença divina em meio a um cenário caótico de guerra, e quando os homens precisam se deparar com algum corpo entregue ao verde das colinas tentam desviar seu olhar para o vento e os pássaros, ou para as lembranças, sempre ligadas a algum elemento da natureza: os raios de sol e as cortinas esvoaçantes de uma pintura de Andrew Wyeth. Não se trata, para Malick, de estetizar a guerra, mas de mostrar a solidão dela e o adensamento de trilhas solitárias em meio às árvores de uma mata fechada.

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Além da linha vermelha.Cena 1Se Coppola colocou quilos de napalm para explodir em Apocalypse now e Kubrick transformou a guerra num centro repleto de soldados sob o comando de prometer o cumprimento da morte em nome da corporação, Malick contorna todos com o simples olhar de dentro da guerra e sua reflexão, caracterizada mais pelo olhar estupefato do que pela certeza. A cada tomada de atitude em relação ao combate e cada acampamento montado, Malick está tratando da impermanência da humanidade e do modo como ela se adapta à loucura, mas apenas a controla por meio de lembranças, até que consiga aceitar, finalmente, que não passa de uma pequena ilha solitária na corrente e contra um horizonte não necessariamente aberto. O passado é tão presente quanto a invasão a Guadalcanal, pois é preciso uma justificativa, mesmo que mínima, para que se tenha chegado ali com vida. Malick não consegue retribuir esta justificativa para o espectador diante do peso dramático dos componentes que seleciona ao longo de sua obra, e não consegue se comprometer com o vazio que passa a existir depois da derrocada de um grupo de combatentes. Há um sentido forte de afastamento em Além da linha vermelha como havia sobretudo em Dias de paraíso, e é ele que consegue, ao mesmo tempo, aproximar os personagens de um Éden almejado.

In the red line, EUA, 1998 Diretor: Terrence Malick Elenco: Nick Nolte, Jim Caviezel, Sean Penn, Elias Koteas, Ben Chaplin, Dash Mihok, John Cusack, Adrien Brody, John C. Reilly, Woody Harrelson, Miranda Otto, Jared Leto, John Travolta, George Clooney, Nick Stahl, Thomas Jane, John Savage, Will Wallace, John Dee Smith, Kirk Acevedo, Penelope Allen, Kazuyoshi Sakai, Masayuki Shida, Hiroya Sugisaki, Kouji Suzuki, Tomohiro Tanji, Minoru Toyoshima, Terutake Tsuji, Jimmy Xihite, Yasuomi Yoshino, John Augwata Produção: Robert Michael Geisler, Grant Hill, John Roberdeau Roteiro: Terrence Malick Fotografia: John Toll Trilha Sonora: Hans Zimmer Duração: 170 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Fox 2000 Pictures / Phoenix Pictures / Geisler-Roberdeau

Cotação 5 estrelas