King Kong (2005)

Por André Dick

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A partir de O senhor dos anéis, sempre irá se esperar muito de Peter Jackson. Nesta refilmagem de King Kong, depois das versões de 1933 e de 1976 (conhecida pelas atuações de Jeff Bridges e Jessica Lange), o cineasta ainda sofre a influência de ter realizado uma das séries mais fantásticas de todos os tempos, o que se percebe pelo ritmo que emprega, dispondo detalhes necessários para sua empreitada difícil. O grande personagem que se apaixona por uma mocinha (interpretada nesta versão por Naomi Watts) numa ilha de aborígenes só poderia render mais imagens extraordinárias para este cineasta. Como um designer e um artesão, capaz de mesclar elementos fantásticos, ele não desaponta, mesmo que seja apenas numa segunda revisão que se perceba melhor a forma como ele optou por narrar a fabulosa história.
O filme inicia na Depressão dos anos 1933, numa referência ao primeiro filme, mostrando animais no zoológico de Nova York. Todo o clima que ele prepara para a chegada à ilha de King Kong, a Ilha da Caveira – com o navio carregando mercenários e uma equipe precária de cinema, tendo à frente um cineasta inescrupuloso, Carl Denham (Jack Black, o único deslocado), acompanhado de seu assessor (Colin Hanks), o capitão Englehorn (Thomas Kretschmann), seu auxiliar (Evan Parke), o protegido deste (Jamie Bell, de As aventuras de Tintim) e um casal à la Hollywood, Burt Baxter (Kyle Chandler) e Ann Darrow (Naomi Watts) em um filme roteirizado por um escritor que pensa mais na arte do que no dinheiro, Jack Driscoll (Adrien Brody), com direito a pores do sol – resulta em algo espetacular quando vemos o navio ser lançado a enormes rochedos que circundam a ilha depois de uma neblina. Mesmo que seja um tanto demorado.

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Esta parece ser a única falha do filme de Jackson: a demora em situar os personagens no cenário, afinal, mitológico para as três versões de King Kong. Se a versão produzida por De Laurentiis nos anos 70 desvirtuava um pouco o motivo da ida para a ilha (estavam procurando por petróleo), aqui se retoma, portanto, a equipe de filmagens se deslocando para um lugar selvagem, intocado pelo homem, com a colaboração decisiva da fotografia excepcional de Andrew Lesnie (O senhor dos anéis e O hobbit).
O sequestro da atriz Ann Darrow para ser oferendada a Kong é uma das passagens mais fantasiosas do filme, e a tribo lembra os orcs de O senhor dos anéis, o que não chega a ser uma analogia interessante para este caso, mas vale porque depois dela conhecemos o Kong mais realista das três versões – embora saibamos que esteja por trás Andy Serkis (que faz o cozinheiro do navio e o gestual de Gollum) e as sequências lembrem sobretudo a versão de 1933. Percebemos, em alguns momentos, as maquetes do filme, também o CGI é evidente, mas a sinestesia das imagens de Jackson, como em O senhor dos anéis, passa a vigorar, como na corrida dos brontossauros à beira de um abismo. E, nesse sentido, o filme acaba mostrando o gorila gigante como um personagem mais humano do que os anteriores, capaz de enfrentar um Tiranossauro Rex para salvar a mocinha, a qual passa a proteger. Nesta aproximação, que começa com Darrow imitando os passos de Charlie Chaplin, com uma bengala, no alto de uma colina, Jackson tenta desenhar uma espécie de núcleo emotivo, o que consegue efetivamente na analogia entre o pôr do sol e o nascer do sol, em momentos diferentes. Enquanto isso, Driscoll, mostrando uma faceta de herói, segue na pista de Darrow e do gorila gigante, mostrando a maior transformação do filme. A obsessão de Denham em realizar as filmagens também ganha foco, mesmo que em alguns momentos isso possa ser visto como constrangedor, sobretudo pela atuação deslocada de Black.

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A verdade é que o filme vai em ritmo alucinante do primeiro ao último minuto, mesmo com sua versão inserida de Jurassic Park, com a aparição de figuras pré-históricas, principalmente quando a tripulação do navio enfrenta uma determinada situação, quando se depara com o desconhecido, não necessariamente funcionando, por outro lado, nos momentos em que se tenta desenhar uma lição de moral, tudo levado pela música de James Newton Howard.
E King Kong é exatamente isso: o encontro com algo desconhecido com a estranheza: sua grandiosidade comum. Mas é também a porta de descoberta para as coisas mais comuns: a atriz que deseja o estrelato poderia se contentar com um pôr do sol numa ilha ou na cidade grande? O dramaturgo conseguiria reproduzir em suas peças a realidade da perda? Sentir também é isso, nos fala o diretor. Se em alguns momentos ele cai na pieguice (como a cena romântica do Central Park), é possível sentir, nisso, uma certa preservação dos anos 30, quando se passa a história, e a queda econômica também simboliza a queda de um poder de ganância. Não tememos em falar de spoilers, pela mitologia que cerca King Kong desde sua primeira versão, mas Jackson, aqui, consegue mesclar a chegada de Kong à cidade com elementos da história contemporânea dos Estados Unidos. Poucos como Peter Jackson conseguiriam trazer uma sequência final como aquela, tanto na maneira com que foi filmada quanto no sentimento especial que suscita.

King Kong, Nova Zelândia/EUA/Alemanha, 2005 Diretor: Peter Jackson Elenco: Naomi Watts, Jack Black, Adrien Brody, Thomas Kretschmann, Colin Hanks, Andy Serkis, Evan Parke, Jamie Bell, Lobo Chan, John Sumner, Craig Hall, Kyle Chandler Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: James Newton Howard Duração: 188 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Universal Pictures / WingNut Films / Big Primate Pictures / MFPV Film

Cotação 5 estrelas

Chamada.Filmes dos anos 2000

 

Quarteto fantástico (2015)

Por André Dick

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Se este ano a Marvel já lançou dois filmes de heróis muito interessantes, Vingadores – Era de Ultron e Homem-Formiga, talvez aquele que mais despertasse curiosidade seria a nova tentativa de trabalhar com Quarteto fantástico. Não deixa de ser uma grande dificuldade o filme ter estreado no mesmo ano de duas das melhores produções já efetuadas pela Marvel, principalmente aquela que revela o Homem-Formiga. Já havia sido feita uma adaptação com esses personagens em 2005, com Jessica Biel e Chris Evans, e em 2007 uma sequência, no entanto ambas redundaram numa grande decepção. Este novo Quarteto fantástico ainda conta com alguns nomes em ascensão, como os de Miles Teller, de Whiplash e O maravilhoso agora, Michael B. Jordan, de Fruitvale Station, acompanhados de Jamie Bell, já conhecido desde Billy Elliott, e Kate Mara.
A história se inicia com Reed Richards (Owen Judge) e Ben Grimm (Evan Hannemann) ainda crianças, quando se conhecem no colégio. Eles passam a fazer uma experiência no porão da casa de Ben, onde funciona um ferro-velho, com um teletransportador. O resultado é um estouro e as luzes da cidade se apagando. Isto, no entanto, é o ponto de surgimento de uma parceria que chegará à feira de ciências do colégio, quando os amigos, já crescidos (e interpretados por Miles Teller e Jamie Bell, respectivamente), são visitados por Franklin Storm (Reg E. Cathey), da Fundação Baxter, que cuida de jovens gênios, e sua filha adotiva Sue (Kate Mara). A eles se juntam Victor von Doom (Toby Kebbell), um técnico brilhante de computação, e Johnny Storm (Michael B. Jordan), filho de Franklin – todos agora em busca da passagem para outra dimensão.

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O experimento, segundo Dr. Allen (Tim Blake Nelson), será usado para enviar um grupo da Nasa para a dimensão paralela, a que se dá o nome de Planeta Zero – sem a presença dos jovens que a desenvolveram, o que cria um desapontamento. A partir daí, o grupo procura um meio de superar este afastamento da possibilidade de fazer a jornada – o que poderá resultar em algo que definirá suas vidas e suas formas humanas para sempre, e para quem acompanha o Quarteto Fantástico sabe que essas formas podem tanto remeter ao fogo e à terra quanto à elasticidade e à invisibilidade.
Todos os elementos de Quarteto fantástico indicariam uma narrativa apegada aos filmes de herói, e isso naturalmente acontece com a tentativa de aproximação dos personagens. Porém, e já anunciavam as declarações do diretor Josh Trank, a Fox não se interessou por sua versão original e decidiu fazer uma montagem sem sua autorização. Além disso, Trank teria tido dificuldades em finalizar o filme, ou seja, é difícil lidar com uma obra que poderia ser muito melhor e se mostra com dificuldades por claros problemas de filmagem.
O que o espectador vê parece apenas parte de um roteiro maior: as histórias algumas vezes não se estendem o necessário, prejudicando o inter-relacionamento entre os personagens, e a agilidade da montagem lembra mais a de um trailer. Ainda assim, Quarteto fantástico não é tão decepcionante quanto o foi Godzilla no ano passado ou Jurassic World este ano. Alguns efeitos de Quarteto fantástico parecem inacabados, não tendo passado suficientemente pela pós-produção, no entanto há a preservação de um design de produção por vezes notável e uma trilha sonora muito boa de Beltrami e Phillip Glass.

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E Josh Trank tem uma visão bastante inspirada em outros filmes, principalmente Super 8 (a amizade de Reed e Ben no colégio), A mosca, de David Cronenberg (a concepção da máquina que transporta os personagens), assim como Hulk (a solidão de Grimm a partir de determinado momento), O homem sem sombra, de Paul Verhoeven (quando mostra os personagens presos à cama depois de se transformarem), Fogo no céu (o desespero de Reed diante de sua condição, observado por cientistas ameaçadores), com lembranças ainda de Prometheus e O planeta dos macacos. Trata-se de um diretor com conhecimento da história dos filmes de ficção científica. Ele consegue oferecer a esses personagens um lado mais soturno, principalmente quando Grimm passa a ser explorado pelo exército em áreas de guerra. Não há diversão em ser herói a princípio, e nisso reside o principal afastamento de Quarteto fantástico do seu público-alvo. Particularmente, apesar das versões anteriores, é a primeira vez que olhei com curiosidade para a história do quarteto.
Trank sintetiza a narrativa por meio de uma escuridão em que os personagens pouco se revelam – para todos eles, ingressar na Fundação Baxter pode ter tirado a juventude que pareciam percorrer por meio de certa ingenuidade. Em termos de elenco, é interessante como Teller consegue dar uma boa caracterização a seu personagem, enquanto Mara opta pela gravidade e B. Jordan por certa desconcentração. Rejuvenescer o elenco é uma boa saída para ligar esses jovens a um ambiente de computação desenfreada e a pesquisas científicas que misturam melhorias para o planeta ou administração de um poderio militar.

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Pelo potencial de direção, roteiro e elenco em Quarteto fantástico haveria mais história a ser explorada, como a de Reed, que a partir de determinado momento precisa ver seu amigo transformado num monstro de pedras e a cobrança por tê-lo abandonado quando havia prometido salvá-lo – e há em algumas tomadas do filme de Trank um clima de pesadelo inabitual para este tipo de produção. Mas essa sequência já faz parte de um momento em que a trama é, em parte, desmantelada por uma explicação de passagem no tempo, talvez necessária para impedir novas indagações, sem impedir, ainda assim, que o espectador acompanhe a história até o final. E, ao mesmo tempo que o drama da família Storm também poderia ser melhor desenvolvido, parece que este primeiro episódio da nova franquia ainda tem espaço para um clímax que lembra outros filmes da Marvel. Quarteto fantástico parece estar muito longe de ser um grande filme, mas, dentro de suas limitações, consegue apontar um reinício para esses personagens com propriedades realmente interessantes.

Fantastic Four, EUA, 2015 Direção: Josh Trank Elenco: Miles Teller, Michael B. Jordan, Kate Mara, Jamie Bell, Toby Kebbell, Reg E. Cathey, Tim Blake Nelson, Joshua Montes, Dan Castellaneta, Owen Judge, Kylen Davis, Evan Hannemann, Chet Hanks, Mary-Pat Green, Tim Heidecker, Mary Rachel Dudley  Roteiro: Simon Kinberg, Jeremy Slater, Josh Trank Fotografia: Matthew Jensen Trilha Sonora: Marco Beltrami, Philip Glass Produção: Gregory Goodman, Hutch Parker, Matthew Vaughn, Simon Kinberg Duração: 106 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Genre Films / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 3 estrelas

As aventuras de Tintim (2011)

Por André Dick

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Tintim é um menino repórter com característica detetivesca, enquanto Indiana Jones era um arqueólogo. Foi justamente depois de Os caçadores da arca perdida que Spielberg tomou conhecimento do personagem de Hergé, ao qual compararam Indiana (em 1983, Spielberg iria conhecer Hergé durante as filmagens de Indiana Jones e o templo da perdição quando este veio a falecer). Spielberg, no entanto, havia prometido ao criador do Tintim que adaptaria as aventuras do personagem para o cinema. O resultado é surpreendente, com potencial para resultar em várias imitações e continuações (apesar de não ter sido um sucesso de bilheteria nos Estados Unidos). A animação é feita sobre atores reais, mas nem por isso deixa de ser animação: pelo contrário, parece ser uma animação ainda mais densa (não lembro de outro desenho que tenha tanta profundidade nas imagens, quanto aos detalhes e à ambientação). Não há como comparar Tintim com desenhos recentes e sem o mesmo toque de criatividade, apenas tentando ingressar no que a Pixar e a Disney entregaram em momentos altos.
Os caçadores, como se sabe, é a aventura que consagrou o arqueólogo Indiana Jones como o herói da década de 1980, uma espécie de 007 sem sustentação política que dá aulas de História, graças, em grande parte, à atuação de Harrison Ford. Na primeira jornada, já começa em plena ação, sendo perseguido por uma tribo indígena depois de apanhar uma relíquia numa caverna cheia de pistas falsas – essa introdução é memorável. Logo em seguida, procurado pelo governo dos Estados Unidos na universidade onde dá aula, ele vai em busca da arca perdida, onde Moisés teria deixado a Tábua dos Dez Mandamentos. Enfrentando uma trupe de nazistas, que tem como arqueólogo o francês Belocq, ele ainda arranja tempo para namorar a divertida heroína (Karen Allen, que regressaria em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal), que reencontra num bar com mau destino depois de uma sequência de lutas divertidas e violentas.
A passagem dele pelo Egito, em busca do objeto divino, é a melhor parte do filme, mostrando como Spielberg está em busca não apenas da aventura, mas do mistério de relíquias históricas. As idas e vindas do roteiro (não sabemos se a mocinha escapou de uma explosão, por exemplo) são exploradas ao limite, entretanto sem menosprezar a inteligência do espectador. Mais do que um professor e aventureiro, Indiana Jones encarna a tentativa de encontrar a história na rotina e, por isso, apesar de parecer simples, é um personagem complexo. Ele e, claro, seus medos: de cobra, sobretudo. Seu visual (um arqueólogo de chapéu e chicote) remete aos filmes de infância, ainda que não sabemos bem a quais. E alguém que precisa se deparar não só com o roubo histórico, como também com o próprio nazismo e a obsessão de Hitler em tomar contato com o que, em sua visão, é capaz de deixá-lo com mais poder ainda.

As aventuras de Tintim

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Tão bom ou melhor que os antigos seriados de TV, arrebatou cinco Oscars (montagem, direção de arte, som, efeitos sonoros, efeitos especiais), tendo sido ainda indicado aos Oscars de melhor filme, direção e roteiro (de George Lucas e Phillip Kaufmann, diretor de A insustentável leveza de ser), fotografia e músico (mais um trabalho irrepreensível de John Williams).
Tintim (Jamie Bell), que para Spielberg é um reingresso naquele universo de Os caçadores da arca perdida (e não tanto da série Indiana Jones subsequente), para descobrir um mistério relacionado à réplica em miniatura de um galeão, vai até um navio de verdade, com seu cão Milu, encontrando o capitão Haddock (com movimentos de Andy Serkis captados para a transformação em desenho), que passa quase o tempo todo sem sobriedade alguma. Além do seu humor, Haddock é a peça-chave para conectar o passado e o presente, histórias de piratas e tripulações, mas, sobretudo, de um mistério familiar. Depois, enfrentam o mar e o deserto, além do vilão Sackharine (Daniel Craig). A maneira como Spielberg lida com a amizade de Tintim e Haddock é, aliás, exemplar. Ambos os personagens mostram as aspirações deste universo entre o desconhecido e o real, e representam parte da trajetória de Spielberg: entre o menino curioso em descobrir detalhes que possam levá-lo a um tesouro (o que já vimos em Os Goonies) e um personagem como Haddock, que precisa encontrar seu passado e sua herança familiar para, enfim, conseguir mais clareza em sua trajetória, o que acontece numa fabulosa viagem pelo Saara, com uma ação inesgotável.
Enquanto os personagens centrais vão parar em lugares diferentes, uma dupla de detetives, Dupond e Dupont (Simon Pegg e Nick Frost), em Bruxelas, investiga quem pode ser um batedor de carteiras. Esta faceta de humor é dificilmente encontrada na trajetória de Spielberg (apenas quando o roteiro não costuma ser dele, como na série Indiana Jones ou em E.T. – O extraterrestre). Contudo, lá está Milu, um cãozinho com destreza capaz de dialogar com aquele que desconfia da presença do extraterrestre na casa de Elliott. E lá estão os vilões que não querem deixar o personagem sossegar e, muito mais, como a família Fratelli, em Os Goonies, não estão para brincadeira.

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Há, também, uma parte do filme passada no Marrocos que evoca a parte de Os caçadores passada no Egito, inclusive com a cenografia semelhante, captada pela fotografia notável do habitual colaborador de Spielberg, Janusz Kaminski, e a trilha de John Williams (que ressoa a de Prenda-me se for capaz).
Além do humor, seu excesso de ação garante boa diversão – é de se lembrar, também, a presença de Peter Jackson, de O senhor dos anéis, na produção. Alguns reclamam que o personagem principal não tem vida, ou não se tem nenhuma informação sobre sua família, ou o que a ação é absolutamente inverossímil, mas na verdade se esquece que estamos diante de uma fantasia, em que os personagens de Hergé ganham vida em estilo adequado e, embora não totalmente fiel (pois Spielberg também emprega suas características na montagem da narrativa), ainda assim adequado. Talvez nenhum outro cineasta conseguiria adaptar tal personagem como o faz Spielberg. Como Indiana Jones em 1981 – cujo lado familiar só viria mais à cena em Indiana Jones e a última cruzada.
Excetuando algumas sequências de maior violência para as crianças, este filme de Spielberg é um dos seus melhores nos últimos anos (talvez encontre correspondência apenas com suas peças dos anos 80, excetuando, recentemente, Prenda-me se for capaz). Além disso, para quem pode assisti-lo em 3D, pôde ver o quanto ele foi bem utilizado, ao contrário de em outros filmes, visando apenas o comércio. É impressionante como Spielberg consegue converter em espetáculo o que costuma ser apenas um acréscimo, e como consegue ser mais efetivo do que em Cavalo de guerra, com seu classicismo mal elaborado e mesmo, sem soar pejorativo, antiquado, e como lida melhor com a aventura do que em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal. Tintim representa o reencontro de Spielberg com a vertente que o tornou conhecido e reconhecido.

The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn, EUA/Nova Zelândia, 2011 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Daniel Craig, Simon Pegg, Jamie Bell, Andy Serkis, Cary Elwes Produção: Peter Jackson, Kathleen Kennedy, Steven Spielberg Roteiro: Steven Moffat, Edgar Wright, Joe Cornish Fotografia: Janusz Kaminski Trilha Sonora: John Williams Duração: 108 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Amblin Entertainment / The Kennedy/Marshall Company / WingNut Films / Columbia Pictures / Paramount Pictures / Nickelodeon Movies / Hemisphere Media Capital

Cotação 4 estrelas