Abaixo de zero (1987)

Por André Dick

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Alguns admiradores de livros adaptados para o cinema muitas vezes não querem seus personagens sendo utilizados por um roteirista e um diretor com visão própria. O escritor Bret Easton Ellis, autor dos livros que deram origem a Psicopata americano (a sátira ao universo executivo com Christian Bale) e Regras da atração, é um daqueles que possui mais leitores com têm resistência às adaptações de sua obra. Nada que se compare com a recepção de Abaixo de zero, filme dos anos 80, com Andrew McCarthy, então um ator de produções como A garota de rosa shocking, Jami Gertz – na mesma época, namorada do vampiro de Os garotos perdidos – e Robert Downey Jr. Dirigido por Marek Kanievska, que anos antes havia feito Memórias de um espião (estreia de Colin Firth), Abaixo de zero foi recebido, com raras exceções – justamente de dois dos maiores críticos, Roger Ebert, que o colocou em 11º na sua lista de melhores de 1987, e Janet Maslin – como problemática.
Imagine-se que numa época em que o cinema sobre adolescentes de John Hughes estava em alta e, apesar de sua qualidade, pouco lidava com uma concepção mais perturbada da fase que enfocava, principalmente em Gatinhas e gatões, Clube dos cinco e Curtindo a vida adoidado, a adaptação de Abaixo de zero tenha causado calafrios pela visão menos luminosa da juventude. A história mostra Clay Easton (McCarthy), que se formou com a namorada, Blair (Jami Gertz), e o amigo Julian Wells (Downey Jr.), e foi o único deles a seguir para a universidade. Por causa de uma descoberta transformadora, ele se afastou da namorada. No entanto, nas férias da universidade, está de volta ao lugar de onde veio, Beverly Hills, em Los Angeles, e reencontra os dois amigos numa festa cuja entrada é preenchida por inúmeros televisores, com imagens de videoclipes. Ele está para descobrir, por meio de Blair, que Julian se tornou um usuário frequente de drogas e deve 50 mil dólares ao traficante Rip (James Spader).

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Abaixo de zero é o filme que, sem o humor de John Hughes, traz uma visão muito impactante de sua época, uma mescla do poder levado pela MTV aos jovens com a questão de adentrar ou não no universo de constituir uma família ou trajetória acadêmica. Não apenas Downey Jr. surgia à época em filmes como Mulher nota mil (o filme mais fraco de Hughes) e De volta às aulas (como um excêntrico), como Spader se mostrava o principal vilão de sua geração, depois de A garota de rosa shocking (quase três décadas antes de emprestar a voz a Ultron). O diretor Kanievska, apesar do frequente uso de canções pop, uma característica dos anos 80, aposta mais numa trilha muito bela e atmosférica de Thomas Newman, com toques de melancolia, capaz de dialogar com esses personagens. Essa atmosfera é ampliada ainda mais pela excelente fotografia de Edward Lachman, cuja maior qualidade é captar um determinado momento, em Beverly Hillls, quando todos parecem querer ser astros e se comportam como tal – inclusive Clay em seu carro vermelho, viajando à noite com os amigos. Imagine-se algo que Sofia Coppola tentou em Bling Ring e não conseguiu justamente pelo desinterese que demonstrava pelos personagens.
Kanievska utiliza uma dramaticidade muito interessante não apenas nas cenas entre McCarthy e Downey Jr., que se complementam – o primeiro pela discrição, o segundo pelas brincadeiras –, mas no toque dado à resolução delas. Num momento em que Clay e Julian se encontram num parque, onde um menino brinca numa cadeira de balanço, eles voltam a um período em que se conheceram, idílico, antes desse universo conturbado com o qual se envolveram, como se voltassem no tempo. A cena é realizada de maneira talentosa por Kanievska, sobrepondo dois tempos diferentes.

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Para acentuar essa tentativa de voltar a um período inesquecível, o reencontro dos amigos acontece no período do Natal em que as famílias habitualmente se reúnem – porém, na obra de Kanievska, isso não acontece do modo mais previsível, e ele vai acumulando luzes da noite e os de lâmpadas, como Kubrick faria no excepcional De olhos bem fechados, embora este de forma ainda mais estilizada. Há uma sensação, na atmosfera de Abaixo de zero, que remete à outra adaptação de uma obra de Ellis, Regras da atração, também bastante criticado e excepcional. Tudo remete a algum sentimento de perda de um período ou a falta de vitalidade para enfrentar questões que se acumulam com o peso da idade.
Do mesmo modo, é angustiante uma conversa de Julian com seu pai, Benjamin (Nicholas Pryor, excepcional), numa cancha de tênis, e se pergunta como Downey Jr. não recebeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante por sua atuação, a mais talentosa de sua trajetória ao lado daquela memorável de Chaplin. É notável o modo como o diretor acompanha o drama de Julian, ao mesmo tempo que coloca o casal, em determinado momento, numa espécie de universo paralelo (em que a música pop se contrapõe a uma familiar tocando piano), e depois andando às margens de uma piscina ou atrás dos vidros de uma mansão com arquitetura moderna: o diretor mostra que esses personagens parecem transparentes quando, na verdade, estão escondendo um drama particular que nem mesmo o limite da casa pode evitar. Blair é a peça-chave desta concepção: querendo se transformar numa modelo de respeito, ela não consegue transferir para si nenhum modelo de equilíbrio diante da própria situação e, quando pede por ajuda a Julian, está pedindo por ajuda a si mesma.

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Embora o filme não acentue a parte dramática, funcionam de maneira adequada as cenas em que Blair, Julian e Clay estão reunidos, pois, mesmo sem muitas informações a respeito desses personagens, há um elo de ligação plausível para o andamento da história. E, quando Rip aparece, Spader joga com seu estilo ameaçador, o elemento que pode afetar a amizade e trazer o problema central. Finalmente, Kanievska entende que o foco é o drama desses jovens, de suas responsabilidades e da rebeldia até certo ponto programada de antemão.
Em Abaixo de zero, existe, igualmente, um constante contraste entre a noite e o dia; as cenas noturnas parecem não apenas de um filme mais melancólico, como as cenas de sol e claridade (especificamente na cena em que Julian está deitado em um rochedo à beira-mar) parecem despertar também os personagens. A iluminação das casas noturnas ou dos restaurantes possui uma elegância incomum nos filmes do período, um cuidado estético que corresponde à caracterização de cada peça narrativa. As trocas ágeis de diálogos, embora não muitos, se deve claramente à presença de Harley Peyton no roteiro – que, anos depois, seria um dos responsáveis pela parte criativa de Twin Peaks, que elabora nos anos 90 o que Abaixo de zero subentende nos anos 80, por baixo de uma atmosfera ingênua e maravilhosa de uma Hollywood sonhada. Depois de uma condução muito forte, no embalo das atuações de McCarthy, Gertz e, principalmente, Downey Jr., não se importa que o filme termina com uma nota destoante. Basta que Abaixo de zero encontre o seu público quase três décadas depois, pelo impacto e qualidade.

Less than zero, EUA, 1987 Diretor: Marek Kanievska Elenco: Andrew McCarthy, Jami Gertz, Robert Downey Jr, James Spader, Michael Bowen, Nicholas Pryor, Tony Bill Roteiro: Harley Peyton Fotografia: Edward Lachman Trilha Sonora: Thomas Newman Produção: Jon Avnet Duração: 100 min. Distribuidora: Fox

Cotação 5 estrelas

Vingadores – Era de Ultron (2015)

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Desde o grande sucesso do primeiro Os vingadores, a mobilização dos estúdios Disney e da Marvel para os filmes dos super-heróis ligados a esta franquia tem sido mais assídua. Logo após os acontecimentos que colocaram Nova York em estado de alerta para possíveis invasões vindas do espaço, foi lançado Homem de ferro 3, seguido por Thor – O mundo sombrio e, no ano passado, Capitão América 2 – O soldado invernal, com a presença também da Viúva Negra. Além desta e do Gavião Arqueiro, Hulk também continua ainda sem o filme próprio com Mark Ruffalo, levando em conta que tem as versões com Eric Bana e Edward Norton. Se Os vingadores continua ainda sendo confundido com uma marca, mais do que uma obra ou adaptação de história em quadrinhos de Stan Lee, e se queira às vezes considerá-lo como mais um blockbuster, deve-se dizer que Vingadores – Era de Ultron traz Joss Whedon ainda tentando lidar com suas primeiras impressões como diretor, mesmo que nesse intervalo tenha feito Muito barulho por nada, uma adaptação moderna de Shakespeare e em preto e branco. Whedon, antes de ganhar esta oportunidade, era mais conhecido como o criador da série Buffy – A caça-vampiros e roteirista de Toy Story, e, de certo modo, tem um manancial de escolhas depois de realizar a primeira parte, entre elas a de lidar com atores que possuem uma carreira própria e mesmo em filmes ditos de público mais restrito, como Scarlett Johansson em Ela e Sob a pele; Ruffalo em Margaret e Mesmo se nada der certo; e Hemsworth em Rush e Hacker. Isso oferece a ele um caminho interessante, de colocar atores não normalmente vistos neste gênero – apesar de também terem suas trajetórias ligadas a ele, como Hemsworth – no centro da ação.

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Na primeira parte de Vingadores, Whedon revela uma determinada tentativa de já colocar todos os personagens em ação, literalmente invadindo a tela num salto em conjunto, numa missão a Sokovia, país fictício do leste europeu, em combate ao Barão Wolfhang von Strucker (Thomas Kretschmann). Ao invés de coordenar um grupo de experiência com outro intuito – político –, o barão Strucker está à frente de uma equipe que tem usado o cetro usado por Loki e como resultado de sua experiência com humanos, ligada à Hydra, os gêmeos Pietro (Aaron Taylor-Johnson) e Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) adquirem super-poderes. Esta passagem por Sokovia antecede uma série de experiências que o próprio Stark tentará fazer, com a ajuda do Dr. Banner, o que pode colocar em risco não apenas o seu grupo, como a própria humanidade – e aqui Whedon desliza para uma discussão que vem desde o primeiro filme de Homem de ferro: até onde pode ir a ciência para que não se coloque em risco a humanidade, envolvendo Jarvis (Paul Bettany), o sistema com inteligência artificial de Stark.
No entanto, os vingadores estão dispostos a fazer uma pausa, e compartilham uma festa na mansão de Stark; nesta longa sequência, desenham-se alguns caminhos tanto para a narrativa presente quanto para os próximos, que incluem não apenas Steve Rogers, o Capitão América, com seu amigo Sam Wilson (Anthony Mackie), que aparece em O soldado invernal, como também a relação entre Bruce Banner e Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), e a amizade de Stark por James Rhodes (Don Cheadle). Há uma tentativa clara de Whedon, também, em esclarecer o paradeiro de outros personagens que não aparecem aqui, como Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e Jane (Natalie Portman) e, nessa preocupação, se esvaem alguns minutos que certamente não compreenderiam a história, pois se trata de uma explicação estranha, à medida que, por um lado, pode não ter havido espaço no roteiro ou simplesmente as duas atrizes não puderam interpretá-las.

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Essas explicações, ao mesmo tempo que soam necessárias para quem acompanha todos os filmes de Marvel, fazem com que o roteiro se desvie em alguns momentos de seu foco principal. Mas, se há uma qualidade que já havia ficado clara com o primeiro Os vingadores é que Whedon tem uma disposição de desenvolver esses personagens em dois planos: o da mitologia e o da humanidade. Desta vez, ele coloca os heróis não apenas diante de uma ameaça enigmática, que pode colocar a ciência em xeque, como também em contrapor e unir todos em relação aos gêmeos. Nisso, há imagens estranhas do passado ou possível futuro de cada um, o que remete a Linha mortal, em que jovens faziam experiências com a morte e eram atormentados por visões estranhas e que poderiam, inclusive, defini-los, o que era incentivado no primeiro filme por Philip Coulson (Clark Gregg). Embora este recurso se fundamente em desvios da trama, esses acabam servindo como impulso para uma das melhores sequências, que se liga a um ambiente campestre e no qual podemos ter uma divisão da trama antes de uma grande contribuição de Whedon para o cinema de ação (além de criar um diálogo com a ficção científica Interestelar, em que um aviador se escondia na pele de um fazendeiro e poderia ajudar a humanidade a se salvar de um desastre). Se as cenas de ação dos filmes dos heróis isolados parecem interessantes, nenhuma soa tão grandiosa quanto aquelas que víamos em Os vingadores.
Nesse sentido, Vingadores – Era de Ultron não fica a dever para seu antecessor: enquanto seu primeiro ato parece preparar a história para algo maior, como o primeiro, as duas partes finais soam tão boas ou ainda melhores do que as da primeira parte, não apenas pelo fluxo oferecido por Whedon – em alternar explosões e perseguições com um verdadeiro sentimento de perigo e humanidade empregada nas sitações –, como em igual intensidade pelo visual magnífico, que soa original e espetacular, com o auxílio da fotografia de Ben Davis (o mesmo de Guardiões da galáxia), e pela atuação do elenco,

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Em meio às sequências de ação, há uma sucessão contínua de traços de humor, no entanto, pendendo mais para a série Thor do que para o terceiro Homem de ferro, eles conseguem dar uma solidez para a narrativa. Whedon tem uma agilidade grande em captar essas cenas sem que elas pareçam exageradas ou desprovidas de algum elemento humano, e neste ponto o que poderia ser apontado como desconexão entre algumas linhas de roteiro se transforma naquilo que é essência: esses heróis, para Whedon, são mitológicos e trabalham com as mesmas emoções básicas, sobretudo o medo da morte e de realmente transformar o mundo. É interessante como, aqui, todos ganham linhas de roteiro apontando esse sentimento, sobretudo Romanoff, Banner, Rogers e Stark: eles estão, de certo modo, sempre ligados ao passado – e a única maneira apontada para uma condição de satisfação humana é aquela do Arqueiro. Este, inclusive, ressoa uma fala de Coulson do primeiro Os vingadores quando trata do uniforme feito para Steve Rogers. Mas, se Banner e Stark parecem sempre estar com o pensamento no que podem criar de novo no laboratório, Rogers se encontra encapsulado nos anos 40, dos quais foi obrigado a se distanciar, assim como os gêmeos não conseguem esquecer a imagem gravada na infância do nome Stark, e Romanoff tem receio do que as visões podem lhe mostrar sobre ser uma assassina letal. No caso dela, acalmar Banner não é apenas uma ironia do destino quando ela, de fato, não atinge nenhuma tranquilidade.
Todos os super-heróis conseguiram desenvolver também, com a ajuda dos filmes próprios, uma personalidade características, e são auxiliados pelas atuações de Johansson, Hemsworth e Evans, além de Ruffalo e Renner (que no anterior passava quase toda a metragem sob domínio de Loki). Downey Jr. não desaponta no papel, entretanto é cada vez mais visível seu desconforto, assim como no terceiro Homem de ferro. Não apenas pelo roteiro, é exatamente o personagem de Banner que mais se destaca, muito pela presença de Ruffalo, cuja atuação mais interessante é aquele empregada em Zodíaco, mas que consegue, aqui, seguir na linha de Bill Bixby, da série de TV.

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Embora faça falta exatamente Loki (em razão do ótimo ator Tom Hiddleston), o vilão deste filme, por causa da voz de James Spader, soa com um fundo ameaçador, ainda que não totalmente desenvolvido por causa da quantidade de perspectivas que a narrativa adota, com ações ocorrendo ao mesmo tempo e em lugares diferentes, com vários personagens. Ainda assim, mesmo os coadjuvantes, como o próprio Aaron Taylor-Johnson, Olsen, Claudia Kim (como a cientista Helen Cho), Andy Serkis (como o traficante de armas Ulysses Klaw) e Cobie Smulers (como Maria Hill) estão bem em seus respectivos papéis, além de uma inesperada Linda Cardellini (da saudosa série Freaks and geeks) num papel discreto, mas eficiente. Este conjunto muitas vezes consegue levar o roteiro de Whedon para um estágio em que os vínculos entre as pessoas podem ser o único motivo, como no primeiro Os vingadores, de a humanidade ter, realmente, a sua sobrevivência. E, como o primeiro, o fato de este ter quase duas horas e meia não registra o tempo transcorrido: se o espectador está disposto a se entregar a um universo desta espécie, verá um grande encontro, já desde a primeira sequência.

Avengers: age of Ultron, EUA, 2015 Diretor: Joss Whedon Elenco: Robert Downey Jr.,  Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Mark Ruffalo, Chris Evans, Chris Hemsworth, Aaron Taylor-Johnson, Andy Serkis, Anthony Mackie, Claudia Kim, Cobie Smulders, Don Cheadle, Elizabeth Olsen, Samuel L. Jackson, Idris Elba, James Spader,  Linda Cardellini, Paul Bettany, Stan Lee, Stellan Skarsgård Roteiro: Joss Whedon Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Danny Elfman e Brian Tyler Produção: Kevin Feige Duração: 141 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Marvel Studios

Cotação 4 estrelas