A balada de Buster Scruggs (2018)

Por André Dick

Depois de realizarem Gosto de sangue e antes de revitalizarem o cinema de gângsteres com Ajuste final, os irmãos Coen realizaram Arizona nunca mais, que mostra a história de um ladrão arrependido (Nicolas Cage), que pede em casamento uma policial (Holly Hunter) – uma espécie de versão mais engraçada de Fargo.
Quando os dois decidem ter filhos, descobre-se que ela é estéril. Para buscar a felicidade, os dois resolvem roubar um dos cinco bebês de um casal cujo sobrenome é Arizona. Tudo ocorre bem no começo, mas surgem dois fugitivos da cadeia, amigos do personagem, e um motoqueiro selvagem, na linha de Mad Max, que pretende recuperar o bebê. Os irmãos Coen acertam no clima da história, nas gags visuais e entregam aqui um de seus melhores filmes, ainda o mais despretensioso deles.

Fazem mais: realizam uma espécie de faroeste moderno e cômico, no qual o homem interiorano precisa fugir das balas de um vendedor por ter roubado um saco de fraldas, antecipando, mais do que Onde os fracos não têm vez, cuja história transporta para os dias atuais o clima de faroeste, na guerra entre psicopatas atrás de maletas de dinheiro e o tráfico de drogas, o desejo de homenagear o clássico de John Wayne em Bravura indômita por meio de uma nova adaptação do romance de Charles Portis – à época do lançamento, os Coen, inclusive, negaram que sua versão seria um remake, e sim uma nova adaptação do mesmo livro que havia inspirado o filme de Henry Hathaway.
Com um gosto tão grande pelo gênero que marcou a história do cinema norte-americano e ainda continua produzindo peças interessantes (só neste ano tivemos também o ótimo Damsel, com Robert Pattinson e Mia Wasikowska), a dupla de irmãos regressa com A balada de Buster Scruggs (ou The ballad of Buster Scruggs), lançado no Festival de Veneza, no qual recebeu o prêmio de melhor roteiro, com o selo da Netflix. Colecionando seis histórias apresentadas diretamente das páginas de um livro antigo, que poderiam situar o filme como uma espécie de No limite da realidade do faroeste, A balada é uma síntese da trajetória dos irmãos, com um talento incomum para o humor corrosivo. Já inicia mostrando a história de Buster Scruggs (Tim Blake Nelson), um cowboy que vive entrando em duelos a cada cidadezinha ou bar perdido em meio às pradarias, esperando também ser reconhecido como cantor.

Na segunda história, um pistoleiro (James Franco) tenta assaltar um banco perdido em meio à poeira do Velho Oeste, quando se depara com um atendente muito bem preparado, Teller (Stephen Root). Na terceira, um homem (Liam Neeson) viaja com um jovem (Harry Melling) numa carruagem, que se converte em palco de teatro. O rapaz não tem braços nem pernas e faz longos discursos, que mesclam poesia e política. No quarto episódio, temos um prospector (Tom Waits) em busca de ouro numa paisagem intocada. Quando ele chega, a coruja que fica numa das árvores muda de lugar, os cervos e os peixes de um riacho se afastam: tudo simboliza a chegada ameaçadora da civilização. Uma jovem, Alice Longabaugh (Zoe Kazan), em busca de um marido é o mote do quinto episódio. Numa caravana para um lugar determinado (que lembra O atalho, também com Zoe, e Um sonho distante), ao lado de seu irmão Gilbert (Jefferson Mays), ela se ressente de perder o cão que atrapalha a todos latindo e faz amizade com Billy Knapp (Bill Heck), que trabalha ao lado de Arthur (Grainger Hines). E finalmente no sexto episódio temos uma espécie de diálogo com o ato inicial de Os oito odiados, quando uma mulher, Sra. Betjeman (Tyne Daly), e quatro homens, o irlandês Clarence (Brendan Gleeson), o inglês Thigpen (Jonjo O’Neill), o francês René (Saul Rubinek) e Trapper (Chelcie Ross), viajam numa carruagem por uma pradaria que lembra a de um filme de terror.

Os Coen abrem o filme com uma história curta e ágil, uma espécie de curta-metragem que talvez seja o que melhor corresponda à sua filmografia. Scruggs tem um físico franzino, mas enfrenta pistoleiros que tentam encontrá-lo e ainda com uma agilidade impecável para se sair bem num bar sem armamento. Neste episódio, já se deixa claro que a temática principal, que liga todas as histórias, é a morte. Esse registro não passa batido, contudo faz expandir a visão que os Coen lançam sobre o homem: por um lado, cômica, por outro negativa e mesmo pessimista. Eles conseguem sintetizar traços humanos por meio de pequenas fagulhas narrativas, a exemplo da terceira – e mais amarga – história, quando a barbárie humana ultrapassa qualquer discurso retórico. Em certos momentos, a fotografia primorosa de Bruno Delbonnel, habitual colaborador dos mais recentes filmes de Tim Burton, e o desenho de produção de Jess Gonchor (de Bravura indômita) fazem o Velho Oeste se sentir vivo como em A conquista do Oeste, épico dos anos 60, para ser exibido em Cinerama. Delbonnel é o diretor de fotografia que se tornou conhecido por seu trabalho irretocável em O fabuloso destino de Amélie Poulain, que leva as pradarias e as florestas a terem uma grande atmosfera. Isso não atenua numa tela menor.

Em certos momentos, pela influência de Dead man, seu trabalho dialoga com o de Oeste sem lei, com Michael Fassbender, filmado na Nova Zelândia e excêntrico por causa disso, na composição de cores, fazendo o episódio derradeiro lembrar exatamente uma fantasia no Velho Oeste. De qualquer maneira, a beleza das imagens parece esconder a imagem que os criadores de Fargo projetam: o de uma civilização que se antecipava a índios e violência em meio a lugares a se perder de vista. Todos os personagens de A balada guardam em comum a solidão, a falta de uma família estabelecida, e a carruagem representa essa transitoriedade. É um mundo em composição e, ao mesmo tempo, em decomposição, levando o espectador de volta a uma época em que a humanidade era colocada em xeque a cada vilarejo. As atuações do elenco nesse sentido (principalmente as de Blake Nelson, Waits e Kazan) colaboram de forma fundamental para o êxito. Os Coen não chegam a almejar uma pretensa filosofia por meio de seus contos, no entanto ela pode ser vista a cada passo dos personagens. Sob um verniz de despretensão, de contar histórias de um livro (que o filme usa como recurso), eles mostram mais uma vez sua interessante visão sobre a constituição dos Estados Unidos. Melhor: após o marcante Ave, César!, sobre a Hollywood dos anos 50, parecem voltar à melhor forma, aquela dos anos 90, quando encadearam várias obras excelentes e se mostraram autores de cinema fundamentais.

The ballad of Buster Scruggs, EUA, 2018 Diretores: Joel Coen e Ethan Coen Elenco: James Franco, Brendan Gleeson, Zoe Kazan, Liam Neeson, Tim Blake Nelson, Tom Waits, Stephen Root, Harry Melling, Jefferson Mays, Bill Heck, Grainger Hines, Tyne Daly, Jonjo O’Neill, Saul Rubinek, Chelcie Ross Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Joel Coen, Ethan Coen, Megan Ellison, Sue Naegle, Robert Graf Duração: 133 min. Estúdio: Annapurna Pictures Distribuidora: Netflix

Artista do desastre (2017)

Por André Dick

Trabalho mais recente de James Franco na direção, Artista do desastre vem sendo muito associado a Ed Wood, de Tim Burton, tratando de uma produção conhecida pela estranheza e pela precariedade de atuações e de acabamento, The room, de Tommy Wiseau, lançado em 2003. Quem já viu esse filme sabe do quanto podemos ter um outro nível de entendimento sobre o que seriam boas atuações e uma narrativa calibrada: The room é tão estranho (no bom ou mau sentido, dependendo de cada espectador) que chega por vezes a ser engraçado.
É justamente Wiseau que o também diretor James Franco interpreta aqui. Ele conhece em 1998 o aspirante a ator Greg Sestero (Dave Franco, irmão de James na realidade), numa aula de teatro, quando nenhum consegue se destacar. No entanto, Wiseau se mostra um ator que, na falta de expressão melhor, se arrisca no tablado. Os dois se mudam para Los Angeles, a fim de tentarem uma carreira e se tornarem estrelas. Apesar de Greg conseguir uma agente, Iris Burton (Sharon Stone), e uma namorada, Amber (Alison Brie), nenhum deles é reconhecido. Wiseau decide escrever, produzir e dirigir um filme, exatamente The room. Os momentos em que ele está escrevendo o roteiro são alguns dos mais cômicos da história, justamente pela despretensão do ator-diretor.

Desde o início, é evidente que Franco está levando o personagem a sério, mas ao mesmo tempo não está: em determinados momentos, sua obra se sente como uma reunião de amigos no fim de semana. Mas, se há reuniões dele que resultam em filmes pouco interessantes (É o fim, por exemplo), outros se sentem realmente instigantes, como este. Artista do desastre, à sua maneira, é uma homenagem a Hollywood, que certamente nunca levou Wiseau em consideração – e Franco, pelas acusações que teve de assédio depois de ganhar seu Globo de Ouro, parece ir por outro caminho, embora não com o mesmo grau de impacto que as que atingiram Kevin Spacey e Harvey Weinstein.
O roteiro de Scott Neustadter e Michael H. Weber, responsáveis por (500) dias com ela, A culpa é das estrelas e O maravilhoso agora, adaptado de um livro sobre as filmagens de The room, escrito por Greg Sestero e Tom Bissell, tenta capturar o momento da criação. Artista do desastre lida com a imagem de quem tenta se inserir no meio artístico (no caso, o cinema) com as condições que tem à mão. No entanto, a arte é visualizada mais como um descompromisso do que como um dever de mostrar uma certa sofisticação.

As filmagens conturbadas do longa são bem calibradas pela atuação de James Franco, fazendo um personagem excêntrico, mas, principalmente, pela do irmão, Dave, com uma ressonância que é quase inexistente em trabalhos recentes. Em filmes como The little hours, em que faz um homem que vai parar num convento, Dave Franco já mostra um talento inabitual para a sátira que se leva a sério. Aqui não é diferente e ele até emociona como alguém que realmente tenta ser amigo de Wiseau. Há uma sequência em que ambos compartilham a admiração por James Dean (o qual James interpretou num telefilme em 2001) e tanto Artista do desastre quanto The room possuem um visual, algumas vezes, de Juventude transviada, clássico dos anos 50. No filme de Wiseau, o CGI do alto do prédio normalmente se confunde com tomadas perdidas de clássicos, embora o roteiro seja tão desencontrado que as semelhanças interrompem aí. Que Franco tenha escolhido seu irmão para interpretar o papel do melhor amigo de Wiseau é uma homenagem à própria inserção de ambos no universo cinematográfico.

Embora ele tenda a romantizar excessivamente o personagem que retrata e muitas vezes anule uma complexidade maior, que poderia ser melhor trabalhada em pontos, também atinge de certo modo o público: sua figura atrai o interesse do espectador e o conduz durante todo o filme. O modo como ele recupera os trejeitos do verdadeiro Wiseau é realmente convincente e as filmagens, com a presença do assistente de roteiro e direção Sandy (Seth Rogen), são perturbadas de modo divertido, com uma série de participações especiais (Jacki Weaver, Zac Efron e Josh Hutcherson, para citar alguns). Depois de atuações como as de 127 horas, Milk, Oz – Mágico e poderoso e na série Freaks and geeks, Franco já mostrou um talento para a composição de personagens dos mais variados. Que ele responda pelas acusações gravíssimas de assédio (o que vem tentando fazer nas últimas semanas) e Desastre do artista não seja também aquele filme que interrompa sua carreira.

The disaster artist, EUA, 2017 Diretor: James Franco Elenco: James Franco, Dave Franco, Seth Rogen, Alison Brie, Ari Graynor, Josh Hutcherson, Jacki Weaver, Zac Efron, Sharon Stone Roteiro: Scott Neustadter e Michael H. Weber Fotografia: Brandon Trost Trilha Sonora: Dave Porter Produção: James Franco, Vince Jolivette, Seth Rogen, Evan Goldberg, James Weaver Duração: 103 min. Estúdio: New Line Cinema, Good Universe, Point Grey Pictures, Rabbit Bandini Productions, Ramona Films Distribuidora: A24, Warner Bros. Pictures

Palo Alto (2013)

Por André Dick

Palo Alto 2

A realização de filmes baseados no universo jovem teve um decréscimo muito grande depois de John Hughes, nos anos 80, ocasionando apenas alguns títulos esparsos, embora a visualização sobre esse mundo não tenha sido interrompida em produções de Hollywood feitas apenas como passagem para mostrar confusões em festas de universidade. Não surpreende, portanto, que um filme como Palo Alto, com sua temática discreta, não tenha conseguido obter um lançamento nos cinemas brasileiros, saindo diretamente em home video.
Baseado num livro de contos do ator James Franco, que interpreta um professor de educação física, Palo Alto traz possivelmente o retrato mais sugestivo e entre o otimismo e o pessimismo da juventude depois de Paranoid park – e avaliar que se trata apenas de cenário específico, da cidade de Palo Alto, ou restringir a classes, não parece o mais adequado. Embora haja elementos de imagens que já vimos em Bling Ring e antes em As vantagens de ser invisível, Gia consegue, com a colaboração de um elenco jovem de grande qualidade, obter notas ao mesmo tempo de esperança e tristes, na medida em que a trama cresce. April (Emma Roberts), integrante do time de futebol de sua escola, gosta de Teddy (Jack Kilmer, filho de Val, que faz uma pequena participação como padastro de April), mas vive uma admiração especial pelo professor Sr. B (Franco), envolvendo-se em uma questão delicada quando aceita cuidar do filho dele como babá.

Palo Alto.Filme 2

Palo Alto.Filme 17

Palo Alto.Filme 16

Mergulhado numa espécie de vazio existencial, Teddy se envolve em problemas, também com a ajuda do amigo Fred (Nat Wolff), que normalmente se mostra agressivo por motivos desconhecidos e passa a sair com Emily (Zoe Levin). Basicamente, são essas histórias que sustentam a narrativa, principalmente a partir de uma festa, quando Teddy e April saem pela noite procurando desenhar gravuras em árvores e Emily tentará envolver todos com sua necessidade de afeto um tanto impensado.
Embora, como em Paranoid park, nada pareça acontecer de relevante, Gia dispõe nas entrelinhas um retrato do jovem e seu apego tanto à infância quanto ao fato de estar em um processo de análise diante dos acontecimentos. Esta estreia de Gia Coppola parece ser aquilo que a sua tia Sofia buscou, sem o mesmo êxito, a meu ver, em Bling Ring e As virgens suicidas. Isso porque Sofia está mais interessado, às vezes, em compor suas figuras como representações de algo que deseja dizer nas entrelinhas, enquanto Gia busca um caminho de conflitos iminentes. Neste caminho, destacam-se tanto April quanto Teddy, não apenas porque seus personagens obtêm algo além da superfície, mas porque Emma Roberts e Jack Kilmer se revelam intérpretes excelentes, assim como Nat Wolff (que se tornaria conhecido por A culpa é das estrelas e Cidades de papel) e Levin. Em 2013, Roberts já havia participado do risivelmente contestado Vida de adulto, um retrato bem-humorado dessa mesma juventude focada no filme de Gia, e ela consegue, em ambos os filmes, contrastar a passagem da adolescência para uma vida com compromissos mais estabelecidos.

Palo Alto.Filme 10 Palo Alto.Filme 9

Palo Alto.Filme 19

Por mais que pareça, não há, nessa leva recente de filmes, nenhum que lembre exatamente Palo Alto. Mesmo que haja uma influência na cenografia e na fotografia do cinema considerado indie e, consequentemente, de Sofia Coppola, uma referência, o filme de Gia navega muito mais num terreno de tristeza juvenil sem o alívio da estranheza ou do onirismo que há, por exemplo, que há em As virgens suicidas ou em Bling Ring. Também não há a exploração do universo juvenil com o intuito de apenas impactar como Harmony Korine, um estilo que dialoga com uma certa atmosfera de impacto premeditado, na tentativa de levar o espectador a um universo em que se sintará inadaptado por antecipação.
No mesmo caminho, seguem os momentos em que Teddy precisa prestar serviços comunitários, que revelam, além de tudo, esse caminho não para uma mudança, mas para a avaliação do que parece mais certo diante das advertências do universo adulto. Seu gosto pelas artes, principalmente pelo desenho, se contrapõe, de certo modo, no entanto, ao mesmo tempo, é um complemento de um universo com franca dificuldade de crescer para fora de seus perímetros. Não apenas a biblioteca representa isso, como também os quartos de April e Emily. Os personagens de Palo Alto se mostram sempre indefinidos entre seguir o vazio já programado em suas vidas ou modificar tudo num lance de simplesmente fugir ao descartável. Notório como Gia consegue, principalmente por meio dessas relações entre Teddy e April e entre Fred e Emily, definir uma passagem para o universo de afastamento, sem abrir uma condescendência capaz de apagar esses personagens em prol de alguma mensagem em tom edificante. Ao contrário do que aparenta, Palo Alto se mostra um filme muito mais complexo e talvez isso explique por que arrecadou menos de 1 milhão de dólares (o seu custo). Todos os temas que ele revela por trás da ideia de um filme sobre a adolescência são mais difíceis de lidar do que Hollywood insiste em dizer.

Palo Alto.Filme 18

Palo Alto.Filme 11

Palo Alto.Filme 3

Franco também se revela uma presença interessante, ainda sob o impacto de sua participação em Spring breakers, sob uma direção talentosa de Gia, que se apoia na fotografia de Autumn Durald para capturar cenários que servem de diálogo com os personagens, como os playgrounds quase vazios, assim como um sereno noturno e o amarelo das tardes e manhãs desse lugar na Califórnia. Gia desenha um ambiente de contrastes: os personagens se situam entre o dia e a noite, numa espécie de representação daquilo que atravessam, de suas próprias inseguranças. Trata-se, possivelmente, do projeto mais acertado de James Franco, ator que costuma considerar os riscos de sua carreira – em projetos como Sprink breakers ou É o fim – mais importantes do que aquelas obras nas quais pode mostrar realmente seu talento. Em certos momentos, o estilo de fotografia lembra o de Temporário 12, mas há em Palo Alto uma sensação mais definida de melancolia e ela acompanha o espectador à medida que vai descobrindo os personagens. Os Coppola têm se especializado em fazer o retrato de uma juventude (Francis em Vidas sem rumo e O selvagem da motocicleta; Sofia nos filmes mencionados; Roman em CQ) e pode-se dizer que, com virtudes e falhas, são obras referenciais para o gênero, ao qual Palo Alto, o mais melancólico de todos, se junta com bastante merecimento.

Palo Alto, EUA, 2013 Diretora: Gia Coppola Elenco: Jack Kilmer, Nat Wolff, Emma Roberts, Olivia Crocicchia, James Franco, Val Kilmer, Zoe Levin Roteiro: Gia Coppola Fotografia: Autumn Durald Trilha Sonora: Devonté Hynes, Robert Schwartzman Produção:  Vince Jolivette, Miles Levy Duração: 100 min. Distribuidora: Tribeca Film

Cotação 5 estrelas

Spring breakers – Garotas perigosas (2013)

Por André Dick 

Spring breakers.Filme

Harmony Korine, que está por trás do projeto Spring breakers – Garotas perigosas, escreveu o polêmico Kids com apenas 19 anos, e Ken Park, ambos de Larry Clark, com narrativas envolvendo adolescentes. Também diretor de alguns longas sem grande repercussão, mas respeitáveis, domina a esse universo como poucos, e Spring breakers guarda alguns trunfos: um deles é a estética, com a colaboração na fotografia de Benoît Debie (que fez um trabalho semelhante em The Runaways) e a trilha magnetizante de Cliff Martinez, habitual colaborador de Refn (Drive), com Skrillex. Há, inclusive, semelhanças entre este filme e o recente Only God forgives, no trato visual, embora com encaminhamentos diferentes.
Aqui, três meninas, colegas de faculdade, Candy (Hudgens), Brit (Benson), e Cotty (Rachel Korine, esposa do diretor), querem juntar dinheiro para que possam sair nas férias de primavera na Flórida – que guarda o imaginário de consumo delas. A elas se junta Faith (Gomez), que participa de reuniões religiosas, em frente a um vitral ultracolorido – a porção Terrence Malick desta festa juvenil. Nos Estados Unidos, parece haver uma profusão neste sentido durante a primavera: os jovens vão para as praias e se jogam não no mar, mas numa piscina de som, sexo e drogas, de todos os tipos. É o que Spring breakers retrata em detalhes: esta seria a média da juventude norte-americana, aponta Korine, como em Kids. Ele filma tudo com cuidado especial pelo ritmo (em certas partes, parece que estamos diante de um videoclipe) e com riscos de voice overs soltas, ao longo da metragem, parecendo se tratar de um filme experimental. O jogo de cores (sobretudo o vermelho e o verde) ajuda a acentuar esta primavera, embora o clima de pôr do sol esteja mais para pesadelo do que para sonho.

Spring breakers.Filme 3

Spring breakers.Filme 21

Desde a visão de salas da aula da faculdade, em que as meninas trocam rabiscos em cadernos apontando para as férias de primavera, até o momento em que elas precisam criar uma saída para arranjarem dinheiro, o clima de Spring breakers guarda uma espécie de clima amargo: os corredores azulados e cinzas são a antecipação do que as espera, e a personagem de Faith caminhando numa rodovia indica uma solidão em meio às imagens de festa à beira da praia, repetidas como um comercial de TV. E não deixa de ser irônico que, mesmo nas situações mais delicadas, ela e suas amigas estejam de biquínis coloridos, assim como Faith diga, em suas conversas familiares, que todos que elas encontram são simpáticos e generosos (numa narração às avessas do que acontece), ao mesmo tempo em que cria certo impacto o modo como Korine transforma momentos que parecem lidar com o prazer de forma tão desagradável e afastada de qualquer ideia de verão alegre (spoilers daqui em diante).
Se as jovens precisam chegar ao limite para conseguir o dinheiro das férias, não menos elas fazem quanto estão na praia: elas encontram, em determinado momento, o rapper Alien (James Franco, finalmente à vontade depois de estar deslocado em inúmeros filmes e arriscando sua carreira com vontade), que se apaixona à primeira vista por Faith. É esta personagem que reúne a tentativa de respeitar a religião com a vontade de participar de festas, e a dúvida existencial, e, diante dos projetos cinematográficos anteriores, Selena Gomez realmente está bem no filme, que piora sensivelmente com sua saída.
O seu primeiro encontro com Alien, além de ser a cena mais tensa, bem dirigida por Korine, pois é um embate entre duas personalidades e não estereótipos, revela uma espécie de encontro com uma entidade maligna, que precisa afastar suas amigas caso queira sair ilesa. Suas amigas, no entanto, ficam fascinadas pelo estilo de vida de Alien, com seus carros, dinheiro, pistolas e metralhadoras na cama com neon, e ouvem dele uma análise sobre os tubarões da costa – que parecem falar mais de si próprio e dos amigos. Elas não querem que as férias terminem e para isso resolvem se afastar da vida que as espera na faculdade. E ainda: Alien é inimigo de Archie (Gucci Mane), com quem compete pelo território, fazendo as meninas imaginarem que pode haver mais crimes. O que antes eram festas com drogas e relações sexuais se torna numa espécie de vingança contra um universo que não aceita as mulheres.

Spring breakers.Filme 14

Spring breakers.Filme 6

Korine, ao mesmo tempo em que parece mostrar que este é o “sonho americano”, como o de Alien, querendo parecer com Al Pacino em Scarface – e os cenários da praia lembram o filme de De Palma, mais estilizados –, também representa seu lado mais cruel, apontando sua história contra padrões do que é vendido como universo jovem. O momento mais exemplar é quando Alien canta uma música de Britney Spears, “Everytime”, em seu piano à beira de uma piscina. Enquanto ele toca, vão desenrolando imagens de assaltos cometidos por ele e as meninas, em slow motion, com um cuidado não apenas fotográfico, mas sonoro. Estamos não apenas diante de uma ironia – o romantismo pop de Britney Spears inspira jovens como aqueles mostrados pelos filmes, e representa parte deste “sonho americano” –, mas de uma cena que parece definir Spring breakers: há imagens e sensações inocentes, como aquelas que se produzem numa canção, cortadas pela violência da realidade. Ainda assim isso parece previsível, pois a crítica é tão direta e Korine considera que chegou ao ponto-chave sem concluir que seu filme tem os mesmos problemas.
Esta comparação direta parece ter algo que desequilibra Spring breakers: ela remete ao universo da repetição cultural. Assim, a partir da metade final, principalmente, o belo estilo empregado por Korine na hora inicial pende um pouco mais para a exaustão, com frases sendo reelaboradas continuamente por Alien e as meninas em cena sem desenvolverem uma personalidade própria (elas servem, no fim, apenas como símbolos para um clima justificado de prazer por drogas e justificativa para o clímax). Desse modo, aos poucos, e não sem certo desalento, o filme de Korine trata de uma embalagem prometida e se configura como uma ácida crítica ao estilo de vida de uma parcela dos jovens e o sonho utópico de, numa temporada, mudar o que não pode ser esquecido. Korine não consegue realizar a travessia de uma obra provocante para uma obra densa, como parecia anunciar pelas cenas iniciais, entrecortadas com as imagens das festas na praia, também em razão de logo afastar a personagem que poderia causar um atrito neste universo e não explorar aquelas figuras com quem lida da metade para o final. O que Korine revela com qualidade é o pôr de sol de uma juventude, mas sua obra promissora se configura como uma surpresa que não convence.

Spring breakers, EUA, 2013 Diretor: Harmony Korine Elenco: Vanessa Hudgens, Ashley Benson, James Franco, Rachel Korine, Selena Gomez, Gucci Mane Produção: Charles-Marie Anthonioz, Chris Hanley, David Zander, Jordan Gertner Roteiro: Harmony Korine Fotografia: Benoît Debie Trilha Sonora: Cliff Martinez, Skrillex Duração: 92 min. Estúdio: Division Films / Iconoclast / Muse Productions / O’Salvation / Radar Pictures

Cotação 2 estrelas e meia