Noite de lobos (2018)

Por André Dick

Lançado no Festival Internacional de Toronto há menos de duas semanas, Noite de lobos já está disponível na Netflix. Seu diretor é Jeremy Saulnier, muito elogiado por seu filme de estreia, Ruína azul, e mais ainda pelo seguinte, Sala verde. Se esses filmes já demonstravam uma tentativa de o diretor mostrar tramas antilineares, maior ainda era a propensão de ambos à violência. Ela se repete na sua nova obra.
Sua história, assinada por Macon Blair (diretor do muito interessante e vencedor do Festival de Sundance em 2017, Já não me sinto em casa nesse mundo), a partir de um romance de William Giraldi, é ainda mais estranha: o especialista em lobos Russell Core (Jeffrey Wright) vai para Keelut, no Alasca, a fim de caçar lobos que teriam matado três crianças. Quem o chama é Medora Slone (Riley Keough, depois de uma sequência de êxitos no interior dos Estados Unidos com Docinho da América e Logan Lucky), que teve o filho Bailey desaparecido. Ela quer que Core mate os lobos responsáveis. Ao mesmo tempo, Saulnier mostra o marido dela, Vernon (Alexander Skarsgård), na guerra do Iraque, agindo de maneira impactante diante de um abuso cometido por um soldado.

O comportamento de Medora é estranho durante uma noite, quando parece estar dominada por algum espírito maligno e tenta seduzir Core. No dia seguinte, ele vai atrás dos lobos, mas, sem conseguir atingi-los, na volta à casa de Medora tem uma grande surpresa, o que leva os aldeões a dizerem que ela está sob domínio de um demônio-lobo.
Vernon volta para casa e começa a agir de modo ainda mais estranho quando tem uma revelação chocante – e Saulnier parece predisposto a aliar o universo dos lobos com o do combate e da guerra, em sequências de ultraviolência, o que remete a seus filmes anteriores, principalmente Sala verde. Vernon visita uma bruxa local, Illanaq (Tantoo Cardinal), enquanto Russell tenta pedir ajuda ao chefe de polícia Donald Marium (James Badge Dale). O comportamento de Cheeon (Julian Black Antelope), um dos amigos de Vernon e que também perdeu um filho para a matilha de lobos que cerca o local, se conecta com as ações deste – e a passagem na qual enfrenta a polícia lembra aquela da segunda parte de O exterminador do futuro, de James Cameron, no entanto também com a guerra no Iraque. Lugares desolados, para Saulnier, e isso se mostra especificamente no filme anterior dele, estão predispostos a atrair a loucura e o desafio às leis.

Não se pode dizer que Noite de lobos tem como premissa copiar premissas de filmes de terror norte-americanos. Seu clima é mais introspectivo e possui uma fotografia notável de Magnus Nordenhof Jønck, com o talento já mostrado em Lean on Pete. Seu trabalho aqui remete à de dois filmes recentes passados num ambiente gelado, Terra selvagem e Boneco de neve, dialogando com as atuações do elenco, sobretudo de Skarsgård, logo depois do subestimado Mudo, e de Wright, muito compenetrado em sua sensação de nada saber sobre o que está acontecendo. Eles conseguem lidar muito bem com o simbolismo da trama, que tem correspondência com A hora do lobo, de Ingmar Bergman, dos anos 60, sobre um casal afastado numa ilha que vivia uma espécie de pesadelo. Esta obra bergmaniana é uma das influências mais notáveis na obra de David Lynch e, se Saulnier não tem a capacidade para tornar suas imagens tão enigmáticas, consegue, através das atuações e da maneira como dispõe a narrativa, sem um início, meio e fim claros, desenvolver uma notável amplitude quando é preciso o soco emocional para fazer as coisas andarem em frente.

O clima de aldeia ameaçada, além disso, remete ao clássico Grito de horror, de Joe Dante, pois o filme de Saulnier é, antes de tudo, uma revisitação à clássica figura cinematográfica do lobisomem, mas sob um olhar contemporâneo e mais em consonância com temas geopolíticos. Para Saulnier, o instinto da natureza do homem se mostra em diferentes contextos – o calor do Iraque e o gelo do Alasca são polos iguais –, assim como a violência se propaga do mesmo modo: um tiro na nuca de Vernon no Iraque e depois em outro personagem se juntam com o mesmo sentido, de que a violência fantasiosa do lobisomem, que morde suas vítimas, se dá agora por meio de tiros. O nível de sangue, que extrapolava em Sala verde e no filme dirigido pelo roteirista de Noite de lobos, contrasta com o cenário desolador do Alasca e sua brancura e desolação, porém é resultado também dessa guerra estrangeira trazida para o interior dos Estados Unidos. É como se Saulnier dispusesse esse contraste de maneira a fazer o espectador se espantar com seu simbolismo. Ele não expõe de maneira clara, como fazia em Sala verde, por exemplo, os temas que estavam por trás de tudo: pelo contrário, nunca entendemos realmente por que os personagens agem de uma maneira ou outra, sempre contrariando suas próprias posições iniciais. Por isso, talvez, Noite de lobos esteja sendo tão mal recebido. Trata-se de um avanço surpreendente e anticomercial na concepção de um cineasta que parecia fadado apenas a cenas chocantes e muitas vezes gratuitas, em alguns momentos tentando emular Quentin Tarantino. Desta vez, ele certamente tem algo a dizer, embora não pareça, pelos poucos diálogos e pela narrativa nada linear.

Hold the dark, EUA, 2018 Diretor: Jeremy Saulnier Elenco: Jeffrey Wright, Alexander Skarsgård, James Badge Dale, Riley Keough, Irene Bidel, Julian Black Antelope, Tantoo Cardinal Roteiro: Macon Blair Fotografia: Magnus Nordenhof Jønck Trilha Sonora: Brooke Blair e Will Blair Produção: Russell Ackerman, Eva Maria Daniels, John Schoenfelder Duração: 125 min. Estúdio: Addictive Pictures, VisionChaos Productions, FilmScience Distribuidora: Netflix

 

O cavaleiro solitário (2013)

Por André Dick

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Nunca foi uma qualidade de Gore Verbinski a duração de seus filmes. Depois da série Piratas do caribe, O chamado e A mexicana, parece que apenas a animação Rango e o drama O sol de cada manhã conseguiam uma síntese. Em O cavaleiro solitário, novamente situado no universo do Velho Oeste, Verbinski volta com uma produção em alto desempenho dos estúdios Walt Disney, e cenas de ação variadas. Mas, em primeiro plano, é difícil lembrar de outro momento em que Depp esteve tão deslocado. Fala-se que em Sombras da noite, de Burton, ele já havia se desgastado consideravelmente com suas atuações baseadas também em trejeitos e na maquiagem, e ainda assim era divertido como Barnabas. Aqui, a partir de determinado momento, quando acentua o overacting, ele deixa transparecer o incômodo. Se antes Verbinski lhe deu o antológico Jack Sparrow – divertido até pelo menos o fim do primeiro da série –, aqui Depp não consegue ser, do mesmo modo, eficaz. Embora a presença do ator seja no mínimo questionável, o principal problema é o estilo de humor utilizado, a partir de fatos reais (o massacre de indígenas). Em segundo plano, Armie Hammer, como o Cavaleiro, não consegue repetir a proeza dos gêmeos de A rede social e mesmo do amante de J.Edgar do filme de Eastwood. Ele não tem uma habilidade para o que O cavaleiro solitário exigiria: a comédia física.
Mas a questão seria como lidar com este roteiro, escrito a oito mãos, por Eric Aronson, Justin Haythe, Ted Elliott e Terry Rossio, que parte da ideia de um menino vestido de “Lone Ranger” (Mason Cook), em 1933, em San Francisco, visitando um museu, em que encontra uma figura que apenas aparenta ser de cera, o comanche Tonto (e toda vez que a história se desloca para esse diálogo parece que Verbinski parece fazer uma concessão a uma visão idílica dos índios na América), com a placa: “O nobre selvagem em seu habitat natural”. É ele que lembra quando conheceu John Reid (Armie Hammer), um advogado, numa viagem de trem – e já esta sequência inicial apresenta o elemento mais chamativo do filme: a grandiosidade em todos os sentidos, mesclando humor a situações fantasiosas. Ambos são aprisonados por Butch Cavendish (William Fichtner), um bandido que foge do trem com uma trupe de companheiros. Reid chega à mulher, Rebecca (Ruth Wilson), e ao filho do irmão, Dan (James Badge Dale), um Texas Ranger, mas vai encontrá-los num perigo mortal.

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Entre idas e vindas, Reid e Tonto ficam amigos, mas Verbinski não consegue localizar essa amizade por meio de diálogos ou de humor substancioso, sempre sucedendo cada sequência com alguma gag visual ou verbal, encerrando cada atitude com uma espécie de detrimento de uma possível humanidade. Nesse sentido, quando apresenta alguns coadjuvantes, como Red (Helena Bonham Carter, que, assim como Depp, entrega-se a um estereótipo, já cultivado este ano em Os miseráveis), Verbinski não consegue desenhá-los a ponto de torná-los parte de uma engrenagem. A sensação, por isso, ao se assistir O cavaleiro solitário, é de que se vai saltando de um filme para outro dentro da mesma obra – e não se coloca, aqui, as influências de outros faroestes, bastante comentadas e evidentes, por todas as panorâmicas realizadas a cada minuto. Falta, além de um diálogo entre as partes, uma espécie de comedimento, que, em não existir, compromete o restante.
Não há dúvida de que há sequências realmente divertidas (spoiler: aquela em que Tonto e o cavaleiro solitário estão enterrados, apenas com o pescoço para fora) e fantásticas (a sequência final), e há um trabalho de fotografia respeitável, embora excessivamente monocromático, de Bojan Bazelli. No entanto, Verbinski coloca os montadores numa situação delicada: existem ao menos 30 minutos a mais de filme, e a história, que já seria insuficiente para pouco mais de duas horas, torna-se ainda mais inconsistente. O fato é que o que sustentaria a trama – a amizade entre Tonto e o Cavaleiro – praticamente inexiste, acontecendo apenas entre provocações de parte a parte. Restaria haver um vilão provocante, mas Butch não corresponde.

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O cavaleiro solitário.Filme 7Percebe-se que Verbinski tinha bem claro que gostaria de dar ao filme um crescente a partir de sua parte técnica. No entanto, isso acaba sendo fatal para a proposta de um filme que é desencadeado a partir da conversa de um menino com um índio, a princípio, de cera de museu, e o fato de transformar a chacina a índios numa espécie de culpa pessoal por oferecer o ouro a alguém que não o merecia, reduzindo de forma simbólica o contexto (mesmo que seja para uma fantasia, e se pode falar nesses termos pela quantidade de absurdos na parte final principalmente, dos estúdios Disney).
Há uma necessidade, ao mesmo tempo, de Verbinski ressoar, na verdade, o que seria os Estados Unidos: a disposição de bandeiras do país em momentos-chave depois do clímax parecem dizer que o filme, mais do que uma experiência infantil por esse monumento de referências passadas, é bastante político e, ao contrário do herói, nem um pouco desastrado. É talvez isto que torne O cavaleiro solitário, além de um filme que não consegue trabalhar o que pretendia em suas entrelinhas, uma espécie de referência vazia do mesmo período que tenta satirizar e tornar bem-humorado. Sabemos que em Hollywood os vilões podem experimentar o gosto da vingança dos comanches, mas, ao satirizar esta mesma vingança, O cavaleiro solitário apenas prefere buscar o saldo financeiro capaz de colocar mais um herói em disparada na linha do horizonte, com o cavalo branco que o escolheu. Diante de tudo, talvez seja realmente a última fala do filme que conceda a Verbinski um instante, mesmo que rápido, de sinceridade. Também não deixa de ser um pedido aos comanches colocados no museu de cera. No fim, tudo isso colabora para que O cavaleiro solitário se torne o que é: uma fascinante falha de ignição em todos os níveis.

The lone ranger, EUA, 2013 Diretor: Gore Verbinski Roteiro: Eric Aronson, Justin Haythe, Ted Elliott, Terry Rossio Elenco: Johnny Depp, Armie Hammer, Helena Bonham Carter, William Fichtner, Ruth Wilson, James Badge Dale, Mason Cook Produção: Gore Verbinski, Jerry Bruckheimer Fotografia: Bojan Bazelli  Trilha Sonora: Jack White Duração: 149 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Jerry Bruckheimer Films / Silver Bullet Productions

 1 estrela e  meia

Guerra Mundial Z (2013)

Por André Dick

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Avaliado como uma das produções mais caras de todos os tempos (mais de 200 milhões de dólares), Guerra Mundial Z surgiu com um dos blockbusters desta temporada apostando na ideia da Terra ameaçada por um vírus. O ex-agente da ONU, Gerry Lane (Brad Pitt), dedicado à família, Karin (Mireille Enos) e duas filhas, Constance e Rachel (Sterling Jerins e Abigail Hargrove), enfrenta a consequência desse vírus: zumbis ultravelozes e implacáveis, que surgem em mais profusão exatamente onde ele se encontra, seja num carro durante uma manhã aparentemente tranquila da Filadélfia, seja na Coreia ou em Israel.
Os zumbis estão em todas as partes, e Forster, conhecido por seus belos A última ceia e Em busca da terra do nunca e por um 007 menos atrativo (007 – Quantum of solace), é um diretor que vem se aprimorando pela impessoalidade. Guerra Mundial Z poderia ter sido dirigido por um cineasta especialista em ação, mas Pitt, como um dos produtores, apostou nele, com quem se desentendeu durante as filmagens, criando quebras de orçamento e polêmicas antes da estreia. É difícil avaliar o que isso pode afetar uma produção (muitas vezes não afeta), mas Guerra Mundial Z, com seu destaque tecnológico, necessitaria do elemento dramático, no qual Pitt se aprimorou em seus projetos mais recentes, como A árvore da vida e O homem que mudou o jogo, e Forster seria um bom nome para trabalhar este elemento, tendo provado seu talento com atores de diferentes estilos. No entanto, as falas de seu personagem, ao longo de todo o filme, parecem uma combinação de outras. “Eu voltarei”, diz ele à sua mulher, Karin, antes de abandonar um navio para tentar solucionar o problema que vem acabando com a civilização. Quando as coisas se agravam, ele está no celular dizendo que as coisas  se complicam por onde passa (depois de fugir da Filadélfia com a mesma pressa do pai feito por Tom Cruise em Guerra dos mundos e de ver seres humanos tombando carros e voando em para-brisas).

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O espectador pode mesmo se sentir com medo, como nos primeiros 20 minutos, quando Lane e a família precisa agir por conta própria, sem a ajuda do governo, e quando a fotografia do talentoso Robert Richardson, habitual colaborador de Tarantino e Oliver Stone, se destaca. Ainda assim, Pitt consegue ter seu momento mais complicado, com uma postura que deseja dialogar com sua figura mundialmente conhecida, também por seu interesse em causas sociais: a melancolia do seu olhar parece ser a de quem precisa enfrentar este roteiro. O percurso dado a seu personagem é plano, à medida que, ao assistirmos Guerra Mundial Z, é como se estivéssemos vendo o seu trailer. Nesse sentido, não há nada fora do lugar, ao mesmo tempo em que parece faltar um encaixe, principalmente entre os episódios, que se sucedem sem existir um envolvimento com o personagem central ou os coadjuvantes. Isso pode ser explicado, embora não totalmente, pelo roteiro, que conta com Drew Goddard (diretor e corroteirista de O segredo da cabana), e Damon Lindelof, o normalmente questionado autor de Prometheus, no qual teria complicado a narrativa (em Guerra Mundial Z, não há complicações, de qualquer modo), reescrito algumas vezes e cujo final sofreu alterações (difícil imaginar como se conduziu ao clímax apresentado).
O desespero e os eventos do filme são superdimensionados, mas possuem a vitalidade dada a Gerry Lane, indicando que Forster não tem criatividade para cenas de ação, o que mais necessitaria Guerra Mundial Z por conta de seus saltos, tanto na história quanto dos zumbis. Lamenta-se quando uma produção fica conhecida pelos seus gastos milionários e, ao contrário de outras nesta temporada, como Star Trek e Círculo de fogo, esses não são vistos na tela. O filme poderia ser falho, mas grandioso, mesmo porque utiliza todos os transportes possíveis, do carro, passando por helicópteros, navios, até aviões, querendo dar um panorama de estado crítico internacional. A maneira como Richardson também amplia as imagens, criando algumas até assustadoras, mostra o quanto houve um trabalho prévio. Infelizmente, falta substância.

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Também não parece haver um elemento crítico, o que haveria no romance que deu origem ao filme, de Max (filho de Mel) Brooks. Se havia elementos no romance de corrosão política, eles ficaram ausentes do filme – e se há pelo menos três sequências muito bem feitas (inclusive a que antecede o final, com seu crescente) elas não apagam a sensação de que Forster, Pitt e os produtores não quiseram, de fato, transformar os zumbis em peças centrais.
Para uma narrativa em que eles deveriam se destacar, eles são quase escondidos ou mostrados às dezenas, em ultravelocidade, para despertar um medo que não se desperta realmente por não ser focado nenhum especificamente. Chega a surpreender quando Forster resolve filmar um deles de maneira mais próxima – mas a cena não traz nenhum medo (não há a presença ou influência de George Romero). Ao final de tudo, para uma produção que queria ser a maior sobre os zumbis, Guerra Mundial Z se restringe a ser um passatempo, e não dos mais divertidos: aqui, o futuro da Terra significa o mesmo que o futuro de uma franquia.

World War Z, EUA/Reino Unido, 2013 Diretor: Marc Forster Elenco: Brad Pitt, Mireille Enos, Sterling Jerins, Abigail Hargrove, James Badge Dale, Daniella Kertesz Produção: Brad Pitt, Ian Bryce, Jeremy Kleiner Roteiro: J. Michael Straczynski, Matthew Michael Carnahan, Drew Goddard, Damon Lindelof Fotografia: Robert Richardson Trilha Sonora: Marco Beltrami Duração: 116 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Apparatus Productions / GK Films / Hemisphere Media Capital / Latina Pictures / Paramount Pictures / Plan B Entertainment / Skydance Productions / UTV Motion Pictures

1 estrela e  meia

Shame (2011)

Por André Dick

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Um dos pontos polêmicos de Shame é o das cenas de nudez, tanto do personagem central interpretado por Michael Fassbender, Brandon, quanto do elenco feminino com o qual contracena e tem relações sexuais, algo raro no cinema atual. Trata-se de uma interpretação magnífica de Fassbender (uma dentre tantas, como a de Prometheus), há alguns anos um dos melhores atores da atualidade. É na exposição de um personagem obcecado por sexo – sobretudo em pensar nele –  que Shame se mantém o tempo todo (daqui em diante, spoilers). Ele acorda de manhã, ouve chamadas de uma mulher pedindo por sua atenção, apanha um trem e flerta com outra (Lucy Walters), a quem tenta seguir, sem êxito. Depois de sair do seu escritório, ele vai com o chefe a um pub, onde flerta com outra mulher (Elizabeth Masucci). Os dois acabam transando na rua, antes do amanhecer. Brandon volta para a casa, onde encontra sua irmã, Sissy (Carey Mulligan), tomando banho. Ela lhe pede para ficar (entende-se que esteja passando por uma separação), e ele, a contragosto, deixa.
As relações em Shame são tão rápidas quanto o próprio diretor deseja transparecer na relação de Brandon com o mundo. Com fitas de vídeo, chats sexuais, revistas pornográficas, ele parece inserido na ideia do sexo como algo não apenas a ser simplesmente experimentado, mas a ser incorporado, mesmo que dele não resulte algum desejo específico. No entanto, não consegue se afastar da ideia de que está isolado, olhando apartamentos envidraçados (onde pessoas têm relações sexuais), e o filme interrompe suas ligações para mostrá-lo como tal, embora, num encontro com uma colega, Marianne (Nicole Beharie), comece a refletir sobre o compromisso. Shame seria sobre o compromisso? Talvez, embora não considere que o diretor, Steven McQueen, tenha desejado, neste caso, ser previsível ou reducionista. Na verdade, também estamos diante de um filme sobre a solidão sustentada pela cidade grande a quem está simplesmente sozinho ou quase sozinho, sem querer depender da irmã e da família – ou simplesmente não poder, sem sabermos o motivo. Sissy pede a ele que seja cuidada, porque é desse modo, segundo ela, que se mantém uma família. Mas, depois de cantar as próprias frustrações por meio de “New York, New York”, pós-vida misteriosa na Irlanda, num bar (e esta cena, apesar de definidora da angústia também do irmão, torna-se um tanto extensa em relação aos demais momentos), envolve-se com o chefe de Brandon, David (James Badge Dale), como se quisesse, ao mesmo tempo, provocá-lo.

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Shame.Filme.Imagem 2Existe um ódio contido do personagem pelo fato de a irmã exigir dele o compromisso, embora não saibamos de qual compromisso se trata. Nem aí, no entanto, o filme consegue sair do círculo demarcado por sua narrativa: Brandon não deseja o compromisso, seja qual for ele, e o faz dissociando sua condição de uma pretensa normalidade sexual. Talvez seja para colocar a perspectiva de que poderá sofrer aquele que não consegue ter uma vida monogâmica e compromisso, ligando esta perspectiva simplesmente a um comportamento obsessivo encobrindo algo, sobre o qual também não sabemos. No entanto, parece haver uma falta de sutileza de McQueen nesta abordagem e, por mais que o filme traga atuações humanas, como a de Carey Mulligan, torna-se um enigma acompanhá-lo.
Capaz de conceder múltiplas interpretações, uma delas é que, ao se tratar de sexo em Shame, na verdade está se tratando da falta de interesse em sexo de um indivíduo. A condição do personagem seria resultado apenas de uma pressão de que ele deve sentir felicidade com uma pessoa e, para tanto, deve adotar um comportamento normal, quando, na verdade, parece que não teve uma vivência que o conduzisse a isso (esclarecida por pensamentos em off da irmã numa cena definitiva, ao final), e só lhe restasse o instinto. Como ele não consegue sentir prazer com uma relação normal, a opressão que se internalizou nele se difunde em blocos de estereótipos: para se obter algo parecido com prazer, ele precisa estar perto de pessoas que também, em sua visão, buscam o prazer momentâneo, para ele sempre ligado a algum trauma. Logo, nesse sentido, todos que buscam esse prazer momentâneo, que na verdade não teria o verdadeiro prazer, estão impelidos ao mesmo sofrimento dele, e mesmo assim, daí a sua angústia, não podem compartilhar o que ele sente.

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No entanto, a impressão é que, McQueen, por meio de uma direção e fotografias climáticas, aponta a disformidade de um universo pretensamente glamouroso, apesar do vazio, e uma espécie de maniqueísmo é disfarçado por um rompimento de tabus: todos que se envolvem com Brandon acabam sendo seu reflexo, ou seja, não há verdadeiro conflito, não há verdadeira descoberta, e a cidade é uma extensão do seu incômodo pessoal (o filme se volta para a centralização do próprio Brandon), pesada e soturna.
Fassbender consegue, na maior parte do tempo, mostrar o mal-estar desse personagem diante da realidade e dos colegas (no momento, por exemplo, em que é cobrado por também ver pornografia em seu emprego). É possível sentir real desesperado nas feições do ator, assim como perceber, evidenciada, sua relação conturbada com a irmã quando há qualquer tipo de tentativa de aproximação. O problema maior é McQueen não articular esta tentativa de avaliar o comportamento sexual do indivíduo com seu passado e futuro, abandonando-o a um presente ininterrupto. Não se trata de querer que Shame fosse mais otimista, ou que os personagens sorrissem como nos filmes de Cameron Crowe, mas simplesmente conduzisse a uma explicação mais exata das ações dos personagens e as entrelaçasse de modo original. Ele deixa questões no ar não em razão de elas não existirem, mas porque, como o personagem de Fassbender, não quer se comprometer. A subjetividade, neste caso, não parece bem trabalhada e os personagens se perdem em seu próprio isolamento. Há espaço para ideias melancólicas, porém há uma ausência do elemento de encontro, em alguma parte, inclusive das camadas não resolvidas de roteiro, eficientes o bastante para prender Shame a uma espécie de estética do desalento maravilhado por si mesmo.

Shame, Reino Unido, 2011 Diretor: Steve McQueen Elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan, Lucy Walters, Mari-Ange Ramirez, James Badge Dale, Nicole Beharie Produção: Iain Canning, Emile Sherman Roteiro: Abi Morgan, Steve McQueen Fotografia: Sean Bobbitt Trilha Sonora: Harry Escott Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: See-Saw Films

Cotação 2 estrelas e meia

O voo (2012)

Por André Dick

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Demasiada carga leva o diretor Robert Zemeckis, depois de receber o Oscar de melhor filme e diretor por Forrest Gump em vez de Tarantino e seu Pulp Fiction. Zemeckis é, antes de tudo, um artesão descoberto por Steven Spielberg sobretudo depois de sua joia Febre da juventude, em homenagem aos Beatles, e que nos anos 80 voltou a capturar parte da juventude e da infância na trilogia De volta para o futuro e Uma cilada para Roger Rabbit, projetos de ponta. Se depois de Forrest Gump, o diretor só voltaria a acertar novamente em Contato e Náufrago, dedicando-se por um tempo a animações um tanto desajeitadas (como O expresso polar e Beowulf), desta vez ele retoma a agilidade da ação exibida em seus melhores momentos nos anos 80 e 90 em O voo, o filme que também marca a maior atuação de Denzel Washington desde Dia de treinamento, pelo qual recebeu o Oscar de melhor ator.
Ele interpreta Whip Whitaker, um piloto de avião movido a drogas, cocaína e álcool, principalmente (daqui em diante, possíveis spoilers). Inicia-se o filme com ele dividindo a cama com uma aeromoça, Katerina Márquez (Nadina Velazquez), colega de trabalho, num hotel perto de um aeroporto. Com voo marcado para a manhã, Whitaker não parece tão alterado como deveria, apesar do copiloto, Ken (Brian Geraghty), e de outra aeromoça, Margaret (Tamara Tunie), perceberem algo estranho. Depois de enfrentar uma tempestade na decolagem, o percurso fica mais tranquilo, até o surgimento de um problema técnico. Zemeckis filma esta sequência com perícia, colocando o espectador no meio de uma manobra arriscada para Whitaker tentar salvar sua tripulação. Com o feito realizado, ele acorda numa cama de hospital, sendo logo cercado por policiais e por Charlie (Bruce Greenwood), amigo que trabalha no Sindicato. No hospital, além de receber a visita do amigo traficante Harling Mays (John Goodman, divertido), ele conhece Nicole (Kelly Reilly), cuja ação na primeira parte divide as atenções com as manobras de Whitaker. É esse encontro entre os personagens que Zemeckis pretende filmar e o que o personagem precisa perder para que haja um reencontro com a sua fazenda de infância. Diante do seu estado físico e emocional, ele precisará explicar, com a ajuda do advogado Hugh Lang (Don Cheadle), como conseguiu pilotar se estava sob efeito de drogas. E, aos poucos, como o personagem de Tom Hanks, em Náufrago (com o qual O voo, não só pelo diretor, tem semelhanças, também por seu início), ele irá valorizar determinadas coisas para as quais não dava importância.

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A princípio, O voo está situado num limiar entre a investigação de um acidente e a procura de provas, de ambos os lados, do sindicato e da National Transportation Safety Board (NTSB), que investiga a ação dos pilotos, para se provar ou negar determinadas situações examinadas, e a compreensão de que o personagem de Washington tem problemas alcóolicos que o imobilizam tanto diante de uma nova relação quanto com sua família, que não deseja vê-lo. Parece ser apenas uma recorrência a velhos clichês, mas Zemeckis não verte isso de maneira fácil e o personagem sendo um piloto de avião não se apresenta de maneira tão óbvia. O diálogo entre Whitaker, Nicole e um jovem acometido pelo câncer na escadaria do hospital é especialmente bem construída, com suas peças sendo jogadas aos poucos, até que se convença o espectador sobre cada personagem. No meio de toda sua situação pessoal trágica, encontra-se a crença ou não em Deus e na religiosidade.
Whitaker tenta convencer a todos que só ele poderia realizar a manobra feita e que dependeu apenas de si mesmo, sem nenhuma ajuda divina. Os laudos técnicos lhe dão razão. Mas como Whitaker pode entrar numa reunião de alcóolicos anônimos se ele, na verdade, se considera um herói inatingível, capaz de superar tudo o que pode ser crença pessoal, mesmo independente da religião? É esta medida que o roteiro de John Gatins, indicado ao Oscar, faz de maneira sensível. Neste sentido, O voo não está centrado apenas numa cena jurídica, que pode inocentar ou culpabilizar o personagem central, e sim numa cena de dilemas, ética e crença naquilo que não pode ser rapidamente entendido e no vício que não pode ser enfrentado sem o enfrentamento pessoal e do que ele mesmo próprio acredita (lamenta-se que, nesta etapa, a participação de Kelly Reilly diminua).

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Washington atua de modo excepcional como Whitaker, revelando minúcias e relutâncias de um verdadeiro personagem, pois O voo é um estudo sobre seus movimentos e sobre sua percepção da realidade. Ele é um ator completo num momento especialmente talentoso: seu trabalho com o olhar, demonstrando sua insegurança e angústia, e, ao mesmo tempo, sua raiva contida, é apenas para grandes performances. Num ano com Day-Lewis e Phoenix em grande forma, Washington mostra que não fica nada a dever, construindo um personagem enigmático. Não se trata exatamente de um personagem exatamente confiável, mas com falhas, com problemas na relação com o filho e a ex-mulher e na sua dificuldade de lidar com o que deve ser revisto na sua passagem pelo avião antes do acidente, o que faz com que o espectador se aproxime dele – e em momentos cruciais passe a querer que ele de fato consiga se estabelecer de forma mais equilibrada, sem que isso soe afetado. Sua tentativa de se inserir no meio político para tentar fugir de suas responsabilidades e suas relações atribuladas com o advogado que tenta representá-lo do melhor modo, e no entanto é ignorado quase sempre em cena, são algumas das características que se inserem no trabalho de Zemeckis para demonstrar que na verdade estamos diante de um personagem absolutamente solitário, mas por seu próprio desinteresse em se modificar diante de seu passado.
Lamenta-se apenas que O voo não desenvolva alguns relacionamentos e personagens da melhor forma e insista, ao final, com uma espécie de mensagem para tudo o que aconteceu, menosprezando um pouco a compreensão do espectador e sua liberdade de imaginar que o personagem de Whitaker não é um molde feito para indicar determinados caminhos ou não. Este final é apontado, de fato, como seu grande problema. No entanto, não apaga o que vem antes: O voo é um filme dramático, com ótimo elenco, capaz de prender a atenção e mesmo apresentar uma discussão interessante por trás de sua narrativa.

Flight, EUA, 2012 Diretor: Robert Zemeckis Elenco: Denzel Washington, James Badge Dale, Don Cheadle, John Goodman, Kelly Reilly, Bruce Greenwood, Melissa Leo, Nadine Velázquez, Tamara Tunie Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis Roteiro: John Gatins Fotografia: Don Burgess Trilha Sonora: Alan Silvestri Duração: 138 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Paramount Pictures / Parkes/MacDonald Productions

Cotação 3 estrelas e meia