A múmia (2017)

Por André Dick

Há alguns filmes que não provocam muitas expectativas, e esta refilmagem de A múmia é um deles. Não apenas porque a história já se mostra um tanto desgastada, depois da série iniciada nos anos 90, com Brendan Fraser e Rachel Weisz, como também Tom Cruise está se repetindo cada vez mais no papel de herói em filme de ação. Depois de O último samurai, Colateral e Operação Valquíria, com algumas de suas melhores atuações, ao lado daquelas em Nascido em 4 de julho, Magnólia e De olhos bem fechados, Cruise se dedica a filmes em que possa se arriscar fazendo cenas no lugar de dublês, deixando clara uma escolha artística. Não deixa de se lamentar a perda de interesse por outros gêneros de um dos maiores atores dramáticos de Hollywood.
O filme inicia em 1127 a.C., quando cavaleiros ingleses descobrem um rubi egípcio e o enterram em uma tumba. Na Londres de hoje, uma equipe de construtores da Crossrail descobrem o lugar. Em um flashback, retoma-se a história da Princesa Ahmanet, numa sucessão de imagens envolvendo a inveja que tinha do filho recém-nascido de seu pai, que ocuparia seu lugar em direção ao poder do Egito. Sua lenda se encerra, obviamente, numa espécie de maldição, sendo mumificada, com um jogo de luzes que recupera algo de Fome de viver, dos anos 80.

No Iraque atual, onde existia a antiga Mesopotâmia, o mercenário Nick Morton (Tom Cruise) e seu parceiro Chris Vail (Jake Johnson) descobrem justamente a tumba de Ahmanet (a nova estrela Sofia Boutella, de Kingsman), junto com a arqueóloga Jenny Halsey (Annabelle Wallis), um interesse romântico antigo de Nick. Isso é o início para uma sequência de cenas de ação suficientemente divertidas para prender a atenção do espectador. A primeira se passa num avião, talvez a mais espetacular do ano, com um trabalho de movimentação de câmeras impactante, depois de Nick perceber que está tendo visões estranhas e parece ter ficado obcecado pela figura de Ahmanet. Mais interessante fica quando sabemos que Halsey trabalha para o Dr. Jekyll (um Russel Crowe claramente se divertindo) e o filme se desloca para a Inglaterra, no qual temos um refinamento de humor envolvendo o personagem de Nick e, principalmente, sua amizade com Vail, já em outro estado.

Tudo em A múmia é calculado, com efeitos visuais espetaculares e muito CGI, e a direção de Alex Kurtzman é previsível. Trata-se do segundo filme do diretor, que colaborou no roteiro de vários sucessos, entre os quais A lenda do Zorro, Missão: impossível III, Transformers, Watchmen, Star Trek e Cowboys e aliens, ou seja, especialista em grandes produções. Ele tem uma boa noção de ritmo e humor, principalmente na primeira hora, bastante agradável, trabalhando bem com a faceta bem-humorada de Tom Cruise, no entanto é justamente no desenvolvimento do roteiro e dos personagens que a obra apresenta mais falhas. Se o personagem de Nick tem uma boa química inicial com Jenny, aos poucos as cenas de ação passam a ocupar o centro emocional da trama, e nenhum dos atores consegue estar à altura desse combate. No entanto, mesmo em meio a elas pode-se extrair alguns momentos de cinema de ação de qualidade, como aqueles que antecedem uma ameaça sobre Londres. Os filmes de A múmia com Fraser tinham como foco exatamente a mescla entre ação e humor e por vezes principalmente o primeiro era assustador. Esta versão de Kurtzman tenta usar alguns ingredientes parecidos, no entanto procura ser mais soturno na resolução de determinados momentos.

A múmia também inaugura o Dark Universe, que pretende trazer vários filmes envolvendo monstros, em refilmagens de clássicos da Universal. A ideia é boa e, se conseguirem a qualidade que este filme obtém em sua primeira metade, há possibilidade de uma franquia interessante. A sua bilheteria não foi à altura do esperado, mas conseguiu bastante sucesso em países fora dos Estados Unidos, o que pode ser um caminho para os outros. Este é um universo realmente interessante, que merecia, num primeiro momento, melhor tratamento, mas que tem acertos e não deve ser desconsiderado, ao poder entrelaçar diferentes personagens num mesmo núcleo.

The mummy, EUA, 2017 Diretor: Alex Kurtzman Elenco: Tom Cruise, Sofia Boutella, Annabelle Wallis, Jake Johnson, Courtney B. Vance, Marwan Kenzari, Russell Crowe, Javier Botet Roteiro: David Koepp, Christopher McQuarrie, Dylan Kussman Fotografia: Ben Seresin Trilha Sonora: Paul Hirsch Produção: Alex Kurtzman, Chris Morgan, Roberto Orci, Sean Daniel Duração: 110 min. Estúdio: K/O Paper Products / Sean Daniel Company / Universal Pictures

 

Jurassic World – O mundo dos dinossauros (2015)

Por André Dick

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Em 1993, no mesmo ano em que lançou A lista de Schindler, pelo qual recebeu o Oscar de melhor filme e direção, Spielberg voltou ao antigo ingrediente que o consagrou na série Indiana Jones num dos maiores blockbusters já feitos, Jurassic Park. Baseada num excelente romance de Michael Crichton (também autor do roteiro, com David Koepp), a narrativa se concentra na jornada de um paleontólogo (Sam Neill) e sua mulher, uma paleobotânica (Laura Dern), até a Ilha Nublar, próxima à Costa Rica, onde se localiza um recém-criado parque dos dinossauros administrado por um magnata (o também diretor Richard Attenborough). As criaturas pré-históricas voltaram a existir por causa de um experimento genético e mosquitos congelados em rochas, assustando tanto a dupla de doutores quanto um matemático (Jeff Goldblum), que estão na ilha para inspecionar o parque. As cenas a partir daí são um marco para o cinema de ação.
Apesar da lição de moral previsível, Jurassic Park tem uma qualidade inegável: empolga o espectador, que acaba gostando, diante de um roteiro bem solucionado e um elenco talentoso. Além disso, o capricho na parte técnica (sobretudo nos efeitos especiais espetaculares, que continuam os melhores nessa área) tornam o filme uma obra única na história, capaz de suscitar imitações e manter a originalidade.
Também deu origem a duas continuações, a primeira novamente dirigida por Steven Spielberg (com Julianne Moore à frente do elenco) e a segunda, de Joe Johnston, embora o maior filme com dinossauros depois do primeiro Jurassic Park possivelmente seja King Kong, de Peter Jackson. E, se a primeira continuação, O mundo perdido, ainda consegue render uma boa sessão, Johnston não consegue trazer inovação. Já fazem 14 anos desde este último experimento, e desde lá os dinossauros parecem um tanto adormecidos nas grandes telas.

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A expectativa é de que Jurassic World – O mundo dos dinossauros, a nova continuação, não mais dirigida por Spielberg (que apenas produz) e sim por Colin Trevorrow, fosse trazer uma certa magia poucas vezes reencontrada. Deve-se lembrar que Spielberg, afastado dos blockbusters, conseguiu transformar Jurassic World na maior bilheteria de abertura da história. Esta grandeza é acompanhada novamente pelas criaturas. Lá estão elas novamente, junto com um novo casal – embora sempre em briga – formado por Owen Grady (Chris Pratt) e Claire Dearing (Bryce Dallas Howard) . Ela é uma executiva responsável pelo funcionamento do parque, enquanto ele treina investiga o comportamento dos velociraptors. Em torno deles, a pesquisa do geneticista Dr. Henry Wu (B.D. Wong) produziu o Indominus rex, um híbrido de vários dinossauros, mas que lembra substancialmente um Tiranossaurus Rex. O objetivo: atrair mais pessoas para o parque, pois sua visitação tem diminuído e o público pede por novidades.
Depois de sua irmã Karen Mitchell (Judy Greer) enviar os dois sobrinhos para o parque, Zach (Nick Robinson) e Gray (Ty Simpkins), a fim de que se divirtam, Claire consegue se desvencilhar deles, que ficam uma cuidadora. Esses personagens formam as mesmas características do primeiro Jurassic Park e as crianças novamente estão interessadas em se envolver com o que está escondido na mata. Temos ainda o dono do Jurassic World, Simon Masrani (Irrfan Khan), com as mesmas dúvidas do dono original.
Indefinido entre ser uma continuação ou um remake, Jurassic World infelizmente não funciona, de modo geral, nessas duas concepções. Neste ano, tivemos o altamente subestimado remake de Poltergeist, mesmo com todas suas falhas. Não seria Trevorrow que conseguiria emular Spielberg: ele procura os meios iguais, e a mesma tendência não só ao uso do clássico sinfônico de John Williams, mesmo com a trilha nova de Michael Giacchino, os mesmos temas (a separação dos pais para os filhos), a mesma manipulação emocional e a mania de os personagens se transformarem subitamente pela força de vontade, no entanto ele não é Spielberg e tudo parece soar um pouco desconjuntado.

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Claire passa de uma executiva de terno a uma espécie de Ripley quando apresenta sua regata e diz que nunca mais abandonará os sobrinhos, dos quais queria distância, enquanto Owen tem um domínio insuspeito sobre os velociraptors (eles parecem querer conversar). Não só Owen parece querer conversar com as criaturas, como também Vic Hoskins (Vincent D’Onofrio), o chefe da segurança do lugar, aquele que trocaria todas as milhares de pessoas em visita ao parque por uma tentativa de estabelecer contato com dinossauros geneticamente alterados. Quando ele age, o saco de risos está preparado. As crianças ouvem avisos de perigo, para abandonar o bote, mas é inevitável que elas devem seguir o mesmo caminho do primeiro Jurassic Park. O complicado aqui é que os dinossauros parecem acompanhar até mesmo as placas de trânsito e Owen, além de conversar mentalmente com os velociraptors, tem o ímpeto de correr de moto entre os dinossauros, à noite, numa mata fechada.
Tudo é grandioso como o primeiro Jurassic Park, sem, contudo, o mesmo ritmo e a mesma vida. Os cortes oferecidos pelo diretor são pouco elegantes e quando não pretende mostrar uma cena violenta faz o sangue respingar como numa produção B, além do design de produção francamente decepcionante, uma réplica daquele que vemos nos três anteriores.
Pratt é subutilizado, pois tem uma boa veia para o humor (praticamente ausente da narrativa), já mostrada em Guardiões da galáxia, e Dallas Howard não tem oportunidade de revelar sua porção dramática, usada com intensidade em A vila e Histórias cruzadas, por exemplo, para dar à sua presença mais do que uma conversão repentina. Neill e Laura Dern, do primeiro, neste caso, realmente agiam como seres envolvidos com este universo: em Jurassic World, o casal é apenas uma lembrança de que pode haver romance num filme de verão. E, também por causa do roteiro, Nick Robinson e Ty Simpkins não conseguem se destacar.

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Não sem tentativa. Assim como a refilmagem de Godzilla, do ano passado, este Jurassic World procura abordar temas científicos, sobre a criação híbrida de dinossauros, podendo chegar a uma inteligência inesperada. O personagem de Owen é justamente contra isso, e algumas vezes ele entra em discordância com Claire e Vic sobre como tratar as criaturas pré-históricas. No entanto, esta faceta realmente apenas tenta dialogar com a do primeiro filme, melhor desenhada pelo personagem de Sam Neill. A partir daí, Trevorrow parece homenagear algumas peças de que gosta, como Tubarão e Os pássaros (este talvez na melhor sequência). O roteiro, mesmo escrito a oito mãos, pelo diretor, mais Derek Connolly, Rick Jaffa e Amanda Silver, não mostra uma única vez algo que não pareça já programado antes da primeira escrita. Nesse sentido, é cada vez mais comum se justificar que um filme de ação não precisa de desenvolvimento de roteiro nem de personagens minimamente interessantes. Se esta é sua expectativa, Jurassic World é um parque de diversões. Mas é, ao mesmo tempo, uma grande falha, ao não transpor a nostalgia de vinte anos atrás para algo que ressoe uma emoção verdadeira, não apenas conduzida pelas bilheterias.

Jurassic World, EUA, 2015 Diretor: Colin Trevorrow Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Vincent D’Onofrio, Ty Simpkins, Nick Robinson, Omar Sy, B.D. Wong, Irrfan Khan, Jake Johnson, Brian Tee, Lauren Lapkus, Katie McGrath, Judy Greer, Andy Buckley Roteiro: Colin Trevorrow, Derek Connolly, Rick Jaffa e Amanda Silver Fotografia: John Schwartzman Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Frank Marshall, Patrick Crowley, Thomas Tull Duração: 126 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Amblin Entertainment / Universal Pictures

Cotação 2 estrelas