Esquadrão suicida (2016)

Por André Dick

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Não é preciso fazer um prólogo para concluir que hoje as adaptações de HQs se transformaram num grande duelo entre duas companhias, acarretando fãs de um lado ou de outro, ou de admiradores de ambos os trabalhos. A sucessão de lançamentos de filmes do gênero não deixa mais órfãos admiradores de inúmeros personagens, que antes só possuíam os quadrinhos de fato ou as animações televisivas para apreciá-los em movimento. E, cada vez mais, se espera que um filme consiga superar o outro, não tanto em termos de qualidade, mas de bilheteria. Aguardado e divulgado há muitos meses, Esquadrão suicida se transformou na obra que poderia salvar a Warner/DC de novas críticas obtidas em larga escala por Batman vs Superman – o que, pela recepção em geral, acabou não acontecendo. O chamariz principal era a participação de Jared Leto, vencedor do Oscar de coadjuvante por Clube de compras Dallas, como Coringa, embora estejam no elenco nomes como Will Smith, Viola Davis e Margot Robbie.

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O roteiro de David Ayer, diretor de Corações de ferro, coloca Amanda Waller (Viola Davis) como aquela que irá reunir, com o apoio do presidente – isso em razão do destino de um dos personagens de Batman vs Superman –, uma equipe de criminosos: Pistoleiro (Will Smithy), o ex-gângster El Diabo (Jay Hernandez), o monstruoso Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), o mercenário Amarra (Adam Beach), e Arlequina (Margot Robbie), ex-psiquiatra do Asilo Arkham. Eles estão na penitenciária de Belle Reve, onde são reunidos por Rick Flag (Joel Kinnaman). Uma das figuras que Waller também seleciona é a Dra. June Moone (Cara Delevingne), que é possuída por uma bruxa, “Magia”, capaz de colocar Midway City em polvorosa com um grupo enorme de monstros. O grupo, Esquadrão Suicida, é vigiado por Katana (Karen Fukuhara), com uma espada, e, enquanto o Pistoleiro se lembra do passado com sua filha, sua real ponte com a humanidade, Arlequina só tem a se lamentar que não viu mais seu amado Coringa (Jared Leto) depois que foi presa. Curioso como um grupo de ameaças à sociedade acaba constituindo um filme, sinal de tempos em que Norman Bates é mostrado ainda adolescente ou Hannibal se transforma em peça-chave de uma série. No entanto, pode-se dizer que nenhum do Esquadrão suicida é tão ameaçador quanto foi Lex Luthor, interpretado por Jesse Eisenberg em Batman vs Superman.

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Ayer, que escreveu o roteiro de um dos melhores filmes policiais deste século, Dia de treinamento, com Ethan Hawke e Denzel Washington, imprime uma sequência caótica de imagens nos primeiros 40 minutos eletrizantes de Esquadrão suicida. Nessa introdução, há direito a chamadas de personagens que parecem dialogar com a pop art, entregando o mínimo de diálogos a cada um, mas com um sentido muito grande para a ação que remete a quadrinhos – e (spoiler) as participações de Batman são as melhores – e uma influência clara de Watchmen, de Snyder nas transições de cena e mesmo no uso de câmera lenta para dar dramaticidade, além de um uso impactante de flashbacks para demarcar a condição de cada um. E, mais do que a trilha pop que reúne, por exemplo, “Bohemian Rhapsody”, do Queen, mais tensa é a trilha de Steven Price, o mesmo de Gravidade.
Quando o grupo se reúne, Ayer parte para uma homenagem evidente a Fuga de Nova York, de John Carpenter, com o uso do cenário urbano de forma incontestavelmente bem situado e um sentido de ameaça à espreita com os monstros que devem ser combatidos pelo esquadrão. O interessante do roteiro de Ayer é que os personagens não se sentem obviamente fazendo um favor à humanidade, apenas a si mesmos, e nisso não perdem, de qualquer modo, a referência que os une, principalmente nos casos do Pistoleiro e de Arlequina. Tanto por causa da atuação de Smith quanto pela de Robbie – uma parceria já exitosa em Golpe duplo –, eles entregam o que há de melhor em Esquadrão suicida, junto com Viola Davis, com o talento habitual, e mesmo Kinnaman (o novo RoboCop).

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E a tão falada atuação de Leto é visivelmente prejudicada pela montagem. Sua presença em cena é quase divida em vinhetas, mas Leto não entrega um Coringa óbvio: com seu ar de gângster, correntes e tatuagens, ele é ameaçador dentro do tempo que lhe permitiram, afastando-se tanto de Jack Nicholson quanto de Heath Ledger (que praticamente eram os personagens principais dos filmes em que apareciam) e fazendo algo mais estilizado e influenciado pelos quadrinhos. Pelo desinteresse de Ayer em desenhar uma violência explícita, o Coringa se sente às vezes excessivamente contido e sem ser agraciado por falas bem-humoradas, certamente um equívoco do roteiro. Há uma cena num clube que ele posa de Scarface, servindo praticamente de cafetão de Arlequina. De qualquer modo, a cena que melhor o representa é quando salta num caldeirão das indústrias Acme (onde se dá sua criação no Batman de Tim Burton), junto com Arlequina e as cores de ambos, diluídas, vão se misturando – enquanto em outra cena, de helicóptero, ele também homenageia o Coringa de Nicholson. O que se pode dizer é que Cara Delevingne prejudica terrivelmente Magia, com sua falta de senso interpretativo, disfarçada em Cidades de papel pela atuação excelente de seu parceiro de cena.
Porém, há um certo desvio de Ayer no terceiro ato, um problema de vários filmes de super-heróis e, aqui, de anti-heróis: a violência é incessante e caótica, sem um direcionamento definido, e se perde a tensão que havia até a sequência anterior, que acontece num lugar mais calmo, mesmo que a qualidade da fotografia de Roman Vasyanov seja preservada e o design de produção continue elaborado.

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Não há nenhuma influência, como vem se considerando talvez por se tratar de personagens à margem da lei, de Guardiões da galáxia: tudo é muito soturno, como na maior parte das vezes acontece em filmes da DC Comics (é difícil saber em que momento pode ter havido alguma refilmagem, como se comentou depois do lançamento, pois o filme tem o mesmo tom desde o início), e o gráfico de algumas cenas é às vezes mesmo desagradável para crianças. Dos anti-heróis, o mais assustador é Crocodilo, no entanto é El Diablo que coloca uma horda de inimigos em estado de combustão impressionante, remetendo a David Cronenberg. A Arlequina serve como um alívio cômico, embora mais trágico – e sua prisão é uma referência a Hannibal Lecter de O silêncio dos inocentes –, enquanto o Pistoleiro é realmente aquele que tenta sobreviver no cárcere guardando uma ideia de família, sustentada pela atuação de Smith, melhor do que no recente Um homem entre gigantes, prestando no início uma breve homenagem ao papel que interpretou em Ali. É interessante como ele visualiza em Arlequina apenas uma vítima, tão solitária como a sua filha, embora escondida por uma máscara de resistência e entregue feliz à psicopatia de Coringa. Se Esquadrão suicida não se equivale ao acerto Batman vs Superman, também por seu objetivo ser outro, ele consegue, de maneira ágil, apresentar esses personagens sem recorrer a diluir a essência deles na tentativa de agradar de maneira fácil. Dentro do que se propõe, é convincente e vigoroso.

Suicide squad, EUA, 2016 Diretor: David Ayer Elenco: Will Smith, Margot Robbie, Jared Leto, Joel Kinnaman, Viola Davis, Jai Courtney, Jay Hernandez, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Ike Barinholtz, Cara Delevingne Roteiro: David Ayer Fotografia: Roman Vasyanov  Trilha Sonora: Steven Price Produção: Charles Roven, Richard Suckle Duração: 123 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Atlas Entertainment / DC Entertainment / Lin Pictures

Cotação 4 estrelas

Invencível (2014)

Por André Dick

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É comum, todo ano, escolherem um filme com todos os componentes para o Oscar e em 2014 foi o caso do segundo trabalho de Angeline Jolie à frente da direção, Invencível. Anunciado meses antes de sua estreia como o mais fácil candidato aos prêmios da Academia de Hollywood, parecia estranho, depois de seu lançamento, que a crítica e o público já haviam diminuído a expectativa. A questão é que qualquer excesso de expectativa pode ser prejudicial, ainda mais quando estamos lidando com uma das atrizes mais conhecidas de Hollywood ainda pouco experiente na direção e foi protagonista recentemente de um sucesso infantojuvenil, Malévola, dos estúdios Disney.
Particularmente, não chego a apreciar Jolie nem mesmo nos filmes em que ela despontou, como Garota, interrompida, pelo qual recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Dito isso, não estava aguardando especialmente esta obra, apesar do interesse pela reprodução de época, à medida que Invencível se enquadra naquele tipo de biografia histórica tão aos moldes da Academia de Hollywood. Trata-se de um projeto, por tudo que o cercou, muito pessoal para a atriz e cineasta: a vida de Louis Zamperini (Jack O’Connell), que foi um atleta olímpico. O filme inicia mostrando-o como soldado, num avião B-24, em meio a uma batalha sobre o Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, contra japoneses. Esses minutos iniciais já compõem o que será Invencível: é um filme bastante econômico na montagem e com uma fotografia inacreditavelmente bela assinada por Roger Deakins.

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É difícil recordar outro filme recente com uma batalha aérea tão detalhada e compassada como esta que abre Invencível e, se ela é cortada por flashbacks do personagem central em direção à sua infância na Califórnia (então interpretado por CJ Valleroy), quando era perseguido por colegas e, devido à necessidade, precisava correr, passando por isso a ser treinado pelo irmão Peter (John D’Leo), logo Jolie nos coloca em meio aos objetivos de Zamperini: tornar-se atleta olímpico, para competir nas Olimpíadas de 1936. Há, nesta parte de filme, muito claramente um diálogo com Carruagens de fogo, um dos filmes de esporte mais fascinantes de todos os tempos, apesar do comum desapreço por ter recebido justamente o Oscar de melhor filme de 1981. A partir daí, é mostrada a trajetória de Zamperini, tendo de enfrentar inúmeras adversidades, tanto em alto-mar, quando está ao lado de Russell Phillips (Domhnall Gleeson) e Francis McNamara (Finn Wittrock), quanto num campo de concentração japonês, para onde é mandado e conhece Mutsuhiro“Bird”Watanabe (o músico Miyavi), que se torna seu inimigo, além de Fitzgerald (Garrett Hedlund).
Jolie, de forma reveladora, tem um olhar bastante claro para o que pretende mostrar, independente do discurso que contenha: não são poucas as vezes que Invencível dá a impressão de não ter um roteiro sólido. A cineasta deixa de se concentrar em diálogos para narrar o filme por meio de imagens, e elas nunca são menos do que impressionantes, não apenas pelo trabalho fotográfico de Deakins, mas porque o astro Jack O’Connell se coloca como uma extensão entre o espectador e o cenário. São aparadas todas as arestas, e Invencível se desenvolve de maneira ágil, mesmo ignorando sua duração. Escusado será dizer que em alguns momentos o excesso de castigos imputados a seu personagem parecem exceder o bom senso, mas O’Connell nunca deixa de carregar uma fagulha de emoção em sua atuação física que, pelas circunstâncias mostradas, lembra a de Christian Bale em O sobrevivente, de Herzog. Porém, se o filme de Herzog ainda tem uma linha de diálogos mais extensa, os silêncios de Invencível remetem mais à obra-prima de Nagisa Oshima, Furyo – Em nome da honra, que mostrava um soldado neozelandês (feito por David Bowie) enfrentando um capitão japonês (o também músico Ryûichi Sakamoto), numa estranha relação.

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Os silêncios da narrativa, entrecortados por imagens de uma ponte, interligando o campo de concentração com a civilização ou uma pintura de Hokusai num restaurante onde vai se alimentar, dialogando com as cenas em que o personagem central precisa enfrentar problemas em alto-mar, mostram uma complexidade, tornando Invencível sobre um grito recolhido, não de vitória (como Zamperini gostaria de ouvir na pista de corrida), mas de desespero, diante da barbárie a que é submetido. Angelina Jolie tem um olhar muito claro em relação ao que deseja mostrar a partir de um roteiro adaptado por Richard LaGravenese e William Nicholson, e também pelos irmãos Joel e Ethan Coen, do romance de Laura Hillenbrand (autora de Seabiscuit): para ela, a história é feita da insistência em não ser esquecido e os elementos da natureza que são dispostos (do ar, passando pela água, depois pelo fogo e pela terra, quando é preciso enfrentar o trabalho forçado) ajudam a formar não apenas a narrativa, como o próprio personagem central. E a arte e os esportes são uma maneira muito clara de eternizar a própria condição efêmera da guerra. Invencível se propõe a colocar o personagem dentro dessa rede de conceitos interessante, fazendo com que ele possa se autossolucionar independendente de sua imagem ligada à guerra. Apenas se lamenta que, com esse destaque dado ao personagem central quase de forma absoluta, alguns personagens coadjuvantes não possam ter um desenvolvimento maior, como o de Fitzgerald.

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Embora haja alguns elementos patrióticos no filme, eles não são excessivos quando condicionados pela atuação de O’Connell, que realmente representa esse elenco com a força necessária individual (e parecem menos previsíveis do que a crítica ao patriotismo ianque de um Foxcatcher). Deakins faz um passeio pela história proporcionando ao espectador imagens aproximadas a quadros de ambientes que realmente existiram, e para isso o desenho de produção e o figurino atuam com perícia. Jolie, num terreno já frequentado antes por grandes e renomados cineastas, como Clint Eastwood, consegue encontrar emoção e estranheza na condição de Zamperini diante do que precisa enfrentar.
Não se trata de um caminho fácil; assim como mostra a contemplação diante de cenas fortes graficamente, Jolie compõe algumas cenas de movimento com grande êxito, como aquelas em alto-mar, que se aproximam do trabalho de Ang Lee em As aventuras de Pi, no entanto com uma tensão própria. É notável, em igual escala, o modo como a claridade é captada por Deakins no início do filme, com os flashbacks da infância de Zamperini, e o quanto ela vai desaparecendo, embora não totalmente, ao longo do filme, até se conciliar à frieza dos trabalhos forçados num cenário completamente cinza. Se está sendo feito um filme com base na história, esta não pode ser colocada em segundo plano, assim como a narrativa, em busca sempre de um equilíbrio. Mesmo que Invencível se sinta de algum modo como um projeto em construção (comenta-se que a montagem não teve concordância completa da diretora), principalmente ao final, quando cede a um intervalo mais pop, ele tem uma força e ressonância próprias, capazes de fazer o espectador se interessar não apenas pelo tema, como também pela própria figura enfocada e sua constante superação pessoal. Este filme é um relato de sobrevivência transparente tanto de um indivíduo quanto de um tipo de cinema que retoma o passado procurando esclarecer os caminhos a seguir.

Unbroken, EUA, 2014 Diretor: Angelina Jolie Elenco: Jack O’Connell, Domhnall Gleeson, Garrett Hedlund, Finn Wittrock, Jai Courtney, Alex Russell, Luke Treadaway, Miyavi Roteiro: Richard LaGravenese, William Nicholson, Joel e Ethan Coen Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Alexandre Desplat Duração: 137 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: 3 Arts Entertainment / Jolie Pas / Legendary Pictures

Cotação 4 estrelas