Alita – Anjo de combate (2019)

Por André Dick

Com roteiro de James Cameron e Laeta Kalogridis, Alita – Anjo de combate, baseado na série de mangás criada por Yukito Kishiro, parece uma reprodução das heroínas do responsável por O exterminador do futuro. Encontrada em meio ao ferro-velho de Iron City, pelo Dr. Dyson Ido (Christoph Waltz), a ciborgue que passa a ser chamada de Alita (Rose Perez) e carrega um cérebro humano, é reconstruída. Logo, ela descobre que muitos da Terra querem chegar a Zalem (o que lembra Elysium), uma espécie de cidade tecnológica no céu da cidade, principalmente o jovem pelo qual se apaixona, Hugo (Keean Johnson). Por sua vez, Ido foi casado com Chiron (Jennifer Connelly), da qual se afastou após a morte da filha e que terá uma ligação essencial com a trama para explicar os destinos da narrativa.
Essa premissa é uma prévia do que virá: Ido, na verdade, trabalha como um guerreiro caçador, buscando peças de ciborgues à noite, no longínquo ano de 2563, até o dia em que precisa enfrentar Grewishka (Jackie Earle Haley), em relação ao qual Alita vai demonstrar sua capacidade de luta chamada “Panzer Kunst”. Nesse sentido, talvez a melhor sequência da história se passa no Kansas Bar, no qual Alita precisa enfrentar vários de sua corporação e, principalmente, uma versão atualizada de uma ameaça que já combateu.

Aos poucos, ela começa a recuperar as memórias de sua vida passada, o que faz lembrar Ghost in the shell, além de possuir uma grande influência dos mangás, com sua cultura cyberpunk, Blade Runner. Não por acaso, trata-se de uma personagem feminina bem delineada. É de praxe nas obras de Cameron: a Grace de Avatar é uma extensão daquelas heroínas que esse cineasta privilegiou em sua trajetória, desde Sarah Connor, de O exterminador do futuro, passando pela Lindsey de O segredo do abismo, Ripley, de Aliens, até a Rose, de Titanic.  Pode-se dizer, nesse sentido, que Alita – Anjo de combate, parece muito mais uma obra de Cameron do que de Robert Rodriguez, o diretor oficial. Conhecido por sua parceria com Quentin Tarantino desde Um drink no inferno, passando por Planeta Terror, Rodriguez se projetou com A balada do pistoleiro nos anos 90 e com Sin City, a adaptação estilosa dos quadrinhos de Frank Miller. Também fez algumas séries com visual kitsch (Pequenos espiões) ou excessivamente exageradas (Machete), e pode-se dizer que a elegância visual de seu novo filme também tem muita influência de Cameron. São em torno de 150 e 200 milhões de dólares muito bem aplicados.

Pode-se dizer, também, o quanto há de influência aqui, de Sucker Punch, de Zack Snyder, sobre uma menina presa numa clínica psiquiátrica que, para fugir da sua realidade, se recolhia num mundo de sonho, onde podia se livrar dos seus carrascos. Alita, pela própria maneira com que é escrita, também está dividida entre o universo em que precisa obedecer ao doutor que a recria e aquele em que se mostra poderosa, com uma competência para lutar que pode lembrar o Neo de Matrix. Nesse sentido, ao mesmo tempo, a obra das irmãs Wachowski é uma nítida inspiração visual do filme de Rodriguez, assim como o RoboCop de Paul Verhoeven, principalmente em sua violência bastante contundente em alguns trechos, pouco normal numa obra a princípio para um público infantojuvenil. As sequências no Motorball, que dialogam com Speed Racer e Jogador Nº 1 (que virou uma referência para este gênero), são, não raramente, empolgantes e filmadas com autenticidade, elemento cada vez mais raro em blockbusters.

Do mesmo modo, o vilão Vector, feito por um inusitado (pois conhecido por papéis mais melodramáticos) Mahershala Ali, é uma extensão do que os burocratas maléficos dos filmes de Cameron podem fazer, o que acontece desde o tempo em que roteirizou Rambo II e dirigiu O exterminador do futuro 1 e 2, Aliens – O resgateTrue lies e O segredo do abismo. Apesar de boa parte de sua trama ser sobre um romance entre adolescentes, Alita nunca perde o seu foco, o de mostrar um universo fantástico abalado pela tentativa de o ser humano querer atravessar os caminhos da criação e se tornar o olhar vigilante de qualquer tipo de sistema. Rodriguez aplica de maneira muito consciente um certo estilo que demonstrou sobretudo em Sin City, convertendo imagens fantásticas num realismo bastante ameaçador, sem, aqui, no entanto se desviar para uma homenagem a uma época específica (no caso daquele, do cinema noir) e aproveitando o elenco talentoso do melhor modo, inclusive Waltz num momento muito bom, sem recorrer tanto a alguns de seus maneirismos, e Ali (este, se ganhar o Oscar de coadjuvante com Green Book, soma, com Waltz, quatro estatuetas desta categoria apenas na última década), além de uma emocional Connelly. Os intérpretes jovens, Salazar (com sua captação de movimentos), e Johnson, também são plausíveis, assim como Haley. É justamente a figura de Alita, mistura entre humano, animação e ciborgue, que torna o filme eficiente em todos os aspectos. Ela traz, ao mesmo tempo, um discurso, suas lembranças e uma vontade de superação que não torna o roteiro numa peça apenas funcional, como poderia, e sim bastante reflexivo.

Alita – Battle Angel, EUA, 2019 Diretor: Robert Rodriguez Elenco: Rosa Salazar, Christoph Waltz, Jennifer Connelly, Mahershala Ali, Ed Skrein, Jackie Earle Haley, Keean Johnson Roteiro: James Cameron, Laeta Kalogridis Fotografia: Bill Pope Trilha Sonora: Tom Holkenborg Produção: James Cameron, Jon Landau Duração: 122 min. Estúdio: 20th Century Fox, Lightstorm Entertainment, Troublemaker Studios, TSG Entertainment Distribuidora: 20th Century Fox

O nascimento de uma nação (2016)

Por André Dick

o-nascimento-de-uma-nacao-3

O diretor e ator Nate Parker realizou O nascimento de uma nação com cerca de 8,5 milhões de dólares, um orçamento irrisório. Premiado como melhor filme no Festival de Sundance, ele teve grande recepção crítica e se tornou num dos possíveis candidatos ao Oscar num primeiro momento, mesmo porque houve a polêmica da premiação no início deste ano de não indicar artistas negros às categorias. E o título é uma clara referência ao filme de 1915 de D.W. Griffith que elogiava a Ku Klux Khan, inclusive colocando atores brancos pintados de negros, um épico de mais de três horas de duração que revolucionou a maneira de realizar filmes (infelizmente, muitas vezes no mau sentido).
O filme inicia mostrando o personagem central, Nat Turner, na infância (interpretado por Tony Espinoza), em Southampton, Virginia, quando é visto como uma espécie de libertador, marcado pela simbologia africana. Elizabeth Turner (Penelope Ann Miller) o ensina, desde pequeno, a ler e a escrever, além de estudar a Bíblia, aderindo ao cristianismo. Ele cresce e vira pregador. O filho de Elizabeth, Samuel (Armie Hammer), usa o fato de ele ser um pregador para controlar escravos mais rebeldes, e eles convivem proximamente, não exatamente tratando um ao outro como irmão, mas quase. No entanto, há o capataz Raymond Cobb (Jackie Earle Haley), um homem agressivo, já no início em combate com o pai de Nate, Isaac (Dwight Henry), e que pode ameaçar Cherry (Aja Naomi King), interesse amoroso do personagem principal, cuja figura referencial é a da mãe (Aunjanue Ellis).

o-nascimento-de-uma-nacao-15

o-nascimento-de-uma-nacao-19

o-nascimento-de-uma-nacao-25

A atuação de Parker é excelente, lembrando um pouco a de Ejiofor de 12 anos, mas talvez com mais impacto em alguns momentos, mesmo pela temática mais contundente em alguns pontos, justificando a recepção em Sundance. No entanto, esta recepção exitosa – com grandes chances de ir ao Oscar – se deu até o momento em que uma notícia veio à tona em agosto: de que Parker e seu argumentista, Jean McGianni Celestin, foram acusados pelo estupro de uma jovem na época da faculdade, em 1999. Ao longo do julgamento, inocentaram o diretor, enquanto culparam seu parceiro, que teve as acusações retiradas depois de recorrer. A jovem acabou cometendo anos depois suicídio (há relatos mais apropriados em sites que investigaram o caso). É absolutamente lamentável a tragédia envolvendo a jovem estudante e muito importante o que a imprensa trouxe à cena.
Tentando ver seu filme do ponto de vista artístico e não dos temas que se formaram em razão da polêmica desagradável envolvendo Parker (o que não é fácil), ele tem uma sensibilidade na direção de atores (Hammer dá sua melhor atuação desde A rede social) e no uso da fotografia de Elliot Davis, com sua paleta entre o azul, o verde e o cinza. Pode-se dizer que é um retrato que se preocupa em mostrar um período devastador para a humanidade. O plano religioso também é trabalhado de forma adequada, com uma colocação do discurso como forma de atenuar qualquer rebelião – e, mesmo assim, podendo provocá-la, sob um entendimento equivocado.

o-nascimento-de-uma-nacao-28

o-nascimento-de-uma-nacao-23

o-nascimento-de-uma-nacao-18

No local onde vive, há um outro reverendo, Zalthall (Mark Boone Júnior), a serviço do dono de Nat e que usa este para tentar controlar outros escravos da região, e um uso grande de imagens simbólicas referentes ao universo da pregação e da retórica que poderia colocar Turner como uma espécie de Malcolm X de sua época. Entre os amigos de Nate, está um escravo, Hark (Colman Domingo) que vê sua noiva (Gabrielle Union) também sofrer. Essas cenas mais graficamente violentas são talvez mais fortes do que aquelas que visualizamos anteriormente em 12 anos de escravidão e Django livre, com Parker tentando usar recursos visuais que McQueen e Tarantino não utilizam. A sensibilidade também é percebida na aproximação de Nat de Cherry, quando ele lhe oferece uma rosa – e a sua cor significa mais do que os espinhos que pode carregar. O espectador é capaz de sentir, como no filme de McQueen, o peso existencial sobre cada personagem.
Belas imagens, como o sangue da orelha sobre o milho, ou os escravos colhendo algodão enquanto o sol parece passar por um eclipse, ou as nuvens da noite cobrindo a lua, antecipam essa vingança baseada nas palavras religiosas. Os homens carregando tochas à noite lembram uma espécie de regresso à África, ao verdadeiro nascimento de uma nação. Uma cena especialmente discreta é impactante é quando uma menina negra brinca puxando outra pela corda na varanda de uma mansão, enquanto Nat observa da carroça.

o-nascimento-de-uma-nacao-26

o-nascimento-de-uma-nacao-24

o-nascimento-de-uma-nacao-29

Há uma grandiosidade na maneira como os temas são retratados, com certa claustrofobia nos cenários e movimentos de câmera. Parker atua talvez melhor do que dirige, com uma gravidade nas palavras, principalmente quando reconhece o que fazem com escravos em fazendas vizinhas da sua, e isso sustenta talvez a melhor parte do filme. O nascimento de uma nação acontece exatamente por meio desse enfrentamento, que realmente existiu em 1831, mesmo este existindo sem a devida ênfase, por outro lado com uma crueza necessária.
Embora o orçamento seja limitado, o desenho de produção e o figurino têm grande qualidade e, se em alguns instantes parece tentar algo no caminho de Gangues de Nova York, deve mais à obra de McQueen e dialoga com traços de A cor púrpura. E há o elenco, quase todo uniformemente impecável, mesmo os coadjuvantes menos destacáveis. No ato final, Parker utiliza alguns elementos simbólicos e um deles remete, curiosamente, a Twin Peaks – Fire walk with me, de David Lynch, numa espécie de enfrentamento com o destino. Não se compreende que Parker perdoa alguma ação desencadeada pela vingança confundida com a religião, e sim de que ele é atormentado por visões que não explicam o que ele realiza. Isso acontece depois de uma sequência bem trabalhada, embora em fragmentos, e que justifica a obra como um retrato forte sobre a escravidão. Ao mesmo tempo, Nate Parker continuará a ser julgado, por tudo aquilo que teria acontecido em sua vida pessoal, mesmo tendo sido inocentado no plano da justiça, e por todos os temas que tentou levar às telas, de grande importância histórica e cinematográfica.

The birth of a nation, EUA, 2016 Diretor: Nate Parker Elenco: Nate Parker, Armie Hammer, Colman Domingo, Aja Naomi King, Jackie Earle Haley, Penelope Ann Miller, Gabrielle Union Roteiro: Nate Parker, Jean McGianni Celestin Fotografia: Elliot Davis Trilha Sonora: Henry Jackman Produção: Nate Parker, Kevin Turen, Jason Michael Berman, Aaron L. Gilbert, Preston L. Holmes  Duração: 120 min. Estúdio: Bron Studios, Mandalay Pictures, Phantom Four, Tiny Giant Entertainment Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

cotacao-4-estrelas

Watchmen – O filme (2009)

Por André Dick

Watchmen 2

Ter sido escolhido para realizar O homem de aço trouxe a Zack Snyder a responsabilidade de renovar uma franquia que iniciou com um dos melhores filmes já feitos a partir de quadrinhos, o original de Richard Donner. Anos antes ele já havia feito este Watchmen – O filme, uma espécie de prévia para o diretor de seus projetos futuros. Considerando a versão com seu corte (215 minutos, sendo que o original tinha 162), é difícil imaginar outro épico com super-heróis. Adaptado da novela gráfica de Alan Moore e Dave Gibbons, Watchmen é um exemplo de obra que cresce com seu material de origem. Para isso, era importante contar com Snyder, um cineasta que certamente não contém o mesmo trejeito para a mistura entre ação e comicidade de Donner, não o impedindo de ser, por outro lado, um cineasta com um toque autoral delirante, principalmente nesse filme (não em O homem de aço, em parte uma decepção por não utilizar o talento demonstrado aqui). Essa característica, ainda assim, voltaria em sua peça seguinte, o menosprezado Sucker Punch, no sentido de este também mostrar os efeitos da guerra sobre personagens delimitados, embora pareça mais uma mistura de filmes de heróis com Cabaret de Bob Fosse.

Watchmen 7

Watchmen 12

Watchmen 5

Os heróis de Watchmen são Edward Morgan Blake/Comediante (Jeffrey Dean Morgan), Walter Kovacs/Rorschach (Jackie Earle Haley), Laurie Jupiter/Spectre Silk (Malin Akerman), Daniel Dreiberg/Nite Owl (Patrick Wilson), Adrian Veidt/Ozymandias (Matthew Goode) e Jon Osterman/Dr. Manhattan (Billy Crudup). Eles se encontram fora de ação desde que Richard Nixon (Robert Wisden), na Casa Branca ainda em 1985, em meio à Guerra Fria e visto como uma referência por ter conseguido vencer no Vietnã, proibiu heróis mascarados, e se reúnem novamente para investigar o assassinato de um deles, o Comediante. Isso é motivo inicialmente para Snyder empregar, mais do que em 300, um estilo bastante específico, uma espécie de mistura entre filmes de heróis e suspense noir. Os ambientes e a atmosfera histórica, de lugar sem tempo definido, são fascinantes e carregam Watchmen para um outro nível. É interessante como Snyder apresenta os personagens de maneira lenta, recorrendo a flashbacks, e não incorre num caminho afetado por maneirismos, sem excesso de jogos de câmera, por exemplo, em sequências de ação, conservando tudo na dose certa. Não chegam a ser recordações didáticas e sim com o intuito de acrescentar mais densidade a cada figura.
E o elenco é realmente excelente: Wilson é uma surpresa como Nite Owl, assim como Akerman, depois de exibir bons elementos de comediante em Antes só do que mal casado (um dos filmes mais menosprezados dos Irmãos Farrelly), apresenta uma Spectre Silke com traços de dificuldade com a mãe (Carla Gugino), integrante do grupo Minutemen, de quem herdou o título de heroína, e em sua relação com Dr. Manhattan, que teria ajudado Nixon a vencer a guerra do Vietnã. Akerman é o personagem que une todos os heróis e está, ao contrário de algumas críticas à sua atuação, excelente. Temos, ainda, Matthew Goode, numa de suas atuações mais equilibradas, como Ozymandias, que se tornou um multibilionário graças à sua inteligência, e tem uma parceria com Dr. Manhattan.

Watchmen 3

Watchmen

Watchmen 11

Watchmen é, claramente, uma crítica ao governo Nixon e de como um resultado diferente da Guerra do Vietnã não necessariamente acabaria com a Guerra Fria e a a ameaça nuclear, motivo pelo qual o governo depende do Dr. Manhattan, resultado de experimentos secretos. Os Estados Unidos mostrados pelo filme parecem viver numa permanente Segunda Guerra Mundial ou Guerra do Vietnã, sempre amedrontado. Nixon, em seu terceiro mandato, corresponde à ligação entre a década de 70 e os anos 80 de Ronald Reagan.
Do mesmo modo, a liberdade sexual dos anos 60 em Watchmen é conduzida a uma repressão não apenas das ligações afetivas como também da figura dos heróis. Escusado será entender que a sequência do zepelim parece ser a antítese dessa repressão, pairando sobre o céu de Nova York, e numa grande visualização de Snyder, assim como a passagem por Marte. Spectre Silke é o principal elo de ligação entre os heróis e esse intervalo histórico de certa repressão, pois não é dado aos heróis o espaço para imaginá-la que não livre do contexto de culpa e pecado. Por isso, ao mesmo tempo, tanto Dr. Manhattan quanto Nite Owl soam, de certo modo, deslocados e um pouco trágicos ao não conseguirem confessar seu amor. E, se Rorschach vai se escondendo por trás de luzes e sombras (dialogando tanto com The Blank, vilão mascarado de Dick Tracy, quanto com Darkman), o Comediante pode oferecer uma vida pregressa de crimes inclusive de guerra, vistos antes apenas em filmes de Oliver Stone ou Michael Cimino.
Esses caminhos, no entanto, não seriam os mesmos não fosse a qualidade com que Snyder os emprega. Isso talvez seja aquilo que mais chame a atenção nesta adaptação: apesar de ser fiel ao material original, em nenhum momento ele se coloca apenas como uma extensão direta do trabalho original, como vemos em 300, adaptação dos HQs de Frank Miller; em Watchmen o diretor de fato se coloca como um observador tanto da figura mítica do herói quanto do lugar em que ele pretende se inserir.

Watchmen 4

Watchmen 9

Watchmen 14

Ele também poderia ter realizado algo mais próximo ao estilizado, como Sin City, também adaptado dos quadrinhos de Miller, mas escolhe um tom mais próximo do cinema dos anos 40 ou 50, auxiliado pelo design de produção irretocável e a fotografia de Larry Fong (Super 8), sobretudo quando mostra a investigação de Rorschach, com relatos num diário que remetem aos narradores de filmes antigos policiais, e sua ida para a cadeia, assim como a nave de Nite Owl lembre mais um zepelim em tamanho menor noturno e o homem da banca de jornais relembre sempre as notícias diárias envolvendo os acontecimentos referentes a esses heróis. Do mesmo modo, os Tales of the Black Freighter/Contos do cargueiro negro (incluídos na versão estendida) lembram os quadrinhos dessas décadas. A impressão é que Snyder tem muito interesse em conservar essa análise à margem do filme mais do que propriamente a ação dos filmes de super-heróis, que acontecem em momentos pontuais e talvez sem a força conhecida em outras produções do gênero. Mesmo o final, sob este ponto de vista, pode ser fraco e por vezes ineficaz. No entanto, ao contrário do que realizou para O homem de aço, isso realmente parece não importar ao cineasta em Watchmen, uma referência do gênero.

Watchmen, EUA, 2009 Diretor: Zack Snyder Elenco: Patrick Wilson, Malin Akerman, Matthew Goode, Jeffrey Dean Morgan, Jackie Earle Haley, Billy Crudup, Carla Gugino, Robert Wisden Roteiro: Alex Kurtzman, Roberto Orci Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Deborah Snyder, Lawrence Gordon, Lloyd Levin Duração: 163 min. (versão original); 215 min. (versão estendida) Estúdio: Lawrence Gordon Productions

Cotação 4 estrelas e meia

RoboCop (2014)

Por André Dick

Robocop.Filme 2

Em 1987, o primeiro RoboCop apresentava, mais do que a violência conhecida, uma espécie de imaginação referente ao universo futurista, em que os policiais humanos poderiam começar a ser substituídos por robôs. Mas o que mais chamava a atenção é que o filme do holandês Paul Verhoeven lidava, de forma interessante, com uma linguagem de quadrinhos, influenciando de forma decisiva o Batman de Tim Burton, sobretudo pela inserção de noticiários em meio à trama. E era nisto que morava a sua diversão. No entanto, ninguém falava em RoboCop como ícone de um novo cinema, da corrosão (literal) de Verhoeven, da sátira incrivelmente costurada.
Nisto reside a surpresa de, no novo século, RoboCop ser uma espécie de obra-prima da ficção científica e o remake de José Padilha ser uma espécie de ameaça a esta aura de filme inalcançável. Quando soube dessa refilmagem, a primeira sensação foi de temor. RoboCop figura como um dos melhores filmes dos anos 1980, mas basicamente ele é (e foi) um filme que tentava ser pop – e se transformou em cult justamente por essa mistura entre um lado mais popular e a estranheza, com seu elenco original e cenas de extrema violência, o que Verhoeven usaria novamente em O vingador do futuro. O mesmo Verhoeven praticamente afastado de Hollywood por causa de sua joia menosprezada Showgirls – e mesmo com seu Tropas estelares, visto em seu lançamento como apenas um cinema trash no espaço – hoje é exemplo do que deveria ser um diretor de ficção científica. Verhoeven tinha elementos que nem os diretores de Hollywood do gênero possuíam: uma vontade de misturar elementos de filme B com uma sofisticação. É isto que vemos em vários de seus filmes, mesmo de outros gêneros, como Instinto selvagem. Mas o RoboCop original não tem a dose fora de série de humor pelo qual é conhecido nem esta crítica ferina implacável – ele tem, aqui e ali, elementos de crítica ao sistema, contanto nada extraordinário – e tem um ambiente muito mais perverso, com violência explícita, não necessariamente uma qualidade, e drogas sendo usadas. Ou seja, era uma visão pessoal de Verhoeven.

Robocop.Filme 13

Robocop.Filme 10

Robocop.Filme 11

Padilha é precedido pelos dois Tropa de elite e teria sugerido assumir a refilmagem de RoboCop a produtores da MGM. Depois de recusar o roteiro da versão de Darren Aronofsky, que se retirou para dirigir Cisne negro, ficou claro que ele próprio tinha uma concepção particular do projeto. A questão passaria a ser as inevitáveis comparações com o filme de Verhoeven. Onde este é mais violento, o novo RoboCop passaria a ser mais asséptico; onde o do diretor holandês era mais bem-humorado e agressivo, mostrando o uso de drogas, o novo seria menos intenso e mais comedido. Quando se inicia o filme com os drones ED-209 nas ruas de Teerã, tentando garantir a segurança da população, com uma equipe de filmagem do programa de Pat Novak (Samuel L. Jackson) a postos, e os olhares de alguns moradores pela janela, fica claro que o novo RoboCop não agradaria quem esperava uma espécie de figura do futuro, mas afastada da política. No entanto, o novo RoboCop não chega a ser um filme estritamente político – como foram os filmes anteriores de Padilha, inclusive Ônibus 174. Nem mesmo quando logo se mostra, em seguida, a inoperância da polícia em perseguir um traficante na Detroit de 2028. O policial Alex Murphy (Joel Kinnaman) se culpa pelo ferimento do parceiro numa cena de guerra e, depois de voltar para casa e reencontrar a mulher, Clara (Abbie Cornish), e o filho, David (John Paul Ruttan). O que acontece daí em diante o levará para a sala de pesquisas do dr. Dennett Norton (Gary Oldman), que está a serviço de Raymond Sellars (Michael Keaton), dono da OmniCorp. O governo americano não quer aprovar uma lei que permita uso de robôs em combate policial, e Sellars pede a Norton um robô com certa percepção humana. Murphy acaba servindo a isso – e é nisto que o novo RoboCop se baseia.
Mais do que um filme de ação ou do que um remake da obra de Verhoeven, o novo RoboCop discute a fusão possível entre o homem e a máquina. Quando Murphy se conhece pela primeira vez com a armadura, há um salto considerável da obra de Verhoeven para a obra de Padilha. Não há, nessa conversão, artifícios de um mero blockbuster, com orçamento milionário. O filme tem, e isso é considerável, uma alma definida. Ele mostra o reconhecimento de um homem diante de sua nova vida, não apenas alguém que é utilizado por uma corporação para se tornar um exemplo de policial do futuro.
Mas Padilha não se concentra especificamente no drama familiar, pois isso tiraria a mitologia do personagem, também ligada à ação. E, se há um equilíbrio bastante claro entre as questões científicas e vilões ambíguos de todos os tipos, temos também um filme de ação vigoroso, cuja montagem (com a presença de Daniel Rezende, que colaborou em Cidade de Deus e A árvore da vida) é não menos do que perfeita. Embora tenham deslizes e um excesso de narração em off, não se pode falar que os dois Tropa de elite sejam filmes sem uma autoria. Em RoboCop, o excesso de diálogos se converte numa síntese, como a armadura do personagem central, e se o poder da versão de Verhoeven era sua autenticidade o de Padilha é justamente um trato emocional. O momento especialmente em que RoboCop surge é simbólico, sobretudo quando ele se encontra, em determinado momento, em meio a um campo de plantações semelhante àqueles do Vietnã, embora na China – não antes sem uma homenagem clara a Avatar, de James Cameron. No futuro, a corporação norte-americana não consegue fugir de seu passado. Nesse sentido, os diálogos sobre salvar vidas humanas ou não, usando robôs sem uma porção emocional ou não, são muito interessantes, e Padilha vai além do que imaginou Verhoeven nos anos 80. Quando se importa em quantos milésimos de segundo alguém será morto, o filme pergunta se a vida de uma criança em cena de guerra será realmente importante para quem fabrica armas – e a relação do RoboCop com o filho estabelece uma ligação direta com o início do filme em Teerã. Padilha trata o personagem não com reverência, mas como parte de um contexto, sem afastá-lo, no entanto, de sua mitologia e da diversão. E talvez toda essa comparação com o anterior e um certo saudosismo ofusque o mais evidente: o novo RoboCop é impressionante.

Robocop.Filme 5

Robocop.Filme

Robocop.Filme 4

Padilha extrai das reações humanas e não dos diálogos a peça para seu filme funcionar, o que não seria possível sem o elenco. Gary Oldman é um excelente Norton, provando novamente ser um grande ator, capaz de extrair emoção de um material que nas mãos comuns se tornaria indefensável, e Joel Kinnaman é uma revelação como RoboCop. Peter Weller, do primeiro, nunca foi grande ator (pelo menos até sua atuação no recente Star Trek). Kinnaman não é apenas mais ator, como também consegue transparecer emoção num roteiro que pode ser considerado, dentro de determinados limites, um clichê (embora quando se ouve falar que Ela, de Spike Jonze, é um filme de clichês, os parâmetros ficam mais delicados). Sua transformação de simples policial no personagem-título é grande. Por sua vez, o até então desaparecido Michael Keaton consegue fazer uma mistura entre Miguel Ferrer e Ronny Cox da primeira versão, assim como Jennifer Ehle consegue desempenhar a assessora do cientista Liz Kline com grande eficácia, e Jackie Earle Haley também consegue boas linhas como Rick Mattox. Samuel L. Jackson, por sua vez, como o Pat Novak, colabora com a porção de crítica, discutindo o militarismo, embora alguns instantes de sua participação soem um pouco artificiais e encaixados de forma mais esquemática diante do restante. Mas a questão está lá: desde Fahrenheit 11/9, a obsessão norte-americana pelo militarismo não era tão criticada e, se Padilha não tem o sarcasmo de Verhoeven, as farpas de seu RoboCop ressoam muito mais do que a Detroit imaginada em 1987.
Todos esses personagens são envolvidos numa narrativa que se costura rapidamente, sem grande complexidade, mas que soa verdadeira e sem deixar pontas soltas, com o auxílio de efeitos visuais preciosos e uma direção de arte urbana alternando com corredores e salas de pesquisa. Há alguns elementos do início do filme que mostram uma certa dificuldade de adaptação ao cenário, uma certa experimentação com a atmosfera (e entre dedilhados de violão e uma música de Frank Sinatra não parecemos estar num filme de ficção científica), mas aos poucos se percebe que este tratamento é proposital, para que Murphy passe de sua forma humana a uma fusão com seu futuro, e tente se adaptar a ela. Em nenhum momento, sente-se o filme como um arremedo solto, tentando agradar infalivelmente a plateia, e mesmo onde há falhas logo a montagem consegue preencher a lacuna. Os sentimentos de Alex Murphy conseguem sustentar com segurança todo o ato final, com uma sequência de cenas de ação compactadas e bem resolvidas, e sentimos que há uma mão coordenando tudo, sem menosprezar o espectador. O mais importante parece ser que este RoboCop não pede desculpas a seu original e tenta seguir seu próprio caminho. O de Verhoeven sempre vai habitar a imaginação como um filme brutalmente original, mas este de Padilha possivelmente será mais reconhecido – não tanto agora, pois é muito recente – por seu impacto em termos de emoção e angústia humanas.

RoboCop, EUA, 2014 Diretor: José Padilha Elenco: Joel Kinnaman, Gary Oldman, Michael Keaton, Samuel L. Jackson, Abbie Cornish, Jackie Earle Haley, Michael K. Williams, Jennifer Ehle, Jay Baruchel, John Paul Ruttan Roteiro: James Vanderbilt, Joshua Zetumer, Nick Schenk Fotografia: Lula Carvalho Trilha Sonora: Pedro Bromfman Produção: Eric Newman, Gary Barber, Marc Abraham, Roger Birnbaum Duração: 117 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Strike Entertainment

Cotação 4 estrelas e meia