Bird box (2018)

Por André Dick

Baseado no romance Caixa de pássaros, de Josh Malerman, adaptado por Eric Heisserer e dirigido por Susanne Bier, responsável pelo vencedor do Oscar de filme estrangeiro em 2011, Em busca de um mundo melhor, Bird box pretende ser uma obra capaz de transitar por diferentes gêneros. Com a tentativa de mesclar ficção científica, drama e comportamento familiar colocado à prova num momento especialmente delicado da humanidade, ele lida também com suspense e mesmo terror.
Começa mostrando uma mulher levando duas crianças vendadas até um bote, quando ingressam num rio. A história retrocede cinco anos. Sandra Bullock interpreta Malorie Shannon, que está grávida, esperando um filho de um homem com o qual não vive e que usa a pintura como expressão pessoal. Está acontecendo uma crise apocalíptica na Rússia e na Europa, em que pessoas enlouquecem e se suicidam. Um pouco preocupada, ela vai ao hospital com sua irmã Jessica (Sarah Paulson). Logo esse clima apocalíptico vai percorrer a pequena cidade onde as irmãs Shannon moram. Bier transforma essa sequência inicial de espanto num momento especialmente tenso, capaz de fazer o espectador temer pelos personagens.

Acontecendo duas ações imprevistas, Malorie acaba formando uma comunidade, com Tom (Trevante Rhodes), Douglas (John Malkovich), Sheryl (Jacki Weaver), Charlie (LilRel Howery) e Olympia (Danielle Macdonald), além do arquiteto e proprietário da casa onde ficam, Greg (BD Wong) e um casal ainda não consumado, Lucy (Rosa Salazar) e Felix (Machine Gun Kelly). Eles vivem dentro de uma casa, longe da rua, e vão aos poucos percebendo o que faz as pessoas enlouquecerem: a principal é simplesmente olhar para um determinado vulto. Essa primeira aproximação de Malorie com os demais personagens é interessante, sobretudo seus desentendimentos com Douglas e a amizade com Tom e Olympia, graças à química de Bullock com o elenco, e o fato de ficarem isolados numa casa lembra A noite dos mortos-vivos, de Romero. Quando Malorie está dormindo, ela entrevê vultos passando pela janela: algo vigia todos do lado de fora, impedindo sua saída, a não ser que seja forçada, para um supermercado, a fim de encontrar comida e iniciar uma sequência que remete a Aliens – O resgate, de James Cameron, amplificada pelo trabalho de Salvatore Totino à frente da direção de fotografia.

Bird box parece previsível, no entanto constrói um crescendo de tensão, muito em razão do trabalho da diretora Bier e da atuação calibrada de Bullock, a sua melhor desde Gravidade. Eis uma atriz que nunca foi levada a sério antes de seu Oscar de melhor atriz, mesmo tendo feito alguns filmes de ação e comédias românticas competentes. Talvez sua mudança tenha começado como a investigadora em Cálculo mortal e a viciada de 28 dias. Não só ela aparece bem. Os demais do elenco são ótimos, principalmente Rhodes (o Chiron da vida adulta de Moonlight) e Macdonald (a Patti Cakes), além do imprescindível Malkovich (com seu aspecto de louco suburbano, exibido já em Queime depois de ler), mesmo com pouco roteiro para trabalharem. Eles ajudam a criar interesse pela narrativa, com ecos de Fim dos tempos, de Shyamalan (o filme é de seis anos antes do lançamento do livro de Malerman, o que pode tê-lo influenciado). A maneira como Bier, por meio do roteiro de Heiserer, costura a narrativa, mesmo anunciando a disposição dos personagens, mantém o interesse. Com idas e vindas no tempo, sabemos que Malorie faz a jornada pelo rio ao lado de duas crianças, chamadas Boy (Julian Edwards) e Girl (Vivien Lyra Blair).

Essas crianças não têm nome como se vivêssemos realmente o fim do mundo, ou, visto de forma mais otimista, o início de outro. Malorie é a força que tenta afastá-las do pesadelo e levá-las a uma espécie de éden imaginário. Heisserer já havia feito dois roteiros em que a figura da mãe é preponderante para enfrentar forças do mal (Quando as luzes se apagam) ou forças espaciais (A chegada). Nesse ano, já tivemos outro filme em que não se podia falar, caso contrário apareceriam criaturas perigosas (Um lugar silencioso). Bird box joga com o sentido da visão, em que o espectador se angustia com o fato de os personagens não poderem olhar para aquilo que os ameaça e, por meio de um talento da direção de Bier, se torna amedrontador mesmo para o espectador. Mais um lançamento de destaque da Netflix, Bird Box acerta por não trazer informações didáticas para o espectador. E, para efeito de comparação, se Fim dos tempos possivelmente o influenciou, o livro Bird box pode naturalmente ter ajudado a provocar o argumento original de Krasinki para Um lugar silencioso. A trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, que trabalhou em A rede social e Garota exemplar, também lança o espectador num universo de expectativa, em que qualquer caminhada pode representar a existência ou não de cada personagem. Em certo ponto tem momentos telegrafados, mas é conduzido de maneira intensa por Bier, acompanhado por um trabalho de efeitos sonoros bastante eficiente.

Bird box, EUA, 2018 Diretora: Susanne Bier Elenco: Sandra Bullock, Trevante Rhodes, Jacki Weaver, Rosa Salazar, Danielle Macdonald, Lil Rel Howery, Tom Hollander, BD Wong, Sarah Paulson, John Malkovich, Colson Baker, Machine Gun Kelly, Julian Edwards, Vivien Lyra Blair Roteiro: Eric Heisserer Trilha Sonora: Trent Reznor, Atticus Ross Fotografia: Salvatore Totino Produção: Chris Morgan, Barbara Muschietti, Scott Stuber, Dylan Clark, Clayton Townsend Duração: 124 min. Estúdio: Bluegrass Films, Chris Morgan Productions Distribuidora: Netflix

Artista do desastre (2017)

Por André Dick

Trabalho mais recente de James Franco na direção, Artista do desastre vem sendo muito associado a Ed Wood, de Tim Burton, tratando de uma produção conhecida pela estranheza e pela precariedade de atuações e de acabamento, The room, de Tommy Wiseau, lançado em 2003. Quem já viu esse filme sabe do quanto podemos ter um outro nível de entendimento sobre o que seriam boas atuações e uma narrativa calibrada: The room é tão estranho (no bom ou mau sentido, dependendo de cada espectador) que chega por vezes a ser engraçado.
É justamente Wiseau que o também diretor James Franco interpreta aqui. Ele conhece em 1998 o aspirante a ator Greg Sestero (Dave Franco, irmão de James na realidade), numa aula de teatro, quando nenhum consegue se destacar. No entanto, Wiseau se mostra um ator que, na falta de expressão melhor, se arrisca no tablado. Os dois se mudam para Los Angeles, a fim de tentarem uma carreira e se tornarem estrelas. Apesar de Greg conseguir uma agente, Iris Burton (Sharon Stone), e uma namorada, Amber (Alison Brie), nenhum deles é reconhecido. Wiseau decide escrever, produzir e dirigir um filme, exatamente The room. Os momentos em que ele está escrevendo o roteiro são alguns dos mais cômicos da história, justamente pela despretensão do ator-diretor.

Desde o início, é evidente que Franco está levando o personagem a sério, mas ao mesmo tempo não está: em determinados momentos, sua obra se sente como uma reunião de amigos no fim de semana. Mas, se há reuniões dele que resultam em filmes pouco interessantes (É o fim, por exemplo), outros se sentem realmente instigantes, como este. Artista do desastre, à sua maneira, é uma homenagem a Hollywood, que certamente nunca levou Wiseau em consideração – e Franco, pelas acusações que teve de assédio depois de ganhar seu Globo de Ouro, parece ir por outro caminho, embora não com o mesmo grau de impacto que as que atingiram Kevin Spacey e Harvey Weinstein.
O roteiro de Scott Neustadter e Michael H. Weber, responsáveis por (500) dias com ela, A culpa é das estrelas e O maravilhoso agora, adaptado de um livro sobre as filmagens de The room, escrito por Greg Sestero e Tom Bissell, tenta capturar o momento da criação. Artista do desastre lida com a imagem de quem tenta se inserir no meio artístico (no caso, o cinema) com as condições que tem à mão. No entanto, a arte é visualizada mais como um descompromisso do que como um dever de mostrar uma certa sofisticação.

As filmagens conturbadas do longa são bem calibradas pela atuação de James Franco, fazendo um personagem excêntrico, mas, principalmente, pela do irmão, Dave, com uma ressonância que é quase inexistente em trabalhos recentes. Em filmes como The little hours, em que faz um homem que vai parar num convento, Dave Franco já mostra um talento inabitual para a sátira que se leva a sério. Aqui não é diferente e ele até emociona como alguém que realmente tenta ser amigo de Wiseau. Há uma sequência em que ambos compartilham a admiração por James Dean (o qual James interpretou num telefilme em 2001) e tanto Artista do desastre quanto The room possuem um visual, algumas vezes, de Juventude transviada, clássico dos anos 50. No filme de Wiseau, o CGI do alto do prédio normalmente se confunde com tomadas perdidas de clássicos, embora o roteiro seja tão desencontrado que as semelhanças interrompem aí. Que Franco tenha escolhido seu irmão para interpretar o papel do melhor amigo de Wiseau é uma homenagem à própria inserção de ambos no universo cinematográfico.

Embora ele tenda a romantizar excessivamente o personagem que retrata e muitas vezes anule uma complexidade maior, que poderia ser melhor trabalhada em pontos, também atinge de certo modo o público: sua figura atrai o interesse do espectador e o conduz durante todo o filme. O modo como ele recupera os trejeitos do verdadeiro Wiseau é realmente convincente e as filmagens, com a presença do assistente de roteiro e direção Sandy (Seth Rogen), são perturbadas de modo divertido, com uma série de participações especiais (Jacki Weaver, Zac Efron e Josh Hutcherson, para citar alguns). Depois de atuações como as de 127 horas, Milk, Oz – Mágico e poderoso e na série Freaks and geeks, Franco já mostrou um talento para a composição de personagens dos mais variados. Que ele responda pelas acusações gravíssimas de assédio (o que vem tentando fazer nas últimas semanas) e Desastre do artista não seja também aquele filme que interrompa sua carreira.

The disaster artist, EUA, 2017 Diretor: James Franco Elenco: James Franco, Dave Franco, Seth Rogen, Alison Brie, Ari Graynor, Josh Hutcherson, Jacki Weaver, Zac Efron, Sharon Stone Roteiro: Scott Neustadter e Michael H. Weber Fotografia: Brandon Trost Trilha Sonora: Dave Porter Produção: James Franco, Vince Jolivette, Seth Rogen, Evan Goldberg, James Weaver Duração: 103 min. Estúdio: New Line Cinema, Good Universe, Point Grey Pictures, Rabbit Bandini Productions, Ramona Films Distribuidora: A24, Warner Bros. Pictures

O lado bom da vida (2012)

Por André Dick

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A comédia indicada ao Oscar de melhor filme este ano foi O lado bom da vida, baseado em romance de Mattew Quick. Na verdade, trata-se de uma comédia com elementos dramáticos, ao gosto da Academia de Hollywood, com um elenco de atores que mescla o anteriormente desacreditado Bradley Cooper (mais conhecido pela série Se beber, não case) e a promessa Jennifer Lawrence, além de um belo elenco de apoio.
Com um talento insuspeito em outros papéis, Cooper interpreta Pat Solitano Jr., um professor de História que, depois de flagrar a esposa com um colega de trabalho no chuveiro, é internado para tratamento. Depois de oito meses, diagnosticado com transtorno bipolar, e ainda sem estar totalmente bem, sua mãe, Dolores (Jacki Weaver), vai apanhá-lo, a fim de que consiga, aos poucos, voltar à sua vida. Mas Pat não consegue esquecer da esposa que o traiu, Nikki, enquanto seu pai (De Niro), só deseja assistir futebol norte-americano, obcecado pelo Philadelphia Eagles, e realizar apostas, além de ter manias supersticiosas com a mão no controle remoto.
Desde o momento inicial, quando a mãe reencontra Pat, o filme não esclarece totalmente esta ligação dele com os pais, mas o diretor David O. Russell, que escreveu e dirigiu filmes interessantes (como Três reis e O vencedor), consegue fazer o espectador adentrar na bipolaridade de Pat, acompanhando-o numa visita a pessoas do bairro, depois numa noite movimentada de Halloween e a seu terapeuta, o Dr. Patel (Anupam Kher), que deverá frequentar como parte da reabilitação, além de ter uma ordem de restrição em relação à esposa.

O lado bom da vida

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Quando ele conhece Tiffany (Lawrence), irmã de Veronica (Julia Stiles), casada com seu amigo Ronnie (John Ortiz), uma jovem que acabou de perder o marido, um policial, é como se pudesse também haver uma reabilitação amorosa. Cada momento é bem compassado, os diálogos correm num fluxo e Russell permite que nos aproximemos rapidamente dos personagens, por meio de uma conversa sobre comprimidos antidepressivos, o que oferece a eles não exatamente intimismo, mas provocação mútua. Se Pat é o sujeito que ficou perturbado – mas com atenuantes –, e para o filme isso não resulta em nenhum momento de grande melancolia, nem mesmo nos conflitos familiares ou na suposição de que o personagem foi deixado de lado em prol do irmão, Tiffany não pode ser também a mulher perfeita: ela precisa estar em conflito e pode ter tido problemas por depressão em razão da morte do marido. E sabemos que ela pode recuperá-lo do estado em que se encontra, no primeiro encontro. A química dá certo. Há um enlace interessante quando o par protagoniza diálogos mais extensos e Lawrence tem carisma, além de uma tristeza permanente no olhar, embora, no geral, seja ainda uma atriz sendo lapidada (é notável que ela seja apontada como favorita ao Oscar de atriz, à frente das excelentes Emmanuelle Riva e Jessica Chastain).
Basicamente, depois desse encontro, tudo se constrói a partir de uma carta que Pat deseja mandar à ex-esposa por meio de Tiffany, afinal existe a ordem de restrição. É, então, que o filme sofre uma espécie de ruptura, e o personagem Pat, que se desenhava de maneira irônica e mordaz, com sua bipolaridade, atenuada pelo visual e trilha de qualidade, que o filme transpira – e dificilmente um bairro pareceu tão vivo quanto aqui – acaba se inserindo naquele ideal do início, anti-Hemingway, ao ritmo de Cantando na chuva.
Por exemplo, a conturbada relação com o pai, com a boa interpretação de De Niro, revela, em meio a correrias, muita gente discutindo dentro da sala dos Solitano, e as coisas complicam quando o filho é tratado como uma espécie de amuleto para as vitórias do time. Em alguns momentos, parece haver mais agitação do que algo a dizer. Mas Russell, aqui, é ainda anti-Hemingway, embora seus personagens sejam, como o escritor, igualmente atraídos por uma briga: uma sequência mais ao final do filme criará um enlace com o clímax, em que surge uma série de exemplos baseados em jogos para que a loucura de Pat não tenha nada a ver com sua nova paixão.

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Surge daí uma tentativa de convencimento, de que tudo o que foge à conveniência é comum, e não é preciso ir muito longe para que percebamos que a estranheza é habitual a todos, mesmo para o terapeuta. No mesmo sentido, temos a presença de Danny (Chris Tucker), que aparece e desaparece sem que seja melhor elaborado, além de participar de um momento previsível, mas com uma comicidade agradável. Pat acaba sendo sempre perseguido por uma torrente de falas dos outros, como se ele não fosse a pessoa mais problemática (naquele bairro do filme, certamente ele não é). Russell enfatiza a necessidade de apresentá-lo como ameaçador aos outros vizinhos, como se ele, ao se revoltar, criasse uma espécie de sistema que não pode ser entendido por ninguém, apenas pela pessoa que pode se apaixonar também por sua bipolaridade. Ou melhor, como se todos no bairro fossem pessoas contrárias a Pat, que nunca tivessem tido nenhum problema, nem com eles, nem com sua família. No entanto, e isso transparece em muitos diálogos, a conveniência não é uma fuga simples à ruptura; pode ser apenas uma restrição.
É interessante perceber como O lado bom da vida tem elementos diferenciados guardados em sua premissa, e como se apresenta, ao contrário de muitas comédias, muito bem cuidado esteticamente, com uma fotografia que remete, em seu jogo de lâmpadas natalinos, a De olhos bem fechados, de Kubrick, e de câmera, a Scorsese. Tudo isso faz ainda mais com que se crie um ânimo quando Russell alça as atuações do elenco – e não há dúvida de que elas alcançam ótimos momentos – a uma escala capaz de sustentar uma história que desperte o interesse, mesmo recorrendo a alguns artifícios previsíveis, sem ser exatamente uma comédia original. Deve-se considerar, afinal, que Russell não desejava criar nenhuma ruptura com o gênero em que o filme se insere, e sim tornar uma história a princípio mais dramática com tons mais acessíveis para enfrentar a realidade, sem o objetivo de prescrever receituários científicos sobre um determinado problema, como costuma ser acusado, nem escondê-los. Mesmo porque Pat não depende apenas do seu alto astral e da própria autoajuda que se concede para visualizar a revitalização de seu pensamento. A vida dele recomeça justamente quando passa a ter consciência sobre as pessoas à sua volta. Depois disso, não há mais retorno. Nisso, O lado bom da vida consegue atrair o espectador para dentro de sua narrativa e do seu fundo prateado.

Silver Linings Playbook, EUA, 2012 Diretor: David O. Russell Elenco: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Julia Stiles, Chris Tucker, John Ortiz, Jacki Weaver, Montana Marks, Anupam Kher, Brea Bee Produção: Bruce Cohen, Donna Gigliott, Jonathan Gordon Roteiro: David O. Russell, baseado na obra de Matthew Quick Fotografia: Masanobu Takayanagi Trilha Sonora: Danny Elfman Duração: 122 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Mirage Enterprises / The Weinstein Company

Cotação 4 estrelas