Kung fu panda 3 (2016)

Por André Dick

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Uma das tentativas de estabelecer confronto com a Pixar por parte da Dream Works foi, em 2008, a realização de Kung fu panda. Visto como um desenho mais popular do que os da Pixar, nunca chegou, apesar de sua qualidade, a receber a atenção merecida. Se a Dream Works tem como uma de suas características as séries de animação (a exemplo de Shreck, Madagascar e Como treinar o seu dragão), pode-se dizer que Kung fu panda é a principal no sentido de tentar elaborar uma saga com personagens bem definidos e que se correspondem ao longo dos filmes, com histórias particulares. Pode-se avaliar que ele não possui a reflexão de alguns desenhos considerados mais experimentais – principalmente aqueles vindos exatamente do Oriente –, mas dentro do que se propõe torna-se uma referência e não fica a dever para outros considerados superiores. Tudo circula em torno de um mestre, Shifu, e os cinco furiosos: Tigresa, Víbora, Macaco, Garça e Louva-Deus (com as vozes, no original, respectivamente, de Dustin Hoffman, Angelina Jolie, Lucy Liu, Jackie Chan, Seth Rogen e David Cross). No início, eles não podem acreditar que Po (voz de Jack Black), um panda que trabalha servindo comida com seu pai adotivo, Sr. Pong, possa se transformar no Dragão Guerreiro, escolhido pelo mestre Oogway, uma sábia tartaruga, capaz de manter a tranquilidade no vale onde mora.

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Kung-fu panda 10Depois de um primeiro filme com ótima apresentação de cada personagem – e ainda com os melhores momentos da série –, a continuação se destacou por uma belíssima direção de arte. O personagem estava mais maduro em relação ao anterior, mas é na questão familiar que o desenho se direcionava, mesmo com os toques de humor já presentes no original, para o drama: ele quer saber de onde veio e quem é sua família original. Po precisa libertar a China de uma terrível ameaça – para ele, não para os espectadores, que se deparam com um pavão terrível e ameaçador, Lord Shen –, e para isso conta com a ajuda de seus amigos do primeiro. Lá está novamente seu mestre, Shifu, a duvidar de seu potencial, mas acredita que ele deva buscar o “equilíbrio interior”, e o panda se sente ainda mais atrapalhado em muitos momentos, mas é certo que ele está amadurecendo e olhando para o passado. Nesse ponto, ele parece nos trazer toda uma certa ideia de infância de volta.
Neste terceiro filme, a busca pelo pai biológico continua, com a presença do seu pai adotivo, o ganso Sr. Pong a seu lado, e surge uma nova ameaça para os cinco furiosos e a tranquilidade do vale: a chegada do touro Kai (com voz de JK Simmons no original), que pretende se vingar tanto dos treinados por Shifu quanto atacar o vale secreto onde moram os pandas e, consequentemente, os familiares de Po. É mais exatamente o Tai Lung do primeiro filme com um acréscimo explicativo que desenvolve outra linhagem da série – e faz com que este se feche com o primeiro mais exatamente.

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Para isso, ele reencontra o seu pai, Li (voz de Bryan Cranston no original). Novamente o panda deve colocar à prova os seus talentos com a arte marcial, sempre sob o olhar de dúvida dos amigos. É esta a característica principal dessa série muito bem feita: o personagem principal é um herói apenas para os outros, pois em nenhum momento ele se considera como tal. Para ele, tudo não passa de uma grande honra, já que seus ídolos, os cinco furiosos, são considerados menos tarimbados do que ele para a missão que precisam enfrentar. Para uma nova sequência de imagens fantásticas do Oriente, que dialogam claramente com Akira Kurosawa desde o primeiro, assim como com as obras de Zhang Yimou, na profusão de cores dos cenários e figurinos, além de lutas bem coreografadas, tudo isso é suficiente – e minha esposa e meu sobrinho de 9 anos acharam o mesmo.
Os diretores da nova empreitada são Alessandro Carloni e Jennifer Yuh (também realizadora do segundo) e se percebe, pela presença também de Guillermo del Toro na produção executiva, o quanto Kung fu panda continua sendo um exemplo de animação com atenção a todos os detalhes. A versão em 3D desta terceira parte é particularmente muito bom, realçando, sobretudo, o pano de fundo da história e as belas paisagens do vale onde moram o panda e os cinco furiosos.

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Se o roteiro desta vez tenta mesclar os conceitos dos dois filmes anteriores – um vilão que ameaça destruir os cinco furiosos e a faceta de busca pela paternidade do segundo –, pode-se dizer que os melhores momentos são os da convivência de Po com o ambiente de seus familiares, excluindo um tanto a participação de seus antigos companheiros. São momentos em que os Carloni e Yuh exercem um dos melhores elementos que vemos no primeiro e no segundo filme: uma mescla interessante entre humor e drama, em que a discussão sobre as origens fica mais interessante quando se tenta assumir responsabilidades do presente, desta vez com Po tentando ser encarregado por seu mestre Shifu de continuar o treinamento dos companheiros. Há também uma nova personagem, Mei Mei (Kate Hudson no original), embora visivelmente subaproveitada. As ações de Po continuam no limite (com a dublagem, feita de modo exitoso, por Lúcio Mauro Filho), e é bem feita a nova participação de seu pai adotivo, S. Pong (James Hong no original e Pietro Mário na excelente dublagem). Não apenas pela temática de relação pai e filho como pela própria relação com seu mestre Shifu, Kung fu panda pode não encantar mais em razão de não ser mais original – o triunfo do primeiro –, mas chega a emocionar seus admiradores.

Kung fu panda 3, EUA, 2016 Diretor: Alessandro Carloni, Jennifer Yuh Elenco: Jack Black, Angelina Jolie, Dustin Hoffman, Jackie Chan, Seth Rogen, Lucy Liu, David Cross, James Hong, Bryan Cranston, Kate Hudson, JK Simmons Roteiro: Gleen Berger, Jonathan Aibel Trilha Sonora: Hans Zimmer Duração: 95 min. Distribuidora: Fox Film Produção: Melissa Cobb Estúdio: DreamWorks Animation / Oriental DreamWorks

Cotação 4 estrelas

 

King Kong (2005)

Por André Dick

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A partir de O senhor dos anéis, sempre irá se esperar muito de Peter Jackson. Nesta refilmagem de King Kong, depois das versões de 1933 e de 1976 (conhecida pelas atuações de Jeff Bridges e Jessica Lange), o cineasta ainda sofre a influência de ter realizado uma das séries mais fantásticas de todos os tempos, o que se percebe pelo ritmo que emprega, dispondo detalhes necessários para sua empreitada difícil. O grande personagem que se apaixona por uma mocinha (interpretada nesta versão por Naomi Watts) numa ilha de aborígenes só poderia render mais imagens extraordinárias para este cineasta. Como um designer e um artesão, capaz de mesclar elementos fantásticos, ele não desaponta, mesmo que seja apenas numa segunda revisão que se perceba melhor a forma como ele optou por narrar a fabulosa história.
O filme inicia na Depressão dos anos 1933, numa referência ao primeiro filme, mostrando animais no zoológico de Nova York. Todo o clima que ele prepara para a chegada à ilha de King Kong, a Ilha da Caveira – com o navio carregando mercenários e uma equipe precária de cinema, tendo à frente um cineasta inescrupuloso, Carl Denham (Jack Black, o único deslocado), acompanhado de seu assessor (Colin Hanks), o capitão Englehorn (Thomas Kretschmann), seu auxiliar (Evan Parke), o protegido deste (Jamie Bell, de As aventuras de Tintim) e um casal à la Hollywood, Burt Baxter (Kyle Chandler) e Ann Darrow (Naomi Watts) em um filme roteirizado por um escritor que pensa mais na arte do que no dinheiro, Jack Driscoll (Adrien Brody), com direito a pores do sol – resulta em algo espetacular quando vemos o navio ser lançado a enormes rochedos que circundam a ilha depois de uma neblina. Mesmo que seja um tanto demorado.

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Esta parece ser a única falha do filme de Jackson: a demora em situar os personagens no cenário, afinal, mitológico para as três versões de King Kong. Se a versão produzida por De Laurentiis nos anos 70 desvirtuava um pouco o motivo da ida para a ilha (estavam procurando por petróleo), aqui se retoma, portanto, a equipe de filmagens se deslocando para um lugar selvagem, intocado pelo homem, com a colaboração decisiva da fotografia excepcional de Andrew Lesnie (O senhor dos anéis e O hobbit).
O sequestro da atriz Ann Darrow para ser oferendada a Kong é uma das passagens mais fantasiosas do filme, e a tribo lembra os orcs de O senhor dos anéis, o que não chega a ser uma analogia interessante para este caso, mas vale porque depois dela conhecemos o Kong mais realista das três versões – embora saibamos que esteja por trás Andy Serkis (que faz o cozinheiro do navio e o gestual de Gollum) e as sequências lembrem sobretudo a versão de 1933. Percebemos, em alguns momentos, as maquetes do filme, também o CGI é evidente, mas a sinestesia das imagens de Jackson, como em O senhor dos anéis, passa a vigorar, como na corrida dos brontossauros à beira de um abismo. E, nesse sentido, o filme acaba mostrando o gorila gigante como um personagem mais humano do que os anteriores, capaz de enfrentar um Tiranossauro Rex para salvar a mocinha, a qual passa a proteger. Nesta aproximação, que começa com Darrow imitando os passos de Charlie Chaplin, com uma bengala, no alto de uma colina, Jackson tenta desenhar uma espécie de núcleo emotivo, o que consegue efetivamente na analogia entre o pôr do sol e o nascer do sol, em momentos diferentes. Enquanto isso, Driscoll, mostrando uma faceta de herói, segue na pista de Darrow e do gorila gigante, mostrando a maior transformação do filme. A obsessão de Denham em realizar as filmagens também ganha foco, mesmo que em alguns momentos isso possa ser visto como constrangedor, sobretudo pela atuação deslocada de Black.

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A verdade é que o filme vai em ritmo alucinante do primeiro ao último minuto, mesmo com sua versão inserida de Jurassic Park, com a aparição de figuras pré-históricas, principalmente quando a tripulação do navio enfrenta uma determinada situação, quando se depara com o desconhecido, não necessariamente funcionando, por outro lado, nos momentos em que se tenta desenhar uma lição de moral, tudo levado pela música de James Newton Howard.
E King Kong é exatamente isso: o encontro com algo desconhecido com a estranheza: sua grandiosidade comum. Mas é também a porta de descoberta para as coisas mais comuns: a atriz que deseja o estrelato poderia se contentar com um pôr do sol numa ilha ou na cidade grande? O dramaturgo conseguiria reproduzir em suas peças a realidade da perda? Sentir também é isso, nos fala o diretor. Se em alguns momentos ele cai na pieguice (como a cena romântica do Central Park), é possível sentir, nisso, uma certa preservação dos anos 30, quando se passa a história, e a queda econômica também simboliza a queda de um poder de ganância. Não tememos em falar de spoilers, pela mitologia que cerca King Kong desde sua primeira versão, mas Jackson, aqui, consegue mesclar a chegada de Kong à cidade com elementos da história contemporânea dos Estados Unidos. Poucos como Peter Jackson conseguiriam trazer uma sequência final como aquela, tanto na maneira com que foi filmada quanto no sentimento especial que suscita.

King Kong, Nova Zelândia/EUA/Alemanha, 2005 Diretor: Peter Jackson Elenco: Naomi Watts, Jack Black, Adrien Brody, Thomas Kretschmann, Colin Hanks, Andy Serkis, Evan Parke, Jamie Bell, Lobo Chan, John Sumner, Craig Hall, Kyle Chandler Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: James Newton Howard Duração: 188 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Universal Pictures / WingNut Films / Big Primate Pictures / MFPV Film

Cotação 5 estrelas

Chamada.Filmes dos anos 2000