Jurassic World – Reino ameaçado (2018)

Por André Dick

Em 1993, no mesmo ano em que lançou A lista de Schindler, pelo qual recebeu os Oscars de melhor filme e direção, Spielberg voltou ao antigo ingrediente que o consagrou na série Indiana Jones num dos maiores blockbusters já feitos, Jurassic Park. Baseada num excelente romance de Michael Crichton (também autor do roteiro, com David Koepp), a narrativa se concentra na jornada de um paleontólogo (Sam Neill) e sua mulher, uma paleobotânica (Laura Dern), até a Ilha Nublar, próxima à Costa Rica, onde se localiza um recém-criado parque dos dinossauros administrado por um magnata (o também diretor Richard Attenborough). As criaturas pré-históricas voltaram a existir por causa de um experimento genético e mosquitos congelados em rochas, assustando tanto a dupla de doutores quanto um matemático (Jeff Goldblum), que estão na ilha para inspecionar o parque. As cenas a partir daí são um marco para o cinema de ação.

Apesar da lição de moral previsível, Jurassic Park tem uma qualidade inegável: empolga o espectador, que acaba gostando, diante de um roteiro bem solucionado e um elenco talentoso. Além disso, o capricho na parte técnica (sobretudo nos efeitos especiais espetaculares, que continuam os melhores nessa área) tornam o filme uma obra única na história, capaz de suscitar imitações e manter a originalidade.
Também deu origem a duas continuações, a primeira novamente dirigida por Steven Spielberg (com Julianne Moore à frente do elenco) e a segunda, de Joe Johnston, embora a maior peça com dinossauros depois do primeiro Jurassic Park possivelmente seja King Kong, de Peter Jackson. E, se a primeira continuação, O mundo perdido, ainda consegue render uma boa sessão, Johnston não consegue trazer inovação. Quando as criaturas pré-históricas retornaram em Jurassic World, o diretor Colin Trevorrow não conseguiu elaborar do melhor modo a história, fazendo quase uma refilmagem do primeiro, sem o mesmo vigor.

Três anos depois estamos de volta à Ilha Nublar, em Jurassic World – Reino ameaçado, desta vez com Trevorrow como um dos roteiristas. O filme inicia com  o casal do filme anterior, formado por Owen Grady (Chris Pratt) e Claire Dearing (Bryce Dallas Howard), se reencontrando depois de algum tempo. Ela não é mais uma executiva responsável pelo funcionamento do parque, mas sim alguém que tenta ajudar na preservação dos dinossauros, com a ajuda de Franklin (Justice Smith) e da veterinária Zia Rodriguez (Daniella Pineda), enquanto ele mora afastado, no campo. O problema é que há mercenários querendo o DNA de um dos híbridos das criaturas existentes no parque abandonado. Ao mesmo tempo, o Senado norte-americano interroga o Dr. Ian Malcolm (novamente Goldblum) sobre se os dinossauros devem ser tirados da ilha, que sofrerá uma erupção vulcânica capaz de dizimá-los. Claire é contratada por Benjamin Lockwood (James Cromwell), ex-parceiro de John Hammond (Attenborough, no filme de 1993) na clonagem de dinossauros. Ela conhece seu assessor Eli Mills (Rafe Spalls) e a neta de Benjamin, Maisie (Isabella Sermon), esta sob os cuidados da governanta, Iris (Geraldine Chaplin). O maior interesse é pelo velociraptor Blue, que tem uma ligação com Owen, pois foi criado por ele.

A volta do grupo à ilha lembra muito Jurassic Park III, com a presença do chefe dos mercenários Ken Wheatley (Ted Levine). Trata-se de um início pouco original. No entanto, depois de uma sequência fantástica de ação, que sobrepuja a decepção de Jurassic World de Trevorrow, o diretor espanhol J.A. Bayona emprega seu maior talento: a junção entre espetáculo, com efeitos especiais de ponta (e os dinossauros aqui lembram mais aqueles dos filmes de Spielberg, sem tanta computação gráfica), o que já mostrara em O impossível e Sete minutos depois da meia-noite, com um toque por vezes poético. Se há momentos que remetem a O segredo do abismo e mesmo um especificamente aos momentos sobre a criação do mundo na obra de Terrence Malick, Bayona deixa de lado a ligação entre o casal e foca no desejo do ser humano se aproveitar dos dinossauros para romper a barreira do limite. Trata-se de um tema já subentendido no final de O mundo perdido, de Spielberg, sob certo ponto de vista subvalorizado (que conta com uma ótima Julianne Moore), e que aqui recebe o espaço acertado. Além disso, Bayona faz um núcleo interessante do casal com a atriz Sermon, esta especialmente ótima.

As figuras adversárias, representadas por leiloeiro Gunnar Eversol (Toby Jones), ganham um momento à parte que dialoga com o original de Spielberg do melhor modo, numa sucessão de perseguições e um sentimento de claustrofobia. Bayona revela a admiração da criança pelo universo de criaturas ameaçadoras, o que já fizera em seu experimento anterior, Sete minutos depois da meia-noite, mas avança em relação a um prazer de elaborar imagens que ficam na mente do espectador, como aquele em que a sombra de um dinossauro se projeta na parede dentro de um quarto infantil, lembrando os contos de fada ameaçadores. Mais do que isso, em certos instantes este Jurassic World é um filme de terror, com uma referência insuspeita, por exemplo, a O silêncio dos inocentes. Se ele não consegue se elevar como poderia a mais do que um filme de ação bastante eficiente, existe aqui um diretor e uma visão.

Jurassic World – Fallen kingdom, EUA, 2018 Diretor: J.A. Bayona Elenco: Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Rafe Spall, Justice Smith, Daniella Pineda, James Cromwell, Toby Jones, Ted Levine, B.D. Wong, Isabella Sermon, Geraldine Chaplin, Jeff Goldblum Roteiro: Colin Trevorrow e Derek Connolly Fotografia: Óscar Faura Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Frank Marshall, Patrick Crowley, Belén Atienza Duração: 128 min. Estúdio: Universal Picture, Amblin Entertainment, The Kennedy/Marshall Company, Legendary Pictures Distribuidora: Universal Pictures