Joy – O nome do sucesso (2015)

Por André Dick

Joy.Filme 1

Nos últimos anos, o diretor David O. Russell se tornou uma aposta praticamente certa para o Oscar. Ele conseguiu que três filmes seguidos seus – O vencedor, O lado bom da vida e Trapaça – fossem indicados ao Oscar de melhor filme e de melhores atuações principais, pouco lembrando o início de sua carreira, quando fez projetos mais independentes – embora com elencos estelares – como Três reis, uma sátira de guerra, e Huckabees – A vida é uma comédia. Tudo indicava que com sua estrela favorita, Jennifer Lawrence, e seu ator favorito, Bradley Cooper, com Robert De Niro de coadjuvante, também presente em seus filmes mais recentes, Joy – O nome do sucesso se tornasse novamente um candidato para a Academia de Hollywood.
Não foi o que aconteceu. Lawrence foi indicada ao Oscar de atriz, mas nas categorias restantes há uma ausência absoluta de seu novo filme. Por um lado, é explicável: Joy é talvez a peça mais incomum, e menos propensa à Academia de Hollywood, desde Huckabees, com uma narrativa, desde o início, bastante estranha e mesmo confusa, mesmo partindo de personagens reais. Parece que O. Russell estava indefinido com o gênero do filme, e também com a ordem em que montaria sua narrativa.

Joy.Filme 3

Joy.Filme 6

Joy.Filme 10

Nesse sentido, Joy se sente inicialmente como uma peça inacabada. Ele mostra a história de Joy Mangano (Jennifer Lawrence), mãe de dois filhos, que mora com os pais, Rudy (Robert De Niro) e Terri (Virginia Madsen), e o marido, um músico de pouco sucesso, Tony Miranne (Édgar Ramírez). À sua volta, circulam também a avó, sua melhor amiga, Jackie (Dascha Polanco) e a nova mulher do pai, Trudy (Isabella Rossellini), uma viúva italiana bastante envolvida com negócios. Joy também possui uma meia-irmã, Peggy (Elisabeth Röhm). Se Rossellini e Diane Ladd são presenças de Coração selvagem no filme de O. Russell, pode-se dizer que Joy é uma das obras mais distintas do ano que passou, não apenas pela temática como pela disposição de cenários.
A história contada por O. Russell em parceria com Annie Mumolo mostra que Joy, depois de tentar limpar uma sujeira em casa, acaba desenhando o que seria um esfregão mais acessível para uso e pretende vendê-lo em larga escala. Ela acaba conseguindo contato com o executivo da QVC Neil Walker (Bradley Cooper), com poder também dentro de uma emissora de televisão capaz de ajudar na venda de produtos.
Joy é, de certo modo, tão otimista quanto os dois últimos filmes de O. Russell, mais especificamente O lado bom da vida – que cresce a cada nova visualização –, mas com a mesma aura de melancolia e nostalgia do interessante Trapaça. O. Russell é um bom diretor de atores, tem inegável domínio sobre as propriedades narrativas, é ousado o bastante para apresentar uma narrativa diferente, e ainda parece sempre faltar algo em suas histórias. Trapaça, por exemplo, tentava mesclar o estilo de Scorsese com o de séries televisivas dos anos 70 e esbarrava, por vezes, no excesso de diálogos. Joy parece mais acabado nesse sentido, embora o elenco pareça ter participado dele em momentos de folga na agenda, apesar de todos se mostrarem excelentes.

Joy.Filme 2

Joy.Filme 5

Joy.Filme 12

Nenhum personagem, a não ser Joy, é muito trabalhado, e lamenta-se a pouca participação de Walker, uma bela criação de Cooper (ausente da temporada de premiações justamente por um papel de pouca extensão). O. Russell, no entanto, simboliza a personagem central pelos cenários: sua casa está sempre repleta de gente, com pouco espaço, e quando ela vai para a televisão parece que há uma ampliação e se abre uma paisagem invernal com muitos anúncios e neons chamativos. A família diante da TV esperando o aparecimento do produto é um registro quase de Frank Capra. Também a admiração de sua mãe por novelas. Há algo de uma reconstituição de época que remete a Grandes olhos, de Tim Burton, no sentido de que Joy faz parte daquele sonho tão pronunciado na América de independência – e o encontro no qual mostra a funcionalidade do esfregão para Walker é numa sala asséptica, totalmente iluminada, um ambiente onírico, como transparece ao longo do filme. Os personagens parecem vagar entre a realidade e o sonho, a exemplo da mãe de Joy, totalmente desconectada, e o pai e Trudy, a nova namorada, parecem mais propensos a reuniões que lembra um clã, uma máfia – mesmo porque De Niro é visto sempre assim, e Rossellini também se mostre assustadora, embora sem esse objetivo. Todas as imagens que remetem a Joy acabam tendo esse aspecto, seja seu encontro com Tony ou quando caem flocos de gelo sobre seu cabelo diante de uma vitrine. O. Russell torna o personagem quase sempre uma pose de algo interno.

Joy.Filme 9

Joy.Filme 7

Joy.Filme 11

Há, igualmente e em maior ou menos intensidade, algo dos irmãos Coen aqui, mais especificamente de Gosto de sangue, Arizona nunca mais e Onde os fracos não têm vez, uma espécie de procura pela presença da mulher num universo puramente masculinizado – embora todas estejam ao redor de Joy e ela seja a grande figura a ser seguida – e mais ao final há ecos de Estrela solitária, de Wenders. Muito curioso é um momento (talvez spoiler para alguns) em que Joy sai do seu trabalho e chega até um vizinho que lhe entrega uma arma e ela passa a atirar, como se precisasse incorporar a violência associada ao homem para ter sucesso. É um conto bastante simples de superação – superação mais empreendedora do que psiquiátrica, como vimos em O lado bom da vida – e que recorre quase sempre aos atores para ter um motivo maior.
Joy, de certo modo, é o filme menos pretensioso de O. Russell desde Huckabees, e por isso sua importância. Inicialmente cotado para premiações, ele não mostra em nenhum momento as características para ser lembrado, ou seja, sua temática parece absurdamente comum, quando, na verdade, conta parte da história que possui a mulher na construção da América. Lawrence, como em outros papéis, está excelente, e dispensa-se de comentar sua química habitual com Cooper e De Niro. Além disso, os quesitos de produção são, do mesmo modo que em outros filmes do diretor, ótimos, principalmente o figurino e a fotografia. Chama mais atenção realmente por que O. Russell deixa algumas pontas soltas em seu filme e não o encerra da maneira mais apropriada com o material que tinha às mãos. O que se diria é que Joy merece uma visão, apesar de todas as críticas negativas pelas quais foi cercado desde seu lançamento.

Joy, EUA, 2015 Diretor: David O. Russell Elenco: Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Bradley Cooper, Elisabeth Röhm, Édgar Ramírez, Virginia Madsen, Dascha Polanco, Isabella Rossellini, Diane Ladd, Jimmy Jean-Louis Roteiro: Annie Mumolo, David O. Russell Fotografia: Linus Sandgren  Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: John Davis, John Fox, Jonathan Gordon, Ken Mok, Megan Ellison Duração: 124 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Annapurna Pictures / Davis Entertainment

Cotação 3 estrelas e meia

O homem duplicado (2013)

Por André Dick

O homem duplicado 14

Baseado num romance de José Saramago, O homem duplicado foi filmado quase simultaneamente com Os suspeitos, do mesmo diretor canadense Denis Villeneuve, tendo novamente a presença de Jake Gyllenhaal, mais conhecido por O segredo de Brokeback Mountain, que costuma ser um ator menos valorizado do que deveria: além de possuir um ar um tanto descompromissado, consegue passar uma ideia sempre de insegurança e de conflito emocional, como vemos em Donnie Darko e Zodíaco. Não se trata de um tipo de interpretação fácil, por mais que pareça, e cada vez que o vemos em cena percebemos certamente alguém em evolução dentro de seu campo, procurando novas nuances.
Talvez no melhor momento de sua carreira, ele interpreta Adam Bell, um professor universitário de História que determinado dia se depara com um duplo (como no recente filme, bastante interessante e baseado por sua vez em Dostoiévski, com Jesse Eisenberg), chamado Anthony Claire, que trabalha como ator. O encontro se dá porque um colega de trabalho comenta sobre um filme, e Adam vai à locadora alugá-lo. O filme tem Anthony como coadjuvante, e Adam procura, nos créditos finais, o seu nome completo e passa a tentar encontrá-lo.
Ele é casado com uma mulher que está grávida, Helen (a ótima Sarah Gadon, que interpreta a esposa do milionário feito por Pattinson em Cosmópolis), enquanto o professor namora uma executiva, Mary (Mélanie Laurent, menos aproveitada), a qual encontra quase sempre à noite, num apartamento bastante escuro em uma Toronto com tons amarelos. No entanto, esta é a ordem que vemos antes de tudo se tornar um pouco mais caótico – e a epígrafe inicial pode ajudar nesta proposta. Com elementos claros da obra de David Cronenberg (como A mosca e Gêmeos – Mórbida semelhança), mas até certo ponto melhor desenvolvidos, como a obra recente de Shane Carruth, Cores do destinoO homem duplicado é um raro filme que não se enquadra em nenhum gênero específico: ele desliza do drama para o suspense e mesmo para um sentimento aterrorizante, com excelentes efeitos especiais e a fotografia notável de Nicolas Bolduc.

O homem duplicado 4

O homem duplicado 2

O homem duplicado 6

Villeneuve havia escolhido o mestre Roger Deakins para fazer a fotografia de Os suspeitos, mas, enquanto neste a trama evoluía para várias direções e acabava, em determinado ponto, se perdendo, em O homem duplicado, justamente por seu minimalismo, parece haver um crescimento na proposta de Villeneuve, também conhecido por Incêndios, um filme razoavelmente difícil, embora já demonstre suas características. O diretor certamente gosta de investigar questões familiares e a duplicidade do ser humano – em que um psicopata pode se esconder num bairro aparentemente tranquilo e influenciar quem está a seu redor a também ter um questionamento duplo sobre suas próprias ações.
Em O homem duplicado (breves spoilers neste parágrafo), Adam e Anthony representam duas visões: a do professor, imobilizado pelas aulas repetitivas, e a do ator, que pretende se vestir de modo diferente para interpretar papéis distintos. O professor se divide entre explicações sobre o funcionamento do domínio de opinião e Hegel – passando para a metafísica. Era Hegel quem dizia que o Ser é a pura indeterminação, e Adam Bell vive sempre numa indeterminação sobre quem realmente é, o que possivelmente ajude a esclarecer que a história não começaria por seu final, mas simboliza a representação dupla de um inconsciente. Também é sugestivo que Villeneuve tenha mudado o nome do personagem de Saramago (Tertuliano Máximo Afonso) para Adam com o intuito não apenas de simplificá-lo, como também de evocar o nome do primeiro homem segundo o relato bíblico – embora aqui a maçã esteja cercada por aranhas. Nesse sentido, O homem duplicado dá a sensação de reproduzir a mente de um professor que pretendia ter a criatividade de um ator para encobrir relacionamentos e romper qualquer desejo de compromisso.

O homem duplicado 7

O homem duplicado 9

O homem duplicado

É interessante como a direção de arte dialoga com o símbolo central do filme. Podemos ver os postes de eletricidade de Toronto, assim como os guindastes de construção e um vidro de carro quebrado como teias, assim como se pode observar as cadeiras, as luminárias e as paredes e cortinas dos apartamentos – veja a visita de Adam à sua mãe, feita por uma Isabella Rossellini, em homenagem indireta a David Lynch, certamente inspiração para o filme. Do mesmo modo, vemos o professor, em alguns momentos, num clube noturno, que evoca Clube da luta, de David Fincher, em que uma stripper pode pisar sobre uma aranha com seu salto alto, numa espécie de reprodução do inconsciente dele.
O cenário da cidade do filme acaba parecendo envolvido sempre por uma grande teia – e o amarelo da fotografia de Bolduc se mescla a uma sensação de afastamento do mundo e de uma escapada para a análise em que a mente do ser humano adentra numa espécie de escuridão ameaçadora. Esta simbolização foge a Saramago, mas encontra, na verdade, o cinema de Villeneuve, bastante preocupado em usar símbolos para revelar determinada proposta – em Os suspeitos, eram terríveis cobras em determinado momento. As aranhas, aqui, são o símbolo do filme, representando as mulheres, e o homem sempre tenta escapar sem que elas percebam. No entanto, a interpretação bíblica vem novamente à tona: em determinado momento, Mary, num ônibus, usa um salto alto com couro de cobra, enquanto é observada por Anthony.
É como se Adam e Anthony estivessem sempre ameaçados pelo casamento e pela fidelidade que não podem cumprir e, apesar de não haver reviravoltas envolvendo crimes diversos, a sensação que o espectador tem, diante de O homem duplicado, é estar vivenciando um thriller psicológico no qual tudo isso pode acontecer, mas não exatamente num plano real ou que conduz a investigações policiais claras, como num suspense de Hitchcock.

O homem duplicado 5

O homem duplicado 11

O homem duplicado 12

O filme de Villeneuve se presta a inúmeras interpretações, e elas, de forma justificada, crescem, a cada espectador, criando quase um filme paralelo ao oficial. Se pode haver um certo ar previsível nesta tentativa de confundir, Villeneuve acertadamente não transforma esses enigmas numa justificativa para não fazer um grande filme, um thriller com poder sensorial, cuja tensão é opressora e vai sendo criada com o andamento de uma narrativa que nunca se esclarece, e faz por bem adotar esse caminho, a fim de não reduzir o olhar sobre a própria obra. Há uma maior proximidade com Cidade dos sonhos, de Lynch, do que com A passagem, de Marc Forster, uma derivação com Naomi Watts e Ryan Gosling, em que a confusão não justificava uma trama sobretudo mal distribuída. Ao mesmo tempo, se havia problemas em Os suspeitos, em razão dos excessos de metragem e de tentativas de fazer reviravoltas, O homem duplicado cresce justamente por causa de seu minimalismo, oposto à literatura de Saramago (do qual Villeneuve preserva o trabalho simbólico, mesmo que reinventado): quando se vê, o filme passou de forma tão ágil que gostaríamos logo de retomá-lo para tentar procurar outras pistas para o esclarecimento (nunca total, apesar de diversas interpretações) da obra. Talvez seja justamente o caminho mais adequado de Villeneuve, neste que é um dos melhores filmes do ano, por tudo aquilo que oferece, tanto num primeiro quanto num segundo (e possivelmente necessário) olhar.

Enemy, CAN/ESP, 2013 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon, Isabella Rossellini Roteiro: Javier Gullón Fotografia: Nicolas Bolduc Trilha Sonora: Danny Bensi, Saunder Jurriaans Produção: M.A. Faura, Niv Fichman Duração: 90 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Mecanismo Films / Rhombus Media / Roxbury Pictures

Cotação 5 estrelas

 

Veludo azul (1986)

Por André Dick

Lynch recebeu uma segunda indicação ao Oscar por este trabalho polêmico e considerado impecável pela crítica em geral, logo depois de Duna e produzido pelo mesmo Dino de Laurentiis (estava no contrato que eles fariam dois filmes juntos, e um seria de escolha pessoal do diretor). Novamente, ele utiliza a dupla personalidade de seus personagens para trabalhar sua narrativa (daqui em diante, spoilers, inclusive nas imagens).
Já começa mostrando a cidadezinha de Lumberton (algo como cidade da madeira serrada), uma prévia de Twin Peaks, com imagens idílicas (rosas vermelhas contrastando com o céu azul, homens num carro de bombeiros, crianças atravessando a rua), ao som de “Blue velvet”, de Bobby Vinton, até focar o pai de Jeffrey Beaumont (MacLachlan, excelente) regando a grama e tendo um ataque do coração. Em seguida, a câmera acompanha uma movimentação no gramado, de insetos uns em cima dos outros, revelando o subterrâneo, com a atmosfera sombria que Lynch pretende mostrar, e fazendo uma analogia direta com alguns personagens. E com o capinzal, em que Jeffrey passa para ir ao hospital para visitar o pai, mas encontra uma orelha, também coberta de formigas – Lynch e sua ligação potencial com o som -, e resolve investigar sua origem. Esta parte inicial mostra o que Lynch já anunciava numa matéria em que promovia Duna:  “Minha infância foi […] Elegantes casas antigas, ruas arborizadas, o leiteiro, construção de fortalezas do quintal, aviões monótonos, céu azul, cercas, grama verde, cerejeiras. Era um mundo de sonho […] Mas […], sempre há formigas vermelhas por baixo”.

Com a ajuda de uma garota, Sandy Williams (Laura Dern, que voltaria a trabalhar com o diretor em Coração selvagem e Império dos sonhos e compõe com exatidão uma jovem de família discreta), pelo qual está apaixonado, ele desenha a ligação, numa típica lanchonete de Lynch, entre alguns personagens, que levam à casa de uma cantora Dorothy Vallens (Isabella, no papel que a consagrou) e se depara com um mundo que não conhecia: de traficantes, prostitutas, psicopatas. Nesse sentido, Veludo azul se divide entre ser um mapa da tragédia humana – localizada em personagens a princípio simples – e o filme policial (já que Sandy é filha do agente Williams, feito por George Dickerson).
A figura mais estranha é a de Frank Booth (Dennis Hopper), com complexo de Édipo e que usa um inalador quando deseja fazer sexo, e a trilha sonora, dos anos 60, é um alívio para os ouvidos: a música-título, em especial, é perturbadora no contexto em que se insere. Embora Lynch às vezes exagere na passagem da cidade tranquila do dia para a cidade perturbada da noite, ele nos entrega um filme que atinge pelo sensorial (e Dorothy cantado à frente de cortinas vermelhas, com uma iluminação azul em seu rosto, dialogando com o clube de Twin Peaks e Julee Cruise inclinada a desaparecer para dar lugar a gigantes), Veludo azul é a viagem de um jovem para fora da adolescência e o ingresso num mundo que cultiva o submundo, e todas as paisagens agradáveis, idílicas, que vemos no início do filme logo se desfazem com um corpo de alguém regando a grama caindo e nessa descoberta do sexo.

Contudo, Lynch filma tudo com o cuidado de um esteta: mesmo as garrafas de Heineken, os caminhões laranja, o clube noturno, com luminosos, os abajures e as lâmpadas pelas paredes formam um conjunto para o qual o espectador é convidado a olhar. A fotografia de Frederick Elmes (de Eraserhead) é de uma exatidão poucas vezes vista, sendo aquele que melhor conseguiu traduzir o ambiente de artes plásticas do cinema de Lynch. E o cinema norte-americano não seria mais o mesmo depois desse ingresso de Lynch na saída da adolescência. Podemos ver indícios de Veludo azul presentes numa obra como Beleza americana (na lista recente da Sight & Sound, seu diretor, Sam Mendes, coloca Veludo azul como uma das obras mais importantes da história) ou nos jardins verdejantes de Donnie Darko, querendo encobrir qualquer anormalidade, no David Cronenberg definitivo de Marcas da violência, com seu adolescente sendo incomodado por valentões no vestiário e seu pai atendendo numa lanchonete como se não estivesse ligado a um passado obscuro e contrário à tranquilidade da cidadezinha interiorana, no reality show em que o céu azul é tão verdadeiro quanto os gramados bem aparados de O show de Truman, e quem sabe no caminhão de bombeiros perseguido por garotos em A árvore da vida.

A personagem da cantora Dorothy faz essa ponte entre o dia e a noite desejada por Lynch. O namoro de portão, consequentemente, com a garota que ama, está ameaçado por todo um universo com que se depara, e pelo qual mostra uma atração imediata, ou seja, Jeffrey não é uma vítima, pois ela procura a desestabilização de sua rotina. A cena em que ele se esconde no armário para observar a chegada da cantora Dorothy em seu apartamento, além de empregar um estilo voyeurista, buscado em Janela indiscreta, de Hitchcock, sintetiza o talento de Lynch para ações passadas em lugares fechados (o espectador se coloca no lugar de Jeffrey, sentindo-se, tanto quanto ele, um observador, um intruso), assim como as menções ao fogo, sempre ligado ao corpo. Além disso, Dorothy é mais um diálogo que Lynch estabelece com o clássico O mágico de Oz: era o nome da garota levada pelo vendaval (em Twin Peaks, o agente David Bowie desaparece num mundo de sonho atrás de uma certa Judy, que remete a Judy Garland, a intérprete de Dorothy) e em Coração selvagem a mãe de Lula aparece como a bruxa da história. Dorothy representa um ingresso numa espécie de pesadelo (ou sonho, dependendo do ponto de vista) tão aos moldes de Lynch.

Ao ver Frank com o inalador atrás de Dorothy, Jeffrey sabe que suas ilusões românticas estão se perdendo, mesmo atenuado pela beleza do veludo azul que ela veste nos encontros, contrastando com os lábios vermelhos e  a pele quase pálida, lembrando uma personagem que vive à margem da luminosidade, expondo sua fragilidade de maneira decisiva (comenta-se que Lynch era um misógino ao expor Rossellini a tal papel, mas a questão é que ele torna qualquer olhar de brutalidade contra a mulher em uma questão absurda, como no comportamento de Frank).  Assim como a sequência em que Frank leva Jeffrey para dar um “passeio” com seus amigos também retrata o ingresso na noite (entre eles, estão os atores Jack Nance e Brad Dourif) e a ida para ao bordel de Ben (Dean Stockwell), que canta feito um crooner – e nunca antes “In dreams”, de Roy Orbison, foi tão perturbadora – em meio a personagens decadentes. Ela só existe ainda na tentativa de Jeffrey recuperar o mundo que sonha, ao lado da amada e do protótipo de xerife que pode solucionar um caso. Ou quando ele rega a grama de óculos escuro, a fim de esconder as marcas da noite anterior. Jeffrey sabe que a vida não voltará a ser a mesma, mesmo ajudando Dorothy a encontrar seu filho ou acomodando uma roupa sobre ela desnuda – no momento mais intenso do filme. Nem que seja para, ao final, Jeffrey ver um passarinho no galho da árvore e no parapeito da janela da cozinha, com um verme na boca, evocando o poema “A Daphne e Virginia”, de William Carlos Williams: “We are not chickadees / on a bare limb / with a worm in the mouth” e continuar achando o mundo estranho – um mundo que ele, na verdade, passou a conhecer. A cidade de Lumberton, para Lynch, não precisa mudar – precisa ser entendida em sua complexidade e no seu subterrâneo, ao som da excepcional trilha de Angelo Badalamenti.

Blue velvet, EUA, 1986 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle McLachlan, Isabella Rossellini, Dennis Hopper, Laura Dern, Dean Stockwell, George Dickerson, Hope Lange, Brad Dourif Produção: Fred Caruso Roteiro: David Lynch Fotografia: Frederick Elmes Trilha Sonora: Angelo Badalamenti Duração: 120 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: De Laurentiis Entertainment Group (DEG)

Cotação 5 estrelas